segunda-feira, 30 de março de 2026

Conflitos de um piromante assassino

 

Guerra! Desde o sequestro de Maduro e sua esposa, a gestão de Donald Trump pôs, definitivamente, suas garras à mostra, agindo sem o menor pudor como a pretensa “polícia do mundo”, capaz de bombardear outros povos e assassinar seus líderes, sempre tendo em mente a concretização dos seus interesses particulares.

Tendo ao seu lado o estado de Israel, possuidor de uma das forças armadas mais mortíferas da atualidade, o presidente estadunidense ignorou quaisquer impeditivos internos e externos, incluindo os conselhos de diplomatas e militares com larga experiência, preferindo a solução de arrasar tudo que estiver ao seu alcance, como se isso bastasse para provocar o colapso do regime iraniano. Na realidade, até o momento em que escrevo, a República Islâmica não só sobrevive, mas também provou ser capaz de atingir, com precisão e intensidade, praticamente qualquer alvo no Oriente Médio, chegando até mesmo a ameaçar a base anglo-americana em Diego Garcia, uma ilha a quatro mil quilômetros de distância do seu território. Agravada pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, a reação iraniana põe em risco a estabilidade da economia global, fazendo com que todos nós paguemos por uma inconsequente aventura de Washington e Tel Aviv.

Os efeitos dessa tempestade já se fazem ouvir na opinião pública dos Estados Unidos (EUA). Uma pesquisa divulgada nesta quarta-feira (25) revela que a maioria dos americanos acredita que a guerra contra o Irã foi longe demais. Conduzida pela AP-NORC, a sondagem também mostra que 45% dos entrevistados temem não conseguir arcar com o preço da gasolina. Além disso, de acordo com outra pesquisa, conduzida pela Reuters/Ipsos e liberada nesta terça (24), a aprovação de Trump chegou ao pior nível desde que assumiu a presidência para um segundo mandato, caindo de 40% para 36%. Ainda segundo a Reuters, o aumento da reprovação se deve às ações do presidente contra o Irã. Portanto, não é de se espantar que Trump se apresse em dizer que mantém negociações com lideranças iranianas, algo que elas têm negado categoricamente.

Será esse o início do fim para Trump, ou apenas uma turbulência passageira? Claro que tais índices poderiam, em tese, ser revertidos em benefício à Casa Branca. Afinal, quem ocupa cargos públicos tem mais chances de conservá-los. Os americanos chamam-no de incumbency advantage, que são, basicamente, as vantagens políticas de se ocupar espaços de poder. Para tanto, basta mencionar que, no decorrer da história dos EUA, a maior parte dos presidentes e governadores conseguiram se reeleger para um segundo mandato. No entanto, o que temos visto é um piromante incendiando o mundo ao seu redor, tanto no âmbito interno, quanto no externo. Os embates do ICE contra a população em Minnesota são uma prova da disposição de Trump em “esticar a corda”, ainda que isso ameace a eclosão de uma miniguerra civil no seio do seu território.

Hoje, a maior ameaça à continuidade do atual governo vem das implicações da sua política externa, cujo epicentro se concentra na guerra contra o Irã. Caso esse conflito continue se prolongando, de modo a deteriorar os índices de opinião, o presidente americano pode vir a sofrer uma derrota fragorosa nas eleições de meio mandato, fazendo ressurgir, outra vez, a ameaça de impeachment pelo resto da sua gestão. Previstas para ocorrer no começo de novembro, as midterms elections são responsáveis por determinar os novos ocupantes da Câmara dos Representantes e trinta e três novos senadores. Não foi por acaso que o próprio Donald Trump declarou, no começo deste ano, que sofreria um impeachment caso perdesse as eleições de meio de mandato. Além do mais, um Congresso hostil à Casa Branca emperraria nomeações à Suprema Corte, palco de derrotas recentes na questão da sua política tarifária.

Entretanto, para olharmos o futuro dos Estados Unidos e da guerra contra o Irã, é preciso que relembremos como chegamos até aqui.

Talvez, o fato mais marcante das últimas quatro semanas tenha sido a execução de Ali Khamenei, segundo Líder Supremo do Irã, bem como de boa parte da alta cúpula do seu regime. Trata-se de uma manobra que, de fato, surpreendeu a todos, provando que nenhuma liderança do Sul Global está a salvo em seu próprio território, à exceção, é claro, dos detentores de armas nucleares, haja vista sua mortal capacidade de retaliação. Por outro lado, essa não é a primeira vez que Trump, um suposto crítico das guerras iniciadas pelos membros do partido Republicano, recorre a essa midiática decapitação de rivais estrangeiros. Alguns analistas remetem-na ao assassinato do general Soleimani, ainda em janeiro de 2020, quando um drone MQ-9 Reaper fez voar pelos ares, em solo iraquiano, um dos mais graduados oficiais da Guarda Revolucionária Iraniana. Tal manobra, aos olhos de uma parte do público americano, passava a impressão de uma operação “barata e cirúrgica” contra um inimigo declarado do Ocidente. O Irã, por sua vez, respondeu lançando mísseis contra seu agressor, porém sem causar grandes prejuízos às posições dos EUA na região. Iniciava-se, assim, uma das décadas mais explosivas da história contemporânea.

A lição foi replicada, com assombroso êxito, pelos belicistas em Tel Aviv. Em outubro de 2023, após os ataques perpetrados pelo Hamas, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ordenou sucessivas operações de eliminação de lideranças palestinas, culminando na morte de Ismail Haniyeh, líder máximo do Hamas, em julho do ano seguinte. Mesmo estando no coração da capital iraniana, sede de um regime que, há décadas, luta por sua sobrevivência, Haniyeh não pôde escapar dos tentáculos do Mossad, agência de inteligência que fez explodir sua residência. Ao mesmo tempo, a “precisão” dos ataques israelenses em Gaza não poupou que escolas, universidades e até hospitais fossem reduzidos a escombros; junto às cinzas dessas cidades destroçadas, jazem os corpos de milhares de palestinos mortos, indiscriminadamente, na terra em que viveram seus antepassados. Decerto, os crimes cometidos em Gaza assombrarão as próximas gerações do século XXI.

Enquanto isso, outra operação “cirúrgica” estava a caminho. Dois meses após a morte de Haniyeh, ocorreria a investida aérea que eliminaria o clérigo libanês Hassan Nasrallah, junto com a cúpula do Hezbollah, mais um grupo político e paramilitar apoiado pelos iranianos na sua disputa de longa duração contra os israelenses. Classificado como organização terrorista por muitas nações ocidentais — inclusive por países de maioria muçulmana sunita —, o Hezbollah detém um poder destrutivo muito superior ao do Hamas, chegando a atuar, ao mesmo tempo, nos combates da guerra civil síria e na oposição ao sinistro Daesh. Sem dúvidas, o Hezbollah veio a ser visto, no início da década atual, como uma das forças não estatais mais perigosas do mundo. Isso se deve, em boa medida, ao seu complexo arsenal de foguetes e mísseis que, segundo algumas estimativas, chegara a contabilizar 150 mil projéteis, além de dezenas de milhares de combatentes dispostos a morrer pela causa.

No entanto, tamanho poder de fogo não foi capaz de conter Netanyahu, que, ao perceber a oportunidade de dar fim à vida de seus oponentes, escreveu um novo capítulo na história do Oriente Médio.

A fatídica reunião se deu no contexto do apoio do Hezbollah à resistência palestina, numa escalada de ataques mútuos por meio de mísseis, incursões aéreas etc. A princípio, os fatos não causavam espanto, pois pareciam uma repetição de embates ocorridos em outros momentos. Contudo, em setembro daquele ano, o grupo sofreria um terrível e inesperado golpe. Surpreendentemente, mesmo estando abrigados numa instalação a dezoito metros de profundidade, a Força Aérea Israelense lançou bombas capazes de obliterar o refúgio, matando mais de trinta e três pessoas e ceifando a vida das mais importantes lideranças da temida organização libanesa.

Além de Haniyeh e Nasrallah, diversos outros expoentes palestinos e libaneses foram mortos por Israel desde os ataques liderados pelo Hamas em outubro de 2023. Desse momento em diante, o Oriente Médio sofre a sua pior crise em décadas, e não há sinais de que ela se encerre tão cedo. Pelo contrário, a cada semana que passa, fica mais claro que, no Líbano, somente uma ocupação militar prolongada teria alguma remota possibilidade de impor uma submissão à resistência armada.

Nesta quarta-feira (25), Netanyahu afirmou que, a fim de conter os ataques do Hezbollah, seus soldados expandirão a zona-tampão ao sul do Líbano, indo até o rio Litani, uma das principais fontes de água potável, irrigação e geração de energia da região. Até agora, pelo menos cinco pontes foram bombardeadas pelas forças armadas de Israel, praticamente isolando a parte meridional do país invadido. A justificativa seria de que a população israelense próxima à fronteira encontrava-se ao alcance de ataques vindos do Líbano. Por outro lado, só um insano acreditaria que o Hezbollah fosse assistir a isso de braços cruzados, haja vista que, com a destruição de tais pontes, dezenas de milhares acabaram ilhados no próprio território. Até agora, mais de um milhão de libaneses deixaram suas casas, de sorte que a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) alertou, nesta sexta-feira (27), para o risco de uma catástrofe humanitária.

Essa ação prova que o assassinato de Nasrallah serviu como propaganda, ou, no máximo, como um golpe no ânimo dos combatentes do Hezbollah, porém não foi capaz de se converter numa vitória definitiva por parte de Israel. A decapitação deu fim ao decapitado, mas não àquilo pelo qual ele lutava. Trata-se de um raciocínio simples, porém que escapa àqueles que agem com demasiada soberba. Não é o líder que cria o movimento, e sim o contrário. Os indivíduos têm algum nível de autonomia frente à realidade que os cerca, porém as condições sociais, históricas, econômicas, políticas e culturais ao nosso redor, seguem sendo decisivas na nossa tomada de posição. Portanto, a raiz dos problemas no Oriente Médio não se encontra em indivíduos, quem afirma o oposto procura apenas causar confusão.

Enquanto os ocidentais discutem se o Hamas e o Hezbollah são ou não grupos terroristas, Israel bombardeia tudo que vê pela frente em nome do “direito de defesa”. Este é um dos principais combustíveis que alimenta o extremismo não só no Oriente Médio, mas no coração de qualquer ser humano, seja ele árabe ou não. Assim sendo, a luta de grupos extremistas como o Hamas e o Hezbollah não se sustenta apenas em discursos inflamados, preceitos religiosos ou em líderes carismáticos, e sim na legítima busca pela soberania de povos que não podem ser varridos do mapa, a menos que Israel se proponha a repetir o que Adolf Hitler fez no passado contra o próprio povo judeu, isto é, prendê-los e assassiná-los em câmaras de gás um após o outro. Antes que os últimos palestinos e libaneses morram, entretanto, haverá resistência armada.

No entanto, o grande objetivo almejado por Tel Aviv nunca foi esmagar apenas o Hamas ou o Hezbollah, grupos extremistas que, embora fossem capazes de causar danos a Israel, jamais colocariam em xeque a continuidade da sua existência enquanto estado. Ataques promovidos por terroristas e milícias causam mortes, traumas e prejuízos, mas não destroem Estados. Tais forças operam como instrumentos de intimidação no complexo tabuleiro religioso, político, étnico e cultural que sempre foi o oeste da Ásia. Na realidade, só há um inimigo forte o suficiente para fazer frente a Israel, seja no poderio bélico, seja na resiliência socioeconômica, seja na influência geopolítica: a República Islâmica do Irã, fundada na Revolução de 1979.

Com a escalada militar entre Israel e seus vizinhos, os sucessos das operações Midnight Hammer e Absolute Resolve, alimentou-se, na Casa Branca, a ilusão coletiva de que bastaria um sopro para que o regime iraniano desmoronasse da noite para o dia. Com mais uma operação “barata e cirúrgica”, Trump e Netanyahu se livrariam do seu maior adversário no Oriente Médio, pois, por se tratar de uma “odiosa ditadura teocrática”, o povo iraniano logo se ergueria em solidariedade ao agressor externo, tomando para si as rédeas do seu destino. De fato, por mais risível que pareça, não é difícil encontrar, na própria internet, declarações do líder estadunidense que remetam a essa linha de raciocínio surreal.

Tamanho foi o triunfalismo em Washington, que o próprio Trump convocou as massas do país agredido a tomarem o poder, ao mesmo tempo em que exigia “rendição incondicional” aos sobreviventes do regime. A rendição e o colapso, contudo, não vieram. Desde então, a coalisão agressora atingiu, segundo Pete Hegseth, mais de quinze mil alvos dentro do Irã. O presidente estadunidense chegou a afirmar, no dia 20 de março, que todas as lideranças iranianas haviam sido eliminadas, que a Marinha, a Força Aérea, as defesas antiaéreas e os radares estavam destruídos; ele até mesmo debochou afirmando que “queremos falar com eles e não há ninguém com quem falar […] e gostamos que assim seja”. Ainda assim, a rendição e o colapso não vieram, e um conflito que, supostamente, deveria durar não mais que duas semanas, já se estende por mais de um mês inteiro.

De acordo com o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Aragchi, nem mesmo campos de gás natural e usinas de dessalinização, como a de Qeshm, essenciais para o abastecimento de água por parte da população civil, foram poupadas dos bombardeios. Ademais, horrores como o ataque à escola de Minab, no sul do Irã, em que morreram mais de cem crianças (algumas fontes chegam a falar em cento e oitenta), deram maior legitimidade ao ódio pelos EUA, base que sustenta as facções mais fanáticas de Teerã, justamente aquelas que veem a guerra aos israelenses e americanos como uma sina incontornável.

Em resposta a isso, os ataques iranianos às bases americanas já somam, de acordo com a BBC e o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), 800 milhões de dólares em prejuízo material. Tamanho desgaste cresce a cada dia que passa, com alguns membros do Pentágono alertando que o estoque de munição não deve suportar um conflito demasiadamente prolongado. Cada míssil Tomahawk, por exemplo, custa US$ 3,5 milhões e leva dois anos para ser produzido; até agora, de acordo com o Washington Post, cerca de 850 Tomahawks foram utilizados, sendo que o estoque total seria de 3 mil mísseis. De fato, há duas semanas, o Financial Times expôs que os EUA haviam gasto anos de munição, especialmente de interceptadores Patriot e Thaad, imprescindíveis na defesa contra o enxame de mísseis e drones iranianos.

Ao que tudo indica, a tática de Teerã tem funcionado. De acordo com o The New York Times, apenas nos primeiros seis dias de bombardeio ao Irã, foram gastos US$ 11,3 bilhões, revelaram autoridades do Pentágono a senadores americanos; por outro lado, cada drone Shahed-136 custa em torno de vinte mil dólares, podendo ser produzido aos milhares em qualquer fábrica de pequeno porte. Tais drones não precisam atingir o alvo, nem causar explosões ou destruição em larga escala; basta, apenas, que consumam as defesas dos seus adversários, de modo a deixá-los vulneráveis para as próximas fases da guerra, haja vista que os mísseis iranianos de última geração seguem escondidos, aguardando o melhor momento para entrarem em operação.

A fantasia bélica de Trump e seu círculo de fanáticos foi, de certa maneira, amparada pelos massivos protestos contra o regime teocrático, que, indiscutivelmente, carece de apoio em alguns setores da sociedade, como é o caso da juventude urbana. É difícil saber o número exato de mortos nesses protestos, mas não resta dúvidas de que, diante da real possibilidade de um golpe de estado, o regime recorreu a todos os meios necessários para esmagar os insurgentes, eliminar infiltrados de países inimigos e conservar sua supremacia sobre o restante da sociedade. Tal como no caso venezuelano, é improvável que a república islâmica seja derrubada sem uma cisão nas forças armadas.

No entanto, há que se reconhecer que a revolta popular não é uma exclusividade iraniana. Há uma crise de legitimidade em diversos países do mudo — inclusive de democracias inspiradas em modelos do Ocidente, como é o caso do Nepal —, cujos sistemas políticos atravessam desafios provenientes de questões variadas: fluxos migratórios, mudanças climáticas, instabilidade socioeconômica, desigualdade social, corrupção, guerras, sanções etc.

Contudo, a profunda crise do sistema de governança dos aiatolás não passa de uma desculpa, por parte de Washington, para recuperar o controle sobre uma área perdida desde a Revolução de 1979, cuja importância segue sendo decisiva na sua disputa contra a aliança estratégica entre China e Rússia, a mais grave ameaça à continuidade da sua hegemonia em décadas. Ninguém no Salão Oval está preocupado com a democracia e os Direitos Humanos na Venezuela, no Irã ou em qualquer país da periferia do sistema capitalista. Pelo contrário, os EUA patrocinaram, durante a Guerra Fria (1947-1991), golpes de estados e ditaduras ao redor do mundo, no intuito de assegurar a preservação dos seus interesses em contraposição ao bloco socialista.

A execução de Ali Khamenei, junto com vários integrantes da sua família e da cúpula governamental, entretanto, gerou o efeito oposto àquele pretendido por Trump e sua camarilha: o regime manteve-se forte o bastante para suportar o impacto do primeiro golpe, preservou seu funcionamento e revidou militarmente, atacando diversos pontos do Oriente Médio e fechando o Estreito de Ormuz, de modo a provocar os primeiros tremores na economia mundial. Pouco a pouco, o preço do barril de petróleo sobe nos mercados globais, encarecendo mercadorias mundo afora e alimentando o risco de um abalo econômico devastador. E, caso as infraestruturas energéticas dos demais países do Golfo Pérsico sejam severamente comprometidas, testemunharemos uma crise global nunca antes vista.

Ao que parece, Donald Trump está perfeitamente ciente disso, pois ameaçou atacar a ilha de Kharg, local em que está concentrada 90% da exportação de petróleo iraniano. Não foi à toa que, ainda no começo da guerra, o líder da oposição israelense Yair Lapid afirmou que a destruição do terminal "paralisaria a economia do Irã e derrubaria o regime". Ele defendeu que Israel "deve destruir todos os campos de petróleo e a indústria energética do Irã na ilha de Kharg". Ao mesmo tempo, o Irã já demonstrou que pode atingir, com drones e mísseis variados, a infraestrutura energética de quase todos os países da região — mesmo países muito afastados do Golfo Pérsico, como a Turquia e o Azerbaijão, foram alvos de projéteis iranianos, alertando a todos para o fantasma de uma conflagração generalizada. Fala-se até na existência de “cidades subterrâneas” com mísseis secretos, cujo poder superaria em muito aqueles usados até agora. Se isso é verdade, provavelmente, saberemos nas próximas semanas.

Considerando o aumento gradativo de tropas americanas em toda a região, algo em torno de cinquenta mil soldados, além de dois porta-aviões e diversos navios anfíbios, é cada vez mais provável que o conflito evolua para níveis ainda mais dramáticos.

Neste sábado (28), em resposta aos ataques contra o Irã e o Líbano, os Houthis, grupo armado iemenita apoiado por Teerã, entrou na guerra disparando mísseis balísticos contra Israel, que, por sua vez, disse tê-los interceptados. Sua maior arma, no entanto, é a possibilidade de bloquear o Estreito de Bab el-Mandeb, outro ponto nevrálgico da economia mundial, por onde passa 12% do petróleo comercializado por via marítima. Ao leitor desavisado, esta cifra pode parecer diminuta, mas as implicações de um bloqueio prolongado de Bab el-Mandeb resultariam em um prejuízo bilionário para diversas economias compradoras do petróleo do Oriente Médio, particularmente, as grandes economias asiáticas. Tendo em vista que, com o fechamento de Ormuz, o preço do barril de petróleo já subiu fortemente, forçando, por exemplo, a retirada provisória das sanções sobre a Rússia, um bloqueio de Bab el-Mandeb teria consequências ainda mais imprevisíveis para a geopolítica e a geoeconomia. Somente em março, o petróleo chegou a ser cotado acima de US$ 115 por barril, acumulando uma alta mensal de 59%, a maior desde 1990.

No momento atual, a Casa Branca precisa tomar mais uma decisão que selará a vida de milhões ao redor do mundo: invadir ou não o Irã? Se Trump recorrer a uma invasão terrestre do território inimigo, nos moldes clássicos da história militar, ele correrá o risco de enfiar o seu país num lamaçal sem volta, repetindo, talvez, a experiência traumática que se deu no Vietnam (1955-1975), em que morreram mais de 58 mil soldados estadunidenses em vão; ou, talvez, cometa a insensatez de ocupar partes do território iraniano, repetindo os erros das guerras no Afeganistão e no Iraque, em que foram gastos trilhões de dólares inutilmente. Mesmo uma invasão da ilha de Kharg exigiria, nas palavras de Trump, “ficar lá [na ilha de Kharg] por um tempo”, o que já dá uma ideia da complexidade que envolve ações militares de larga envergadura. Apenas a supremacia tecnológica e a cólera destrutiva são insuficientes para obter uma vitória completa, tal como demonstrou as invasões contra os povos vietnamita, afegão e iraquiano. E por “vitória completa”, refiro-me a uma derrota militar total das forças iranianas, seguida por uma mudança de regime e a implantação de um governo favorável aos Estados Unidos.

Tal qual um piromante que perde o controle sobre o fogo que tem em mãos, Donald Trump está se dando conta de que o circo em chamas cairá não só sobre a plateia horrorizada, mas também sobre ele mesmo. Diante disso, sua solução é a única capaz de conceber: atear mais fogo ainda.

Ao invés de “capitulação incondicional”, como exigia o mandatário estadunidense, o regime elegeu o filho de Khamenei como terceiro líder supremo, posição máxima na sua estrutura hierárquica, poderoso o suficiente para influenciar os centros decisórios da sociedade iraniana. Considerado um nome da linha-dura, portanto, defensor férreo do sistema teocrático, Mojtaba Khamenei segue escondido, ciente de que subestimar o Mossad seria um erro que lhe cobraria a própria vida. Aliás, nada garante que ele continue vivo nos próximos meses, bem como todo o restante da classe dirigente iraniana, tal como demonstrou a recente morte de Ali Larijani, mais um membro da alta cúpula a ser morto pela força aérea israelense. Enfim, como explicitei ao longo desse texto, a coalizão agressora já provou sua capacidade de decapitação, ainda que não tenha obtido o tão ansiado regime change. É provável que, nesses primeiros meses da guerra, Mojtaba Khamenei governe a partir do exterior — talvez, de algum refúgio controlado por russos ou chineses. Afinal, é necessário ressaltar que, tanto para Beijing quanto para Moscou, a sobrevivência do regime iraniano é um assunto da mais alta relevância.

A essa altura, a fera iraniana lutará com todos meios que dispuser, pois sabe estar numa guerra pela própria sobrevivência, de tal maneira que se multiplicam os ataques não somente a bases americanas, mas também embaixadas, consulados, refinarias, hotéis de luxo, petroleiros, shoppings, aeroportos e assim por diante. E pouco importa que parte dos projéteis sejam interceptados pelos sistemas de defesa dos países do Golfo, haja vista que a mera sensação de insegurança tem causado uma debandada de turistas, preciosa fonte de renda para metrópoles assentadas no dinheiro estrangeiro, tais como Dubai, Doha e Abu Dhabi. Não foi por acaso que tais governos buscaram evitar a deflagração do conflito: seu rombo financeiro é cada vez maior; e não há garantias de que, após o fim da guerra, os turistas estejam dispostos a retornar a uma zona de perigo. Em suma, foi comprovado, novamente, que os EUA só defendem os seus interesses e os de Israel.

Nessas condições, “vencer a guerra” é algo que varia para cada um dos lados. Israel quer ver seu inimigo extirpado; os EUA querem vê-lo de joelhos; os países do Golfo querem um cessar-fogo, enquanto que os iranianos querem se manter de pé ou ao menos tombar levando consigo tudo o que puder. Contudo, ainda há chances para o reestabelecimento das negociações, por mais distantes que elas estejam. A guerra não é uma fatalidade ou uma reação incontrolável do ser humano, e sim uma decisão política, de tal maneira que ela pode ser evitada se as forças políticas interessadas na paz se organizarem e agirem o quanto antes. Tais forças não se encontram apenas no Oriente Médio, mas no mundo inteiro. Enquanto a inerte “comunidade internacional” se limita a emitir notas de repúdio e declarações inócuas, a crise no Oriente Médio se agrava. Mesmo os BRICS, principalmente Rússia e China, têm se mostrado aquém do esperado.

Para quem achou que o ano passado gerou demasiadas transformações, o ano de 2026 nos assombrou, em menos de noventa dias, com acontecimentos que até os mais exaltados hesitariam em prever. Assim, o que veremos daqui em diante pode ser um dos anos mais importantes do novo século.

 

Daniel Viana de Sousa

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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Livros lidos em 2025

 

A cada ano que se acaba, colecionamos as nossas próprias vitórias e fracassos. Quem for realmente honesto, reconhecerá que nem tudo foi desperdício de tempo, nem tampouco dirá que colheu apenas os frutos mais saborosos. Nossas vidas não se restringem ao preto-e-branco dos olhares maniqueístas. Certamente, houve percalços, mas também momentos de imenso prazer, bem como outras tantas memórias que perdemos para sempre na agitação do dia a dia, quando estamos ocupados em chegar na hora marcada, em entregar o trabalho dentro do prazo estipulado, em responder a mensagem urgente que nos chega pelo celular.

Felizmente, não há como lembrar de tudo, de modo que cérebro e mente selecionam — conscientemente ou não — aquilo que permanecerá conosco no decorrer da nossa jornada. Algumas vezes, as memórias guardadas nos fazem bem; outras vezes, elas podem nos adoecer se ficarem tempo demais com a gente. A princípio, tal adoecimento pode vir à tona discretamente, como uma insônia mal resolvida ou uma melancolia sempre à espreita, no entanto, se ele vier a formar raízes profundas, o sujeito adoecido estará semeando para si um futuro ainda mais amargo e doloroso. Pouco a pouco, os sorrisos se tornam escassos, a vivacidade do olhar se esmorece… Dormir acaba sendo algo mais difícil que o normal; banhar-se e sair de casa vira uma missão árdua.

Mas essa história não termina aí. Por vezes, o adoecimento de uma pessoa só pode comprometer a saúde mental de uma família, empresa, coletivo… de tal maneira que o que alimentamos internamente não se restringe somente a nós. Na realidade, com nosso mal-estar individual, aparentemente circunscrito ao nosso ego empoleirado, podemos estar arruinando a vida que compartilhamos com aqueles que mais amamos. Como animais encurralados, somos convencidos a observar o mundo por uma perspectiva estreita e autocentrada, quando, na verdade, precisamos aprender a ampliar o olhar, de modo a conceber novas maneiras de enxergar. Às vezes, é se perdoando que, enfim, aprendemos a perdoar os outros; é olhando para si que, finalmente, aprendemos a olhar para os demais. Ao cuidarmos da nossa saúde mental, estamos cuidando de todos à nossa volta, pois estamos inseridos num cosmo compartilhado. Somos folhas de um mesmo galho, ramos nascidos de uma mesma árvore, árvores germinadas de uma única Terra. Nada está à parte. Quem se vê apartado dos demais, ainda não compreendeu quem, de fato, é.

É uma pena que não nos ensinem isso mais cedo, quando estamos ainda no começo das nossas vidas e podemos evitar os erros mais banais. Para a nossa tragédia pessoal, saber recordar o que, realmente, importa — e descartar aquilo que nos faz apenas mal — é uma arte que, em geral, aprendemos com muitos anos acumulados em nossas costas. Alguns só conseguem aprendê-lo após cumprirem anos de terapia. Ainda hoje, na educação das nossas crianças e adolescentes, priorizamos o aprendizado das ciências convencionais, como se o autocuidado e o autoconhecimento fossem algo secundário e supérfluo, um detalhe a ser tratado a posteriori. Temo que, se isso não mudar o quanto antes, veremos as novas gerações repetirem os mesmos sofrimentos e equívocos das gerações passadas.

Meu esforço em fazer uma lista dos livros que li ao longo do ano, se justifica na necessidade de olhar para trás e ver o caminho percorrido, recordar a jornada que comecei doze meses atrás. Ademais, no que diz respeito ao saldo de leituras concluídas, não posso dizer que fiquei inteiramente satisfeito ou frustrado. Embora tenha lido pouco, sinto que fui mais longe do que esperava. Ler o Fausto de Goethe, ainda que só a Primeira Parte, foi um dos maiores desafios literários que eu já tive na minha vida. Suspeito que, no futuro, terei de voltar a lê-lo.

Por fim, espero concluir, neste ano, a leitura de vinte livros. Assim, conseguirei ultrapassar a marca dos anos anteriores. É verdade que ler não é o mesmo que executar uma prova de atletismo, porém, da minha parte, há que se esforçar em ler mais.

Segue abaixo a lista dos livros lidos por mim em 2025:

1.      Wild Thing, Philip Norman (Liveright Publishing Corporation);

2.      Ressureição, Machado de Assis (Nova Fronteira);

3.      A Mão e a Luva, Machado de Assis (Nova Fronteira);

4.      O que fazer?, Vladimir Lênin (Boitempo);

5.      Niketche, Paulina Chiziane (Companhia de Bolso);

6.      A Ditadura envergonhada, Elio Gaspari (Intrínseca);

7.      Fausto: Primeira Parte, Goethe (Editora 34);

 

 

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Um novo mundo se constrói

 

      Em agosto do ano passado, tive a oportunidade de refletir sobre o surgimento de uma nova ordem do poder global. Naquele momento, abordei diversos temas: ascensão da China, declínio dos Estados Unidos, crises e guerras mundo afora.

Ainda assim, a minha ambição em propor uma visão panorâmica e precisa do nosso mundo encontra limites na infinidade de personagens dignos de nota, na enxurrada de eventos que se acumulam a cada dia e na complexidade de questões que exigiriam uma observação mais esmiuçada, além da incontornável falta de tempo do próprio autor. Realmente, eu abro mão de qualquer pretensão em dar por encerradas as discussões que levanto nas minhas análises, a despeito dos esforços que faço nessa direção. Prefiro apontar o destino das aves que voam, ao mesmo tempo em que recolho os tremores que emergem do reino subterrâneo.

O fato é que toda análise requer um recorte, de tal maneira que o texto atual repetirá a impressão de ter sido feito às pressas, ou seja, sem o acabamento que se esperaria de um ourives frente a uma gema preciosa. Aliás, é possível que, nos dias seguintes à publicação deste texto, novos acontecimentos o tornem irremediavelmente defasado, tamanha é a celeridade dos fatos que temos presenciado.

Feitos os ajustes iniciais, passemos para a análise do cenário internacional.

            Não é preciso ser um especialista para se dar conta de que os alicerces do tabuleiro geopolítico se estremeceram nos últimos doze meses. Afinal, mesmo o público leigo, pouco familiarizado com disputas de longa data e termos herméticos, percebe que vivemos um momento de transição profunda e de tensão crescente, cujo ápice, até agora, pode ter sido o bombardeamento, por parte da Força Aérea dos EUA, às instalações nucleares do Irã.

No espaço de algumas horas, o programa nuclear iraniano, motivo de temores por parte de seus rivais ao longo de décadas, foi varrido do mapa numa operação de proporções espantosas, comprovando, mais uma vez, que os americanos não são um tigre de papel. No mundo de hoje, quantos países detêm a mesma capacidade de planejar, mobilizar, localizar e destruir seus alvos a meio mundo de distância, e fazendo-o sem nenhuma baixa militar? Quase nenhum. Isso explica por que os EUA são a maior potência militar do planeta, algo que deve se manter inalterado por muitos anos à nossa frente.

            No entanto, como todo império em declínio, os estadunidenses não poderiam se satisfazer em violar apenas a soberania iraniana, pois não é somente Teerã que tem buscado uma alternativa viável ao imperialismo ianque. Ao contrário, à medida que a China cresce e fóruns multilaterais, como o BRICS, ganham representatividade mundial, mais nações batem à porta de Xi Jinping, presidente da segunda maior economia do planeta e secretário-geral do maior partido comunista do mundo, à procura de auxílio financeiro para os dias difíceis que testemunhamos. Cada vez mais, o “dinheiro comunista” chega aos países do Sul Global na forma de investimentos em infraestrutura, ao mesmo tempo em que Beijing consome, vorazmente, as commodities extraídas dessas nações, transformando-se na locomotiva do capitalismo tardio.

Para esses estrategistas, pouco importa se os seus clientes são fanáticos do Talibã, arquirrivais indianos ou até mesmo as avançadas empresas do Vale do Silício. Na verdade, todos são bem-vindos, desde que não se metam nos assuntos internos chineses, ou atrapalhem a política externa delineada pelo Comitê Permanente do Politburo, a alta cúpula do seu centenário partido. Assim, no espaço de poucas gerações, tal estratégia produziu uma façanha sem precedentes na história da Humanidade: metrópoles surgiram do nada, trens de alta velocidade adentraram o interior, multidões de jovens se educaram em universidades, mais de setecentas milhões de pessoas deixaram a pobreza etc. A essa altura, não há mais dúvidas de que a grande vencedora da globalização foi a República Popular da China.

Tamanho êxito jamais seria aceito por Washington, que, aliás, sempre apostou que o século XXI seria um novo “Século Americano”, jamais um século “da China”, ou mesmo “da Ásia”. De fato, quem se encontra numa posição hegemônica, costuma se convencer não só que sua vocação à supremacia é um fato inquestionável, mas também que ela é a forma natural do mundo funcionar, uma espécie de modus operandi visceralmente superior a todos os demais. Decerto, todos os impérios sonharam que seu esplendor duraria para sempre, como o brilho do Sol sobre as suas cabeças, cabendo ao restante da Humanidade contentar-se com a submissão completa. Os romanos conseguiram sobreviver por mais de mil anos, até que Constantinopla foi tomada, pelos muçulmanos, em 1453; os ibéricos inauguraram o primeiro império transoceânico e transcontinental da história, até serem expulsos das suas colônias pelas mãos dos próprios colonizados; os britânicos controlaram os mares e, neles, foram invencíveis por gerações, até verem sua juventude ser dizimada no lamaçal das trincheiras europeias. Todos se entorpeceram com seus triunfos, convencendo-se que nada seria capaz de detê-los, mas a realidade dos fatos, enfim, se impôs. Agora, tais impérios não passam de uma sombra do passado, vivendo apenas nos livros e nos monumentos deixados para trás. Então, por que o poderio americano teria um destino diferente dos seus antecessores?

Ao longo das décadas de 1990 e 2000, pensava-se que a abertura chinesa resultaria, necessariamente, na instabilidade e implosão do regime comunista, o que, por sua vez, poderia levar a uma fragmentação territorial, algo semelhante ao que acabara de ocorrer à União Soviética e aos demais países do Pacto de Varsóvia. Além disso, o massacre na Praça da Paz Celestial expunha uma insatisfação latente naquela sociedade, recém-saída do longo período maoísta (1949-1976), que poderia ser melhor explorada por quintas-colunas insufladas externamente, pois, tal como os soviéticos, a China possui minorias étnicas que poderiam ser seduzidas pelo separatismo. Nessa época, havia um otimismo quase delirante de que o mundo inteiro se curvaria ao Consenso de Washington, ou experimentaria a mesma debacle do experimento soviético. Em suma, apostava-se na impossibilidade de coexistência de uma economia de mercado ultramoderna com o autoritarismo de Beijing. Porém, o tiro saiu pela culatra e, pela primeira vez, uma nação assentada no Terceiro Mundo senta-se frente a frente com os senhores da Casa Branca.

Ao mesmo tempo em que a China cresce, não há boas notícias para seus velhos antagonistas da Guerra Fria (1947-1991). Mesmo alguns dos mais fervorosos aliados dos EUA, como Japão, Coreia do Sul e Austrália, encontram-se pressionados pela nova conjuntura geoeconômica, haja vista que seu maior parceiro comercial é o dragão asiático. Mesmo a América Latina, eterna zona de influência dos ianques, lida com o fato de que não pode prescindir dos vínculos com Beijing. Sem a venda de suas matérias-primas, como o cobre, a soja e o minério de ferro, grande parte das economias latino-americanas afundariam em recessão, ou seja, tais laços econômicos se estreitaram a tal ponto que, a despeito dos desmandos de Trump, uma ruptura tornou-se, simplesmente, inviável. Em outras palavras, os comunistas usaram as regras do capitalismo para “virar a mesa”, pegando de surpresa seus antigos adversários.

Logo, os falcões compreendem que, para preservarem sua hegemonia por mais duas ou três gerações, o caos deve ser levado à periferia do globo, especialmente, quando se trata daqueles que põem em xeque sua pretensa autoridade. Afinal, fazer guerra segue sendo sua expertise. Contudo, até Donald Trump sabe que um enfrentamento militar contra os chineses resultaria numa hecatombe nuclear, de modo que a destruição será imposta aos “elos fracos”, isto é, as nações do Sul Global. De acordo com a visão de mundo dos ocupantes do Salão Oval, deve-se impor aos demais países a seguinte escolha: ser vassalo ou sofrer as consequências do caminho contrário.

            Assim, diante do sucesso do ataque às instalações iranianas, quais as chances do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, sobreviver às recentes investidas de Washington no Mar do Caribe?

Desde agosto, navios, caças F-35, submarinos e milhares de tropas foram deslocadas para as cercanias da costa venezuelana. Enquanto isso, o secretário de guerra dos EUA, Pete Hegseth, ordenou que o grupo de ataque Gerald Ford, composto pelo maior porta-aviões do mundo, partisse rumo às águas caribenhas. Ao mesmo tempo em que várias embarcações — suspeitas de levarem drogas ao território norte-americano — foram destruídas em águas internacionais, contabilizando dezenas de mortos. Para estes supostos “narcoterroristas”, não houve direito de defesa. Pelo contrário, praticaram-se execuções sumárias típicas de um western de gosto duvidoso.

Caracas reage dando fuzis à população civil e acusa os EUA de fabricarem um conflito, tendo em vista a derrubada do regime bolivariano, algo que faz todo o sentido, haja vista o fato de que a Venezuela — além de ser compradora de armamento russo, fornecedora de petróleo aos chineses e principal aliada de Cuba no continente — é uma das maiores detentoras de reservas petrolíferas. Aliás, engana-se quem pensa que essa matéria-prima perderá sua relevância estratégica no futuro próximo. Mesmo com o avanço gradual da exploração de energias renováveis, economias pujantes, como a chinesa e a estadunidense, consomem imensas quantidades de combustíveis fósseis, a despeito dos esforços em transitar para uma economia sustentável. Não é por acaso que a flutuação do preço do barril ainda faz estremecer as relações internacionais. Se o seu preço aumenta, a nação petroleira desfruta de enriquecimento, mas, se o preço do mesmo barril despenca, a explosão de uma crise torna-se quase inevitável. No caso venezuelano, a dependência da exportação do petróleo é, sem dúvidas, seu ponto mais fraco.

Ora, invasões militares em larga escala são, em geral, precedidas por grandes mobilizações de veículos e tropas, tal como vimos, em 2022, no ataque russo às terras ucranianas. Numa era de interconectividade global, não haveria como escondê-lo por muito tempo, restando ao lado enfraquecido clamar por misericórdia de todas as maneiras possíveis, como já se antecipou o próprio presidente Maduro ao repetir, em inglês: “no crazy war, please”.

A Casa Branca, por sua vez, limita-se a responder que está combatendo o narcotráfico, igualando-o ao terrorismo da Al-Qaeda, e acusa o mandatário venezuelano de chefiar o Cártel de los Soles, porém ninguém precisa recorrer a um submarino nuclear ou um grandioso porta-aviões para combater cartéis de droga. Na realidade, a chamada “guerra às drogas” é tudo menos uma guerra convencional. Armamentos, veículos, táticas e soldados que podem ser úteis num conflito interestatal, como o que temos visto na Europa Oriental, acabam sendo ineficientes em uma guerra ao que se têm chamado de narcoterrorismo. A “batalha contra as drogas” se faz, acima de tudo, no acolhimento humanizado ao dependente químico, buscando retirá-lo de sua condição via auxílio médico e psicossocial — algo que passa longe dos planos de quem ocupa hoje o Salão Oval.

Em geral, a solução policialesca tem servido, tanto nos EUA como no Brasil, para inchar presídios, militarizar forças de segurança, aterrorizar comunidades e produzir chacinas. Dessa forma, pouco importa quantas lanchas sejam bombardeadas no Caribe ou no Pacífico, o fluxo de narcóticos seguirá seu destino rumo às metrópoles estadunidenses, alimentando, tragicamente, o número cada vez maior de dependentes químicos, bem como suas nefastas implicações. Em suma, as movimentações que temos visto não visam o fim da entrada de drogas nos EUA, por mais que a Casa Branca insista nessa narrativa. Trata-se, na realidade, do que pode vir a ser a maior intervenção estadunidense na América Latina em décadas, de tal maneira que nem os brasileiros poderão manter-se indiferentes ao que se sucederá nos próximos meses.

Com efeito, do ponto de vista norte-americano, o momento não poderia ser mais propício para acabar, de uma vez por todas, com Maduro e o chavismo. Tal como ocorrera com a Síria de Bashar al-Assad, o apoio de aliados externos serviu como um bote de salva-vidas para o regime em Caracas. Graças a essa camaradagem, os ocupantes do palácio de Miraflores resistiram a duras sanções, caos econômico, tentativas de sublevação, congelamento de ativos e outras formas de ingerência. Apostou-se até em figuras insípidas, como o autointitulado presidente Juan Guaidó, porém sem nenhum sucesso prático.

De fato, tentou-se de tudo, e, mesmo assim, o regime soube se manter de pé ano após ano, algo raramente visto em nosso continente. Há quem atribua tamanha resiliência à fidelidade dos militares ao regime, à incompetência da oposição, à politização das massas, ao apreço do povo pela memória de Chávez, à repressão do governo e assim por diante. De toda maneira, o chavismo arregimentou parte das classes populares ao seu favor, enquanto o restante aderiu à oposição ou fugiu para nações minimamente estáveis. De acordo com a ONU, cerca de 7,7 milhões de venezuelanos deixaram o país desde a década passada, num dos maiores êxodos migratórios da contemporaneidade; a vasta maioria emigrou para países hispano-americanos, como Colômbia, Peru e Chile, mas uma parcela considerável também se locomoveu para os EUA e o Brasil, gerando tensões xenofóbicas cada vez mais preocupantes.

A discrepância entre o poderio bélico dos EUA e da Venezuela dispensa comentários. Basta dizer que, se Nicolás Maduro recorrer unicamente à força das tropas bolivarianas, por mais destemidas que sejam as milícias populares, seu destino, provavelmente, será similar ao de Salvador Allende: morrerá no próprio palácio de Miraflores. Outra forma de matá-lo seria recorrendo aos métodos da CIA, célebre por elaborar meios de “neutralizar” lideranças como Fidel Castro. O fato é que, mesmo possuindo armamento russo, fontes anônimas revelam, em portais de notícia, que as tropas venezuelanas estão mal equipadas e despreparadas para um confronto direto. Também lhes falta experiência de combate, um componente imprescindível em qualquer tipo de guerra. Ademais, com a Rússia ocupada em conquistar o Donbas e a China tendo de lidar com as tarifas impostas por Trump, a situação Nicolás Maduro é delicadíssima, para dizer o mínimo. Até aliados ideológicos, como o presidente da Colômbia, alertam para a necessidade de um governo de transição, pois, nas suas palavras, “um desmantelamento violento do Estado venezuelano atual trará um fortalecimento dos grupos e gangues armadas que buscarão controle territorial”.

No momento em que escrevo, a aposta de Maduro é encontrar uma forma de evitar a sua saída, ou pelo menos postergá-la. Segundo o New York Times, foi oferecida a possibilidade de uma renúncia dentro de dois a três anos, porém a Casa Branca rejeitou a proposta.

Além disso, a despeito das diferenças entre Síria e Venezuela, o exemplo do que ocorreu a Bashar al-Assad deve servir de aviso ao regime bolivariano, pois, no intervalo de apenas duas semanas, a família Assad, que governou a Síria por mais de cinquenta anos, foi expulsa pelos rebeldes que combatera desde 2011. De fato, muitos já tinham por certo que a guerra civil síria, uma das mais brutais do século XXI, estava a caminho de uma vitória completa por parte do governo em Damasco. Contudo, a mudança de prioridades geoestratégicas por parte de Moscou e Teerã — além do enfraquecimento do Hezbollah —, abriu uma oportunidade que os rebeldes souberam explorar a seu favor, gerando aquilo que, popularmente, é descrito como um “efeito dominó”. Diante do súbito avanço da oposição, os militares governistas desistiram de lutar, refugiaram-se em áreas costeiras ou se exilaram. Desse modo, o regime, simplesmente, caiu, para o espanto dos seus adversários, recebidos de braços abertos pela população eufórica em Damasco. Quem poderia imaginar que algo tão repentino e profundo pudesse ocorrer como tamanha rapidez? Mesmo os analistas mais experientes foram pegos de surpresa.

O caso sírio é um reflexo dos tempos atuais. As velhas estruturas que consolidavam o poder político em torno de si e que eram capazes de suportar grandes conflagrações, agora, colapsam em semanas. Pouco importa se falamos de uma pequenina nação budista como o Nepal, ou se é uma sociedade islâmica do Oriente Médio como a Síria. Também pouco importa, aos olhos do Ocidente, se Israel promoveu um genocídio em Gaza, ou se Donald Trump deseja ser aceito como “rei da América”, a mesma nação que elaborou o que entendemos por democracia liberal. Tal desmantelamento das macroestruturas se associa a uma interconexão das diversas crises: mudanças climáticas, extinção em massa, instabilidade econômica, fluxos migratórios, crise de legitimidade das democracias etc. Temos, cada vez mais, a sensação de que o mundo ao nosso redor desmorona numa direção que não somos capazes de prever e muito menos de controlar. Para suportar tamanho sofrimento, muitos aderem ao fundamentalismo religioso, ao uso abusivo de entorpecentes, ao isolamento ou mesmo ao suicídio.

Na esfera política, os sinais desse adoecimento coletivo se apresentam na emergência de políticos que se dizem “contrários ao sistema”, tais como Trump, Bolsonaro, Milei etc. Além disso, o acomodamento da esquerda à ordem liberal, em função do desaparecimento da União Soviética e do aparente triunfo do sistema capitalista, é indissociável do surgimento desse extremismo pretensamente anti-establishment. Enquanto que, aos olhos da extrema direita, tais nomes seriam a personificação da esperança na luta contra o “comunismo” e o “globalismo”, vejo neles sintomas de um Ocidente que se perdeu pelo caminho, esquecendo-se dos valores que defendera desde as revoluções liberais do século XVIII. Foi exatamente a partir dessas revoluções na Inglaterra (1688), EUA (1776) e França (1789), que o Ocidente testemunhou seu período áureo, sendo, inclusive, capaz de fazer dobrar os demais povos aos seus ditames. Em nome do progresso econômico, cultural e cientifico, deixou-se de lado o obscurantismo medieval, de modo que, em épocas de maior lucidez, tais figuras jamais alcançariam a posição de estadistas. Ao contrário, seriam relegados à sarjeta.

Sem dúvidas, Donald Trump é a figura mais midiática da política internacional, porém mais pelos seus desvarios do que por um suposto brilhantismo na condução da sua política externa, algo que captura, com extrema facilidade, as manchetes dos portais e o burburinho infindável das redes sociais. Sua onipresença no noticiário é fruto de um histrionismo sedento por atenção, e não de uma genialidade desmerecida pela “imprensa esquerdopata”. Basta compará-lo a presidentes como F.D. Roosevelt ou Abraham Lincoln para concluir que os EUA vivem uma seríssima crise na formação de lideranças qualificadas para a complexa tarefa de governar. Sugerir sandices, como a anexação da Groelândia ou do Canadá, é mais midiático do que se sentar à mesa e esforçar-se, ao longo de muitos meses, por costurar um acordo minimamente justo aos envolvidos. Tal como um antiquado imperador romano, Donald Trump precisa entregar alguma conquista ao seu eleitorado, caso ainda queria rasgar a velha constituição e arriscar-se na busca de um terceiro mandato.

E para que tanta pressa? Mais uma vez, a resposta está no crescimento da China.

            Em setembro, foi realizado, no centro de Beijing, um portentoso desfile militar para comemorar os oitenta anos do fim da 2ª Guerra Mundial. No evento, tido como um dos mais importantes deste ano, viu-se de tudo: veículos de combate, tropas em marcha, mísseis balísticos, drones… Ao apresentar seu mais avançado arsenal, a nação chinesa comprovou que já não é mais uma mera replicadora de tecnologias vindas de fora. Pouco a pouco, a China volta a ser o que era em épocas passadas: o reino do meio. Seja no que diz respeito à fabricação de mísseis hipersônicos ou à manufatura de drones, os chineses estão na disputa pela vanguarda tecnológica, competindo, palmo a palmo, com os americanos pela supremacia em áreas sensíveis do meio militar.           

Porém, a geopolítica não se faz só com armas sofisticadas. Qualquer pretendente a superpotência precisa trazer aliados para o seu lado, em especial os mais fortes, ricos e confiáveis. Afinal, ninguém salva o próprio pescoço se for largado na selva sozinho. Mesmo os norte-coreanos reconhecem isso ao se aproximarem de Xi e, em especial, de Vladimir Putin, haja vista a cooperação militar de Pyongyang na guerra contra os ucranianos. De fato, à medida que o cenário global mostra-se cada vez mais instável em todas as latitudes, alianças precisam ser formadas o quanto antes, de modo que é natural que se fale, cada vez mais, no princípio de uma 2ª Guerra Fria, ou mesmo de uma possível 3ª Guerra Mundial. Até agora, todos falam em pacificação, ao mesmo tempo em que afiam o gume de suas espadas.

            No desfile mencionado, como já era de se esperar, a mídia pôs em evidência a presença de Putin e Kim Jong-un, que assistiram a tudo numa posição privilegiada. O grau de cortesia da recepção de Xi Jinping demonstra a relevância desses vizinhos para os seus planos futuros quanto à expansão chinesa pela Eurásia. No entanto, a visita de Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia, foi um dos fatos mais importantes da geopolítica recente, com possíveis efeitos adversos para as potências que ainda se perguntam sobre como conter a ascensão do dragão oriental.

Modi visitou a China pela primeira vez em sete anos, por ocasião da 24ª cúpula de abertura da Organização para Cooperação de Shangai (OCS), organismo multilateral criado e capitaneado por russos e chineses, cujo objetivo é, essencialmente, remodelar as relações internacionais em favor de Moscou e Beijing. Se, no passado, os diplomatas e líderes chineses eram cautelosos em suas manobras e ambições geopolíticas, agora tudo é diferente. Com efeito, Xi Jinping foi explícito em expor — na presença de vinte lideranças euroasiáticas — a necessidade de uma Iniciativa de Governança Global (IGG), algo que não se via desde 1991, ano do colapso soviético. Nas palavras de Xi Jinping, devemos “defender a visão de uma governança global com ampla consulta e contribuição conjunta para benefício compartilhado, fortalecer a solidariedade e a coordenação e nos opor ao unilateralismo”.

Qualquer estrategista minimamente perspicaz sabe que é quase impossível conter o avanço da China sem o apoio da Índia, sua grande rival regional, possuidora de uma civilização milenar, uma economia pujante, uma população descomunal e um arsenal nuclear forte o suficiente para arrasar seus vizinhos em poucas horas. Decerto, foram registradas escaramuças entre soldados indianos e chineses em anos recentes, fruto de disputas fronteiriças ainda sem uma solução diplomática. No entanto, a ida de Narendra Modi à cúpula da OCS parece indicar a disposição, por parte de ambos os lados, de deixar de lado velhas divergências em nome de um bem comum: sobreviver aos desvarios de Donald Trump e promover uma maior integração das suas civilizações.

Por fim, numa foto emblemática, Vladimir Putin (Rússia), Xi Jinping (China) e Narendra Modi (Índia) entrelaçaram as suas mãos, simbolizando uma união do mais alto nível. Nas relações internacionais, fotos não são uma trivialidade; elas comunicam, explicitamente, algo que dispensa tratados, promessas e palavras. Por outro lado, ainda temos um longo caminho pela frente. A cartada da terceira guerra mundial ainda se esconde sob a manga dos EUA, que pode se recusar a abrir mão da sua hegemonia imperial, levando-nos todos ao matadouro de uma guerra sem vencedores.

            Se Xi Jinping souber trazer a Índia para o seu lado, superando uma profunda rivalidade histórica, o Ocidente verá as três maiores potências da Eurásia alinhadas em oposição aos seus desígnios. E não há nada que ele possa fazer a respeito. Trata-se de um novo mundo que se constrói.

 

Daniel Viana de Sousa

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quinta-feira, 31 de julho de 2025

A causa nacional

 

      Mais uma vez, somos confrontados por uma polêmica que, de tempos em tempos, volta a inflamar o debate público. Esse é um tema que nunca perde a capacidade de nos capturar, seduzindo-nos com seu apelo ao sentido mais profundo de quem somos aqui e agora, nesse espaço que compartilhamos uns com os outros. Trata-se da causa nacional, revivida pela interferência da maior potência da nossa época, os Estados Unidos da América (EUA), em relação à soberania brasileira.

Assim que se sentiram as garras do falcão sobre a nossa consciência amedrontada, vozes se enfileiraram diante do púlpito e punhos se ergueram em tom de indignação. Lembramo-nos que ainda somos comida servida à mesa de quem pode se servir da nossa amada terra — tão singela e acolhedora com os que nos visitam —, a despeito de cedermos ou não a tal condição. No momento em que escrevo, instauram-se debates ferrenhos mesmo nos sujeitos mais indiferentes ao cotidiano da política, aqueles que se habituaram a dar de ombros para os temas comezinhos de Brasília, pois, quando se mancha o orgulho da nação, sentimos que alguém próximo foi ferido em combate. Erguem-se de imediato as falanges patrióticas, os defensores da camisa canarinho, munidos com seus insuportáveis cânticos futebolísticos. Nacionalismo e soberania, enfim, voltaram à baila.

No entanto, sei bem que caminho por um terreno sinuoso. Muitos se apressarão em dizer que o nacionalismo inspirou crimes imperdoáveis; outros afirmarão que se trata de uma ideologia burguesa, feita para dividir e dominar o proletariado internacional; por fim, haverá quem reclame de que toda essa discussão é excessivamente démodée, pois estaríamos todos em um “mundo sem fronteiras”, uma única “aldeia global”. Vá com calma, camarada! Minha intenção não é aliciar militantes para uma causa ou soldados para uma guerra. Por ora, vamos nos ater aos fatos do noticiário.

O presidente estadunidense, Donald Trump, ameaça o funcionamento do Judiciário brasileiro, em especial a atuação do ministro Alexandre de Moraes, responsável por investigar os ataques golpistas do 8 de Janeiro, bem como os dois principais nomes da família Bolsonaro: Jair Bolsonaro e seu filho Eduardo. Com seu notório estilo impulsivo, Trump quer forçar o Supremo Tribunal Federal (STF) a conceder uma anistia aos seus aliados ideológicos no Brasil, tendo por base uma suposta caça às bruxas liderada pelos membros do mesmo tribunal. Há quem especule, com boas razões, que as semelhanças entre os ataques golpistas ocorridos na Praça dos Três Poderes e aqueles ocorridos, dois anos antes, na invasão ao Capitólio, deram mais razões para que o presidente norte-americano se dispusesse a socorrer Bolsonaro.

De fato, Darren Beattie, secretário da gestão Trump, declarou (24/07) que Alexandre de Moraes “é o coração pulsante do complexo de perseguição e censura contra Jair Bolsonaro”, de modo que a ofensiva trumpista segue se agravando a cada dia que passa. O Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, anunciou a revogação do visto de Alexandre de Moraes e seus familiares. Tal medida foi uma resposta à imposição do ministro para que o ex-presidente usasse tornozeleira eletrônica, algo que o próprio Bolsonaro classificou, diante das câmeras que o filmavam, como “suprema humilhação”. Além disso, foram punidos outros sete ministros do STF, bem como o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, e seus familiares. Trata-se, sem dúvidas, de algo inédito na história entre os dois países, cuja relação bicentenária é marcada por golpes e alianças, crises e afagos, desconfiança e submissão. Se, por um lado, os EUA foram um dos primeiros países a reconhecer a Independência do Brasil, por outro lado, esse mesmo país chancelou o golpe de 1964 e a ditadura que se formaria a partir dele, momento mais crítico da nossa história no século passado.

Até o momento em que escrevo esse texto — estou nos últimos dias de julho —, não há sinais de que Trump queira recuar das suas investidas contra a economia das terras de cá. Ao contrário, alguns antecipam que o republicano possa aprofundar seus ataques no que diz respeito às tarifas impostas contra os produtos brasileiros, golpeando, em especial, o agronegócio, tido como um dos pilares fundamentais da estrutura econômica brasileira e do próprio movimento bolsonarista. Assim, se nada for feito, milhares de empregos serão perdidos e empresas quebrarão, de tal maneira que a economia pode mergulhar numa espiral cataclísmica, cuja consequência a médio e longo prazo ainda é incerta. Enquanto isso, o próprio Eduardo Bolsonaro declarou que não temeria um cenário de “terra arrasada [no Brasil]”, desde que se sentisse “vingado”. Com essa afirmação abjeta, o clã Bolsonaro comprova que seu pretenso amor à pátria não se equivale ao “amor familiar”, ou seja, nada importa mais que o seu instinto de sobrevivência, mesmo que todos afundemos por isso. Poucas vezes se viu tamanho servilismo por parte de uma liderança brasileira em terras estrangeiras.

Diante disso, alguns se apressam em assumir que os ataques à nossa soberania são “uma surpresa” da gestão Trump, nada mais que outra maluquice de um presidente patético. Puro engano! Por mais ridículo que seja Donald Trump e seu movimento político, tais golpes não são um episódio isolado. Ao contrário, eles se inserem na geopolítica estadunidense de oprimir as nações latino-americanas, proibindo-nos de sermos senhores do nosso destino e fazendo daqui o seu bom e velho quintal. Nesse sentido, pouco importa se a Casa Branca é ocupada por um republicano ou democrata. Acaso nos esquecemos dos escândalos de espionagem revelados por Edward Snowden em 2013? Acaso nos esquecemos do apoio dado pelo Departamento de Justiça à Operação Lava Jato? Acaso nos esquecemos da reativação da Quarta Frota em 2008? Afinal, quantas “surpresas” terão de se repetir para que nos convençamos dos interesses irreconciliáveis entre nós e quem governa a Casa Branca? Portanto, se queremos entender o que tem ocorrido nas últimas semanas, precisamos fazer com que a palavra “imperialismo” volte ao vocabulário político das massas, e não há melhor maneira de fazê-lo senão olhando o nosso passado.

         Historicamente, a soberania brasileira foi desafiada em diversos momentos e de diversas formas. Como, por exemplo, na Questão Christie (1861-1865), em que oficiais do Império Britânico, após fazerem arruaça na capital, acabaram presos pela polícia local, o que gerou uma reação explosiva do embaixador William Dougal Christie, representante dos britânicos na Corte do Rio de Janeiro. Tamanha animosidade se iniciara com o saque, por parte de brasileiros, do navio Prince of Wales, que naufragara, acidentalmente, em abril de 1861, na zona costeira do Rio Grande do Sul. A Coroa Britânica demandou indenização pelos prejuízos da pilhagem, mas a questão mantinha-se em aberto. Veio, então, a baderna dos oficiais no bairro da Tijuca. Christie exigiu não só a prisão dos policiais cariocas, seguida pela libertação dos baderneiros, como também uma indenização, acrescida por um injustificável pedido de desculpas. Vendo que sua exigência patética não era atendida, o embaixador ordenou que cinco navios mercantes brasileiros fossem apreendidos na Baía de Guanabara pela Marinha Inglesa, além de tomar o porto carioca à força, violando abertamente a soberania do Brasil. Como é de praxe, os imperialistas aplicaram a sua odiosa “diplomacia das canhoneiras” sobre os povos da periferia. Anos antes, os britânicos haviam operado a mesma estratégia nas Guerras do Ópio, com um sucesso tão fragoroso que os chineses jamais se esqueceriam das implicações de tamanha humilhação. Entretanto, Dom Pedro II comportou-se como estadista à altura daqueles meses conturbados; ao perceber que o embaixador estrangeiro não tinha a menor deferência pelas leis e pelo nosso povo, o imperador, auxiliado pelo notável Marquês de Abrantes e João Batista Calógeras, ordenou que as relações diplomáticas entre as duas nações fossem formalmente rompidas. Acabava-se a estadia de William Christie em nossas terras.

Aqui, é importante ressaltar que os nossos governantes confrontavam, ainda que só diplomaticamente, o maior império do seu tempo, cujo poderio bélico — e solidez econômica — era muito, muito superior ao nosso. Havia razões para crer que, numa eventual escalada, os brasileiros poderiam ser forçados a pagar um preço amargo por sua altivez. Porém, ambas as partes desistiram de entrar em guerra. Novamente, o Marquês de Abrantes e João Batista Calógeras, em sintonia com D. Pedro II, cumpriram um papel decisivo nas negociações por uma disputa que não dependesse da força das armas, terreno seguro para a famigerada armada inglesa. Naquele momento, era preciso posicionar-se num terreno em que as nossas forças se equilibrassem, por mais árdua que fosse a busca por tal solução. Foi decidido que se optasse pelo caminho jurídico. O caso foi julgado pelo rei da Bélgica, Leopoldo I, que era tio da própria Rainha Vitória. O monarca belga surpreendeu a muitos, dando parecer favorável aos brasileiros. O poderoso Império Britânico teve de pedir desculpas, de modo que as relações entre os dois impérios só seriam reestabelecidas em 1865, e nunca mais um oficial estrangeiro ousou comportar-se mal em terras brasileiras. A lição foi aprendida.

Ainda hoje, a Questão Christie é lembrada como um ponto alto da diplomacia brasileira e, especialmente, da liderança de Dom Pedro II, alguém que não se amedrontou diante da possibilidade de ter de enfrentar um império que, como se dizia, não via o sol se pôr. Com essa vitória mais que simbólica, o imperador marcaria a sua época de uma maneira que, se tivesse ocorrido nos EUA, já teria inspirado filmes e séries de televisão, mas, tragicamente, insistimos em dar as costas ao passado, mesmo quando ele deveria nos encher de orgulho patriótico. Pois, a despeito das enormes discrepâncias entre os dois adversários, o Brasil conseguiu se sobressair perante um opositor colossal e afirmar-se como país soberano num século em que ainda engatinhava no concerto das nações. Certamente, o caminho mais cômodo teria sido a “cautela”, a “moderação” e o “pragmatismo”, isto é, atender às ordens do prepotente diplomata britânico, de modo a não pôr em risco as relações com a nação que, em 1822, intermediara a nossa Independência de Portugal. No entanto, os caminhos fáceis, capazes de nos seduzir à primeira vista, acabam nos conduzindo a armadilhas muito piores do que aquilo que havíamos imaginado. Enfim, o tempo provou que aquele embate era mais que justo: ele era necessário para a nossa afirmação nacional.

Diante disso, como uma nação periférica e subdesenvolvida como a nossa pode vir a ser soberana?

Logo de cara, é importante frisar que, no tabuleiro geopolítico, ser soberano não é algo simples. Um dos caminhos escolhidos — e o mais controverso de todos — é o desenvolvimento da sua própria bomba atômica. O regime norte-coreano pagou caro para adquirir seu arsenal nuclear: décadas de cerco e sanções, fome e isolamento. Agora, quem se atreve a invadir Pyongyang e derrubar Kim Jong-un? Em 1994, os ucranianos optaram, em nome de uma boa relação com o Kremlin, por abrir mão do seu arsenal nuclear, algo em torno de três mil ogivas. Que receio Vladimir Putin teve de anexar a Crimeia e, oito anos depois, de invadi-los na maior guerra da nossa geração? Ao que parece, a única linguagem que as grandes potências reconhecem é a capacidade de destruição máxima, de aniquilamento completo da espécie humana. Em um mundo ideal, trataríamos as nossas divergências numa mesa de negociações aberta e igualitária, mas, infelizmente, esta não é a realidade na qual nos encontramos. O mundo atual tem ficado cada vez mais instável e perigoso para os estados que abrem mão de qualquer capacidade de dissuasão, especialmente aqueles que se encontram sob a mira dos interesses das grandes potências. Ignorar isso pode ter um custo muito caro, tendo em vista que, sem a dissuasão nuclear, tornou-se corriqueiro para os ocidentais derrubarem ditaduras: Saddam Hussein, no Iraque; Gaddafi, na Líbia; Bashar al-Assad, na Síria. Nos últimos meses, faltou pouco para que o regime iraniano se somasse a essa lista.

É evidente que, para manter o Judiciário funcionando minimamente, não precisamos recorrer a mísseis balísticos apontados em direção a Washington. Até por que, se o fizéssemos, seríamos o alvo imediato do Pentágono, que nunca permitiria uma nuclearização da América Latina, haja vista a Crise dos Mísseis em Cuba. Por enquanto, nossa verdadeira Independência não passa de um sonho de uma noite de verão, mas isso não significa que devamos adotar vira-latismo como doutrina da política externa, que é o desejo íntimo da gangue Bolsonaro. A extrema-direita não tem nada a nos oferecer enquanto projeto de nação, pois, para sermos soberanos, teremos de sair da sombra dos ditames dos Estados Unidos, um processo violentamente interrompido pelo Golpe de 64 e que os governos progressistas não se mostraram capazes de concretizar. Temos de reaver a consciência do papel que cumprimos no cenário internacional, isto é, nação periférica e subdesenvolvida, para, em seguida, sabermos aonde queremos e precisamos chegar. Essa é a nossa incontornável sina.

Tal como sabem todas as nações verdadeiramente livres, a nossa liberdade não será dada de mão beijada. Nunca o foi e nem poderá ser. Devemos, portanto, defender com orgulho a causa nacional. Devemos ir muito além de cantar o Hino Nacional aos berros, como se estivéssemos em um estádio de futebol. Caso contrário, seremos pisoteados pelos interesses imperiais, que nunca viram com bons olhos a emancipação verdadeira do povo brasileiro. 


Daniel Viana de Sousa

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sexta-feira, 13 de junho de 2025

A Missa fúnebre de um partido político

 

         Na semana passada, a 17ª convenção nacional do PSDB aprovou sua união com o Podemos, um movimento que já era discutido nos corredores de Brasília há muitos meses. Dessa forma, os dirigentes das duas facções buscam unir forças, de modo a obter mais recursos do Fundo Partidário e um maior tempo de rádio e TV. Sua meta é clara: aumentar as chances de eleger uma bancada robusta nas eleições do ano que vem, numa aposta de triunfo do autoproclamado “centro democrático”. Fala-se, também, em uma possível federação com o MDB, cujo objetivo é exatamente o mesmo: dar musculatura a um partido cada vez mais inexpressivo aos olhos das massas populares.

Trata-se de mais um capítulo no longo processo de definhamento de um partido que, em épocas passadas, dava os ares da graça em Brasília, chegando a disputar, com o Partido dos Trabalhadores (PT), pela primazia do comando presidencial.

A essa altura, para os mais jovens, deve parecer estranha a relevância dada por mim ao velório do tucanato. Na verdade, o PSDB foi a face polida e bem-comportada da classe dominante no pós-ditadura (1964-1985). Àquela altura, isto é, na década de 1990, a descendência funesta da Arena perdera apelo popular. E não era de se espantar: frente aos militares trogloditas, Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), o charmoso sociólogo e ministro responsável pelo exitoso Plano Real, apresentava-se como um refinado intelectual paulista. FHC era, sem dúvidas, a face que a burguesia queria vender ao resto do mundo, após o conturbado mandato de Collor (1990-1992) e a transição liderada por Itamar (1992-1995).

No entanto, os dias áureos do PSDB estão relegados aos livros de História, pois, como bem disse seu presidente atual, o ex-governador Marconi Perillo, “o ideal seria seguirmos solo, mas ficamos pequenos”. Realmente, os sinais da risível pequenez tucana estão por todo lado.

A recente despedida dos governadores de Pernambuco e Rio Grande do Sul, Raquel Lyra e Eduardo Leite — dois nomes cotados para disputar o Palácio do Planalto em eleições futuras —, foi mais um duro golpe para esse partido, que, em épocas passadas, esteve à frente de mandatos em diversos estados brasileiros, como São Paulo, Minas Gerais, Ceará etc. De fato, Fernando Henrique, o maior cacique tucano, foi a única liderança do país que ganhou uma eleição presidencial no 1º turno, conseguindo repetir a mesma façanha quatro anos depois. Nem mesmo Lula conseguiu igualar esse feito. Além disso, nas quatro eleições gerais seguintes, o PSDB esteve em todas as disputas de 2º turno, conseguindo obter, em 2014, mais de 51 milhões de votos, seu melhor resultado na história da Nova República. Por fim, em 2016, os tucanos alcançaram sua vitória derradeira: 799 prefeitos e prefeitas eleitos nacionalmente.

Porém, tal como nos ensina a sabedoria popular, a vida dá voltas.

No momento em que a crise econômica estrangulou a sociedade brasileira (2015-2016), sendo, aliás, aprofundada pela instabilidade sociopolítica provocada pelas Jornadas de Junho, as bases sociais que compunham a direita se radicalizaram. À época, percebeu-se que o PT perdera o protagonismo nos movimentos de rua, ao mesmo tempo em que o governo Dilma (2011-2016) via sua popularidade derreter em questão de semanas. Contudo, o golpe mais duro veio de uma controversa operação policial que marcaria aquela década: a Lava Jato; responsável por desgastar a imagem da esquerda aos olhos das classes médias empobrecidas pela crise sistêmica que chacoalhava as estruturas do nosso frágil tecido social. Iniciava-se, assim, o período mais sombrio de Lula e seu partido, cujo pior momento seria a sua prisão em abril de 2018; houve até quem cogitasse — com boas razões — a morte política de ambos. Ainda assim, o velho operário sobreviveria aos ataques e à prisão, saindo do encarceramento para se candidatar, disputar e vencer as eleições de 2022, tornando-se presidente do Brasil pela terceira vez.

Entretanto, o PSDB não se mostraria capaz de resistir ao maremoto do discurso anticorrupção. Pelo contrário, as revelações de que Aécio teria tido, em 2017, conversas suspeitas com o empresário Joesley Batista, ajudou a enterrar de vez as ambições presidenciais do último cacique tucano. De lá pra cá, o partido e suas lideranças mergulharam num lamaçal que nem mesmo a vitória de Doria seria capaz de resgatar. Nesse meio-tempo, nomes históricos da sigla, como Tasso Jereissati, José Serra, Geraldo Alckmin, Aloysio Nunes e Antônio Anastasia, perderam protagonismo, abandonaram o ninho ou simplesmente caíram no ostracismo. Pouco a pouco, ficava mais claro que a mancha da corrupção envolvia praticamente todo o espectro político, ou seja, da esquerda à direita, do progressismo ao conservadorismo, do governo à oposição.

Porém, o golpe final chegaria de onde menos se esperava. Pois, para a ruína do tucanato, renasceu, em torno do clã Bolsonaro, uma extrema-direita que não era vista desde os tempos ditatoriais. De fato, em poucos anos, formou-se um movimento alinhado à ascensão de uma extrema-direita mundial e abertamente contrário ao espírito “cosmopolita”, “democrático” e “civilizado” de FHC, pois se estruturava no ódio à esquerda, ao trabalhador, à mulher, aos negros, à comunidade LGBTQIAPN etc. Esse movimento extremista, que nos habituamos a chamar de bolsonarismo, aniquilou definitivamente a direita tucana, contribuindo para transformar o noticiário político num ringue de golpes baixos e, ao mesmo tempo, num show de horrores. Desde então, as falas obscenas de Bolsonaro e seus seguidores viraram parte do cotidiano, seja em frente às câmeras, seja nas próprias redes sociais; aquilo que, em outras épocas, seria visto como impensável ou inaceitável, agora é banal, corriqueiro. Contudo, a despeito de sua linguagem chula e personalidade detestável, o ex-capitão segue desfrutando uma sólida popularidade nos círculos reacionários, sendo capaz de arregimentar dezenas de milhares de apoiadores a qualquer momento, um feito que nenhuma liderança brasileira é capaz de igualar, excetuando-se o próprio Lula.

Para uma “nova direita” que rasteja pelos meandros das redes sociais, das fake news, do trumpismo, o PSDB virou peça de museu, antiquado demais para as novas disputas de uma república com pés de barro. Na realidade, a conjuntura presente — inflamada por uma crise sistêmica que se agrava a despeito de quem ocupa a cadeira presidencial — demanda das classes dominantes uma direita que destile ódio aos trabalhadores, às mulheres, às minorias e às esquerdas. Para esse agrupamento fascista, não há outra solução que não seja “metralhar a petezada”, isto é, pôr toda culpa sobre os ombros dos “artistas pervertidos”, “professores esquerdistas”, “universitários vagabundos”, “feministas mal amadas”… trata-se de um lamaçal discursivo, um espetáculo de ideias vexatórias, no qual somente o esgoto da Ditadura poderia germinar algo de novo. Nesse sentido, o bolsonarismo é o sintoma mórbido de um sistema político em decomposição.

Ora, seria pretensioso buscar resumir os fatos políticos dos últimos anos em um texto de poucas páginas. Nesse esforço em forma de análise escrita, tentei delinear um esboço, um painel simplificado daquilo que vimos acontecer em tão pouco tempo, de tal maneira que muitos elementos centrais à compreensão da nossa realidade precisaram ser deixados de lado. Mesmo assim, com a simbólica saída dos principais governadores tucanos, Raquel Lyra e Eduardo Leite, podemos dizer que o PSDB está com os dois pés na vala, prestes a ser enterrado de uma vez por todas. Afinal de contas, os dois mandatários preferiram se livrar do partido ao qual pertenciam há décadas, para aderir à legenda controlada por Gilberto Kassab: o Partido Social Democrático (PSD). Fundado em 2011, o PSD é a sigla que detém o maior número de senadores e prefeitos, assim como uma das principais forças partidárias na Câmara dos Deputados.

No futuro, quando os historiadores se dispuserem a estudar a política brasileira desses tempos incertos, eles certamente terão de se ocupar em analisar a figura de Gilberto Kassab. Personalidade sorrateira e camaleônica, Kassab é o epítome do Centrão, o famigerado establishment político brasileiro; ele foi ministro de Dilma, mas não vacilou em apoiar seu impeachment, aceitando, logo em seguida, um ministério no governo Temer (2016-2019); em São Paulo, trabalhou para Dória (2019-2022), porém, agora, está ao lado de Tarcísio de Freitas, ex-ministro da gestão Bolsonaro (2019-2023). Ao longo dos anos, Gilberto Kassab foi vice-prefeito, prefeito e deputado federal por São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, de modo que não seria injusto tê-lo como um carreirista experimentado, um arrivista bem-sucedido, que conhece os corredores palacianos como poucos, pois sabe dançar conforme a música, sabe se ajustar de acordo com a oportunidade que lhe aparece. Kassab não formulou nenhuma ideia que mereça destaque, nem nos presenteou com alguma conquista de relevo; nada nele nos vêm à tona, exceto seu triunfo pessoal em um sistema carcomido pela corrupção, velhacaria e mediocridade. Ainda assim, não devemos nos espantar que ele lidere um dos maiores partidos brasileiros, um partido capaz de influenciar o resultado das eleições que se avizinham. Afinal, o PSD é a expressão mais bem-acabada do atual sistema político nacional.

Hoje, o partido capitaneado por Kassab é o farol que atrai mais e mais tucanos para fora do ninho. Na Paraíba, estado marcado pela presença do PSDB, dois dos principais nomes do clã Cunha Lima, Cássio e Pedro, transferiram-se recentemente para o PSD. Espera-se que Pedro dispute, pela segunda vez, o mandato de governador. Para tanto, o ex-deputado recebeu o cargo de presidente estadual da legenda, reunindo em torno de si diversos nomes da oposição ao governo de João Azevedo (PSB), tais como Veneziano (MDB), Ruy Carneiro (Podemos) e Efraim Filho (União Brasil). Se a sua escolha foi um tiro no pé, o futuro nos dirá.

A essa altura, a revoada dos tucanos sacramenta o fim de uma era para a direita nacional. A época em que a centro-esquerda se alternava no governo com os tucanos se esgotou definitivamente, pois, aos olhos das classes dominantes, o PSDB tornou-se bucha de canhão, um instrumento ineficiente para a conservação do seu poder sobre as massas em um contexto de crise social aguda. E, ainda que a fusão com o Podemos traga de volta alguns milhares de votos e meia dúzia de assentos no Congresso, o PSDB jamais terá de volta o protagonismo, porque a verdadeira Política não se subordina a fundo partidário, tempo de televisão ou marketing eleitoral.

A verdadeira Política transcende os monumentos de Brasília, fazendo-se presente no dia a dia, na realidade concreta de cada pessoa que luta para sobreviver em um país espoliado desde a sua origem. Ao contrário das vulgaridades e cretinices presentes no cotidiano da politicagem rebaixada, a verdadeira Política se dá na luta de classes, no embate ferrenho entre capitalistas e trabalhadores, cujos interesses continuam sendo diametralmente antagônicos. Nessa violenta disputa pelas mentes e corações, o tucanato não é nada mais que uma relíquia farsesca do passado. 

Daniel Viana de Sousa

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