segunda-feira, 30 de março de 2026

Conflitos de um piromante assassino

 

Guerra! Desde o sequestro de Maduro e sua esposa, a gestão de Donald Trump pôs, definitivamente, suas garras à mostra, agindo sem o menor pudor como a pretensa “polícia do mundo”, capaz de bombardear outros povos e assassinar seus líderes, sempre tendo em mente a concretização dos seus interesses particulares.

Tendo ao seu lado o estado de Israel, possuidor de uma das forças armadas mais mortíferas da atualidade, o presidente estadunidense ignorou quaisquer impeditivos internos e externos, incluindo os conselhos de diplomatas e militares com larga experiência, preferindo a solução de arrasar tudo que estiver ao seu alcance, como se isso bastasse para provocar o colapso do regime iraniano. Na realidade, até o momento em que escrevo, a República Islâmica não só sobrevive, mas também provou ser capaz de atingir, com precisão e intensidade, praticamente qualquer alvo no Oriente Médio, chegando até mesmo a ameaçar a base anglo-americana em Diego Garcia, uma ilha a quatro mil quilômetros de distância do seu território. Agravada pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, a reação iraniana põe em risco a estabilidade da economia global, fazendo com que todos nós paguemos por uma inconsequente aventura de Washington e Tel Aviv.

Os efeitos dessa tempestade já se fazem ouvir na opinião pública dos Estados Unidos (EUA). Uma pesquisa divulgada nesta quarta-feira (25) revela que a maioria dos americanos acredita que a guerra contra o Irã foi longe demais. Conduzida pela AP-NORC, a sondagem também mostra que 45% dos entrevistados temem não conseguir arcar com o preço da gasolina. Além disso, de acordo com outra pesquisa, conduzida pela Reuters/Ipsos e liberada nesta terça (24), a aprovação de Trump chegou ao pior nível desde que assumiu a presidência para um segundo mandato, caindo de 40% para 36%. Ainda segundo a Reuters, o aumento da reprovação se deve às ações do presidente contra o Irã. Portanto, não é de se espantar que Trump se apresse em dizer que mantém negociações com lideranças iranianas, algo que elas têm negado categoricamente.

Será esse o início do fim para Trump, ou apenas uma turbulência passageira? Claro que tais índices poderiam, em tese, ser revertidos em benefício à Casa Branca. Afinal, quem ocupa cargos públicos tem mais chances de conservá-los. Os americanos chamam-no de incumbency advantage, que são, basicamente, as vantagens políticas de se ocupar espaços de poder. Para tanto, basta mencionar que, no decorrer da história dos EUA, a maior parte dos presidentes e governadores conseguiram se reeleger para um segundo mandato. No entanto, o que temos visto é um piromante incendiando o mundo ao seu redor, tanto no âmbito interno, quanto no externo. Os embates do ICE contra a população em Minnesota são uma prova da disposição de Trump em “esticar a corda”, ainda que isso ameace a eclosão de uma miniguerra civil no seio do seu território.

Hoje, a maior ameaça à continuidade do atual governo vem das implicações da sua política externa, cujo epicentro se concentra na guerra contra o Irã. Caso esse conflito continue se prolongando, de modo a deteriorar os índices de opinião, o presidente americano pode vir a sofrer uma derrota fragorosa nas eleições de meio mandato, fazendo ressurgir, outra vez, a ameaça de impeachment pelo resto da sua gestão. Previstas para ocorrer no começo de novembro, as midterms elections são responsáveis por determinar os novos ocupantes da Câmara dos Representantes e trinta e três novos senadores. Não foi por acaso que o próprio Donald Trump declarou, no começo deste ano, que sofreria um impeachment caso perdesse as eleições de meio de mandato. Além do mais, um Congresso hostil à Casa Branca emperraria nomeações à Suprema Corte, palco de derrotas recentes na questão da sua política tarifária.

Entretanto, para olharmos o futuro dos Estados Unidos e da guerra contra o Irã, é preciso que relembremos como chegamos até aqui.

Talvez, o fato mais marcante das últimas quatro semanas tenha sido a execução de Ali Khamenei, segundo Líder Supremo do Irã, bem como de boa parte da alta cúpula do seu regime. Trata-se de uma manobra que, de fato, surpreendeu a todos, provando que nenhuma liderança do Sul Global está a salvo em seu próprio território, à exceção, é claro, dos detentores de armas nucleares, haja vista sua mortal capacidade de retaliação. Por outro lado, essa não é a primeira vez que Trump, um suposto crítico das guerras iniciadas pelos membros do partido Republicano, recorre a essa midiática decapitação de rivais estrangeiros. Alguns analistas remetem-na ao assassinato do general Soleimani, ainda em janeiro de 2020, quando um drone MQ-9 Reaper fez voar pelos ares, em solo iraquiano, um dos mais graduados oficiais da Guarda Revolucionária Iraniana. Tal manobra, aos olhos de uma parte do público americano, passava a impressão de uma operação “barata e cirúrgica” contra um inimigo declarado do Ocidente. O Irã, por sua vez, respondeu lançando mísseis contra seu agressor, porém sem causar grandes prejuízos às posições dos EUA na região. Iniciava-se, assim, uma das décadas mais explosivas da história contemporânea.

A lição foi replicada, com assombroso êxito, pelos belicistas em Tel Aviv. Em outubro de 2023, após os ataques perpetrados pelo Hamas, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ordenou sucessivas operações de eliminação de lideranças palestinas, culminando na morte de Ismail Haniyeh, líder máximo do Hamas, em julho do ano seguinte. Mesmo estando no coração da capital iraniana, sede de um regime que, há décadas, luta por sua sobrevivência, Haniyeh não pôde escapar dos tentáculos do Mossad, agência de inteligência que fez explodir sua residência. Ao mesmo tempo, a “precisão” dos ataques israelenses em Gaza não poupou que escolas, universidades e até hospitais fossem reduzidos a escombros; junto às cinzas dessas cidades destroçadas, jazem os corpos de milhares de palestinos mortos, indiscriminadamente, na terra em que viveram seus antepassados. Decerto, os crimes cometidos em Gaza assombrarão as próximas gerações do século XXI.

Enquanto isso, outra operação “cirúrgica” estava a caminho. Dois meses após a morte de Haniyeh, ocorreria a investida aérea que eliminaria o clérigo libanês Hassan Nasrallah, junto com a cúpula do Hezbollah, mais um grupo político e paramilitar apoiado pelos iranianos na sua disputa de longa duração contra os israelenses. Classificado como organização terrorista por muitas nações ocidentais — inclusive por países de maioria muçulmana sunita —, o Hezbollah detém um poder destrutivo muito superior ao do Hamas, chegando a atuar, ao mesmo tempo, nos combates da guerra civil síria e na oposição ao sinistro Daesh. Sem dúvidas, o Hezbollah veio a ser visto, no início da década atual, como uma das forças não estatais mais perigosas do mundo. Isso se deve, em boa medida, ao seu complexo arsenal de foguetes e mísseis que, segundo algumas estimativas, chegara a contabilizar 150 mil projéteis, além de dezenas de milhares de combatentes dispostos a morrer pela causa.

No entanto, tamanho poder de fogo não foi capaz de conter Netanyahu, que, ao perceber a oportunidade de dar fim à vida de seus oponentes, escreveu um novo capítulo na história do Oriente Médio.

A fatídica reunião se deu no contexto do apoio do Hezbollah à resistência palestina, numa escalada de ataques mútuos por meio de mísseis, incursões aéreas etc. A princípio, os fatos não causavam espanto, pois pareciam uma repetição de embates ocorridos em outros momentos. Contudo, em setembro daquele ano, o grupo sofreria um terrível e inesperado golpe. Surpreendentemente, mesmo estando abrigados numa instalação a dezoito metros de profundidade, a Força Aérea Israelense lançou bombas capazes de obliterar o refúgio, matando mais de trinta e três pessoas e ceifando a vida das mais importantes lideranças da temida organização libanesa.

Além de Haniyeh e Nasrallah, diversos outros expoentes palestinos e libaneses foram mortos por Israel desde os ataques liderados pelo Hamas em outubro de 2023. Desse momento em diante, o Oriente Médio sofre a sua pior crise em décadas, e não há sinais de que ela se encerre tão cedo. Pelo contrário, a cada semana que passa, fica mais claro que, no Líbano, somente uma ocupação militar prolongada teria alguma remota possibilidade de impor uma submissão à resistência armada.

Nesta quarta-feira (25), Netanyahu afirmou que, a fim de conter os ataques do Hezbollah, seus soldados expandirão a zona-tampão ao sul do Líbano, indo até o rio Litani, uma das principais fontes de água potável, irrigação e geração de energia da região. Até agora, pelo menos cinco pontes foram bombardeadas pelas forças armadas de Israel, praticamente isolando a parte meridional do país invadido. A justificativa seria de que a população israelense próxima à fronteira encontrava-se ao alcance de ataques vindos do Líbano. Por outro lado, só um insano acreditaria que o Hezbollah fosse assistir a isso de braços cruzados, haja vista que, com a destruição de tais pontes, dezenas de milhares acabaram ilhados no próprio território. Até agora, mais de um milhão de libaneses deixaram suas casas, de sorte que a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) alertou, nesta sexta-feira (27), para o risco de uma catástrofe humanitária.

Essa ação prova que o assassinato de Nasrallah serviu como propaganda, ou, no máximo, como um golpe no ânimo dos combatentes do Hezbollah, porém não foi capaz de se converter numa vitória definitiva por parte de Israel. A decapitação deu fim ao decapitado, mas não àquilo pelo qual ele lutava. Trata-se de um raciocínio simples, porém que escapa àqueles que agem com demasiada soberba. Não é o líder que cria o movimento, e sim o contrário. Os indivíduos têm algum nível de autonomia frente à realidade que os cerca, porém as condições sociais, históricas, econômicas, políticas e culturais ao nosso redor, seguem sendo decisivas na nossa tomada de posição. Portanto, a raiz dos problemas no Oriente Médio não se encontra em indivíduos, quem afirma o oposto procura apenas causar confusão.

Enquanto os ocidentais discutem se o Hamas e o Hezbollah são ou não grupos terroristas, Israel bombardeia tudo que vê pela frente em nome do “direito de defesa”. Este é um dos principais combustíveis que alimenta o extremismo não só no Oriente Médio, mas no coração de qualquer ser humano, seja ele árabe ou não. Assim sendo, a luta de grupos extremistas como o Hamas e o Hezbollah não se sustenta apenas em discursos inflamados, preceitos religiosos ou em líderes carismáticos, e sim na legítima busca pela soberania de povos que não podem ser varridos do mapa, a menos que Israel se proponha a repetir o que Adolf Hitler fez no passado contra o próprio povo judeu, isto é, prendê-los e assassiná-los em câmaras de gás um após o outro. Antes que os últimos palestinos e libaneses morram, entretanto, haverá resistência armada.

No entanto, o grande objetivo almejado por Tel Aviv nunca foi esmagar apenas o Hamas ou o Hezbollah, grupos extremistas que, embora fossem capazes de causar danos a Israel, jamais colocariam em xeque a continuidade da sua existência enquanto estado. Ataques promovidos por terroristas e milícias causam mortes, traumas e prejuízos, mas não destroem Estados. Tais forças operam como instrumentos de intimidação no complexo tabuleiro religioso, político, étnico e cultural que sempre foi o oeste da Ásia. Na realidade, só há um inimigo forte o suficiente para fazer frente a Israel, seja no poderio bélico, seja na resiliência socioeconômica, seja na influência geopolítica: a República Islâmica do Irã, fundada na Revolução de 1979.

Com a escalada militar entre Israel e seus vizinhos, os sucessos das operações Midnight Hammer e Absolute Resolve, alimentou-se, na Casa Branca, a ilusão coletiva de que bastaria um sopro para que o regime iraniano desmoronasse da noite para o dia. Com mais uma operação “barata e cirúrgica”, Trump e Netanyahu se livrariam do seu maior adversário no Oriente Médio, pois, por se tratar de uma “odiosa ditadura teocrática”, o povo iraniano logo se ergueria em solidariedade ao agressor externo, tomando para si as rédeas do seu destino. De fato, por mais risível que pareça, não é difícil encontrar, na própria internet, declarações do líder estadunidense que remetam a essa linha de raciocínio surreal.

Tamanho foi o triunfalismo em Washington, que o próprio Trump convocou as massas do país agredido a tomarem o poder, ao mesmo tempo em que exigia “rendição incondicional” aos sobreviventes do regime. A rendição e o colapso, contudo, não vieram. Desde então, a coalisão agressora atingiu, segundo Pete Hegseth, mais de quinze mil alvos dentro do Irã. O presidente estadunidense chegou a afirmar, no dia 20 de março, que todas as lideranças iranianas haviam sido eliminadas, que a Marinha, a Força Aérea, as defesas antiaéreas e os radares estavam destruídos; ele até mesmo debochou afirmando que “queremos falar com eles e não há ninguém com quem falar […] e gostamos que assim seja”. Ainda assim, a rendição e o colapso não vieram, e um conflito que, supostamente, deveria durar não mais que duas semanas, já se estende por mais de um mês inteiro.

De acordo com o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Aragchi, nem mesmo campos de gás natural e usinas de dessalinização, como a de Qeshm, essenciais para o abastecimento de água por parte da população civil, foram poupadas dos bombardeios. Ademais, horrores como o ataque à escola de Minab, no sul do Irã, em que morreram mais de cem crianças (algumas fontes chegam a falar em cento e oitenta), deram maior legitimidade ao ódio pelos EUA, base que sustenta as facções mais fanáticas de Teerã, justamente aquelas que veem a guerra aos israelenses e americanos como uma sina incontornável.

Em resposta a isso, os ataques iranianos às bases americanas já somam, de acordo com a BBC e o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), 800 milhões de dólares em prejuízo material. Tamanho desgaste cresce a cada dia que passa, com alguns membros do Pentágono alertando que o estoque de munição não deve suportar um conflito demasiadamente prolongado. Cada míssil Tomahawk, por exemplo, custa US$ 3,5 milhões e leva dois anos para ser produzido; até agora, de acordo com o Washington Post, cerca de 850 Tomahawks foram utilizados, sendo que o estoque total seria de 3 mil mísseis. De fato, há duas semanas, o Financial Times expôs que os EUA haviam gasto anos de munição, especialmente de interceptadores Patriot e Thaad, imprescindíveis na defesa contra o enxame de mísseis e drones iranianos.

Ao que tudo indica, a tática de Teerã tem funcionado. De acordo com o The New York Times, apenas nos primeiros seis dias de bombardeio ao Irã, foram gastos US$ 11,3 bilhões, revelaram autoridades do Pentágono a senadores americanos; por outro lado, cada drone Shahed-136 custa em torno de vinte mil dólares, podendo ser produzido aos milhares em qualquer fábrica de pequeno porte. Tais drones não precisam atingir o alvo, nem causar explosões ou destruição em larga escala; basta, apenas, que consumam as defesas dos seus adversários, de modo a deixá-los vulneráveis para as próximas fases da guerra, haja vista que os mísseis iranianos de última geração seguem escondidos, aguardando o melhor momento para entrarem em operação.

A fantasia bélica de Trump e seu círculo de fanáticos foi, de certa maneira, amparada pelos massivos protestos contra o regime teocrático, que, indiscutivelmente, carece de apoio em alguns setores da sociedade, como é o caso da juventude urbana. É difícil saber o número exato de mortos nesses protestos, mas não resta dúvidas de que, diante da real possibilidade de um golpe de estado, o regime recorreu a todos os meios necessários para esmagar os insurgentes, eliminar infiltrados de países inimigos e conservar sua supremacia sobre o restante da sociedade. Tal como no caso venezuelano, é improvável que a república islâmica seja derrubada sem uma cisão nas forças armadas.

No entanto, há que se reconhecer que a revolta popular não é uma exclusividade iraniana. Há uma crise de legitimidade em diversos países do mudo — inclusive de democracias inspiradas em modelos do Ocidente, como é o caso do Nepal —, cujos sistemas políticos atravessam desafios provenientes de questões variadas: fluxos migratórios, mudanças climáticas, instabilidade socioeconômica, desigualdade social, corrupção, guerras, sanções etc.

Contudo, a profunda crise do sistema de governança dos aiatolás não passa de uma desculpa, por parte de Washington, para recuperar o controle sobre uma área perdida desde a Revolução de 1979, cuja importância segue sendo decisiva na sua disputa contra a aliança estratégica entre China e Rússia, a mais grave ameaça à continuidade da sua hegemonia em décadas. Ninguém no Salão Oval está preocupado com a democracia e os Direitos Humanos na Venezuela, no Irã ou em qualquer país da periferia do sistema capitalista. Pelo contrário, os EUA patrocinaram, durante a Guerra Fria (1947-1991), golpes de estados e ditaduras ao redor do mundo, no intuito de assegurar a preservação dos seus interesses em contraposição ao bloco socialista.

A execução de Ali Khamenei, junto com vários integrantes da sua família e da cúpula governamental, entretanto, gerou o efeito oposto àquele pretendido por Trump e sua camarilha: o regime manteve-se forte o bastante para suportar o impacto do primeiro golpe, preservou seu funcionamento e revidou militarmente, atacando diversos pontos do Oriente Médio e fechando o Estreito de Ormuz, de modo a provocar os primeiros tremores na economia mundial. Pouco a pouco, o preço do barril de petróleo sobe nos mercados globais, encarecendo mercadorias mundo afora e alimentando o risco de um abalo econômico devastador. E, caso as infraestruturas energéticas dos demais países do Golfo Pérsico sejam severamente comprometidas, testemunharemos uma crise global nunca antes vista.

Ao que parece, Donald Trump está perfeitamente ciente disso, pois ameaçou atacar a ilha de Kharg, local em que está concentrada 90% da exportação de petróleo iraniano. Não foi à toa que, ainda no começo da guerra, o líder da oposição israelense Yair Lapid afirmou que a destruição do terminal "paralisaria a economia do Irã e derrubaria o regime". Ele defendeu que Israel "deve destruir todos os campos de petróleo e a indústria energética do Irã na ilha de Kharg". Ao mesmo tempo, o Irã já demonstrou que pode atingir, com drones e mísseis variados, a infraestrutura energética de quase todos os países da região — mesmo países muito afastados do Golfo Pérsico, como a Turquia e o Azerbaijão, foram alvos de projéteis iranianos, alertando a todos para o fantasma de uma conflagração generalizada. Fala-se até na existência de “cidades subterrâneas” com mísseis secretos, cujo poder superaria em muito aqueles usados até agora. Se isso é verdade, provavelmente, saberemos nas próximas semanas.

Considerando o aumento gradativo de tropas americanas em toda a região, algo em torno de cinquenta mil soldados, além de dois porta-aviões e diversos navios anfíbios, é cada vez mais provável que o conflito evolua para níveis ainda mais dramáticos.

Neste sábado (28), em resposta aos ataques contra o Irã e o Líbano, os Houthis, grupo armado iemenita apoiado por Teerã, entrou na guerra disparando mísseis balísticos contra Israel, que, por sua vez, disse tê-los interceptados. Sua maior arma, no entanto, é a possibilidade de bloquear o Estreito de Bab el-Mandeb, outro ponto nevrálgico da economia mundial, por onde passa 12% do petróleo comercializado por via marítima. Ao leitor desavisado, esta cifra pode parecer diminuta, mas as implicações de um bloqueio prolongado de Bab el-Mandeb resultariam em um prejuízo bilionário para diversas economias compradoras do petróleo do Oriente Médio, particularmente, as grandes economias asiáticas. Tendo em vista que, com o fechamento de Ormuz, o preço do barril de petróleo já subiu fortemente, forçando, por exemplo, a retirada provisória das sanções sobre a Rússia, um bloqueio de Bab el-Mandeb teria consequências ainda mais imprevisíveis para a geopolítica e a geoeconomia. Somente em março, o petróleo chegou a ser cotado acima de US$ 115 por barril, acumulando uma alta mensal de 59%, a maior desde 1990.

No momento atual, a Casa Branca precisa tomar mais uma decisão que selará a vida de milhões ao redor do mundo: invadir ou não o Irã? Se Trump recorrer a uma invasão terrestre do território inimigo, nos moldes clássicos da história militar, ele correrá o risco de enfiar o seu país num lamaçal sem volta, repetindo, talvez, a experiência traumática que se deu no Vietnam (1955-1975), em que morreram mais de 58 mil soldados estadunidenses em vão; ou, talvez, cometa a insensatez de ocupar partes do território iraniano, repetindo os erros das guerras no Afeganistão e no Iraque, em que foram gastos trilhões de dólares inutilmente. Mesmo uma invasão da ilha de Kharg exigiria, nas palavras de Trump, “ficar lá [na ilha de Kharg] por um tempo”, o que já dá uma ideia da complexidade que envolve ações militares de larga envergadura. Apenas a supremacia tecnológica e a cólera destrutiva são insuficientes para obter uma vitória completa, tal como demonstrou as invasões contra os povos vietnamita, afegão e iraquiano. E por “vitória completa”, refiro-me a uma derrota militar total das forças iranianas, seguida por uma mudança de regime e a implantação de um governo favorável aos Estados Unidos.

Tal qual um piromante que perde o controle sobre o fogo que tem em mãos, Donald Trump está se dando conta de que o circo em chamas cairá não só sobre a plateia horrorizada, mas também sobre ele mesmo. Diante disso, sua solução é a única capaz de conceber: atear mais fogo ainda.

Ao invés de “capitulação incondicional”, como exigia o mandatário estadunidense, o regime elegeu o filho de Khamenei como terceiro líder supremo, posição máxima na sua estrutura hierárquica, poderoso o suficiente para influenciar os centros decisórios da sociedade iraniana. Considerado um nome da linha-dura, portanto, defensor férreo do sistema teocrático, Mojtaba Khamenei segue escondido, ciente de que subestimar o Mossad seria um erro que lhe cobraria a própria vida. Aliás, nada garante que ele continue vivo nos próximos meses, bem como todo o restante da classe dirigente iraniana, tal como demonstrou a recente morte de Ali Larijani, mais um membro da alta cúpula a ser morto pela força aérea israelense. Enfim, como explicitei ao longo desse texto, a coalizão agressora já provou sua capacidade de decapitação, ainda que não tenha obtido o tão ansiado regime change. É provável que, nesses primeiros meses da guerra, Mojtaba Khamenei governe a partir do exterior — talvez, de algum refúgio controlado por russos ou chineses. Afinal, é necessário ressaltar que, tanto para Beijing quanto para Moscou, a sobrevivência do regime iraniano é um assunto da mais alta relevância.

A essa altura, a fera iraniana lutará com todos meios que dispuser, pois sabe estar numa guerra pela própria sobrevivência, de tal maneira que se multiplicam os ataques não somente a bases americanas, mas também embaixadas, consulados, refinarias, hotéis de luxo, petroleiros, shoppings, aeroportos e assim por diante. E pouco importa que parte dos projéteis sejam interceptados pelos sistemas de defesa dos países do Golfo, haja vista que a mera sensação de insegurança tem causado uma debandada de turistas, preciosa fonte de renda para metrópoles assentadas no dinheiro estrangeiro, tais como Dubai, Doha e Abu Dhabi. Não foi por acaso que tais governos buscaram evitar a deflagração do conflito: seu rombo financeiro é cada vez maior; e não há garantias de que, após o fim da guerra, os turistas estejam dispostos a retornar a uma zona de perigo. Em suma, foi comprovado, novamente, que os EUA só defendem os seus interesses e os de Israel.

Nessas condições, “vencer a guerra” é algo que varia para cada um dos lados. Israel quer ver seu inimigo extirpado; os EUA querem vê-lo de joelhos; os países do Golfo querem um cessar-fogo, enquanto que os iranianos querem se manter de pé ou ao menos tombar levando consigo tudo o que puder. Contudo, ainda há chances para o reestabelecimento das negociações, por mais distantes que elas estejam. A guerra não é uma fatalidade ou uma reação incontrolável do ser humano, e sim uma decisão política, de tal maneira que ela pode ser evitada se as forças políticas interessadas na paz se organizarem e agirem o quanto antes. Tais forças não se encontram apenas no Oriente Médio, mas no mundo inteiro. Enquanto a inerte “comunidade internacional” se limita a emitir notas de repúdio e declarações inócuas, a crise no Oriente Médio se agrava. Mesmo os BRICS, principalmente Rússia e China, têm se mostrado aquém do esperado.

Para quem achou que o ano passado gerou demasiadas transformações, o ano de 2026 nos assombrou, em menos de noventa dias, com acontecimentos que até os mais exaltados hesitariam em prever. Assim, o que veremos daqui em diante pode ser um dos anos mais importantes do novo século.

 

Daniel Viana de Sousa

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