quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
Livros lidos em 2025
A
cada ano que se acaba, colecionamos as nossas próprias vitórias e fracassos. Quem
for realmente honesto, reconhecerá que nem tudo foi desperdício de tempo, nem tampouco
dirá que colheu apenas os frutos mais saborosos. Nossas vidas não se restringem
ao preto-e-branco dos olhares maniqueístas. Certamente, houve percalços, mas
também momentos de imenso prazer, bem como outras tantas memórias que perdemos
para sempre na agitação do dia a dia, quando estamos ocupados em chegar na hora
marcada, em entregar o trabalho dentro do prazo estipulado, em responder a
mensagem urgente que nos chega pelo celular.
Felizmente,
não há como lembrar de tudo, de modo que cérebro e mente selecionam —
conscientemente ou não — aquilo que permanecerá conosco no decorrer da nossa
jornada. Algumas vezes, as memórias guardadas nos fazem bem; outras vezes, elas
podem nos adoecer se ficarem tempo demais com a gente. A princípio, tal adoecimento
pode vir à tona discretamente, como uma insônia mal resolvida ou uma melancolia
sempre à espreita, no entanto, se ele vier a formar raízes profundas, o sujeito
adoecido estará semeando para si um futuro ainda mais amargo e doloroso. Pouco
a pouco, os sorrisos se tornam escassos, a vivacidade do olhar se esmorece… Dormir
acaba sendo algo mais difícil que o normal; banhar-se e sair de casa vira uma
missão árdua.
Mas
essa história não termina aí. Por vezes, o adoecimento de uma pessoa só pode comprometer
a saúde mental de uma família, empresa, coletivo… de tal maneira que o que
alimentamos internamente não se restringe somente a nós. Na realidade, com
nosso mal-estar individual, aparentemente circunscrito ao nosso ego empoleirado,
podemos estar arruinando a vida que compartilhamos com aqueles que mais amamos.
Como animais encurralados, somos convencidos a observar o mundo por uma
perspectiva estreita e autocentrada, quando, na verdade, precisamos aprender a ampliar
o olhar, de modo a conceber novas maneiras de enxergar. Às vezes, é se
perdoando que, enfim, aprendemos a perdoar os outros; é olhando para si que,
finalmente, aprendemos a olhar para os demais. Ao cuidarmos da nossa saúde
mental, estamos cuidando de todos à nossa volta, pois estamos inseridos num cosmo
compartilhado. Somos folhas de um mesmo galho, ramos nascidos de uma mesma
árvore, árvores germinadas de uma única Terra. Nada está à parte. Quem se vê
apartado dos demais, ainda não compreendeu quem, de fato, é.
É
uma pena que não nos ensinem isso mais cedo, quando estamos ainda no começo das
nossas vidas e podemos evitar os erros mais banais. Para a nossa tragédia
pessoal, saber recordar o que, realmente, importa — e descartar aquilo que nos
faz apenas mal — é uma arte que, em geral, aprendemos com muitos anos
acumulados em nossas costas. Alguns só conseguem aprendê-lo após cumprirem anos
de terapia. Ainda hoje, na educação das nossas crianças e adolescentes, priorizamos
o aprendizado das ciências convencionais, como se o autocuidado e o
autoconhecimento fossem algo secundário e supérfluo, um detalhe a ser tratado a posteriori. Temo que, se isso não
mudar o quanto antes, veremos as novas gerações repetirem os mesmos sofrimentos
e equívocos das gerações passadas.
Meu
esforço em fazer uma lista dos livros que li ao longo do ano, se justifica na necessidade
de olhar para trás e ver o caminho percorrido, recordar a jornada que comecei doze
meses atrás. Ademais, no que diz respeito ao saldo de leituras concluídas, não
posso dizer que fiquei inteiramente satisfeito ou frustrado. Embora tenha lido pouco,
sinto que fui mais longe do que esperava. Ler o Fausto de Goethe, ainda que só a Primeira Parte, foi um dos maiores
desafios literários que eu já tive na minha vida. Suspeito que, no futuro,
terei de voltar a lê-lo.
Por
fim, espero concluir, neste ano, a leitura de vinte livros. Assim, conseguirei ultrapassar
a marca dos anos anteriores. É verdade que ler não é o mesmo que executar uma
prova de atletismo, porém, da minha parte, há que se esforçar em ler mais.
Segue
abaixo a lista dos livros lidos por mim em 2025:
1. Wild
Thing, Philip Norman (Liveright
Publishing Corporation);
2.
Ressureição,
Machado de Assis (Nova Fronteira);
3.
A
Mão e a Luva, Machado de Assis (Nova Fronteira);
4.
O
que fazer?, Vladimir Lênin (Boitempo);
5.
Niketche,
Paulina Chiziane (Companhia de Bolso);
6.
A
Ditadura envergonhada, Elio Gaspari (Intrínseca);
7.
Fausto:
Primeira Parte, Goethe (Editora 34);
segunda-feira, 30 de dezembro de 2024
Livros lidos em 2024
Com
mais um ano concluído, uma nova lista de livros lidos apresenta-se aqui. Como é
de praxe, você verá que nela há um pouco de tudo: literatura, história, espiritualidade,
ciência política etc. E digo isso sem a pretensão de tornar-me um polímata renascentista.
Sei bem que estou demasiadamente distante do patamar dos velhos mestres, cuja envergadura
faria de mim uma criança bagunçando as palavras com suas manias. Nessa vida que
sigo desbravando, sou nada mais que um curioso, um errante à procura dos mais
variados recantos da mente humana. Como pensavam os grandes filósofos, teóricos
e artistas? Só estudando pra saber.
Ainda
assim, não posso afirmar que apreciei tudo que acabei lendo. Há livros que
prometem mais do que, realmente, podem entregar aos seus leitores, tornando-se,
assim, obras esquecíveis, destinadas à obscuridade nas prateleiras dos sebos. Muitas
delas não passam de modinhas sem fôlego, impulsionadas por um marketing agressivo
e, claro, um frenesi de consumidores abobados. Em parte, elas cumprem a função
de azeitar o mercado editorial, que, em sua maioria, vê nos livros nada mais
que um produto a ser comercializado, reflexo de uma sociedade em que nada
importa mais que o lucro. Num mundo ideal, os best-sellers fariam com que as pessoas adquirissem o precioso hábito
da leitura, de tal maneira que passassem a frequentar as livrarias procurando
por novos títulos e autores. No entanto, a despeito do sucesso comercial dos best-sellers, a maior
parte da nossa gente continua apartada dos livros.
A
chatice em ler certos livros deve-se a inúmeras razões: às vezes, a escrita do
autor é hermética e torturante, ou o tema é enfadonho, ou foi mal traduzido e
assim por diante. Contudo, avaliar a qualidade dos livros abaixo, tanto os bons
quanto os ruins, não é o propósito deste texto. Ao invés de perder tempo
falando acerca do trabalho alheio, fruto daquilo que não me cabe julgar, prefiro
me ocupar em trilhar as veredas que tenho à minha frente. A labuta em escrever
exige de mim um esforço extenuante, de modo que o tempo torna-se escasso e a
escolha das prioridades algo inevitável. Aqueles que veem nisso uma forma de
sacrifício, não estão equivocados. Deixemos, portanto, que os críticos façam
seu trabalho.
Ler
onze livros em um ano, é muito pouco. Mesmo que alguns destes títulos sejam
imponentes calhamaços de mil páginas, no fundo, eu sei bem que poderia ter lido
mais. Fazê-lo, contudo, requer uma disciplina que não tenho, especialmente, se
o autor for maçante. Ah, como invejo os leitores vorazes! Nunca deixarei de
admirar quem desfruta da capacidade de ler dezenas e mais dezenas de livros por
ano. Ao contrário desses indivíduos, minha leitura é demorada, cadenciada por
passos de tartaruga, o que não quer dizer que seja mais qualificada que as
demais. Aliás, não foram raras as vezes em que cochilei lendo o trabalho de
alguns autores; também não foram raras as vezes em que gritei aliviado por
acabar um livro terrivelmente tedioso. Ainda na mesma semana, fiz questão de ir
ao sebo para me livrar dele. Faz parte da vida.
Por fim, aos que padecem da mesma desgraçada desatenção que eu, só me resta dizer uma coisa: não há outra forma de se aprimorar a leitura, exceto insistindo em retornar a ela dia após dia.
Para
o próximo ano, vou estabelecer a meta de vinte e cinco livros lidos.
1.
Memórias
do subsolo, Fiódor Dostoievski (Editora 34);
2.
Tradução
– Ato Desmedido, Boris Schnaiderman (Perspectiva);
3.
Sobre
a natureza humana, Roger Scruton (Editora Record);
4.
Tolos,
fraudes e militantes, Roger Scruton (Editora Record);
5.
A Alma
do mundo, Roger Scruton (Editora Record);
6.
Socialismo
traído, Roger Keeran e Thomas Kenny (LavraPalavra);
7.
Introdução
à literatura fantástica,
Tzvetan Todorov (Perspectiva);
8.
História
do Brasil: Uma interpretação, Carlos Guilherme Mota
& Adriana Lopez (Editora 34);
9.
A
nuvem do não-saber, Anônimo (Editora Vozes);
10. Reforma ou revolução?,
Rosa Luxemburgo (Expressão popular);
11. Escritos políticos,
Frantz Fanon (Boitempo).
Daniel Viana de Sousa
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quinta-feira, 29 de agosto de 2024
25 personagens que me influenciaram
O
universo da cultura pop sempre me
cativou, e — ao contrário do que dizem por aí — há uma quantidade
considerável de material bom a ser consumido, sem medo de se ingerir elementos
nocivos à saúde da inteligência. De fato, nem tudo que a indústria
cultural gera é imprestável ou supérfluo. Na verdade, o mundo pop me acompanhou desde bem cedo, seja
nos filmes e séries, nos animes e mangás, seja na literatura de best-sellers e blockbusters, de modo que aquilo que sou, em parte, nasceu dessa
simbiose de arte e entretenimento.
Após
fazer listas de músicas, filmes, álbuns e séries, chegou a hora de apresentar alguns
dos personagens de ficção mais marcantes que conheci até aqui. Escolhi um
personagem por livro, filme, anime ou série, de modo que, certamente, muito
material bom ficou de fora. Na realidade, qualquer classificação é parcialmente
injusta — às vezes, o que fica de fora não é menos impactante do que aquilo que
acaba sendo escolhido para aparecer aqui —, mas não lhes trazer lista alguma seria,
a meu ver, ainda pior, pois temos de dar algum norte a quem nos lê. Afinal, o
tempo que dispomos é sempre curto. Precisamos deixar o mundo que nos é familiar
se quisermos acessar o que trafega além do horizonte, caso contrário teremos
vivido uma existência que nos frustrará perante a morte. Nesse sentido, os
heróis helenos estavam corretos em temer a mediocridade de uma vida levada
bovinamente.
Lamento
por aqueles que não enxergam valor nos labirintos da ficção, optando pelo torpor
de um domingo no sofá, deleitando-se com pizza e guaraná em frente à televisão.
Ainda hoje, é fácil acomodar-se a uma distração tão desnecessária quanto a
rotina televisiva; não deveríamos nos espantar que ela seja concebida, desde os
postos de comando dos conglomerados de comunicação, para nos enfiar esterco goela abaixo, sem nenhuma reflexão ou qualquer coisa que, de fato, promova uma
transformação no indivíduo. Muito pelo contrário, a morbidez cognitiva é a
regra do que assistimos ao ligar o televisor, bem como boa parte do que está em
evidência nas redes sociais. De certa forma, a televisão ainda é um retrato do
Brasil, um espelho no qual podemos ter um vislumbre da sociedade em que vivemos.
Afastar-se de tudo isso, como um estoico monástico, só pode nos trazer ganhos à saúde física e mental.
Ler,
por sua vez, requer um heroísmo que se torna cada vez mais penoso à medida que
o leitor deixa o conhecimento de lado, preferindo as banalidades de uma sociedade
viciada em se entreter, como se fugisse de um silêncio feroz, capaz de
devorá-lo se fosse, enfim, liberto. Seria esse silêncio a causa de um coração sufocado
e inquieto? Estariam as suas consciências gemendo desgraçadamente? Nesse caso,
a leitura seria “ameaçadora”, porque poderia nos levar a portas perigosas. Quem
não é habituado a percorrer tais recantos tortuosos, costuma se sentir
desperdiçando o próprio tempo, e logo deixa o livro de lado. Assim disse Tyrion
Lannister: do mesmo modo que a espada precisa da pedra para se manter afiada, a
mente precisa dos livros; ela precisa lê-los página por página, sem pressa de
chegar ao final, sugando seu sumo até o âmago, comungando, com o protagonista,
de suas dores e alegrias, derrotas e conquistas.
Ler
nunca foi fácil para os iniciantes, o que, talvez, explique o fato da maioria dos
brasileiros não lerem livros ao longo de suas vidas. Claro que, no caso
nacional, há outros aspectos socioeconômicos que precisam ser considerados: o
alto preço dos livros, o sucateamento da educação pública, o desincentivo à busca
pelo saber, a falta de tempo livre do trabalhador que transita pelas grandes
cidades e assim por diante. O fato é que, enquanto coletividade, ainda somos um
povo avesso à leitura, ao contato com o livro na intimidade do quarto de dormir.
Enquanto a televisão tem seu lugar garantido na sala de estar dos brasileiros,
o livro é quase um extraterrestre para a família comum, sem mesmo uma estante
que o comporte adequadamente.
Agora,
falemos da lista que trago nessa postagem.
O
que esses personagens têm em comum? Difícil pergunta. Talvez uma certa nobreza
nipônica, paixão cavalheiresca, uma valentia heroica, resiliência homérica, mas
também (em alguns casos) uma pureza primaveril que os torna incompreensíveis à
sua época. Alguns influenciaram a minha infância e adolescência, enquanto que
outros chegaram até mim só na vida adulta. Tal qual um Prometeu que nos traz a luz
do esclarecimento, conhecê-los mexeu comigo, transformando minha forma de ver o
mundo à nossa volta. Também não nego que minha solidão tenha sido atenuada após
esse encontro, pois eles são a personificação daquilo que os rebeldes
compartilham entre si: uma individualidade irredutível, singularidade incapaz
de se dobrar, disposta a nadar contra a maré e sacrificar-se se for preciso. Nesses
tempos de resignação apática, tais personagens são uma lufada de brisa
acolhedora e, ao mesmo tempo, um furacão dentro das nossas cabeças.
A
lista abaixo apresenta alguns dos personagens que mais me chamaram a atenção:
1.
Kenshin Himura (Samurai X);
2.
Myamoto Musashi (Vagabond);
3.
Ip Man (Donnie Yen);
4.
Moritsugu Katsumoto (Ken Watanabe);
5.
John Keating (Robin Williams);
6.
Dr. Carlo Antonini (Emílio de Mello - PSI);
7. Dolores Abernathy (Evan Rachel Wood);
8. Ryoko (Tenchi Muyo);
9.
Nausicaa (Nausicaa do Vale do Vento);
10. Forrest
Gump (Tom Hanks);
11. Tyrion
Lannister (As Crônicas de Gelo e Fogo);
12. William
Wallace (Mel Gibson);
13. Jacques Mayol (A imensidão azul);
14. Santiago
(O Velho e o Mar);
15. Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis);
16. Neo/
sr. Anderson (Matrix);
17. André
(Lavoura Arcaica);
18. Ulisses
(Alfred Tennyson);
19. João
Grilo (Auto da Compadecida);
20. Príncipe
Míchkin (O Idiota);
21. Furiosa
(Charlize Theron);
22. Coringa
(Heath Ledger);
23. Feanor
(Silmarillion);
24. Gandalf
(O Senhor dos Anéis);
25. Anakin Skywalker/Darth Vader (Star Wars).
Daniel
Viana de Sousa
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domingo, 30 de junho de 2024
20 séries que me marcaram
Desde o início da década passada, temos experimentado um período áureo na produção de séries televisivas. Decidi, então, fazer outra lista. Desta vez, apresentarei as séries que mais me marcaram nesses últimos treze anos. Como não sou um grande consumidor desse tipo de conteúdo, o número de obras selecionadas é menor em relação às outras listas que já publiquei por aqui.
Algumas
dessas produções tornaram-se um fenômeno de massas, uma obsessão coletiva. Crianças,
jovens e adultos das mais diversas nacionalidades passaram a debater, em tavernas,
calabouços e redes sociais, o destino dos seus personagens prediletos e também
a morte dos vilões mais pérfidos. Claro que o conteúdo era — e continua sendo —
quase inteiramente dos Estados Unidos da América, centro pulsante da indústria cultural
mundial.
Aliás,
mesmo com a pirataria promovida em larga escala, não falta verba pra se produzir conteúdo
televisivo da mais alta complexidade em terras anglo-americanas; a cada temporada
que passa, o orçamento de algumas franquias alcança cifras milionárias, comparáveis
às maiores produções hollywoodianas. Trata-se de uma prova cabal de que a produção
cultural só é vista como algo fútil e supérfluo por parte dos brasileiros mais pré-históricos.
Na realidade, do lado de cá, muitos sonham em assinar um contrato com esses estúdios,
ainda que seja como dublê ou decorador de camarim. Não há dúvidas de que isto seja parte de um fenômeno bem conhecido nas terras ao sul do
Equador: o imperialismo cultural.
No
entanto, como todas as minhas listas apontam, eu não me disponho a guerrear os gentlemen de pele alva, que nos fazem
visitas periódicas há mais de cinco séculos. Ao contrário, tal qual um tupi
lusitano, estou disposto a recebe-los e devorá-los, desmembrando suas carnes,
falares e saberes, indo ao âmago da essência mais secreta e íntima. Estou em
busca do que não sou, para, assim, decifrar o que apenas eu consigo sentir em mim.
Se encontrarei o que procuro, só o tempo responderá. Deixe-o falar em sua
língua cheia de malícia e mistérios.
Assim
como ocorrera com a invasão do rock, na segunda metade do século XX, resta aos
brasileiros contemplarem, de boca aberta, os dragões valirianos tocarem fogo no
parquinho. Sem dúvidas, seria inútil enfrenta-los a essa altura do campeonato. Eu
não entro nessa. Precisamos realizar uma valorização da cultura brasileira que
não feche as portas — e as mentes — para a influência externa. Não podemos
deter a roda da História, e sim encontrar meios de usá-la ao nosso favor.
E,
mesmo que ter sucesso não seja, necessariamente, ter qualidade, seria
espantoso se alguém afirmasse desconhecer tudo que estou falando aqui. Isso me faria censurá-lo por seu descaso com o pouco de bom que ainda sobrevive na televisão contemporânea. Atenção! Aproveite enquanto há tempo,
pois é impossível saber se a qualidade será mantida nos próximos anos, ainda
que, como a própria lista indica, boas histórias continuem sendo feitas, ano
após ano, por diferentes diretores, roteiristas, atores etc.
Antes de mais nada, é preciso relembrar os mais perfeccionistas que todas as criações têm seus
altos e baixos. Certas dramatizações, como Game
of Thrones, não conseguiram um encerramento à altura do esperado; outras
tiveram um começo magistral, mas decepcionaram logo em seguida, como fora o
caso de Westworld. No entanto, as séries
que insisti em pôr aqui me impactaram, a despeito de seus triunfos e fracassos,
das propostas inovadoras e escolhas erradas. Pois, fazer arte não é fácil. Ela
nos exige uma dedicação que a maioria do público, simplesmente, desconhece. Nada
cai do céu e não existem manuais quando se anda às escuras no processo criativo.
Pelo contrário, a fronteira que separa uma formulação bem pensada de uma
tontice não é tão visível quanto pensam alguns juízes de internet, de modo que quase
todos os veteranos do meio artístico, em algum momento, já se equivocaram na
realização do seu ofício. Essa “confusão” fica ainda mais interessante quando o
artista erra e, supreendentemente, o público aplaude sem se dar conta do que,
de fato, aconteceu. Algumas vezes, o “erro” é tudo que o público mais espera. Portanto,
pensem bem antes de criticarem qualquer artista!
As
obras que escolhi se sobressaem por sua qualidade, ainda que eu não tenha visto
outras séries elogiadas pelo público e pela crítica, como é o caso, por
exemplo, de Narcos e The Big Band Theory.
No futuro, talvez eu faça novas listas com o que estou vendo hoje. Enfim, estou
convencido de que, no futuro, algumas destas franquias serão lembradas como a
definição de toda uma época.
1. Game
of Thrones (HBO), David
Benioff & D. B. Weiss;
2. House
of the Dragon (HBO), George Martin
and Ryan Condal;
3. Westworld
(HBO), Jonathan Nolan
& Lisa Joy;
4. Power
of Art (BBC), Simon Schama;
5. Vikings
(History Channel),
Michael Hirst;
6. Wild,
Wild Country (Netflix), Maclain Way & Chapman Way;
7. Breaking
Bad (AMC), Vince Gilligan;
8. Stranger
Things (Netflix), Os irmãos
Duffer;
9. Black
Mirror (Netflix), Charlie
Brooker;
10. Sessão de Terapia (GNT e
Globoplay), Jaqueline Vargas;
11. PSI (HBO), Contardo
Calligaris;
12. House
of Cards (HBO), Beau Willimon;
13. The
Handmaid’s Tale (HULU), Bruce
Miller;
14. Chernobyl (HBO),
Craig Mazin;
15. Fallout
(Amazon), Graham Wagner
e Geneva Robertson-Dworet;
16. Shogun
(HULU), Rachel Kondo e
Justin Marks;
17. The
Last of Us (HBO), Craig Mazin e Neil
Druckmann;
18. The
Devil Next Door (Netflix), Yossi
Bloch e Daniel Sivan;
19. O povo brasileiro (GNT),
Grinspum Ferraz;
20. The
Vietnam War (2017), Ken Burns
e Lynn Novick.
Daniel
Viana de Sousa
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sexta-feira, 24 de maio de 2024
30 discos que fizeram a minha cabeça
Os discos escolhidos aqui me tocaram,
dos calafrios na pele exposta até o âmago do caráter. Talvez, algum tenha
ficado de fora, mas a síntese fundamental está aí. Além disso, é provável que o
leitor suponha que estes são os meus álbuns preferidos. Certamente, aqui está
uma compilação inestimável para a minha história. No entanto, eu me limitei a
um único disco por artista ou banda, o que já deixa muita coisa boa de fora; também
priorizei aquilo que ouvi da adolescência até os anos mais recentes, de modo
que as bandas que estou ouvindo há pouco tempo terminaram ficando de fora.
Há discos que, embora não sejam os
mais primorosos de cada artista, deixaram, no momento em que ouvi pela primeira
vez, uma marca especial em mim, como é o caso de The Bends (1995), que foi um dos primeiros discos internacionais que
me lembro de ter escutado. Há discos que são uma mera compilação, mas que,
ainda assim, me apresentaram o artista por inteiro, como é o caso de Legend (1984). Também há discos que,
por si só, me apresentaram um gênero musical inteiro, como o Selected Ambient Works (1992) e o Dark Side of the Moon (1973). Além
disso, há o caso do Sgt. Pepper’s (1967),
que, embora não seja meu disco preferido dos The Beatles, foi a obra que me apresentou — no começo da juventude — a ideia transformadora
de um álbum conceitual, bem como toda a efervescência dos anos 1960. De certo
modo, o Sgt. Pepper’s foi um dos
caminhos que me trouxeram ao eu sou hoje.
Foi graças à minha família que a
maior parte dessas influências chegaram aos meus ouvidos. Enquanto meus irmãos
ligavam o som do carro, às vezes viajando à tarde pelo interior do mundão
agreste, eu ouvia canção por canção, de Zeca Pagodinho a Tom Jobim, de Belchior
a Led Zeppelin, de Cazuza a Bob Marley, e assim por diante. Não posso negar que,
algumas vezes, isso acontecia à revelia da minha vontade; ainda assim, agradeço
a eles por ter sido incluído nesse oceano musical. A despeito de minhas inúmeras
falhas e contradições, eu não seria quem sou hoje sem tais obras.
Ainda tento manter-me aberto a tudo
que encontro pela primeira vez, por mais desafiador que seja. Hoje em dia, somos
expostos a estrume em escala global, para dizer o mínimo, pois há um desencanto
generalizado um desamor pela beleza da vida, que se reflete naquilo que se
pensa e, consequentemente, no que se faz. Valoriza-se, portanto, a inabilidade,
a ignorância e a vulgaridade, como sinais claros de “improviso” e “transgressão
artística”. Infelizmente, para muitas pessoas, afirmar isso significa
assumir-se reacionário e conservador, ou seja, alguém que despreza os oprimidos
e a arte por eles produzida. Ah, que pena! Já fomos muito melhores que isso,
basta ver a lista abaixo, a qual compilei em poucas horas. Continuo crendo na inventividade
humana, ainda que estejamos num período de visível decadência sociocultural.
Enfim,
como em todas as listas que faço, a ordem não diz muita coisa. O que verás a
seguir foi tão somente o que veio à mente num lampejo triunfante e caótico.
1. Sgt.
Pepper’s Lonely Hearts Club Bands (1967), The Beatles;
2. À
Vontade (1967), Baden Powell;
3. Electric
Ladyland (1968), Jimi Hendrix;
4. Let it
Bleed (1969), The Rolling
Stones;
5. Stand!
(1969), Sly and the Family
Stone;
6. All
Things Must Pass (1970),
George Harrison;
7. Dark
Side of the Moon (1973), Pink
Floyd;
8. What’s
Going On (1971), Marvin Gaye;
9. Led
Zeppelin IV (1971), Led
Zeppelin;
10. A Love
Supreme (1965), John Coltrane;
11. In a
Silent Way (1969),
Miles Davis;
12. Highway
61 Revisited (1965), Bob
Dylan;
13. The
Inner Mounting Flame (1971),
Mahavishnu Orchestra;
14. L.A.
Woman (1971), The Doors;
15. Clube da Esquina (1972),
Clube da Esquina;
16. Acabou Chorare (1972),
Novos Baianos;
17. Elis & Tom (1974), Tom
Jobim e Elis Regina;
18. A Tábua de Esmeralda (1974),
Jorge Bem Jor;
19. Cartola (1974),
Cartola;
20. Criaturas da Noite (1975), O
Terço;
21. Era uma vez um homem e seu tempo (1979),
Belchior;
22. Legend (1984), Bob
Marley;
23. O Tempo não Para (1988),
Cazuza;
24. As Quatro Estações (1989),
Legião Urbana;
25. Selected
Ambient Works 85-92 (1992),
Aphex Twin;
26. Da Lama ao Caos (1994),
Chico Science e Nação Zumbi;
27. Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão
(1994), Marisa Monte;
28. Meio desligado (1994), Kid
Abelha;
29. The
Bends (1995), Radiohead;
30. Fleet Foxes (2008),
Fleet Foxes.
Daniel
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