Guerra!
Desde o sequestro de Maduro e sua esposa, a gestão de Donald Trump pôs,
definitivamente, suas garras à mostra, agindo sem o menor pudor como a pretensa
“polícia do mundo”, capaz de bombardear outros povos e assassinar seus líderes,
sempre tendo em mente a concretização dos seus interesses particulares.
Tendo
ao seu lado o estado de Israel, possuidor de uma das forças armadas mais mortíferas
da atualidade, o presidente estadunidense ignorou quaisquer impeditivos internos
e externos, incluindo os conselhos de diplomatas e militares com larga
experiência, preferindo a solução de arrasar tudo que estiver ao seu alcance,
como se isso bastasse para provocar o colapso do regime iraniano. Na realidade,
até o momento em que escrevo, a República Islâmica não só sobrevive, mas também
provou ser capaz de atingir, com precisão e intensidade, praticamente qualquer
alvo no Oriente Médio, chegando até mesmo a ameaçar a base anglo-americana em
Diego Garcia, uma ilha a quatro mil quilômetros de distância do seu território.
Agravada pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, a reação iraniana põe em risco a
estabilidade da economia global, fazendo com que todos nós paguemos por uma inconsequente
aventura de Washington e Tel Aviv.
Os
efeitos dessa tempestade já se fazem ouvir na opinião pública dos Estados
Unidos (EUA). Uma pesquisa divulgada nesta quarta-feira (25) revela que a
maioria dos americanos acredita que a guerra contra o Irã foi longe demais.
Conduzida pela AP-NORC, a sondagem também mostra que 45% dos entrevistados
temem não conseguir arcar com o preço da gasolina. Além disso, de acordo com
outra pesquisa, conduzida pela Reuters/Ipsos e liberada nesta terça (24), a aprovação
de Trump chegou ao pior nível desde que assumiu a presidência para um segundo
mandato, caindo de 40% para 36%. Ainda segundo a Reuters, o aumento da
reprovação se deve às ações do presidente contra o Irã. Portanto, não é de se
espantar que Trump se apresse em dizer que mantém negociações com lideranças
iranianas, algo que elas têm negado categoricamente.
Será
esse o início do fim para Trump, ou apenas uma turbulência passageira? Claro
que tais índices poderiam, em tese, ser revertidos em benefício à Casa Branca. Afinal,
quem ocupa cargos públicos tem mais chances de conservá-los. Os americanos
chamam-no de incumbency advantage,
que são, basicamente, as vantagens políticas de se ocupar espaços de poder. Para
tanto, basta mencionar que, no decorrer da história dos EUA, a maior parte dos
presidentes e governadores conseguiram se reeleger para um segundo mandato. No
entanto, o que temos visto é um piromante incendiando o mundo ao seu redor,
tanto no âmbito interno, quanto no externo. Os embates do ICE contra a
população em Minnesota são uma prova da disposição de Trump em “esticar a
corda”, ainda que isso ameace a eclosão de uma miniguerra civil no seio do seu
território.
Hoje,
a maior ameaça à continuidade do atual governo vem das implicações da sua política
externa, cujo epicentro se concentra na guerra contra o Irã. Caso esse conflito
continue se prolongando, de modo a deteriorar os índices de opinião, o
presidente americano pode vir a sofrer uma derrota fragorosa nas eleições de
meio mandato, fazendo ressurgir, outra vez, a ameaça de impeachment pelo resto
da sua gestão. Previstas para ocorrer no começo de novembro, as midterms elections são responsáveis por
determinar os novos ocupantes da Câmara dos Representantes e trinta e três
novos senadores. Não foi por acaso que o próprio Donald Trump declarou, no
começo deste ano, que sofreria um impeachment caso perdesse as eleições de meio
de mandato. Além do mais, um Congresso hostil à Casa Branca emperraria
nomeações à Suprema Corte, palco de derrotas recentes na questão da sua política
tarifária.
Entretanto,
para olharmos o futuro dos Estados Unidos e da guerra contra o Irã, é preciso
que relembremos como chegamos até aqui.
Talvez,
o fato mais marcante das últimas quatro semanas tenha sido a execução de Ali
Khamenei, segundo Líder Supremo do Irã, bem como de boa parte da alta cúpula do
seu regime. Trata-se de uma manobra que, de fato, surpreendeu a todos, provando
que nenhuma liderança do Sul Global está a salvo em seu próprio território, à
exceção, é claro, dos detentores de armas nucleares, haja vista sua mortal capacidade
de retaliação. Por outro lado, essa não é a primeira vez que Trump, um suposto
crítico das guerras iniciadas pelos membros do partido Republicano, recorre a
essa midiática decapitação de rivais estrangeiros. Alguns analistas remetem-na
ao assassinato do general Soleimani, ainda em janeiro de 2020, quando um drone MQ-9
Reaper fez voar pelos ares, em solo iraquiano,
um dos mais graduados oficiais da Guarda Revolucionária Iraniana. Tal manobra,
aos olhos de uma parte do público americano, passava a impressão de uma operação
“barata e cirúrgica” contra um inimigo declarado do Ocidente. O Irã, por sua vez,
respondeu lançando mísseis contra seu agressor, porém sem causar grandes prejuízos
às posições dos EUA na região. Iniciava-se, assim, uma das décadas mais
explosivas da história contemporânea.
A
lição foi replicada, com assombroso êxito, pelos belicistas em Tel Aviv. Em
outubro de 2023, após os ataques perpetrados pelo Hamas, o primeiro-ministro
israelense, Benjamin Netanyahu, ordenou sucessivas operações de eliminação
de lideranças palestinas, culminando na morte de Ismail Haniyeh, líder máximo
do Hamas, em julho do ano seguinte. Mesmo estando no coração da capital
iraniana, sede de um regime que, há décadas, luta por sua sobrevivência, Haniyeh
não pôde escapar dos tentáculos do Mossad, agência de inteligência que fez
explodir sua residência. Ao mesmo tempo, a “precisão” dos ataques israelenses
em Gaza não poupou que escolas, universidades e até hospitais fossem reduzidos
a escombros; junto às cinzas dessas cidades destroçadas, jazem os corpos de milhares
de palestinos mortos, indiscriminadamente, na terra em que viveram seus
antepassados. Decerto, os crimes cometidos em Gaza assombrarão as próximas gerações
do século XXI.
Enquanto
isso, outra operação “cirúrgica” estava a caminho. Dois meses após a morte de Haniyeh,
ocorreria a investida aérea que eliminaria o clérigo libanês Hassan Nasrallah,
junto com a cúpula do Hezbollah, mais um grupo político e paramilitar apoiado
pelos iranianos na sua disputa de longa duração contra os israelenses. Classificado
como organização terrorista por muitas nações ocidentais — inclusive por países
de maioria muçulmana sunita —, o Hezbollah detém um poder destrutivo muito
superior ao do Hamas, chegando a atuar, ao mesmo tempo, nos combates da guerra
civil síria e na oposição ao sinistro Daesh. Sem dúvidas, o Hezbollah veio a
ser visto, no início da década atual, como uma das forças não estatais mais
perigosas do mundo. Isso se deve, em boa medida, ao seu complexo arsenal de
foguetes e mísseis que, segundo algumas estimativas, chegara a contabilizar 150
mil projéteis, além de dezenas de milhares de combatentes dispostos a morrer
pela causa.
No
entanto, tamanho poder de fogo não foi capaz de conter Netanyahu, que, ao
perceber a oportunidade de dar fim à vida de seus oponentes, escreveu um novo
capítulo na história do Oriente Médio.
A
fatídica reunião se deu no contexto do apoio do Hezbollah à resistência
palestina, numa escalada de ataques mútuos por meio de mísseis, incursões
aéreas etc. A princípio, os fatos não causavam espanto, pois pareciam uma
repetição de embates ocorridos em outros momentos. Contudo, em setembro daquele
ano, o grupo sofreria um terrível e inesperado golpe. Surpreendentemente, mesmo
estando abrigados numa instalação a dezoito metros de profundidade, a Força
Aérea Israelense lançou bombas capazes de obliterar o refúgio, matando mais de
trinta e três pessoas e ceifando a vida das mais importantes lideranças da
temida organização libanesa.
Além
de Haniyeh e Nasrallah, diversos outros expoentes palestinos e libaneses foram mortos
por Israel desde os ataques liderados pelo Hamas em outubro de 2023. Desse
momento em diante, o Oriente Médio sofre a sua pior crise em décadas, e não há
sinais de que ela se encerre tão cedo. Pelo contrário, a cada semana que passa,
fica mais claro que, no Líbano, somente uma ocupação militar prolongada teria
alguma remota possibilidade de impor uma submissão à resistência armada.
Nesta
quarta-feira (25), Netanyahu afirmou que, a fim de conter os ataques do
Hezbollah, seus soldados expandirão a zona-tampão ao sul do Líbano, indo até o
rio Litani, uma das principais fontes de água potável, irrigação e geração de
energia da região. Até agora, pelo menos cinco pontes foram bombardeadas pelas
forças armadas de Israel, praticamente isolando a parte meridional do país
invadido. A justificativa seria de que a população israelense próxima à
fronteira encontrava-se ao alcance de ataques vindos do Líbano. Por outro lado,
só um insano acreditaria que o Hezbollah fosse assistir a isso de braços cruzados,
haja vista que, com a destruição de tais pontes, dezenas de milhares acabaram
ilhados no próprio território. Até agora, mais de um milhão de libaneses deixaram
suas casas, de sorte que a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) alertou,
nesta sexta-feira (27), para o risco de uma catástrofe humanitária.
Essa
ação prova que o assassinato de Nasrallah serviu como propaganda, ou, no
máximo, como um golpe no ânimo dos combatentes do Hezbollah, porém não foi
capaz de se converter numa vitória definitiva por parte de Israel. A
decapitação deu fim ao decapitado, mas não àquilo pelo qual ele lutava.
Trata-se de um raciocínio simples, porém que escapa àqueles que agem com
demasiada soberba. Não é o líder que cria o movimento, e sim o contrário. Os
indivíduos têm algum nível de autonomia frente à realidade que os cerca, porém
as condições sociais, históricas, econômicas, políticas e culturais ao nosso
redor, seguem sendo decisivas na nossa tomada de posição. Portanto, a raiz dos
problemas no Oriente Médio não se encontra em indivíduos, quem afirma o oposto procura
apenas causar confusão.
Enquanto
os ocidentais discutem se o Hamas e o Hezbollah são ou não grupos terroristas,
Israel bombardeia tudo que vê pela frente em nome do “direito de defesa”. Este
é um dos principais combustíveis que alimenta o extremismo não só no Oriente
Médio, mas no coração de qualquer ser humano, seja ele árabe ou não. Assim
sendo, a luta de grupos extremistas como o Hamas e o Hezbollah não se sustenta
apenas em discursos inflamados, preceitos religiosos ou em líderes
carismáticos, e sim na legítima busca pela soberania de povos que não podem ser
varridos do mapa, a menos que Israel se proponha a repetir o que Adolf Hitler
fez no passado contra o próprio povo judeu, isto é, prendê-los e assassiná-los
em câmaras de gás um após o outro. Antes que os últimos palestinos e libaneses
morram, entretanto, haverá resistência armada.
No
entanto, o grande objetivo almejado por Tel Aviv nunca foi esmagar apenas o Hamas ou o Hezbollah, grupos extremistas
que, embora fossem capazes de causar danos a Israel, jamais colocariam em xeque
a continuidade da sua existência enquanto estado. Ataques promovidos por terroristas
e milícias causam mortes, traumas e prejuízos, mas não destroem Estados. Tais
forças operam como instrumentos de intimidação no complexo tabuleiro religioso,
político, étnico e cultural que sempre foi o oeste da Ásia. Na realidade, só há
um inimigo forte o suficiente para fazer frente a Israel, seja no poderio
bélico, seja na resiliência socioeconômica, seja na influência geopolítica: a
República Islâmica do Irã, fundada na Revolução de 1979.
Com
a escalada militar entre Israel e seus vizinhos, os sucessos das operações Midnight Hammer e Absolute Resolve, alimentou-se, na Casa Branca, a ilusão coletiva de
que bastaria um sopro para que o regime iraniano desmoronasse da noite para o
dia. Com mais uma operação “barata e cirúrgica”, Trump e Netanyahu se livrariam
do seu maior adversário no Oriente Médio, pois, por se tratar de uma “odiosa
ditadura teocrática”, o povo iraniano logo se ergueria em solidariedade ao
agressor externo, tomando para si as rédeas do seu destino. De fato, por mais
risível que pareça, não é difícil encontrar, na própria internet, declarações do
líder estadunidense que remetam a essa linha de raciocínio surreal.
Tamanho
foi o triunfalismo em Washington, que o próprio Trump convocou as massas do
país agredido a tomarem o poder, ao mesmo tempo em que exigia “rendição
incondicional” aos sobreviventes do regime. A rendição e o colapso, contudo,
não vieram. Desde então, a coalisão agressora atingiu, segundo Pete Hegseth,
mais de quinze mil alvos dentro do Irã. O presidente estadunidense chegou a
afirmar, no dia 20 de março, que todas as lideranças iranianas haviam sido
eliminadas, que a Marinha, a Força Aérea, as defesas antiaéreas e os radares estavam
destruídos; ele até mesmo debochou afirmando que “queremos falar com eles e não
há ninguém com quem falar […] e gostamos que assim seja”. Ainda assim, a
rendição e o colapso não vieram, e um conflito que, supostamente, deveria durar
não mais que duas semanas, já se estende por mais de um mês inteiro.
De
acordo com o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Aragchi, nem
mesmo campos de gás natural e usinas de dessalinização, como a de Qeshm, essenciais
para o abastecimento de água por parte da população civil, foram poupadas dos
bombardeios. Ademais, horrores como o ataque à escola de Minab, no sul do Irã, em
que morreram mais de cem crianças (algumas fontes chegam a falar em cento e
oitenta), deram maior legitimidade ao ódio pelos EUA, base que sustenta as
facções mais fanáticas de Teerã, justamente aquelas que veem a guerra aos
israelenses e americanos como uma sina incontornável.
Em
resposta a isso, os ataques iranianos às bases americanas já somam, de acordo
com a BBC e o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), 800
milhões de dólares em prejuízo material. Tamanho desgaste cresce a cada dia que
passa, com alguns membros do Pentágono alertando que o estoque de munição não
deve suportar um conflito demasiadamente prolongado. Cada míssil Tomahawk, por exemplo, custa US$ 3,5
milhões e leva dois anos para ser produzido; até agora, de acordo com o Washington Post, cerca de 850 Tomahawks foram utilizados, sendo que o
estoque total seria de 3 mil mísseis. De fato, há duas semanas, o Financial Times expôs que os EUA haviam gasto
anos de munição, especialmente de interceptadores Patriot e Thaad,
imprescindíveis na defesa contra o enxame de mísseis e drones iranianos.
Ao
que tudo indica, a tática de Teerã tem funcionado. De acordo com o The New York Times, apenas nos primeiros
seis dias de bombardeio ao Irã, foram gastos US$ 11,3 bilhões, revelaram
autoridades do Pentágono a senadores americanos; por outro lado, cada drone
Shahed-136 custa em torno de vinte mil dólares, podendo ser produzido aos
milhares em qualquer fábrica de pequeno porte. Tais drones não precisam atingir
o alvo, nem causar explosões ou destruição em larga escala; basta, apenas, que
consumam as defesas dos seus adversários, de modo a deixá-los vulneráveis para
as próximas fases da guerra, haja vista que os mísseis iranianos de última
geração seguem escondidos, aguardando o melhor momento para entrarem em
operação.
A
fantasia bélica de Trump e seu círculo de fanáticos foi, de certa maneira,
amparada pelos massivos protestos contra o regime teocrático, que,
indiscutivelmente, carece de apoio em alguns setores da sociedade, como é o
caso da juventude urbana. É difícil saber o número exato de mortos nesses
protestos, mas não resta dúvidas de que, diante da real possibilidade de um golpe
de estado, o regime recorreu a todos os meios necessários para esmagar os insurgentes,
eliminar infiltrados de países inimigos e conservar sua supremacia sobre o
restante da sociedade. Tal como no caso venezuelano, é improvável que a
república islâmica seja derrubada sem uma cisão nas forças armadas.
No
entanto, há que se reconhecer que a revolta popular não é uma exclusividade iraniana.
Há uma crise de legitimidade em diversos países do mudo — inclusive de
democracias inspiradas em modelos do Ocidente, como é o caso do Nepal —, cujos
sistemas políticos atravessam desafios provenientes de questões variadas:
fluxos migratórios, mudanças climáticas, instabilidade socioeconômica, desigualdade
social, corrupção, guerras, sanções etc.
Contudo,
a profunda crise do sistema de governança dos aiatolás não passa de uma
desculpa, por parte de Washington, para recuperar o controle sobre uma área perdida
desde a Revolução de 1979, cuja importância segue sendo decisiva na sua disputa
contra a aliança estratégica entre China e Rússia, a mais grave ameaça à
continuidade da sua hegemonia em décadas. Ninguém no Salão Oval está preocupado
com a democracia e os Direitos Humanos na Venezuela, no Irã ou em qualquer país
da periferia do sistema capitalista. Pelo contrário, os EUA patrocinaram, durante
a Guerra Fria (1947-1991), golpes de estados e ditaduras ao redor do mundo, no
intuito de assegurar a preservação dos seus interesses em contraposição ao
bloco socialista.
A
execução de Ali Khamenei, junto com vários integrantes da sua família e da
cúpula governamental, entretanto, gerou o efeito oposto àquele pretendido por
Trump e sua camarilha: o regime manteve-se forte o bastante para suportar o
impacto do primeiro golpe, preservou seu funcionamento e revidou militarmente,
atacando diversos pontos do Oriente Médio e fechando o Estreito de Ormuz, de
modo a provocar os primeiros tremores na economia mundial. Pouco a pouco, o
preço do barril de petróleo sobe nos mercados globais, encarecendo mercadorias
mundo afora e alimentando o risco de um abalo econômico devastador. E, caso as
infraestruturas energéticas dos demais países do Golfo Pérsico sejam severamente
comprometidas, testemunharemos uma crise global nunca antes vista.
Ao
que parece, Donald Trump está perfeitamente ciente disso, pois ameaçou atacar a
ilha de Kharg, local em que está concentrada 90% da exportação de petróleo iraniano.
Não foi à toa que, ainda no começo da guerra, o líder da oposição israelense
Yair Lapid afirmou que a destruição do terminal "paralisaria a economia do
Irã e derrubaria o regime". Ele defendeu que Israel "deve destruir
todos os campos de petróleo e a indústria energética do Irã na ilha de
Kharg". Ao mesmo tempo, o Irã já demonstrou que pode atingir, com drones e
mísseis variados, a infraestrutura energética de quase todos os países da
região — mesmo países muito afastados do Golfo Pérsico, como a Turquia e o Azerbaijão,
foram alvos de projéteis iranianos, alertando a todos para o fantasma de uma conflagração
generalizada. Fala-se até na existência de “cidades subterrâneas” com mísseis
secretos, cujo poder superaria em muito aqueles usados até agora. Se isso é
verdade, provavelmente, saberemos nas próximas semanas.
Considerando
o aumento gradativo de tropas americanas em toda a região, algo em torno de
cinquenta mil soldados, além de dois porta-aviões e diversos navios anfíbios, é
cada vez mais provável que o conflito evolua para níveis ainda mais dramáticos.
Neste
sábado (28), em resposta aos ataques contra o Irã e o Líbano, os Houthis, grupo
armado iemenita apoiado por Teerã, entrou na guerra disparando mísseis
balísticos contra Israel, que, por sua vez, disse tê-los interceptados. Sua
maior arma, no entanto, é a possibilidade de bloquear o Estreito de Bab
el-Mandeb, outro ponto nevrálgico da economia mundial, por onde passa 12% do
petróleo comercializado por via marítima. Ao leitor desavisado, esta cifra pode
parecer diminuta, mas as implicações de um bloqueio prolongado de Bab el-Mandeb
resultariam em um prejuízo bilionário para diversas economias compradoras do
petróleo do Oriente Médio, particularmente, as grandes economias asiáticas. Tendo
em vista que, com o fechamento de Ormuz, o preço do barril de petróleo já subiu
fortemente, forçando, por exemplo, a retirada provisória das sanções sobre a
Rússia, um bloqueio de Bab el-Mandeb teria consequências ainda mais imprevisíveis
para a geopolítica e a geoeconomia. Somente em março, o petróleo chegou a ser
cotado acima de US$ 115 por barril, acumulando uma alta mensal de 59%, a maior desde
1990.
No
momento atual, a Casa Branca precisa tomar mais uma decisão que selará a vida
de milhões ao redor do mundo: invadir ou não o Irã? Se Trump recorrer a uma
invasão terrestre do território inimigo, nos moldes clássicos da história
militar, ele correrá o risco de enfiar o seu país num lamaçal sem volta,
repetindo, talvez, a experiência traumática que se deu no Vietnam (1955-1975),
em que morreram mais de 58 mil soldados estadunidenses em vão; ou, talvez, cometa
a insensatez de ocupar partes do território iraniano, repetindo os erros das
guerras no Afeganistão e no Iraque, em que foram gastos trilhões de dólares
inutilmente. Mesmo uma invasão da ilha de Kharg exigiria, nas palavras de
Trump, “ficar lá [na ilha de Kharg] por um tempo”, o que já dá uma ideia da
complexidade que envolve ações militares de larga envergadura. Apenas a
supremacia tecnológica e a cólera destrutiva são insuficientes para obter uma
vitória completa, tal como demonstrou as invasões contra os povos vietnamita, afegão
e iraquiano. E por “vitória completa”, refiro-me a uma derrota militar total das
forças iranianas, seguida por uma mudança de regime e a implantação de um
governo favorável aos Estados Unidos.
Tal
qual um piromante que perde o controle sobre o fogo que tem em mãos, Donald Trump
está se dando conta de que o circo em chamas cairá não só sobre a plateia
horrorizada, mas também sobre ele mesmo. Diante disso, sua solução é a única
capaz de conceber: atear mais fogo ainda.
Ao
invés de “capitulação incondicional”, como exigia o mandatário estadunidense, o
regime elegeu o filho de Khamenei como terceiro líder supremo, posição máxima
na sua estrutura hierárquica, poderoso o suficiente para influenciar os centros
decisórios da sociedade iraniana. Considerado um nome da linha-dura, portanto,
defensor férreo do sistema teocrático, Mojtaba Khamenei segue escondido, ciente
de que subestimar o Mossad seria um erro que lhe cobraria a própria vida. Aliás,
nada garante que ele continue vivo nos próximos meses, bem como todo o restante
da classe dirigente iraniana, tal como demonstrou a recente morte de Ali
Larijani, mais um membro da alta cúpula a ser morto pela força aérea israelense.
Enfim, como explicitei ao longo desse texto, a coalizão agressora já provou sua
capacidade de decapitação, ainda que não tenha obtido o tão ansiado regime change. É provável que, nesses
primeiros meses da guerra, Mojtaba Khamenei governe a partir do exterior —
talvez, de algum refúgio controlado por russos ou chineses. Afinal, é
necessário ressaltar que, tanto para Beijing quanto para Moscou, a
sobrevivência do regime iraniano é um assunto da mais alta relevância.
A
essa altura, a fera iraniana lutará com todos meios que dispuser, pois sabe
estar numa guerra pela própria sobrevivência, de tal maneira que se multiplicam
os ataques não somente a bases americanas, mas também embaixadas, consulados,
refinarias, hotéis de luxo, petroleiros, shoppings, aeroportos e assim por
diante. E pouco importa que parte dos projéteis sejam interceptados pelos
sistemas de defesa dos países do Golfo, haja vista que a mera sensação de
insegurança tem causado uma debandada de turistas, preciosa fonte de renda para
metrópoles assentadas no dinheiro estrangeiro, tais como Dubai, Doha e Abu
Dhabi. Não foi por acaso que tais governos buscaram evitar a deflagração do
conflito: seu rombo financeiro é cada vez maior; e não há garantias de que,
após o fim da guerra, os turistas estejam dispostos a retornar a uma zona de
perigo. Em suma, foi comprovado, novamente, que os EUA só defendem os seus
interesses e os de Israel.
Nessas
condições, “vencer a guerra” é algo que varia para cada um dos lados. Israel
quer ver seu inimigo extirpado; os EUA querem vê-lo de joelhos; os países do Golfo
querem um cessar-fogo, enquanto que os iranianos querem se manter de pé ou ao
menos tombar levando consigo tudo o que puder. Contudo, ainda há chances para o
reestabelecimento das negociações, por mais distantes que elas estejam. A
guerra não é uma fatalidade ou uma reação incontrolável do ser humano, e sim
uma decisão política, de tal maneira que ela pode ser evitada se as forças
políticas interessadas na paz se organizarem e agirem o quanto antes. Tais
forças não se encontram apenas no Oriente Médio, mas no mundo inteiro. Enquanto
a inerte “comunidade internacional” se limita a emitir notas de repúdio e
declarações inócuas, a crise no Oriente Médio se agrava. Mesmo os BRICS,
principalmente Rússia e China, têm se mostrado aquém do esperado.
Para quem achou que o ano passado gerou demasiadas transformações, o ano de 2026 nos assombrou, em menos de noventa dias, com acontecimentos que até os mais exaltados hesitariam em prever. Assim, o que veremos daqui em diante pode ser um dos anos mais importantes do novo século.
Daniel Viana de Sousa
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