A
cada ano que se acaba, colecionamos as nossas próprias vitórias e fracassos. Quem
for realmente honesto, reconhecerá que nem tudo foi desperdício de tempo, nem tampouco
dirá que colheu apenas os frutos mais saborosos. Nossas vidas não se restringem
ao preto-e-branco dos olhares maniqueístas. Certamente, houve percalços, mas
também momentos de imenso prazer, bem como outras tantas memórias que perdemos
para sempre na agitação do dia a dia, quando estamos ocupados em chegar na hora
marcada, em entregar o trabalho dentro do prazo estipulado, em responder a
mensagem urgente que nos chega pelo celular.
Felizmente,
não há como lembrar de tudo, de modo que cérebro e mente selecionam —
conscientemente ou não — aquilo que permanecerá conosco no decorrer da nossa
jornada. Algumas vezes, as memórias guardadas nos fazem bem; outras vezes, elas
podem nos adoecer se ficarem tempo demais com a gente. A princípio, tal adoecimento
pode vir à tona discretamente, como uma insônia mal resolvida ou uma melancolia
sempre à espreita, no entanto, se ele vier a formar raízes profundas, o sujeito
adoecido estará semeando para si um futuro ainda mais amargo e doloroso. Pouco
a pouco, os sorrisos se tornam escassos, a vivacidade do olhar se esmorece… Dormir
acaba sendo algo mais difícil que o normal; banhar-se e sair de casa vira uma
missão árdua.
Mas
essa história não termina aí. Por vezes, o adoecimento de uma pessoa só pode comprometer
a saúde mental de uma família, empresa, coletivo… de tal maneira que o que
alimentamos internamente não se restringe somente a nós. Na realidade, com
nosso mal-estar individual, aparentemente circunscrito ao nosso ego empoleirado,
podemos estar arruinando a vida que compartilhamos com aqueles que mais amamos.
Como animais encurralados, somos convencidos a observar o mundo por uma
perspectiva estreita e autocentrada, quando, na verdade, precisamos aprender a ampliar
o olhar, de modo a conceber novas maneiras de enxergar. Às vezes, é se
perdoando que, enfim, aprendemos a perdoar os outros; é olhando para si que,
finalmente, aprendemos a olhar para os demais. Ao cuidarmos da nossa saúde
mental, estamos cuidando de todos à nossa volta, pois estamos inseridos num cosmo
compartilhado. Somos folhas de um mesmo galho, ramos nascidos de uma mesma
árvore, árvores germinadas de uma única Terra. Nada está à parte. Quem se vê
apartado dos demais, ainda não compreendeu quem, de fato, é.
É
uma pena que não nos ensinem isso mais cedo, quando estamos ainda no começo das
nossas vidas e podemos evitar os erros mais banais. Para a nossa tragédia
pessoal, saber recordar o que, realmente, importa — e descartar aquilo que nos
faz apenas mal — é uma arte que, em geral, aprendemos com muitos anos
acumulados em nossas costas. Alguns só conseguem aprendê-lo após cumprirem anos
de terapia. Ainda hoje, na educação das nossas crianças e adolescentes, priorizamos
o aprendizado das ciências convencionais, como se o autocuidado e o
autoconhecimento fossem algo secundário e supérfluo, um detalhe a ser tratado a posteriori. Temo que, se isso não
mudar o quanto antes, veremos as novas gerações repetirem os mesmos sofrimentos
e equívocos das gerações passadas.
Meu
esforço em fazer uma lista dos livros que li ao longo do ano, se justifica na necessidade
de olhar para trás e ver o caminho percorrido, recordar a jornada que comecei doze
meses atrás. Ademais, no que diz respeito ao saldo de leituras concluídas, não
posso dizer que fiquei inteiramente satisfeito ou frustrado. Embora tenha lido pouco,
sinto que fui mais longe do que esperava. Ler o Fausto de Goethe, ainda que só a Primeira Parte, foi um dos maiores
desafios literários que eu já tive na minha vida. Suspeito que, no futuro,
terei de voltar a lê-lo.
Por
fim, espero concluir, neste ano, a leitura de vinte livros. Assim, conseguirei ultrapassar
a marca dos anos anteriores. É verdade que ler não é o mesmo que executar uma
prova de atletismo, porém, da minha parte, há que se esforçar em ler mais.
Segue
abaixo a lista dos livros lidos por mim em 2025:
1. Wild
Thing, Philip Norman (Liveright
Publishing Corporation);
2.
Ressureição,
Machado de Assis (Nova Fronteira);
3.
A
Mão e a Luva, Machado de Assis (Nova Fronteira);
4.
O
que fazer?, Vladimir Lênin (Boitempo);
5.
Niketche,
Paulina Chiziane (Companhia de Bolso);
6.
A
Ditadura envergonhada, Elio Gaspari (Intrínseca);
7.
Fausto:
Primeira Parte, Goethe (Editora 34);