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segunda-feira, 30 de março de 2026

Conflitos de um piromante assassino

 

Guerra! Desde o sequestro de Maduro e sua esposa, a gestão de Donald Trump pôs, definitivamente, suas garras à mostra, agindo sem o menor pudor como a pretensa “polícia do mundo”, capaz de bombardear outros povos e assassinar seus líderes, sempre tendo em mente a concretização dos seus interesses particulares.

Tendo ao seu lado o estado de Israel, possuidor de uma das forças armadas mais mortíferas da atualidade, o presidente estadunidense ignorou quaisquer impeditivos internos e externos, incluindo os conselhos de diplomatas e militares com larga experiência, preferindo a solução de arrasar tudo que estiver ao seu alcance, como se isso bastasse para provocar o colapso do regime iraniano. Na realidade, até o momento em que escrevo, a República Islâmica não só sobrevive, mas também provou ser capaz de atingir, com precisão e intensidade, praticamente qualquer alvo no Oriente Médio, chegando até mesmo a ameaçar a base anglo-americana em Diego Garcia, uma ilha a quatro mil quilômetros de distância do seu território. Agravada pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, a reação iraniana põe em risco a estabilidade da economia global, fazendo com que todos nós paguemos por uma inconsequente aventura de Washington e Tel Aviv.

Os efeitos dessa tempestade já se fazem ouvir na opinião pública dos Estados Unidos (EUA). Uma pesquisa divulgada nesta quarta-feira (25) revela que a maioria dos americanos acredita que a guerra contra o Irã foi longe demais. Conduzida pela AP-NORC, a sondagem também mostra que 45% dos entrevistados temem não conseguir arcar com o preço da gasolina. Além disso, de acordo com outra pesquisa, conduzida pela Reuters/Ipsos e liberada nesta terça (24), a aprovação de Trump chegou ao pior nível desde que assumiu a presidência para um segundo mandato, caindo de 40% para 36%. Ainda segundo a Reuters, o aumento da reprovação se deve às ações do presidente contra o Irã. Portanto, não é de se espantar que Trump se apresse em dizer que mantém negociações com lideranças iranianas, algo que elas têm negado categoricamente.

Será esse o início do fim para Trump, ou apenas uma turbulência passageira? Claro que tais índices poderiam, em tese, ser revertidos em benefício à Casa Branca. Afinal, quem ocupa cargos públicos tem mais chances de conservá-los. Os americanos chamam-no de incumbency advantage, que são, basicamente, as vantagens políticas de se ocupar espaços de poder. Para tanto, basta mencionar que, no decorrer da história dos EUA, a maior parte dos presidentes e governadores conseguiram se reeleger para um segundo mandato. No entanto, o que temos visto é um piromante incendiando o mundo ao seu redor, tanto no âmbito interno, quanto no externo. Os embates do ICE contra a população em Minnesota são uma prova da disposição de Trump em “esticar a corda”, ainda que isso ameace a eclosão de uma miniguerra civil no seio do seu território.

Hoje, a maior ameaça à continuidade do atual governo vem das implicações da sua política externa, cujo epicentro se concentra na guerra contra o Irã. Caso esse conflito continue se prolongando, de modo a deteriorar os índices de opinião, o presidente americano pode vir a sofrer uma derrota fragorosa nas eleições de meio mandato, fazendo ressurgir, outra vez, a ameaça de impeachment pelo resto da sua gestão. Previstas para ocorrer no começo de novembro, as midterms elections são responsáveis por determinar os novos ocupantes da Câmara dos Representantes e trinta e três novos senadores. Não foi por acaso que o próprio Donald Trump declarou, no começo deste ano, que sofreria um impeachment caso perdesse as eleições de meio de mandato. Além do mais, um Congresso hostil à Casa Branca emperraria nomeações à Suprema Corte, palco de derrotas recentes na questão da sua política tarifária.

Entretanto, para olharmos o futuro dos Estados Unidos e da guerra contra o Irã, é preciso que relembremos como chegamos até aqui.

Talvez, o fato mais marcante das últimas quatro semanas tenha sido a execução de Ali Khamenei, segundo Líder Supremo do Irã, bem como de boa parte da alta cúpula do seu regime. Trata-se de uma manobra que, de fato, surpreendeu a todos, provando que nenhuma liderança do Sul Global está a salvo em seu próprio território, à exceção, é claro, dos detentores de armas nucleares, haja vista sua mortal capacidade de retaliação. Por outro lado, essa não é a primeira vez que Trump, um suposto crítico das guerras iniciadas pelos membros do partido Republicano, recorre a essa midiática decapitação de rivais estrangeiros. Alguns analistas remetem-na ao assassinato do general Soleimani, ainda em janeiro de 2020, quando um drone MQ-9 Reaper fez voar pelos ares, em solo iraquiano, um dos mais graduados oficiais da Guarda Revolucionária Iraniana. Tal manobra, aos olhos de uma parte do público americano, passava a impressão de uma operação “barata e cirúrgica” contra um inimigo declarado do Ocidente. O Irã, por sua vez, respondeu lançando mísseis contra seu agressor, porém sem causar grandes prejuízos às posições dos EUA na região. Iniciava-se, assim, uma das décadas mais explosivas da história contemporânea.

A lição foi replicada, com assombroso êxito, pelos belicistas em Tel Aviv. Em outubro de 2023, após os ataques perpetrados pelo Hamas, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ordenou sucessivas operações de eliminação de lideranças palestinas, culminando na morte de Ismail Haniyeh, líder máximo do Hamas, em julho do ano seguinte. Mesmo estando no coração da capital iraniana, sede de um regime que, há décadas, luta por sua sobrevivência, Haniyeh não pôde escapar dos tentáculos do Mossad, agência de inteligência que fez explodir sua residência. Ao mesmo tempo, a “precisão” dos ataques israelenses em Gaza não poupou que escolas, universidades e até hospitais fossem reduzidos a escombros; junto às cinzas dessas cidades destroçadas, jazem os corpos de milhares de palestinos mortos, indiscriminadamente, na terra em que viveram seus antepassados. Decerto, os crimes cometidos em Gaza assombrarão as próximas gerações do século XXI.

Enquanto isso, outra operação “cirúrgica” estava a caminho. Dois meses após a morte de Haniyeh, ocorreria a investida aérea que eliminaria o clérigo libanês Hassan Nasrallah, junto com a cúpula do Hezbollah, mais um grupo político e paramilitar apoiado pelos iranianos na sua disputa de longa duração contra os israelenses. Classificado como organização terrorista por muitas nações ocidentais — inclusive por países de maioria muçulmana sunita —, o Hezbollah detém um poder destrutivo muito superior ao do Hamas, chegando a atuar, ao mesmo tempo, nos combates da guerra civil síria e na oposição ao sinistro Daesh. Sem dúvidas, o Hezbollah veio a ser visto, no início da década atual, como uma das forças não estatais mais perigosas do mundo. Isso se deve, em boa medida, ao seu complexo arsenal de foguetes e mísseis que, segundo algumas estimativas, chegara a contabilizar 150 mil projéteis, além de dezenas de milhares de combatentes dispostos a morrer pela causa.

No entanto, tamanho poder de fogo não foi capaz de conter Netanyahu, que, ao perceber a oportunidade de dar fim à vida de seus oponentes, escreveu um novo capítulo na história do Oriente Médio.

A fatídica reunião se deu no contexto do apoio do Hezbollah à resistência palestina, numa escalada de ataques mútuos por meio de mísseis, incursões aéreas etc. A princípio, os fatos não causavam espanto, pois pareciam uma repetição de embates ocorridos em outros momentos. Contudo, em setembro daquele ano, o grupo sofreria um terrível e inesperado golpe. Surpreendentemente, mesmo estando abrigados numa instalação a dezoito metros de profundidade, a Força Aérea Israelense lançou bombas capazes de obliterar o refúgio, matando mais de trinta e três pessoas e ceifando a vida das mais importantes lideranças da temida organização libanesa.

Além de Haniyeh e Nasrallah, diversos outros expoentes palestinos e libaneses foram mortos por Israel desde os ataques liderados pelo Hamas em outubro de 2023. Desse momento em diante, o Oriente Médio sofre a sua pior crise em décadas, e não há sinais de que ela se encerre tão cedo. Pelo contrário, a cada semana que passa, fica mais claro que, no Líbano, somente uma ocupação militar prolongada teria alguma remota possibilidade de impor uma submissão à resistência armada.

Nesta quarta-feira (25), Netanyahu afirmou que, a fim de conter os ataques do Hezbollah, seus soldados expandirão a zona-tampão ao sul do Líbano, indo até o rio Litani, uma das principais fontes de água potável, irrigação e geração de energia da região. Até agora, pelo menos cinco pontes foram bombardeadas pelas forças armadas de Israel, praticamente isolando a parte meridional do país invadido. A justificativa seria de que a população israelense próxima à fronteira encontrava-se ao alcance de ataques vindos do Líbano. Por outro lado, só um insano acreditaria que o Hezbollah fosse assistir a isso de braços cruzados, haja vista que, com a destruição de tais pontes, dezenas de milhares acabaram ilhados no próprio território. Até agora, mais de um milhão de libaneses deixaram suas casas, de sorte que a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) alertou, nesta sexta-feira (27), para o risco de uma catástrofe humanitária.

Essa ação prova que o assassinato de Nasrallah serviu como propaganda, ou, no máximo, como um golpe no ânimo dos combatentes do Hezbollah, porém não foi capaz de se converter numa vitória definitiva por parte de Israel. A decapitação deu fim ao decapitado, mas não àquilo pelo qual ele lutava. Trata-se de um raciocínio simples, porém que escapa àqueles que agem com demasiada soberba. Não é o líder que cria o movimento, e sim o contrário. Os indivíduos têm algum nível de autonomia frente à realidade que os cerca, porém as condições sociais, históricas, econômicas, políticas e culturais ao nosso redor, seguem sendo decisivas na nossa tomada de posição. Portanto, a raiz dos problemas no Oriente Médio não se encontra em indivíduos, quem afirma o oposto procura apenas causar confusão.

Enquanto os ocidentais discutem se o Hamas e o Hezbollah são ou não grupos terroristas, Israel bombardeia tudo que vê pela frente em nome do “direito de defesa”. Este é um dos principais combustíveis que alimenta o extremismo não só no Oriente Médio, mas no coração de qualquer ser humano, seja ele árabe ou não. Assim sendo, a luta de grupos extremistas como o Hamas e o Hezbollah não se sustenta apenas em discursos inflamados, preceitos religiosos ou em líderes carismáticos, e sim na legítima busca pela soberania de povos que não podem ser varridos do mapa, a menos que Israel se proponha a repetir o que Adolf Hitler fez no passado contra o próprio povo judeu, isto é, prendê-los e assassiná-los em câmaras de gás um após o outro. Antes que os últimos palestinos e libaneses morram, entretanto, haverá resistência armada.

No entanto, o grande objetivo almejado por Tel Aviv nunca foi esmagar apenas o Hamas ou o Hezbollah, grupos extremistas que, embora fossem capazes de causar danos a Israel, jamais colocariam em xeque a continuidade da sua existência enquanto estado. Ataques promovidos por terroristas e milícias causam mortes, traumas e prejuízos, mas não destroem Estados. Tais forças operam como instrumentos de intimidação no complexo tabuleiro religioso, político, étnico e cultural que sempre foi o oeste da Ásia. Na realidade, só há um inimigo forte o suficiente para fazer frente a Israel, seja no poderio bélico, seja na resiliência socioeconômica, seja na influência geopolítica: a República Islâmica do Irã, fundada na Revolução de 1979.

Com a escalada militar entre Israel e seus vizinhos, os sucessos das operações Midnight Hammer e Absolute Resolve, alimentou-se, na Casa Branca, a ilusão coletiva de que bastaria um sopro para que o regime iraniano desmoronasse da noite para o dia. Com mais uma operação “barata e cirúrgica”, Trump e Netanyahu se livrariam do seu maior adversário no Oriente Médio, pois, por se tratar de uma “odiosa ditadura teocrática”, o povo iraniano logo se ergueria em solidariedade ao agressor externo, tomando para si as rédeas do seu destino. De fato, por mais risível que pareça, não é difícil encontrar, na própria internet, declarações do líder estadunidense que remetam a essa linha de raciocínio surreal.

Tamanho foi o triunfalismo em Washington, que o próprio Trump convocou as massas do país agredido a tomarem o poder, ao mesmo tempo em que exigia “rendição incondicional” aos sobreviventes do regime. A rendição e o colapso, contudo, não vieram. Desde então, a coalisão agressora atingiu, segundo Pete Hegseth, mais de quinze mil alvos dentro do Irã. O presidente estadunidense chegou a afirmar, no dia 20 de março, que todas as lideranças iranianas haviam sido eliminadas, que a Marinha, a Força Aérea, as defesas antiaéreas e os radares estavam destruídos; ele até mesmo debochou afirmando que “queremos falar com eles e não há ninguém com quem falar […] e gostamos que assim seja”. Ainda assim, a rendição e o colapso não vieram, e um conflito que, supostamente, deveria durar não mais que duas semanas, já se estende por mais de um mês inteiro.

De acordo com o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Aragchi, nem mesmo campos de gás natural e usinas de dessalinização, como a de Qeshm, essenciais para o abastecimento de água por parte da população civil, foram poupadas dos bombardeios. Ademais, horrores como o ataque à escola de Minab, no sul do Irã, em que morreram mais de cem crianças (algumas fontes chegam a falar em cento e oitenta), deram maior legitimidade ao ódio pelos EUA, base que sustenta as facções mais fanáticas de Teerã, justamente aquelas que veem a guerra aos israelenses e americanos como uma sina incontornável.

Em resposta a isso, os ataques iranianos às bases americanas já somam, de acordo com a BBC e o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), 800 milhões de dólares em prejuízo material. Tamanho desgaste cresce a cada dia que passa, com alguns membros do Pentágono alertando que o estoque de munição não deve suportar um conflito demasiadamente prolongado. Cada míssil Tomahawk, por exemplo, custa US$ 3,5 milhões e leva dois anos para ser produzido; até agora, de acordo com o Washington Post, cerca de 850 Tomahawks foram utilizados, sendo que o estoque total seria de 3 mil mísseis. De fato, há duas semanas, o Financial Times expôs que os EUA haviam gasto anos de munição, especialmente de interceptadores Patriot e Thaad, imprescindíveis na defesa contra o enxame de mísseis e drones iranianos.

Ao que tudo indica, a tática de Teerã tem funcionado. De acordo com o The New York Times, apenas nos primeiros seis dias de bombardeio ao Irã, foram gastos US$ 11,3 bilhões, revelaram autoridades do Pentágono a senadores americanos; por outro lado, cada drone Shahed-136 custa em torno de vinte mil dólares, podendo ser produzido aos milhares em qualquer fábrica de pequeno porte. Tais drones não precisam atingir o alvo, nem causar explosões ou destruição em larga escala; basta, apenas, que consumam as defesas dos seus adversários, de modo a deixá-los vulneráveis para as próximas fases da guerra, haja vista que os mísseis iranianos de última geração seguem escondidos, aguardando o melhor momento para entrarem em operação.

A fantasia bélica de Trump e seu círculo de fanáticos foi, de certa maneira, amparada pelos massivos protestos contra o regime teocrático, que, indiscutivelmente, carece de apoio em alguns setores da sociedade, como é o caso da juventude urbana. É difícil saber o número exato de mortos nesses protestos, mas não resta dúvidas de que, diante da real possibilidade de um golpe de estado, o regime recorreu a todos os meios necessários para esmagar os insurgentes, eliminar infiltrados de países inimigos e conservar sua supremacia sobre o restante da sociedade. Tal como no caso venezuelano, é improvável que a república islâmica seja derrubada sem uma cisão nas forças armadas.

No entanto, há que se reconhecer que a revolta popular não é uma exclusividade iraniana. Há uma crise de legitimidade em diversos países do mudo — inclusive de democracias inspiradas em modelos do Ocidente, como é o caso do Nepal —, cujos sistemas políticos atravessam desafios provenientes de questões variadas: fluxos migratórios, mudanças climáticas, instabilidade socioeconômica, desigualdade social, corrupção, guerras, sanções etc.

Contudo, a profunda crise do sistema de governança dos aiatolás não passa de uma desculpa, por parte de Washington, para recuperar o controle sobre uma área perdida desde a Revolução de 1979, cuja importância segue sendo decisiva na sua disputa contra a aliança estratégica entre China e Rússia, a mais grave ameaça à continuidade da sua hegemonia em décadas. Ninguém no Salão Oval está preocupado com a democracia e os Direitos Humanos na Venezuela, no Irã ou em qualquer país da periferia do sistema capitalista. Pelo contrário, os EUA patrocinaram, durante a Guerra Fria (1947-1991), golpes de estados e ditaduras ao redor do mundo, no intuito de assegurar a preservação dos seus interesses em contraposição ao bloco socialista.

A execução de Ali Khamenei, junto com vários integrantes da sua família e da cúpula governamental, entretanto, gerou o efeito oposto àquele pretendido por Trump e sua camarilha: o regime manteve-se forte o bastante para suportar o impacto do primeiro golpe, preservou seu funcionamento e revidou militarmente, atacando diversos pontos do Oriente Médio e fechando o Estreito de Ormuz, de modo a provocar os primeiros tremores na economia mundial. Pouco a pouco, o preço do barril de petróleo sobe nos mercados globais, encarecendo mercadorias mundo afora e alimentando o risco de um abalo econômico devastador. E, caso as infraestruturas energéticas dos demais países do Golfo Pérsico sejam severamente comprometidas, testemunharemos uma crise global nunca antes vista.

Ao que parece, Donald Trump está perfeitamente ciente disso, pois ameaçou atacar a ilha de Kharg, local em que está concentrada 90% da exportação de petróleo iraniano. Não foi à toa que, ainda no começo da guerra, o líder da oposição israelense Yair Lapid afirmou que a destruição do terminal "paralisaria a economia do Irã e derrubaria o regime". Ele defendeu que Israel "deve destruir todos os campos de petróleo e a indústria energética do Irã na ilha de Kharg". Ao mesmo tempo, o Irã já demonstrou que pode atingir, com drones e mísseis variados, a infraestrutura energética de quase todos os países da região — mesmo países muito afastados do Golfo Pérsico, como a Turquia e o Azerbaijão, foram alvos de projéteis iranianos, alertando a todos para o fantasma de uma conflagração generalizada. Fala-se até na existência de “cidades subterrâneas” com mísseis secretos, cujo poder superaria em muito aqueles usados até agora. Se isso é verdade, provavelmente, saberemos nas próximas semanas.

Considerando o aumento gradativo de tropas americanas em toda a região, algo em torno de cinquenta mil soldados, além de dois porta-aviões e diversos navios anfíbios, é cada vez mais provável que o conflito evolua para níveis ainda mais dramáticos.

Neste sábado (28), em resposta aos ataques contra o Irã e o Líbano, os Houthis, grupo armado iemenita apoiado por Teerã, entrou na guerra disparando mísseis balísticos contra Israel, que, por sua vez, disse tê-los interceptados. Sua maior arma, no entanto, é a possibilidade de bloquear o Estreito de Bab el-Mandeb, outro ponto nevrálgico da economia mundial, por onde passa 12% do petróleo comercializado por via marítima. Ao leitor desavisado, esta cifra pode parecer diminuta, mas as implicações de um bloqueio prolongado de Bab el-Mandeb resultariam em um prejuízo bilionário para diversas economias compradoras do petróleo do Oriente Médio, particularmente, as grandes economias asiáticas. Tendo em vista que, com o fechamento de Ormuz, o preço do barril de petróleo já subiu fortemente, forçando, por exemplo, a retirada provisória das sanções sobre a Rússia, um bloqueio de Bab el-Mandeb teria consequências ainda mais imprevisíveis para a geopolítica e a geoeconomia. Somente em março, o petróleo chegou a ser cotado acima de US$ 115 por barril, acumulando uma alta mensal de 59%, a maior desde 1990.

No momento atual, a Casa Branca precisa tomar mais uma decisão que selará a vida de milhões ao redor do mundo: invadir ou não o Irã? Se Trump recorrer a uma invasão terrestre do território inimigo, nos moldes clássicos da história militar, ele correrá o risco de enfiar o seu país num lamaçal sem volta, repetindo, talvez, a experiência traumática que se deu no Vietnam (1955-1975), em que morreram mais de 58 mil soldados estadunidenses em vão; ou, talvez, cometa a insensatez de ocupar partes do território iraniano, repetindo os erros das guerras no Afeganistão e no Iraque, em que foram gastos trilhões de dólares inutilmente. Mesmo uma invasão da ilha de Kharg exigiria, nas palavras de Trump, “ficar lá [na ilha de Kharg] por um tempo”, o que já dá uma ideia da complexidade que envolve ações militares de larga envergadura. Apenas a supremacia tecnológica e a cólera destrutiva são insuficientes para obter uma vitória completa, tal como demonstrou as invasões contra os povos vietnamita, afegão e iraquiano. E por “vitória completa”, refiro-me a uma derrota militar total das forças iranianas, seguida por uma mudança de regime e a implantação de um governo favorável aos Estados Unidos.

Tal qual um piromante que perde o controle sobre o fogo que tem em mãos, Donald Trump está se dando conta de que o circo em chamas cairá não só sobre a plateia horrorizada, mas também sobre ele mesmo. Diante disso, sua solução é a única capaz de conceber: atear mais fogo ainda.

Ao invés de “capitulação incondicional”, como exigia o mandatário estadunidense, o regime elegeu o filho de Khamenei como terceiro líder supremo, posição máxima na sua estrutura hierárquica, poderoso o suficiente para influenciar os centros decisórios da sociedade iraniana. Considerado um nome da linha-dura, portanto, defensor férreo do sistema teocrático, Mojtaba Khamenei segue escondido, ciente de que subestimar o Mossad seria um erro que lhe cobraria a própria vida. Aliás, nada garante que ele continue vivo nos próximos meses, bem como todo o restante da classe dirigente iraniana, tal como demonstrou a recente morte de Ali Larijani, mais um membro da alta cúpula a ser morto pela força aérea israelense. Enfim, como explicitei ao longo desse texto, a coalizão agressora já provou sua capacidade de decapitação, ainda que não tenha obtido o tão ansiado regime change. É provável que, nesses primeiros meses da guerra, Mojtaba Khamenei governe a partir do exterior — talvez, de algum refúgio controlado por russos ou chineses. Afinal, é necessário ressaltar que, tanto para Beijing quanto para Moscou, a sobrevivência do regime iraniano é um assunto da mais alta relevância.

A essa altura, a fera iraniana lutará com todos meios que dispuser, pois sabe estar numa guerra pela própria sobrevivência, de tal maneira que se multiplicam os ataques não somente a bases americanas, mas também embaixadas, consulados, refinarias, hotéis de luxo, petroleiros, shoppings, aeroportos e assim por diante. E pouco importa que parte dos projéteis sejam interceptados pelos sistemas de defesa dos países do Golfo, haja vista que a mera sensação de insegurança tem causado uma debandada de turistas, preciosa fonte de renda para metrópoles assentadas no dinheiro estrangeiro, tais como Dubai, Doha e Abu Dhabi. Não foi por acaso que tais governos buscaram evitar a deflagração do conflito: seu rombo financeiro é cada vez maior; e não há garantias de que, após o fim da guerra, os turistas estejam dispostos a retornar a uma zona de perigo. Em suma, foi comprovado, novamente, que os EUA só defendem os seus interesses e os de Israel.

Nessas condições, “vencer a guerra” é algo que varia para cada um dos lados. Israel quer ver seu inimigo extirpado; os EUA querem vê-lo de joelhos; os países do Golfo querem um cessar-fogo, enquanto que os iranianos querem se manter de pé ou ao menos tombar levando consigo tudo o que puder. Contudo, ainda há chances para o reestabelecimento das negociações, por mais distantes que elas estejam. A guerra não é uma fatalidade ou uma reação incontrolável do ser humano, e sim uma decisão política, de tal maneira que ela pode ser evitada se as forças políticas interessadas na paz se organizarem e agirem o quanto antes. Tais forças não se encontram apenas no Oriente Médio, mas no mundo inteiro. Enquanto a inerte “comunidade internacional” se limita a emitir notas de repúdio e declarações inócuas, a crise no Oriente Médio se agrava. Mesmo os BRICS, principalmente Rússia e China, têm se mostrado aquém do esperado.

Para quem achou que o ano passado gerou demasiadas transformações, o ano de 2026 nos assombrou, em menos de noventa dias, com acontecimentos que até os mais exaltados hesitariam em prever. Assim, o que veremos daqui em diante pode ser um dos anos mais importantes do novo século.

 

Daniel Viana de Sousa

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sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Um novo mundo se constrói

 

      Em agosto do ano passado, tive a oportunidade de refletir sobre o surgimento de uma nova ordem do poder global. Naquele momento, abordei diversos temas: ascensão da China, declínio dos Estados Unidos, crises e guerras mundo afora.

Ainda assim, a minha ambição em propor uma visão panorâmica e precisa do nosso mundo encontra limites na infinidade de personagens dignos de nota, na enxurrada de eventos que se acumulam a cada dia e na complexidade de questões que exigiriam uma observação mais esmiuçada, além da incontornável falta de tempo do próprio autor. Realmente, eu abro mão de qualquer pretensão em dar por encerradas as discussões que levanto nas minhas análises, a despeito dos esforços que faço nessa direção. Prefiro apontar o destino das aves que voam, ao mesmo tempo em que recolho os tremores que emergem do reino subterrâneo.

O fato é que toda análise requer um recorte, de tal maneira que o texto atual repetirá a impressão de ter sido feito às pressas, ou seja, sem o acabamento que se esperaria de um ourives frente a uma gema preciosa. Aliás, é possível que, nos dias seguintes à publicação deste texto, novos acontecimentos o tornem irremediavelmente defasado, tamanha é a celeridade dos fatos que temos presenciado.

Feitos os ajustes iniciais, passemos para a análise do cenário internacional.

            Não é preciso ser um especialista para se dar conta de que os alicerces do tabuleiro geopolítico se estremeceram nos últimos doze meses. Afinal, mesmo o público leigo, pouco familiarizado com disputas de longa data e termos herméticos, percebe que vivemos um momento de transição profunda e de tensão crescente, cujo ápice, até agora, pode ter sido o bombardeamento, por parte da Força Aérea dos EUA, às instalações nucleares do Irã.

No espaço de algumas horas, o programa nuclear iraniano, motivo de temores por parte de seus rivais ao longo de décadas, foi varrido do mapa numa operação de proporções espantosas, comprovando, mais uma vez, que os americanos não são um tigre de papel. No mundo de hoje, quantos países detêm a mesma capacidade de planejar, mobilizar, localizar e destruir seus alvos a meio mundo de distância, e fazendo-o sem nenhuma baixa militar? Quase nenhum. Isso explica por que os EUA são a maior potência militar do planeta, algo que deve se manter inalterado por muitos anos à nossa frente.

            No entanto, como todo império em declínio, os estadunidenses não poderiam se satisfazer em violar apenas a soberania iraniana, pois não é somente Teerã que tem buscado uma alternativa viável ao imperialismo ianque. Ao contrário, à medida que a China cresce e fóruns multilaterais, como o BRICS, ganham representatividade mundial, mais nações batem à porta de Xi Jinping, presidente da segunda maior economia do planeta e secretário-geral do maior partido comunista do mundo, à procura de auxílio financeiro para os dias difíceis que testemunhamos. Cada vez mais, o “dinheiro comunista” chega aos países do Sul Global na forma de investimentos em infraestrutura, ao mesmo tempo em que Beijing consome, vorazmente, as commodities extraídas dessas nações, transformando-se na locomotiva do capitalismo tardio.

Para esses estrategistas, pouco importa se os seus clientes são fanáticos do Talibã, arquirrivais indianos ou até mesmo as avançadas empresas do Vale do Silício. Na verdade, todos são bem-vindos, desde que não se metam nos assuntos internos chineses, ou atrapalhem a política externa delineada pelo Comitê Permanente do Politburo, a alta cúpula do seu centenário partido. Assim, no espaço de poucas gerações, tal estratégia produziu uma façanha sem precedentes na história da Humanidade: metrópoles surgiram do nada, trens de alta velocidade adentraram o interior, multidões de jovens se educaram em universidades, mais de setecentas milhões de pessoas deixaram a pobreza etc. A essa altura, não há mais dúvidas de que a grande vencedora da globalização foi a República Popular da China.

Tamanho êxito jamais seria aceito por Washington, que, aliás, sempre apostou que o século XXI seria um novo “Século Americano”, jamais um século “da China”, ou mesmo “da Ásia”. De fato, quem se encontra numa posição hegemônica, costuma se convencer não só que sua vocação à supremacia é um fato inquestionável, mas também que ela é a forma natural do mundo funcionar, uma espécie de modus operandi visceralmente superior a todos os demais. Decerto, todos os impérios sonharam que seu esplendor duraria para sempre, como o brilho do Sol sobre as suas cabeças, cabendo ao restante da Humanidade contentar-se com a submissão completa. Os romanos conseguiram sobreviver por mais de mil anos, até que Constantinopla foi tomada, pelos muçulmanos, em 1453; os ibéricos inauguraram o primeiro império transoceânico e transcontinental da história, até serem expulsos das suas colônias pelas mãos dos próprios colonizados; os britânicos controlaram os mares e, neles, foram invencíveis por gerações, até verem sua juventude ser dizimada no lamaçal das trincheiras europeias. Todos se entorpeceram com seus triunfos, convencendo-se que nada seria capaz de detê-los, mas a realidade dos fatos, enfim, se impôs. Agora, tais impérios não passam de uma sombra do passado, vivendo apenas nos livros e nos monumentos deixados para trás. Então, por que o poderio americano teria um destino diferente dos seus antecessores?

Ao longo das décadas de 1990 e 2000, pensava-se que a abertura chinesa resultaria, necessariamente, na instabilidade e implosão do regime comunista, o que, por sua vez, poderia levar a uma fragmentação territorial, algo semelhante ao que acabara de ocorrer à União Soviética e aos demais países do Pacto de Varsóvia. Além disso, o massacre na Praça da Paz Celestial expunha uma insatisfação latente naquela sociedade, recém-saída do longo período maoísta (1949-1976), que poderia ser melhor explorada por quintas-colunas insufladas externamente, pois, tal como os soviéticos, a China possui minorias étnicas que poderiam ser seduzidas pelo separatismo. Nessa época, havia um otimismo quase delirante de que o mundo inteiro se curvaria ao Consenso de Washington, ou experimentaria a mesma debacle do experimento soviético. Em suma, apostava-se na impossibilidade de coexistência de uma economia de mercado ultramoderna com o autoritarismo de Beijing. Porém, o tiro saiu pela culatra e, pela primeira vez, uma nação assentada no Terceiro Mundo senta-se frente a frente com os senhores da Casa Branca.

Ao mesmo tempo em que a China cresce, não há boas notícias para seus velhos antagonistas da Guerra Fria (1947-1991). Mesmo alguns dos mais fervorosos aliados dos EUA, como Japão, Coreia do Sul e Austrália, encontram-se pressionados pela nova conjuntura geoeconômica, haja vista que seu maior parceiro comercial é o dragão asiático. Mesmo a América Latina, eterna zona de influência dos ianques, lida com o fato de que não pode prescindir dos vínculos com Beijing. Sem a venda de suas matérias-primas, como o cobre, a soja e o minério de ferro, grande parte das economias latino-americanas afundariam em recessão, ou seja, tais laços econômicos se estreitaram a tal ponto que, a despeito dos desmandos de Trump, uma ruptura tornou-se, simplesmente, inviável. Em outras palavras, os comunistas usaram as regras do capitalismo para “virar a mesa”, pegando de surpresa seus antigos adversários.

Logo, os falcões compreendem que, para preservarem sua hegemonia por mais duas ou três gerações, o caos deve ser levado à periferia do globo, especialmente, quando se trata daqueles que põem em xeque sua pretensa autoridade. Afinal, fazer guerra segue sendo sua expertise. Contudo, até Donald Trump sabe que um enfrentamento militar contra os chineses resultaria numa hecatombe nuclear, de modo que a destruição será imposta aos “elos fracos”, isto é, as nações do Sul Global. De acordo com a visão de mundo dos ocupantes do Salão Oval, deve-se impor aos demais países a seguinte escolha: ser vassalo ou sofrer as consequências do caminho contrário.

            Assim, diante do sucesso do ataque às instalações iranianas, quais as chances do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, sobreviver às recentes investidas de Washington no Mar do Caribe?

Desde agosto, navios, caças F-35, submarinos e milhares de tropas foram deslocadas para as cercanias da costa venezuelana. Enquanto isso, o secretário de guerra dos EUA, Pete Hegseth, ordenou que o grupo de ataque Gerald Ford, composto pelo maior porta-aviões do mundo, partisse rumo às águas caribenhas. Ao mesmo tempo em que várias embarcações — suspeitas de levarem drogas ao território norte-americano — foram destruídas em águas internacionais, contabilizando dezenas de mortos. Para estes supostos “narcoterroristas”, não houve direito de defesa. Pelo contrário, praticaram-se execuções sumárias típicas de um western de gosto duvidoso.

Caracas reage dando fuzis à população civil e acusa os EUA de fabricarem um conflito, tendo em vista a derrubada do regime bolivariano, algo que faz todo o sentido, haja vista o fato de que a Venezuela — além de ser compradora de armamento russo, fornecedora de petróleo aos chineses e principal aliada de Cuba no continente — é uma das maiores detentoras de reservas petrolíferas. Aliás, engana-se quem pensa que essa matéria-prima perderá sua relevância estratégica no futuro próximo. Mesmo com o avanço gradual da exploração de energias renováveis, economias pujantes, como a chinesa e a estadunidense, consomem imensas quantidades de combustíveis fósseis, a despeito dos esforços em transitar para uma economia sustentável. Não é por acaso que a flutuação do preço do barril ainda faz estremecer as relações internacionais. Se o seu preço aumenta, a nação petroleira desfruta de enriquecimento, mas, se o preço do mesmo barril despenca, a explosão de uma crise torna-se quase inevitável. No caso venezuelano, a dependência da exportação do petróleo é, sem dúvidas, seu ponto mais fraco.

Ora, invasões militares em larga escala são, em geral, precedidas por grandes mobilizações de veículos e tropas, tal como vimos, em 2022, no ataque russo às terras ucranianas. Numa era de interconectividade global, não haveria como escondê-lo por muito tempo, restando ao lado enfraquecido clamar por misericórdia de todas as maneiras possíveis, como já se antecipou o próprio presidente Maduro ao repetir, em inglês: “no crazy war, please”.

A Casa Branca, por sua vez, limita-se a responder que está combatendo o narcotráfico, igualando-o ao terrorismo da Al-Qaeda, e acusa o mandatário venezuelano de chefiar o Cártel de los Soles, porém ninguém precisa recorrer a um submarino nuclear ou um grandioso porta-aviões para combater cartéis de droga. Na realidade, a chamada “guerra às drogas” é tudo menos uma guerra convencional. Armamentos, veículos, táticas e soldados que podem ser úteis num conflito interestatal, como o que temos visto na Europa Oriental, acabam sendo ineficientes em uma guerra ao que se têm chamado de narcoterrorismo. A “batalha contra as drogas” se faz, acima de tudo, no acolhimento humanizado ao dependente químico, buscando retirá-lo de sua condição via auxílio médico e psicossocial — algo que passa longe dos planos de quem ocupa hoje o Salão Oval.

Em geral, a solução policialesca tem servido, tanto nos EUA como no Brasil, para inchar presídios, militarizar forças de segurança, aterrorizar comunidades e produzir chacinas. Dessa forma, pouco importa quantas lanchas sejam bombardeadas no Caribe ou no Pacífico, o fluxo de narcóticos seguirá seu destino rumo às metrópoles estadunidenses, alimentando, tragicamente, o número cada vez maior de dependentes químicos, bem como suas nefastas implicações. Em suma, as movimentações que temos visto não visam o fim da entrada de drogas nos EUA, por mais que a Casa Branca insista nessa narrativa. Trata-se, na realidade, do que pode vir a ser a maior intervenção estadunidense na América Latina em décadas, de tal maneira que nem os brasileiros poderão manter-se indiferentes ao que se sucederá nos próximos meses.

Com efeito, do ponto de vista norte-americano, o momento não poderia ser mais propício para acabar, de uma vez por todas, com Maduro e o chavismo. Tal como ocorrera com a Síria de Bashar al-Assad, o apoio de aliados externos serviu como um bote de salva-vidas para o regime em Caracas. Graças a essa camaradagem, os ocupantes do palácio de Miraflores resistiram a duras sanções, caos econômico, tentativas de sublevação, congelamento de ativos e outras formas de ingerência. Apostou-se até em figuras insípidas, como o autointitulado presidente Juan Guaidó, porém sem nenhum sucesso prático.

De fato, tentou-se de tudo, e, mesmo assim, o regime soube se manter de pé ano após ano, algo raramente visto em nosso continente. Há quem atribua tamanha resiliência à fidelidade dos militares ao regime, à incompetência da oposição, à politização das massas, ao apreço do povo pela memória de Chávez, à repressão do governo e assim por diante. De toda maneira, o chavismo arregimentou parte das classes populares ao seu favor, enquanto o restante aderiu à oposição ou fugiu para nações minimamente estáveis. De acordo com a ONU, cerca de 7,7 milhões de venezuelanos deixaram o país desde a década passada, num dos maiores êxodos migratórios da contemporaneidade; a vasta maioria emigrou para países hispano-americanos, como Colômbia, Peru e Chile, mas uma parcela considerável também se locomoveu para os EUA e o Brasil, gerando tensões xenofóbicas cada vez mais preocupantes.

A discrepância entre o poderio bélico dos EUA e da Venezuela dispensa comentários. Basta dizer que, se Nicolás Maduro recorrer unicamente à força das tropas bolivarianas, por mais destemidas que sejam as milícias populares, seu destino, provavelmente, será similar ao de Salvador Allende: morrerá no próprio palácio de Miraflores. Outra forma de matá-lo seria recorrendo aos métodos da CIA, célebre por elaborar meios de “neutralizar” lideranças como Fidel Castro. O fato é que, mesmo possuindo armamento russo, fontes anônimas revelam, em portais de notícia, que as tropas venezuelanas estão mal equipadas e despreparadas para um confronto direto. Também lhes falta experiência de combate, um componente imprescindível em qualquer tipo de guerra. Ademais, com a Rússia ocupada em conquistar o Donbas e a China tendo de lidar com as tarifas impostas por Trump, a situação Nicolás Maduro é delicadíssima, para dizer o mínimo. Até aliados ideológicos, como o presidente da Colômbia, alertam para a necessidade de um governo de transição, pois, nas suas palavras, “um desmantelamento violento do Estado venezuelano atual trará um fortalecimento dos grupos e gangues armadas que buscarão controle territorial”.

No momento em que escrevo, a aposta de Maduro é encontrar uma forma de evitar a sua saída, ou pelo menos postergá-la. Segundo o New York Times, foi oferecida a possibilidade de uma renúncia dentro de dois a três anos, porém a Casa Branca rejeitou a proposta.

Além disso, a despeito das diferenças entre Síria e Venezuela, o exemplo do que ocorreu a Bashar al-Assad deve servir de aviso ao regime bolivariano, pois, no intervalo de apenas duas semanas, a família Assad, que governou a Síria por mais de cinquenta anos, foi expulsa pelos rebeldes que combatera desde 2011. De fato, muitos já tinham por certo que a guerra civil síria, uma das mais brutais do século XXI, estava a caminho de uma vitória completa por parte do governo em Damasco. Contudo, a mudança de prioridades geoestratégicas por parte de Moscou e Teerã — além do enfraquecimento do Hezbollah —, abriu uma oportunidade que os rebeldes souberam explorar a seu favor, gerando aquilo que, popularmente, é descrito como um “efeito dominó”. Diante do súbito avanço da oposição, os militares governistas desistiram de lutar, refugiaram-se em áreas costeiras ou se exilaram. Desse modo, o regime, simplesmente, caiu, para o espanto dos seus adversários, recebidos de braços abertos pela população eufórica em Damasco. Quem poderia imaginar que algo tão repentino e profundo pudesse ocorrer como tamanha rapidez? Mesmo os analistas mais experientes foram pegos de surpresa.

O caso sírio é um reflexo dos tempos atuais. As velhas estruturas que consolidavam o poder político em torno de si e que eram capazes de suportar grandes conflagrações, agora, colapsam em semanas. Pouco importa se falamos de uma pequenina nação budista como o Nepal, ou se é uma sociedade islâmica do Oriente Médio como a Síria. Também pouco importa, aos olhos do Ocidente, se Israel promoveu um genocídio em Gaza, ou se Donald Trump deseja ser aceito como “rei da América”, a mesma nação que elaborou o que entendemos por democracia liberal. Tal desmantelamento das macroestruturas se associa a uma interconexão das diversas crises: mudanças climáticas, extinção em massa, instabilidade econômica, fluxos migratórios, crise de legitimidade das democracias etc. Temos, cada vez mais, a sensação de que o mundo ao nosso redor desmorona numa direção que não somos capazes de prever e muito menos de controlar. Para suportar tamanho sofrimento, muitos aderem ao fundamentalismo religioso, ao uso abusivo de entorpecentes, ao isolamento ou mesmo ao suicídio.

Na esfera política, os sinais desse adoecimento coletivo se apresentam na emergência de políticos que se dizem “contrários ao sistema”, tais como Trump, Bolsonaro, Milei etc. Além disso, o acomodamento da esquerda à ordem liberal, em função do desaparecimento da União Soviética e do aparente triunfo do sistema capitalista, é indissociável do surgimento desse extremismo pretensamente anti-establishment. Enquanto que, aos olhos da extrema direita, tais nomes seriam a personificação da esperança na luta contra o “comunismo” e o “globalismo”, vejo neles sintomas de um Ocidente que se perdeu pelo caminho, esquecendo-se dos valores que defendera desde as revoluções liberais do século XVIII. Foi exatamente a partir dessas revoluções na Inglaterra (1688), EUA (1776) e França (1789), que o Ocidente testemunhou seu período áureo, sendo, inclusive, capaz de fazer dobrar os demais povos aos seus ditames. Em nome do progresso econômico, cultural e cientifico, deixou-se de lado o obscurantismo medieval, de modo que, em épocas de maior lucidez, tais figuras jamais alcançariam a posição de estadistas. Ao contrário, seriam relegados à sarjeta.

Sem dúvidas, Donald Trump é a figura mais midiática da política internacional, porém mais pelos seus desvarios do que por um suposto brilhantismo na condução da sua política externa, algo que captura, com extrema facilidade, as manchetes dos portais e o burburinho infindável das redes sociais. Sua onipresença no noticiário é fruto de um histrionismo sedento por atenção, e não de uma genialidade desmerecida pela “imprensa esquerdopata”. Basta compará-lo a presidentes como F.D. Roosevelt ou Abraham Lincoln para concluir que os EUA vivem uma seríssima crise na formação de lideranças qualificadas para a complexa tarefa de governar. Sugerir sandices, como a anexação da Groelândia ou do Canadá, é mais midiático do que se sentar à mesa e esforçar-se, ao longo de muitos meses, por costurar um acordo minimamente justo aos envolvidos. Tal como um antiquado imperador romano, Donald Trump precisa entregar alguma conquista ao seu eleitorado, caso ainda queria rasgar a velha constituição e arriscar-se na busca de um terceiro mandato.

E para que tanta pressa? Mais uma vez, a resposta está no crescimento da China.

            Em setembro, foi realizado, no centro de Beijing, um portentoso desfile militar para comemorar os oitenta anos do fim da 2ª Guerra Mundial. No evento, tido como um dos mais importantes deste ano, viu-se de tudo: veículos de combate, tropas em marcha, mísseis balísticos, drones… Ao apresentar seu mais avançado arsenal, a nação chinesa comprovou que já não é mais uma mera replicadora de tecnologias vindas de fora. Pouco a pouco, a China volta a ser o que era em épocas passadas: o reino do meio. Seja no que diz respeito à fabricação de mísseis hipersônicos ou à manufatura de drones, os chineses estão na disputa pela vanguarda tecnológica, competindo, palmo a palmo, com os americanos pela supremacia em áreas sensíveis do meio militar.           

Porém, a geopolítica não se faz só com armas sofisticadas. Qualquer pretendente a superpotência precisa trazer aliados para o seu lado, em especial os mais fortes, ricos e confiáveis. Afinal, ninguém salva o próprio pescoço se for largado na selva sozinho. Mesmo os norte-coreanos reconhecem isso ao se aproximarem de Xi e, em especial, de Vladimir Putin, haja vista a cooperação militar de Pyongyang na guerra contra os ucranianos. De fato, à medida que o cenário global mostra-se cada vez mais instável em todas as latitudes, alianças precisam ser formadas o quanto antes, de modo que é natural que se fale, cada vez mais, no princípio de uma 2ª Guerra Fria, ou mesmo de uma possível 3ª Guerra Mundial. Até agora, todos falam em pacificação, ao mesmo tempo em que afiam o gume de suas espadas.

            No desfile mencionado, como já era de se esperar, a mídia pôs em evidência a presença de Putin e Kim Jong-un, que assistiram a tudo numa posição privilegiada. O grau de cortesia da recepção de Xi Jinping demonstra a relevância desses vizinhos para os seus planos futuros quanto à expansão chinesa pela Eurásia. No entanto, a visita de Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia, foi um dos fatos mais importantes da geopolítica recente, com possíveis efeitos adversos para as potências que ainda se perguntam sobre como conter a ascensão do dragão oriental.

Modi visitou a China pela primeira vez em sete anos, por ocasião da 24ª cúpula de abertura da Organização para Cooperação de Shangai (OCS), organismo multilateral criado e capitaneado por russos e chineses, cujo objetivo é, essencialmente, remodelar as relações internacionais em favor de Moscou e Beijing. Se, no passado, os diplomatas e líderes chineses eram cautelosos em suas manobras e ambições geopolíticas, agora tudo é diferente. Com efeito, Xi Jinping foi explícito em expor — na presença de vinte lideranças euroasiáticas — a necessidade de uma Iniciativa de Governança Global (IGG), algo que não se via desde 1991, ano do colapso soviético. Nas palavras de Xi Jinping, devemos “defender a visão de uma governança global com ampla consulta e contribuição conjunta para benefício compartilhado, fortalecer a solidariedade e a coordenação e nos opor ao unilateralismo”.

Qualquer estrategista minimamente perspicaz sabe que é quase impossível conter o avanço da China sem o apoio da Índia, sua grande rival regional, possuidora de uma civilização milenar, uma economia pujante, uma população descomunal e um arsenal nuclear forte o suficiente para arrasar seus vizinhos em poucas horas. Decerto, foram registradas escaramuças entre soldados indianos e chineses em anos recentes, fruto de disputas fronteiriças ainda sem uma solução diplomática. No entanto, a ida de Narendra Modi à cúpula da OCS parece indicar a disposição, por parte de ambos os lados, de deixar de lado velhas divergências em nome de um bem comum: sobreviver aos desvarios de Donald Trump e promover uma maior integração das suas civilizações.

Por fim, numa foto emblemática, Vladimir Putin (Rússia), Xi Jinping (China) e Narendra Modi (Índia) entrelaçaram as suas mãos, simbolizando uma união do mais alto nível. Nas relações internacionais, fotos não são uma trivialidade; elas comunicam, explicitamente, algo que dispensa tratados, promessas e palavras. Por outro lado, ainda temos um longo caminho pela frente. A cartada da terceira guerra mundial ainda se esconde sob a manga dos EUA, que pode se recusar a abrir mão da sua hegemonia imperial, levando-nos todos ao matadouro de uma guerra sem vencedores.

            Se Xi Jinping souber trazer a Índia para o seu lado, superando uma profunda rivalidade histórica, o Ocidente verá as três maiores potências da Eurásia alinhadas em oposição aos seus desígnios. E não há nada que ele possa fazer a respeito. Trata-se de um novo mundo que se constrói.

 

Daniel Viana de Sousa

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terça-feira, 30 de julho de 2024

Um novo mundo emerge

  

            Fala-se muito que uma transformação mundial está a caminho, porém os fatos mais recentes — e os processos dos quais eles fazem parte — demonstram que tal mudança, na realidade, já chegou até nós.

            Não vivemos mais a conjuntura do final do século passado, em que os Estados Unidos (EUA) gozavam, mesmo nos rincões desconhecidos do mundo globalizado, de uma hegemonia inconteste. À época, os norte-americanos podiam decretar invasões a países como o Iraque sem temer represálias, confiantes de que, ao final de qualquer cenário, estariam mais fortes do que antes. Hoje, sua influência ainda é enorme, porém em franco declínio nos diversos aspectos que constituem a potência de um império global, de tal maneira que dificilmente os falcões da Casa Branca poderão evitar o rebaixamento do seu domínio no xadrez geopolítico. Em certos continentes, como as Américas e a Europa Ocidental, seu controle continuará implacável. Entretanto, a periferia segue aprofundando seus laços com a superpotência emergente: a República Popular da China.

            Desde que iniciou sua ascensão, a China tem recebido projeções de analistas convictos de que seu colapso viria a qualquer momento. Para estes profetas do apocalipse, o modelo concebido por Deng Xiaoping era — e continua sendo — insustentável, devido ao suposto anacronismo e totalitarismo do partido comunista, que, em tese, seria incompatível com o desenvolvimento das forças produtivas mais avançadas. Na época, esperava-se que a China repetisse o colapso da União Soviética e do restante do Bloco Socialista, atribuída, em boa medida, a medidas políticas e econômicas atabalhoadas, feitas por uma burocracia corrupta e ossificada, excessivamente afastada da classe trabalhadora. Porém, os fatos lhes mostraram o contrário. O gigante asiático tornou-se, após mais de quarenta anos de desenvolvimento fulminante, a locomotiva do capitalismo contemporâneo. Até hoje, nenhum outro país testemunhou um progresso socioeconômico que se igualasse ao de Beijing. No passado, quem poderia ter imaginado que o capitalismo seria salvo de si mesmo por políticas capitaneadas pelo partido comunista chinês?

            Mesmo assim, a China está longe de ser um país idílico, com todos os seus problemas mitigados ou resolvidos — talvez, o seu maior desafio seja o impacto socioambiental causado pela industrialização em larga escala, embora avanços tenham sido feitos. As acusações de violação dos Direitos Humanos, a explosiva desigualdade social, a problemática relação com Hong Kong, o Tibete e o Xinjiang, também são temas espinhosos para os dirigentes comunistas. Todavia, os EUA também tiveram de lidar com questões internas graves, tais como conflitos raciais (ainda combustível para crimes e divisões internas), uma Guerra Civil, o genocídio das nações indígenas etc. Por outro lado, numa sociedade tão complexa como a chinesa, soluções rápidas e fáceis são fantasiosas; há que se recordar que esse povo traz consigo milênios de história, cultura e tradição, tendo, portanto, uma profunda compreensão da sua identidade e missão para os anos vindouros. Isso se expressa, por exemplo, em planejamentos para as décadas futuras que, no hemisfério ocidental, seriam incompreensíveis e irrealizáveis. Estou me referindo ao projeto popularmente conhecido como as “Novas Rotas da Seda”, que, se for concretizado, transformará a feição da Humanidade para o restante do século XXI.

            Hoje, quase todos os países, incluindo fiéis aliados dos EUA, como Austrália, Alemanha e Coreia do Sul, têm como seu maior parceiro comercial a China, de modo que não há quase nada que os estadunidenses possam fazer para alterar uma conjuntura tão adversa aos seus interesses. Em tempos de carestia generalizada, o “dinheiro comunista” é mais que bem-vindo: trata-se de uma tábua de salvação para economias em crise severa e/ou permanente, como é o caso de quase toda a periferia do sistema capitalista. O que seria do agronegócio e do extrativismo brasileiro sem a demanda insaciável da economia chinesa por commodities? É a busca por matérias-primas que, de fato, mantém de pé a balança comercial brasileira. Aliás, há quem afirme que vivemos um neocolonialismo à chinesa, em que a relação metrópole-periferia estaria sendo, lentamente, transferida de Washington para Beijing; quanto a isso, devemos aguardar que o futuro nos traga as respostas.

            Também há quem enfatize o poderio bélico dos EUA como uma garantia da sua supremacia. Entretanto, mesmo tendo capacidade de intimidar nações menores e submissas com seus jatos, mísseis e porta-aviões, os norte-americanos experimentaram derrotas amargas ao longo dos últimos setenta anos. Numa perspectiva mais ampla, de pouco serviu aos falcões possuir a maior máquina de extermínio e destruição que já se viu, pois, desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quase todas as guerras perpetradas pelos EUA resultaram em impasse, recuo ou fiasco. Basta recordar o intragável armistício, em 1953, com a Coreia do Norte, o fracasso, em 1961, da invasão da Baía dos Porcos, o fiásco, em 1973, para o Vietnam, o revés, em 2021, para o Talibã; tampouco eles triunfaram em tentar aniquilar seus arqui-inimigos, Rússia, Coreia do Norte, Síria e Venezuela, com intervenções, bloqueios e sanções econômicas. Mesmo a vitória no Iraque, uma guerra custosa e que pouco lhes serviu, não realizou seu intento máximo: o cerco e futuro ataque ao Irã, que se mantém ainda de pé como o maior antagonista aos EUA no Oriente Médio.

            Enquanto isso, acumulam-se, por toda parte, os sintomas de um mundo em convulsão. A cada ano que passa, tais sinais tornam-se mais visíveis: na Europa Oriental, os russos acumulam vitórias contra os ucranianos, ainda que com colossais perdas humanas e materiais; no Oriente Médio, articula-se uma resposta aos ataques israelenses contra o povo palestino, o que pode provocar uma guerra regional entre muçulmanos e judeus; na África, em menos de três anos, seis países, Gabão, Níger, Mali, Guiné, Sudão e Burkina Faso, passaram por insurreições das suas forças armadas; na América Latina, o chavismo ganha uma frágil sobrevida com a terceira vitória eleitoral de Nicolás Maduro, preservando o sentimento antiamericano no continente mais próximo à Casa Branca; no meio ambiente, eventos climáticos extremos põe em risco a estabilidade de sociedades de diversas partes do globo; por fim, no mercado financeiro das economias emergentes, fala-se em desdolarização das nações que buscam maior autonomia frente ao poderio do dólar.

            Ao mesmo tempo, guerras “menores” ameaçam explodir. Destacam-se os conflitos no Cáucaso, especialmente entre armênios e azerbaijanos, ameaças de anexação de Essequibo pelos venezuelanos, bem como o interminável conflito entre coreanos do sul e do norte etc. Ademais, guerras civis prosseguem sem solução visível para um futuro próximo, como na Síria, na Etiópia, no Sudão, no Iémen, em Mianmar e assim por diante. Há, por fim, repetidas escaramuças fronteiriças entre chineses e indianos, eternos rivais — e detentores de armamento nuclear — no continente asiático; o mesmo ocorre na disputa entre indianos e paquistaneses pelo domínio da Caxemira, ou nas disputas marítimas, entre vietnamitas, filipinos e chineses, pelo controle sobre o Mar do Sul da China. Por fim, muitos já antecipam como inevitável uma escalada militar, ainda nesta década, entre Taipei e Beijing, dando como certa a intenção da China em resolver o conflito com os vizinhos taiwaneses da pior forma possível: uma guerra aberta no estreito de Taiwan, por ponde transita parte considerável das mercadorias globais, em especial os semicondutores asiáticos. Nesses contextos de gravíssima perturbação global, a ONU exerce um papel inexpressivo, próximo à irrelevância geopolítica.

Tais fatos retratam o colapso de uma ordem internacional moribunda e caquética, sem sinais de que possa ser salva por um heroico ocupante da Casa Branca, seja ele/ela republicano ou democrata, globalista ou nacionalista, progressista ou conservador. Na verdade, a questão que mais deve preocupar a Humanidade quanto ao mandatário no Salão Oval, será a sua escolha entre conduzir o mundo a uma conturbada partilha de poder ou à progressiva deterioração de um cenário geopolítico às portas do extermínio nuclear. A dimensão e a duração de tal processo podem ser debatidas, mas a sua inevitabilidade não. Aqui, deve-se sublinhar que uma parte dos ocidentais jamais admitiu ceder terreno a um povo do terceiro mundo, uma ex-colônia sua, haja vista que a Coreia do Sul é um protetorado americano e o Japão, vencido na Guerra do Pacífico, foi forçado a abdicar, no papel, de quaisquer ambições militares. De fato, ainda há, no seio das elites do Atlântico Norte, quem considere os asiáticos uma sub-raça a ser invadida, subjugada e colonizada.

            A aliança entre Vladimir Putin e Xi Jinping, formalmente anunciada em fevereiro de 2022, às vésperas da invasão russa à Ucrânia, ainda que enfrente percalços pelas desconfianças ancestrais entre os dois povos, representa um marco na história do século XXI. Trata-se do encontro entre a segunda maior economia mundial e a maior potência bélica da Eurásia, possuidora de colossais reservas de combustível e matéria-prima; é o amadurecimento diplomático de um par que compõe o núcleo do BRICS e da Organização de Cooperação de Shangai, e que são considerados o maior obstáculo à hegemonia estadunidense. Ambos compreenderam que, aliando-se, possuem meios e recursos para desafiar e transformar o status quo em benefício próprio, algo que, há quinze anos atrás, seria inviável. Se houver uma nova ordem mundial que evite um conflito nuclear entre as potências, ela será capitaneada por tal união de países, representantes da maioria global, assim como da maior parte das riquezas produzidas pela Humanidade.

            Sem dúvidas, quem apostou, há mais de trinta anos, em um “fim da História”, cometeu um erro crasso: a democracia liberal continua sendo posta em xeque e os paradigmas econômicos do Consenso de Washington perderam parte da sua credibilidade. O enriquecimento faraônico das elites ocidentais não alcançou as camadas populares, que, com o passar dos anos, acumularam ressentimento, passando a desconfiar — com boas razões — do establishment político. Ora, o próprio lema que consagrou a campanha de Donald Trump em 2016, o MAGA (Make America Great Again), carrega consigo o reconhecimento de um presente que frustrou expectativas alimentadas pelas lideranças bipartidárias. Com efeito, nesse apelo infantil, nostálgico e simplório, está exposto o fracasso dos presidentes que ocuparam a Casa Branca nas três décadas em que a China mais cresceu: Bill Clinton (1993 – 2001), George W. Bush (2001 – 2009) e Barack Obama (2009 – 2017); os dois primeiros acabaram relegados ao ostracismo, enquanto que Obama tenta sobreviver à maré que põe em xeque o establishment partidário no ocidente. Não é por acaso que, ao tratar dos seus antecessores, Trump se apresente como uma espécie de “ruptura com o sistema”, um adversário do “deep state”. Se isso guarda alguma verdade, é outra discussão.

Também não é por acaso que a classe trabalhadora do ocidente clame por uma mudança, seja esta qual for. Romper com o passado fez com que as classes populares elegessem, em 2008, o primeiro presidente negro dos EUA, e que acabou sendo sucedido, oito anos depois, por Trump, uma figura ainda mais controversa, ou seja, outro gesto de mudança abrupta. No entendimento do americano comum, as velhas soluções não parecem funcionar, as instituições perderam parte da sua inabalável credibilidade e a corrupção tomou conta de quase tudo. Daí provém, em parte, a razão de assaltar o Capitólio em 2021: se as instituições não vêm ao povo, o próprio povo deve ir até elas, tomando-as tal qual ocorrera com a Bastilha francesa. Felizmente, os extremistas não obtiveram seu objetivo máximo: instabilizar o cenário político a tal ponto que fossem capazes de impedir a saída de Trump do poder. No entanto, a insatisfação das camadas populares permanece mais viva do que nunca, e tanto o trumpismo quanto o bolsonarismo sobrevivem, a despeito das derrotas eleitorais de 2020 e 2022.

A base que os mantém de pé, de fato, não abre mão de suas convicções, tal qual fanáticos de uma seita obscura. Eles são, em boa medida, homens das camadas médias e baixas da sociedade que viram sua qualidade de vida chafurdar nas últimas décadas; muitos tiveram uma educação rasteira e com poucas chances de ascensão social, vivendo em lugarejos remotos do interior dos EUA, em meio a um clima provinciano e reacionário, sem os ares cosmopolitas de metrópoles como New York, Los Angeles e San Francisco. Não é à toa que Trump foi derrotado, tanto em 2016 quanto em 2020, na maioria das grandes capitais americanas, ao passo em que venceu nos condados mais remotos.

Em 2016, a reação de alguns democratas preteridos trouxe à baila seu elitismo, uma incapacidade crônica em buscar compreender o cotidiano dos mais pobres. Foi a própria Hillary Clinton quem definiu os apoiadores de Trump como “deploráveis”. Na realidade, a profunda humilhação que estes “deploráveis” sentem pela sua pobreza, os obriga a achar alguém para culpar, de sorte que os demagogos saíram à procura dos bodes expiatórios ideais: imigrantes, muçulmanos, esquerdistas, minorias etc. Até agora, o receituário da intolerância rendeu algumas vitórias à extrema direita. Mais uma vez, vestir-se como outsider, isto é, alguém “fora do sistema”, acabou por se tornar a virtude máxima para o homem público, ainda que isso não passe de conversa furada. Nesse sentido, o atentado contra Donald Trump caiu como uma luva para os seus seguidores, tal como ocorrera, em 2018, com Bolsonaro, pois o consagrou como mártir da “luta pela liberdade” contra a cultura esquerdista woke. Logo, quem esperava que Trump saísse da cena política após seu revés, em 2020, agora precisa lidar com a possibilidade do seu retorno à Casa Branca, o que daria fôlego a movimentos extremistas em diversas regiões do globo.

Mesmo assim, a História costuma nos surpreender. Às vezes, ela o faz de uma maneira que preferiríamos que não ocorresse. Sentimo-nos frustrados por não poder mudar nada do que achamos errado e injusto, até que a mudança vem quando menos esperamos, como um incêndio que toma de súbito a casa inteira. Quem lutou à mão armada contra a Ditadura (1964-1985) deve ter se sentido numa luta de Davi contra Golias, e muitos morreram com bravura e heroísmo, mas sem conseguir depor os militares e muito menos pôr fim ao capitalismo. Até que a democracia ressurgiu, o povo respirou aliviado e os militares voltaram à caserna. Em poucos anos, a Ditadura, que parecera, em outros tempos, tão sólida, passou a ser um capítulo nos livros empoeirados de história. Parece que a maré da mudança nos foge do controle, quer aceitemos isso ou não.

Na juventude, convencemo-nos de que os nossos sonhos se confirmarão, até que a maturidade nos imponha as verdades mais indigestas. Houve quem sonhasse que a União Soviética duraria para sempre, que ela seria o farol que conduziria a Humanidade à libertação; houve também quem dissesse que, em pouco tempo, o capitalismo morreria pelas suas contradições internas. Nenhuma dessas previsões, tão populares em épocas passadas, se concretizaram. A experiência soviética sumiu do mapa, deixada de lado por seus velhos dirigentes, enquanto que o capitalismo segue regendo a Humanidade com sua massacrante espoliação. Palavras como “socialismo” e “revolução” deixaram o horizonte coletivo, e ninguém se dispõe a desafiar a exploração das massas no Brasil e no mundo. Sentimo-nos como George Floyd: sem conseguir respirar.

Por outro lado, nós podemos nos assegurar, hoje, de um único fato: as tendências que despontaram nos últimos anos apontam para um futuro distinto daquele que existira gerações passadas, e não há sinais de que essa mudança — em forma de avalanche incontrolável — possa ser revertida ou contida pelos centros dominantes, seja por meio de sanções, golpes ou de incursões militares. Pelo contrário, alguns destes centros carcomidos por seus vícios e preconceitos parecem incapazes de assimilar o que está acontecendo. Nas palavras do próprio Xi Jinping, em encontro com Putin, testemunhamos a maior mudança dos últimos duzentos anos, quando as nações imperialistas impuseram, a ferro e fogo, sua dominância sobre o planeta. Naqueles tempos, africanos, asiáticos e latino-americanos provaram o amargor da espoliação, do racismo e do genocídio. Agora, tudo é diferente, porque, como previra Mackinder, ainda em 1904, quem controla a Eurásia, controla o mundo. Péssima notícia para Washington, que jamais teve de lidar com um adversário tão poderoso quanto o bloco sino-russo, de modo que sua reação a esse desafio determinará o restante do século XXI.

Por fim, permito-me encerrar essa avaliação num tom filosófico. Talvez haja na sabedoria do Oriente algo que nós, ocidentais, devêssemos aprender o mais rápido possível, pois, tal como os budistas nos ensinam há mais de vinte e cinco séculos, a roda da impermanência é inescapável e avassaladora; seu movimento esmaga pobres e ricos, fracos e fortes, miseráveis e poderosos. A essa altura da história humana, quem pode detê-la?

 

Daniel Viana de Sousa

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sábado, 27 de abril de 2024

Egos frágeis se queimam rápido


Nas últimas semanas, a crise política e militar no Oriente Médio adquiriu proporções alarmantes. Há quem afirme que, se nada for feito através dos meios diplomáticos diretos e indiretos, teremos uma conflagração entre Irã e Israel, algo que, a depender de sua extensão e gravidade, agravará ainda mais o desmoronamento da ordem mundial do pós-guerra, mudando para sempre a geopolítica do século em que vivemos.

O acirramento do conflito histórico entre israelenses e iranianos — sem contar, é claro, a matança em Gaza — entrou não somente em nosso repertório cotidiano, mas também no nosso espírito e até na nossa própria psique. Graças aos smartphones, nunca foi tão simples ter contato imediato com cenas de horror absoluto: seres desmembrados, escombros de uma vila, famílias soterradas, crianças às portas da morte… Imagens, palavras e sons que, se vistas ou ouvidas pela primeira vez, fazem o inferno se assemelhar a um parque de diversões. Logo, é natural que milhões de usuários tomem a iniciativa de falar o que pensam sobre algo tão incessante e perturbador.

Na realidade, em tempos de conexão acessível, quase todos se sentem aptos a dar sua “análise” acerca dos temas mais polêmicos. Para esses militantes aguerridos e inflamados, não basta absorver informação: é necessário vir a público para expor o que crê ser certo e justo; pois, caso não o faça, terminará perdendo a oportunidade de tornar o mundo em que vivemos “um lugar melhor”. Para eles, o ativismo virtual é um meio de deixar sua marca e de se apresentar no palco como um protagonista da própria história, isto é, adquirir notoriedade. Eles teriam rompido a venda que cobria seus olhos e, portanto, estariam obrigados a libertar o restante da espécie humana, vítima de uma manipulação em escala planetária, como num gesto de gratidão a um deus libertador ou a uma ideologia messiânica. De certa forma, isso lhes proporciona tesão pela vida, uma preciosa chama interior, haja vista a sensação insuportável que cerca a existência medíocre e frustrante da maioria das pessoas. Creio que seria injusto negar-lhes o pouco prazer que ainda sentem por estarem vivos.

Ora, tamanho fervor missionário revela não apenas o conteúdo raso da maior parte das pessoas, mas também os preconceitos de um proselitismo sem eira nem beira, desprovido de estudo, reflexão e, principalmente, autonomia crítica, isto é, tentar pensar com a própria cabeça. Se, em épocas passadas, as baboseiras do sujeito ordinário morriam na poltrona de casa ou na mesa de um bar, agora vemos elas alçarem status de análise crítica para uma parcela cada vez maior da opinião pública. Nesse mundo em que vivemos, qualquer falcatrua circense pode apresentar-se como “ciência” ou “veracidade”.

Neste blog, eu me arrisco até onde meu tempo me permite e até onde meu saber alcança. Afinal de contas, é absolutamente normal que surja alguém com uma visão mais acurada, uma sensibilidade que ainda nos falta florescer, uma compreensão que merece destacar-se na vastidão torrencial do universo virtual — quem se dispõe a dar a cara a tapa precisa aprender a lidar com isso; egos frágeis se queimam rápido como palha seca. Pare e tente imaginar, por exemplo, as centenas de milhões de usuários comentando, incessantemente, a guerra entre Rússia e Ucrânia, o massacre em Gaza, os mísseis lançados pelo Irã contra Israel… Pense nas filmagens que circulam em diversas línguas que mal sabemos pronunciar neste lado obscuro do Atlântico.

É ingênuo crer que estamos a par de tudo que acontecesse mundo afora, porque a maior parte do que nos chega é averiguado e repassado por agências de notícias internacionais ocidentais, as quais, certamente, têm seus interesses em primeiro lugar. Na realidade, mesmo com o advento de algumas iniciativas de jornalismo independente, temos pouquíssimos correspondentes internacionais com alguma autonomia, relevância e audiência de massas. Além disso, somos brutalmente influenciados pela perspectiva estadunidense dos fatos que afetam as relações interestatais, de tal maneira que a cobertura internacional das empresas de comunicação brasileiras é irrisória e colonizada.

É bom lembrar que a nossa querida Língua Portuguesa é uma selvagem flor às margens do mundo, não só no que concerne às mídias de papel, mas também às comunicações digitais. Embora sejamos um povo profundamente viciado em redes sociais, mantendo-se conectado à internet mais tempo que os japoneses, quase tudo que produzimos ainda é solenemente ignorado pelo resto do Ocidente, enquanto que os mangas e animes fazem sucesso mundo afora. Mesmo em países onde os cidadãos comuns são refratários a qualquer conteúdo estrangeiro, como os Estados Unidos, a cultura nipônica deixa sua marca no comportamento da juventude, na culinária, no vestuário, nas artes visuais… É impressionante ver a quantidade de jovens e adultos que ainda se vestem como personagens de animes japoneses em todo mundo! Para esses rapazes e moças, pouco importa a “estranheza” de um idioma asiático, geralmente visto como exótico e complicado. Na realidade, conheço muitos que se dispuseram, por puro encantamento, aprender essa língua, mergulhando na cultura desse povo tão distante e misterioso, mesmo que isso não lhes trouxesse nenhum benefício prático. Portanto, falar que, por conta de seu imperialismo, somente a cultura estadunidense seria capaz de moldar o imaginário do sujeito contemporâneo, é, no mínimo, impreciso. Por pior que seja admiti-lo, o fato é que outras nações sabem fazê-lo sem mísseis, espionagem ou golpes de estado. Aqui, termino esta breve digressão.

De fato, a maior parte do que é lançado na internet, dos memes até a produção científica mais avançada, está em inglês, ou seja, quem não sabe ao menos ler esse idioma está automaticamente defasado em relação aos seus pares bilíngues. Para os profissionais que lidam com ciência de ponta e comunicação, esperar que se traduza tudo para o português é equivalente a um suicídio intelectual. Infelizmente, a despeito da beleza da nossa língua, ela está num universo à parte da sua parentela ocidental. Eu diria que, hoje, para o “cidadão do mundo”, aprender os rudimentos do inglês é quase tão imprescindível quanto a sua língua nativa, e isso se manterá inalterado pelas próximas décadas. Não esperem que o mandarim consiga ameaçar o protagonismo do inglês a nível global, ainda que o povo chinês consiga a proeza de se tornar a maior economia do mundo nesta década.

Esse atraso nacional — consequência direta da nossa condição periférica — está diretamente relacionado ao tema deste ensaio.

Em geral, quando se trata de algum tema espinhoso, evito escrever e tornar público os meus textos no instante em que os fatos se desenrolam. Meus desafetos podem me acusar de ter medo ou qualquer coisa do gênero, porém o fato é que nunca foi tão complexo e arriscado compreender em profundidade e comentar com segurança a respeito dos fatos que incendeiam as discussões hoje em dia. Carecemos de bons intérpretes e de fontes fidedignas; enquanto que surgem, por toda parte, pessoas sinceramente dispostas a manipular a opinião pública ao seu bel-prazer, visando o trágico triunfo de sua agenda política, em detrimento de uma ínfima coerência pessoal.

Ser cético tem sido cada vez mais necessário, especialmente, se você não se acomoda a uma manada tangida pelas forças dominantes do capital e do establishment. Fuja das formulações rasteiras, das respostas rápidas e reducionistas, pois não há quase nada em nosso mundo que possa ser explicado em um tweet. Fazer generalizações às pressas, tendo por base um achismo pretenso e vulgar, não é o mesmo que fazer ciência ou jornalismo; trata-se, na verdade, de um charlatanismo espetaculoso e sensacionalista, mais ansioso em capturar a atenção da audiência do que em fazer conteúdo de qualidade. Não se permita cair nessa armadilha. Para esses monopólios, você não passa de uma carcaça à espera de ser vampirizada.

Aliado a isso, há uma pressa patológica, no sujeito contemporâneo, em estar constantemente informado acerca de todos os temas em discussão. Violência urbana, escândalos da nossa politicagem, entretenimento imbecilizante, a rotina das celebridades… Seria muita generosidade classificar esse tipo de conteúdo como “distração” ou “divertimento”. Sua utilidade pública é comparável à risada de um defunto. Assim, levando em conta que esse comportamento assumiu uma escala planetária, só poderíamos estar envoltos numa baderna generalizada. O fenômeno das fake news é um exemplo disso.

Creio que um dos fatos mais emblemáticos seja o bombardeio ao hospital Al-Ahli, ocorrido em outubro do ano passado, na Faixa de Gaza. No momento em que as informações nos chegaram, os primeiros a serem acusados, é claro, foram as forças armadas israelenses; o invasor sempre ocupou o papel de vilão na história das guerras, a despeito de Israel ter sofrido um gravíssimo ataque terrorista poucas semanas antes. Os apoiadores da criação de um estado palestino, bem como o Hamas e a Jihad Islâmica, inflaram seus pulmões, pondo o dedo em riste na cara dos invasores sionistas. Contudo, passadas algumas horas, Israel acusou a Jihad Islâmica de ter atingido o dito hospital acidentalmente. Análises feitas por serviços de inteligência e órgãos estrangeiros concluíram que o míssil teria saído de dentro do próprio território palestino. Cada lado angariou seus partidários mais devotos, ao mesmo tempo em que os mais sensatos se puseram em alerta. Resta-nos as seguintes perguntas: quem detém a verdade? Devo confiar nas maquinações dos sionistas ou nos ardis de fanáticos e terroristas? Afinal, como alguém na minha posição saberia a verdade? Ah, é sempre confortável transferir aos outros a responsabilidade sobre o que acreditamos e defendemos.

Hoje, posso dizer com segurança que há temas que eu jamais opinarei, pois tenho ciência da minha limitação em oferecer algo mais relevante do que aquilo que fora dito por autoridades competentes. Por que eu precisaria, por exemplo, argumentar algo a respeito da condenação de Lula, se sei pouquíssimo sobre Direito? Deixo essa tarefa miserável aos juristas, especialistas com farta formação acadêmica, e tomo as minhas conclusões em particular. Isto não é só uma escolha sensata: ela é o certo a ser feito. Não tenho o menor interesse em conhecer as leis e aplicá-las de maneira justa, que o faça, então, os profissionais preparados para tanto. Negar ao especialista seu destaque, é o mesmo que cuspir em todo sistema de ensino, privilegiando o improviso e o amadorismo de quem nunca se esforçou em aprender coisa alguma. Qual o sentido em dar as costas aos intelectuais? Só uma sociedade composta por tolos e farsantes agiria dessa forma. Ouçamos, primeiramente, os que estudaram noites a fio, e não o amador arrivista. Fazendo isso, colocaremos em xeque a relevância das redes sociais para o debate público.

Por outro lado, eu não poderia negar a existência de mal-intencionados no meio acadêmico e científico. É fato que todo cesto tem suas maças podres. Ainda assim, o estrago causado pela ignorância das massas parece ser muito maior do que a de um único cientista desprovido de caráter. Dentre os seus muitos estragos, o louvor à estupidez desmotiva as crianças e jovens a buscarem o aprendizado necessário, único caminho viável para concluir sua integração à sociedade moderna. Os semianalfabetos encontrarão, caso tenham sorte, um trabalho mal remunerado, perigoso e subvalorizado, tirando dele quase nada para sobreviverem com dignidade, e não há, no horizonte próximo, nada que indique uma mudança nesse fracasso coletivo do povo brasileiro. Sim, por maiores que tenham sido os esforços de grupos organizados e de indivíduos abnegados, fracassamos, mais uma vez, em preparar nossas crianças e jovens para o novo mundo que emerge diante de nós. Portanto, não deveríamos nos surpreender que a escola seja alvo de tamanho desprezo pelo poder público e parte da nossa sociedade. Pois, como Darcy Ribeiro nos ensinou, a crise da educação no Brasil é, antes de tudo, um projeto.

Se eu pudesse resumir os últimos parágrafos em algumas linhas, eu diria que, se queremos compreender a realidade que nos rodeia, alcançando uma liberdade genuína, é preciso, antes de mais nada, sair da zona de conforto e sempre desconfiar daqueles que posam como detentores da única interpretação possível da nossa era. Os extremismos se nutrem daqueles que puseram de lado qualquer senso crítico. Não se habitue ao comodismo, pois ele lhe cobrará um preço mais adiante.

  

Daniel Viana de Sousa

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