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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Livros lidos em 2025

 

A cada ano que se acaba, colecionamos as nossas próprias vitórias e fracassos. Quem for realmente honesto, reconhecerá que nem tudo foi desperdício de tempo, nem tampouco dirá que colheu apenas os frutos mais saborosos. Nossas vidas não se restringem ao preto-e-branco dos olhares maniqueístas. Certamente, houve percalços, mas também momentos de imenso prazer, bem como outras tantas memórias que perdemos para sempre na agitação do dia a dia, quando estamos ocupados em chegar na hora marcada, em entregar o trabalho dentro do prazo estipulado, em responder a mensagem urgente que nos chega pelo celular.

Felizmente, não há como lembrar de tudo, de modo que cérebro e mente selecionam — conscientemente ou não — aquilo que permanecerá conosco no decorrer da nossa jornada. Algumas vezes, as memórias guardadas nos fazem bem; outras vezes, elas podem nos adoecer se ficarem tempo demais com a gente. A princípio, tal adoecimento pode vir à tona discretamente, como uma insônia mal resolvida ou uma melancolia sempre à espreita, no entanto, se ele vier a formar raízes profundas, o sujeito adoecido estará semeando para si um futuro ainda mais amargo e doloroso. Pouco a pouco, os sorrisos se tornam escassos, a vivacidade do olhar se esmorece… Dormir acaba sendo algo mais difícil que o normal; banhar-se e sair de casa vira uma missão árdua.

Mas essa história não termina aí. Por vezes, o adoecimento de uma pessoa só pode comprometer a saúde mental de uma família, empresa, coletivo… de tal maneira que o que alimentamos internamente não se restringe somente a nós. Na realidade, com nosso mal-estar individual, aparentemente circunscrito ao nosso ego empoleirado, podemos estar arruinando a vida que compartilhamos com aqueles que mais amamos. Como animais encurralados, somos convencidos a observar o mundo por uma perspectiva estreita e autocentrada, quando, na verdade, precisamos aprender a ampliar o olhar, de modo a conceber novas maneiras de enxergar. Às vezes, é se perdoando que, enfim, aprendemos a perdoar os outros; é olhando para si que, finalmente, aprendemos a olhar para os demais. Ao cuidarmos da nossa saúde mental, estamos cuidando de todos à nossa volta, pois estamos inseridos num cosmo compartilhado. Somos folhas de um mesmo galho, ramos nascidos de uma mesma árvore, árvores germinadas de uma única Terra. Nada está à parte. Quem se vê apartado dos demais, ainda não compreendeu quem, de fato, é.

É uma pena que não nos ensinem isso mais cedo, quando estamos ainda no começo das nossas vidas e podemos evitar os erros mais banais. Para a nossa tragédia pessoal, saber recordar o que, realmente, importa — e descartar aquilo que nos faz apenas mal — é uma arte que, em geral, aprendemos com muitos anos acumulados em nossas costas. Alguns só conseguem aprendê-lo após cumprirem anos de terapia. Ainda hoje, na educação das nossas crianças e adolescentes, priorizamos o aprendizado das ciências convencionais, como se o autocuidado e o autoconhecimento fossem algo secundário e supérfluo, um detalhe a ser tratado a posteriori. Temo que, se isso não mudar o quanto antes, veremos as novas gerações repetirem os mesmos sofrimentos e equívocos das gerações passadas.

Meu esforço em fazer uma lista dos livros que li ao longo do ano, se justifica na necessidade de olhar para trás e ver o caminho percorrido, recordar a jornada que comecei doze meses atrás. Ademais, no que diz respeito ao saldo de leituras concluídas, não posso dizer que fiquei inteiramente satisfeito ou frustrado. Embora tenha lido pouco, sinto que fui mais longe do que esperava. Ler o Fausto de Goethe, ainda que só a Primeira Parte, foi um dos maiores desafios literários que eu já tive na minha vida. Suspeito que, no futuro, terei de voltar a lê-lo.

Por fim, espero concluir, neste ano, a leitura de vinte livros. Assim, conseguirei ultrapassar a marca dos anos anteriores. É verdade que ler não é o mesmo que executar uma prova de atletismo, porém, da minha parte, há que se esforçar em ler mais.

Segue abaixo a lista dos livros lidos por mim em 2025:

1.      Wild Thing, Philip Norman (Liveright Publishing Corporation);

2.      Ressureição, Machado de Assis (Nova Fronteira);

3.      A Mão e a Luva, Machado de Assis (Nova Fronteira);

4.      O que fazer?, Vladimir Lênin (Boitempo);

5.      Niketche, Paulina Chiziane (Companhia de Bolso);

6.      A Ditadura envergonhada, Elio Gaspari (Intrínseca);

7.      Fausto: Primeira Parte, Goethe (Editora 34);

 

 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Livros lidos em 2024

 

Com mais um ano concluído, uma nova lista de livros lidos apresenta-se aqui. Como é de praxe, você verá que nela há um pouco de tudo: literatura, história, espiritualidade, ciência política etc. E digo isso sem a pretensão de tornar-me um polímata renascentista. Sei bem que estou demasiadamente distante do patamar dos velhos mestres, cuja envergadura faria de mim uma criança bagunçando as palavras com suas manias. Nessa vida que sigo desbravando, sou nada mais que um curioso, um errante à procura dos mais variados recantos da mente humana. Como pensavam os grandes filósofos, teóricos e artistas? Só estudando pra saber.

Ainda assim, não posso afirmar que apreciei tudo que acabei lendo. Há livros que prometem mais do que, realmente, podem entregar aos seus leitores, tornando-se, assim, obras esquecíveis, destinadas à obscuridade nas prateleiras dos sebos. Muitas delas não passam de modinhas sem fôlego, impulsionadas por um marketing agressivo e, claro, um frenesi de consumidores abobados. Em parte, elas cumprem a função de azeitar o mercado editorial, que, em sua maioria, vê nos livros nada mais que um produto a ser comercializado, reflexo de uma sociedade em que nada importa mais que o lucro. Num mundo ideal, os best-sellers fariam com que as pessoas adquirissem o precioso hábito da leitura, de tal maneira que passassem a frequentar as livrarias procurando por novos títulos e autores. No entanto, a despeito do sucesso comercial dos best-sellersa maior parte da nossa gente continua apartada dos livros.

A chatice em ler certos livros deve-se a inúmeras razões: às vezes, a escrita do autor é hermética e torturante, ou o tema é enfadonho, ou foi mal traduzido e assim por diante. Contudo, avaliar a qualidade dos livros abaixo, tanto os bons quanto os ruins, não é o propósito deste texto. Ao invés de perder tempo falando acerca do trabalho alheio, fruto daquilo que não me cabe julgar, prefiro me ocupar em trilhar as veredas que tenho à minha frente. A labuta em escrever exige de mim um esforço extenuante, de modo que o tempo torna-se escasso e a escolha das prioridades algo inevitável. Aqueles que veem nisso uma forma de sacrifício, não estão equivocados. Deixemos, portanto, que os críticos façam seu trabalho.

Ler onze livros em um ano, é muito pouco. Mesmo que alguns destes títulos sejam imponentes calhamaços de mil páginas, no fundo, eu sei bem que poderia ter lido mais. Fazê-lo, contudo, requer uma disciplina que não tenho, especialmente, se o autor for maçante. Ah, como invejo os leitores vorazes! Nunca deixarei de admirar quem desfruta da capacidade de ler dezenas e mais dezenas de livros por ano. Ao contrário desses indivíduos, minha leitura é demorada, cadenciada por passos de tartaruga, o que não quer dizer que seja mais qualificada que as demais. Aliás, não foram raras as vezes em que cochilei lendo o trabalho de alguns autores; também não foram raras as vezes em que gritei aliviado por acabar um livro terrivelmente tedioso. Ainda na mesma semana, fiz questão de ir ao sebo para me livrar dele. Faz parte da vida.

Por fim, aos que padecem da mesma desgraçada desatenção que eu, só me resta dizer uma coisa: não há outra forma de se aprimorar a leitura, exceto insistindo em retornar a ela dia após dia.

Para o próximo ano, vou estabelecer a meta de vinte e cinco livros lidos.

 

1.      Memórias do subsolo, Fiódor Dostoievski (Editora 34);

2.      Tradução – Ato Desmedido, Boris Schnaiderman (Perspectiva);

3.      Sobre a natureza humana, Roger Scruton (Editora Record);

4.      Tolos, fraudes e militantes, Roger Scruton (Editora Record);

5.      A Alma do mundo, Roger Scruton (Editora Record);

6.      Socialismo traído, Roger Keeran e Thomas Kenny (LavraPalavra);

7.      Introdução à literatura fantástica, Tzvetan Todorov (Perspectiva);

8.      História do Brasil: Uma interpretação, Carlos Guilherme Mota & Adriana Lopez (Editora 34);

9.      A nuvem do não-saber, Anônimo (Editora Vozes);

10.  Reforma ou revolução?, Rosa Luxemburgo (Expressão popular);

11.  Escritos políticos, Frantz Fanon (Boitempo).

 

 

Daniel Viana de Sousa

© Todos os direitos reservados

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

25 personagens que me influenciaram

 

O universo da cultura pop sempre me cativou, e — ao contrário do que dizem por aí — há uma quantidade considerável de material bom a ser consumido, sem medo de se ingerir elementos nocivos à saúde da inteligência. De fato, nem tudo que a indústria cultural gera é imprestável ou supérfluo. Na verdade, o mundo pop me acompanhou desde bem cedo, seja nos filmes e séries, nos animes e mangás, seja na literatura de best-sellers e blockbusters, de modo que aquilo que sou, em parte, nasceu dessa simbiose de arte e entretenimento.

Após fazer listas de músicas, filmes, álbuns e séries, chegou a hora de apresentar alguns dos personagens de ficção mais marcantes que conheci até aqui. Escolhi um personagem por livro, filme, anime ou série, de modo que, certamente, muito material bom ficou de fora. Na realidade, qualquer classificação é parcialmente injusta — às vezes, o que fica de fora não é menos impactante do que aquilo que acaba sendo escolhido para aparecer aqui —, mas não lhes trazer lista alguma seria, a meu ver, ainda pior, pois temos de dar algum norte a quem nos lê. Afinal, o tempo que dispomos é sempre curto. Precisamos deixar o mundo que nos é familiar se quisermos acessar o que trafega além do horizonte, caso contrário teremos vivido uma existência que nos frustrará perante a morte. Nesse sentido, os heróis helenos estavam corretos em temer a mediocridade de uma vida levada bovinamente.

Lamento por aqueles que não enxergam valor nos labirintos da ficção, optando pelo torpor de um domingo no sofá, deleitando-se com pizza e guaraná em frente à televisão. Ainda hoje, é fácil acomodar-se a uma distração tão desnecessária quanto a rotina televisiva; não deveríamos nos espantar que ela seja concebida, desde os postos de comando dos conglomerados de comunicação, para nos enfiar esterco goela abaixo, sem nenhuma reflexão ou qualquer coisa que, de fato, promova uma transformação no indivíduo. Muito pelo contrário, a morbidez cognitiva é a regra do que assistimos ao ligar o televisor, bem como boa parte do que está em evidência nas redes sociais. De certa forma, a televisão ainda é um retrato do Brasil, um espelho no qual podemos ter um vislumbre da sociedade em que vivemos. Afastar-se de tudo isso, como um estoico monástico, só pode nos trazer ganhos à saúde física e mental.

Ler, por sua vez, requer um heroísmo que se torna cada vez mais penoso à medida que o leitor deixa o conhecimento de lado, preferindo as banalidades de uma sociedade viciada em se entreter, como se fugisse de um silêncio feroz, capaz de devorá-lo se fosse, enfim, liberto. Seria esse silêncio a causa de um coração sufocado e inquieto? Estariam as suas consciências gemendo desgraçadamente? Nesse caso, a leitura seria “ameaçadora”, porque poderia nos levar a portas perigosas. Quem não é habituado a percorrer tais recantos tortuosos, costuma se sentir desperdiçando o próprio tempo, e logo deixa o livro de lado. Assim disse Tyrion Lannister: do mesmo modo que a espada precisa da pedra para se manter afiada, a mente precisa dos livros; ela precisa lê-los página por página, sem pressa de chegar ao final, sugando seu sumo até o âmago, comungando, com o protagonista, de suas dores e alegrias, derrotas e conquistas.

Ler nunca foi fácil para os iniciantes, o que, talvez, explique o fato da maioria dos brasileiros não lerem livros ao longo de suas vidas. Claro que, no caso nacional, há outros aspectos socioeconômicos que precisam ser considerados: o alto preço dos livros, o sucateamento da educação pública, o desincentivo à busca pelo saber, a falta de tempo livre do trabalhador que transita pelas grandes cidades e assim por diante. O fato é que, enquanto coletividade, ainda somos um povo avesso à leitura, ao contato com o livro na intimidade do quarto de dormir. Enquanto a televisão tem seu lugar garantido na sala de estar dos brasileiros, o livro é quase um extraterrestre para a família comum, sem mesmo uma estante que o comporte adequadamente.

Agora, falemos da lista que trago nessa postagem.

O que esses personagens têm em comum? Difícil pergunta. Talvez uma certa nobreza nipônica, paixão cavalheiresca, uma valentia heroica, resiliência homérica, mas também (em alguns casos) uma pureza primaveril que os torna incompreensíveis à sua época. Alguns influenciaram a minha infância e adolescência, enquanto que outros chegaram até mim só na vida adulta. Tal qual um Prometeu que nos traz a luz do esclarecimento, conhecê-los mexeu comigo, transformando minha forma de ver o mundo à nossa volta. Também não nego que minha solidão tenha sido atenuada após esse encontro, pois eles são a personificação daquilo que os rebeldes compartilham entre si: uma individualidade irredutível, singularidade incapaz de se dobrar, disposta a nadar contra a maré e sacrificar-se se for preciso. Nesses tempos de resignação apática, tais personagens são uma lufada de brisa acolhedora e, ao mesmo tempo, um furacão dentro das nossas cabeças.

A lista abaixo apresenta alguns dos personagens que mais me chamaram a atenção:

 

1.    Kenshin Himura (Samurai X);

2.    Myamoto Musashi (Vagabond);

3.    Ip Man (Donnie Yen);

4.    Moritsugu Katsumoto (Ken Watanabe);

5.    John Keating (Robin Williams);

6.    Dr. Carlo Antonini (Emílio de Mello - PSI);

7.    Dolores Abernathy (Evan Rachel Wood);

8.    Ryoko (Tenchi Muyo);

9.    Nausicaa (Nausicaa do Vale do Vento);

10. Forrest Gump (Tom Hanks);

11. Tyrion Lannister (As Crônicas de Gelo e Fogo);

12. William Wallace (Mel Gibson);

13. Jacques Mayol (A imensidão azul);

14. Santiago (O Velho e o Mar);

15. Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis);

16. Neo/ sr. Anderson (Matrix);

17. André (Lavoura Arcaica);

18. Ulisses (Alfred Tennyson);

19. João Grilo (Auto da Compadecida);

20. Príncipe Míchkin (O Idiota);

21. Furiosa (Charlize Theron);

22. Coringa (Heath Ledger);

23. Feanor (Silmarillion);

24. Gandalf (O Senhor dos Anéis);

25. Anakin Skywalker/Darth Vader (Star Wars).

 

 

Daniel Viana de Sousa

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domingo, 30 de junho de 2024

20 séries que me marcaram

 

        Desde o início da década passada, temos experimentado um período áureo na produção de séries televisivas. Decidi, então, fazer outra lista. Desta vez, apresentarei as séries que mais me marcaram nesses últimos treze anos. Como não sou um grande consumidor desse tipo de conteúdo, o número de obras selecionadas é menor em relação às outras listas que já publiquei por aqui.

Algumas dessas produções tornaram-se um fenômeno de massas, uma obsessão coletiva. Crianças, jovens e adultos das mais diversas nacionalidades passaram a debater, em tavernas, calabouços e redes sociais, o destino dos seus personagens prediletos e também a morte dos vilões mais pérfidos. Claro que o conteúdo era — e continua sendo — quase inteiramente dos Estados Unidos da América, centro pulsante da indústria cultural mundial.

Aliás, mesmo com a pirataria promovida em larga escala, não falta verba pra se produzir conteúdo televisivo da mais alta complexidade em terras anglo-americanas; a cada temporada que passa, o orçamento de algumas franquias alcança cifras milionárias, comparáveis às maiores produções hollywoodianas. Trata-se de uma prova cabal de que a produção cultural só é vista como algo fútil e supérfluo por parte dos brasileiros mais pré-históricos. Na realidade, do lado de cá, muitos sonham em assinar um contrato com esses estúdios, ainda que seja como dublê ou decorador de camarim. Não há dúvidas de que isto seja parte de um fenômeno bem conhecido nas terras ao sul do Equador: o imperialismo cultural.

No entanto, como todas as minhas listas apontam, eu não me disponho a guerrear os gentlemen de pele alva, que nos fazem visitas periódicas há mais de cinco séculos. Ao contrário, tal qual um tupi lusitano, estou disposto a recebe-los e devorá-los, desmembrando suas carnes, falares e saberes, indo ao âmago da essência mais secreta e íntima. Estou em busca do que não sou, para, assim, decifrar o que apenas eu consigo sentir em mim. Se encontrarei o que procuro, só o tempo responderá. Deixe-o falar em sua língua cheia de malícia e mistérios.

Assim como ocorrera com a invasão do rock, na segunda metade do século XX, resta aos brasileiros contemplarem, de boca aberta, os dragões valirianos tocarem fogo no parquinho. Sem dúvidas, seria inútil enfrenta-los a essa altura do campeonato. Eu não entro nessa. Precisamos realizar uma valorização da cultura brasileira que não feche as portas — e as mentes — para a influência externa. Não podemos deter a roda da História, e sim encontrar meios de usá-la ao nosso favor.

E, mesmo que ter sucesso não seja, necessariamente, ter qualidade, seria espantoso se alguém afirmasse desconhecer tudo que estou falando aqui. Isso me faria censurá-lo por seu descaso com o pouco de bom que ainda sobrevive na televisão contemporânea. Atenção! Aproveite enquanto há tempo, pois é impossível saber se a qualidade será mantida nos próximos anos, ainda que, como a própria lista indica, boas histórias continuem sendo feitas, ano após ano, por diferentes diretores, roteiristas, atores etc.

       Antes de mais nada, é preciso relembrar os mais perfeccionistas que todas as criações têm seus altos e baixos. Certas dramatizações, como Game of Thrones, não conseguiram um encerramento à altura do esperado; outras tiveram um começo magistral, mas decepcionaram logo em seguida, como fora o caso de Westworld. No entanto, as séries que insisti em pôr aqui me impactaram, a despeito de seus triunfos e fracassos, das propostas inovadoras e escolhas erradas. Pois, fazer arte não é fácil. Ela nos exige uma dedicação que a maioria do público, simplesmente, desconhece. Nada cai do céu e não existem manuais quando se anda às escuras no processo criativo. Pelo contrário, a fronteira que separa uma formulação bem pensada de uma tontice não é tão visível quanto pensam alguns juízes de internet, de modo que quase todos os veteranos do meio artístico, em algum momento, já se equivocaram na realização do seu ofício. Essa “confusão” fica ainda mais interessante quando o artista erra e, supreendentemente, o público aplaude sem se dar conta do que, de fato, aconteceu. Algumas vezes, o “erro” é tudo que o público mais espera. Portanto, pensem bem antes de criticarem qualquer artista!

As obras que escolhi se sobressaem por sua qualidade, ainda que eu não tenha visto outras séries elogiadas pelo público e pela crítica, como é o caso, por exemplo, de Narcos e The Big Band Theory. No futuro, talvez eu faça novas listas com o que estou vendo hoje. Enfim, estou convencido de que, no futuro, algumas destas franquias serão lembradas como a definição de toda uma época.

 

1.    Game of Thrones (HBO), David Benioff & D. B. Weiss;

2.    House of the Dragon (HBO), George Martin and Ryan Condal;

3.    Westworld (HBO), Jonathan Nolan & Lisa Joy;

4.    Power of Art (BBC), Simon Schama;

5.    Vikings (History Channel), Michael Hirst;

6.    Wild, Wild Country (Netflix), Maclain Way & Chapman Way;

7.    Breaking Bad (AMC), Vince Gilligan;

8.    Stranger Things (Netflix), Os irmãos Duffer;

9.    Black Mirror (Netflix), Charlie Brooker;

10. Sessão de Terapia (GNT e Globoplay), Jaqueline Vargas;

11. PSI (HBO), Contardo Calligaris;

12. House of Cards (HBO), Beau Willimon;

13. The Handmaid’s Tale (HULU), Bruce Miller;

14. Chernobyl (HBO), Craig Mazin;

15. Fallout (Amazon), Graham Wagner e Geneva Robertson-Dworet;

16. Shogun (HULU), Rachel Kondo e Justin Marks;

17. The Last of Us (HBO), Craig Mazin e Neil Druckmann;

18. The Devil Next Door (Netflix), Yossi Bloch e Daniel Sivan;

19. O povo brasileiro (GNT), Grinspum Ferraz;

20. The Vietnam War (2017), Ken Burns e Lynn Novick.

 

 

Daniel Viana de Sousa

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sexta-feira, 24 de maio de 2024

30 discos que fizeram a minha cabeça

 

            Os discos escolhidos aqui me tocaram, dos calafrios na pele exposta até o âmago do caráter. Talvez, algum tenha ficado de fora, mas a síntese fundamental está aí. Além disso, é provável que o leitor suponha que estes são os meus álbuns preferidos. Certamente, aqui está uma compilação inestimável para a minha história. No entanto, eu me limitei a um único disco por artista ou banda, o que já deixa muita coisa boa de fora; também priorizei aquilo que ouvi da adolescência até os anos mais recentes, de modo que as bandas que estou ouvindo há pouco tempo terminaram ficando de fora.

            Há discos que, embora não sejam os mais primorosos de cada artista, deixaram, no momento em que ouvi pela primeira vez, uma marca especial em mim, como é o caso de The Bends (1995), que foi um dos primeiros discos internacionais que me lembro de ter escutado. Há discos que são uma mera compilação, mas que, ainda assim, me apresentaram o artista por inteiro, como é o caso de Legend (1984). Também há discos que, por si só, me apresentaram um gênero musical inteiro, como o Selected Ambient Works (1992) e o Dark Side of the Moon (1973). Além disso, há o caso do Sgt. Pepper’s (1967), que, embora não seja meu disco preferido dos The Beatles, foi a obra que me apresentou — no começo da juventude — a ideia transformadora de um álbum conceitual, bem como toda a efervescência dos anos 1960. De certo modo, o Sgt. Pepper’s foi um dos caminhos que me trouxeram ao eu sou hoje.

            Foi graças à minha família que a maior parte dessas influências chegaram aos meus ouvidos. Enquanto meus irmãos ligavam o som do carro, às vezes viajando à tarde pelo interior do mundão agreste, eu ouvia canção por canção, de Zeca Pagodinho a Tom Jobim, de Belchior a Led Zeppelin, de Cazuza a Bob Marley, e assim por diante. Não posso negar que, algumas vezes, isso acontecia à revelia da minha vontade; ainda assim, agradeço a eles por ter sido incluído nesse oceano musical. A despeito de minhas inúmeras falhas e contradições, eu não seria quem sou hoje sem tais obras.

            Ainda tento manter-me aberto a tudo que encontro pela primeira vez, por mais desafiador que seja. Hoje em dia, somos expostos a estrume em escala global, para dizer o mínimo, pois há um desencanto generalizado um desamor pela beleza da vida, que se reflete naquilo que se pensa e, consequentemente, no que se faz. Valoriza-se, portanto, a inabilidade, a ignorância e a vulgaridade, como sinais claros de “improviso” e “transgressão artística”. Infelizmente, para muitas pessoas, afirmar isso significa assumir-se reacionário e conservador, ou seja, alguém que despreza os oprimidos e a arte por eles produzida. Ah, que pena! Já fomos muito melhores que isso, basta ver a lista abaixo, a qual compilei em poucas horas. Continuo crendo na inventividade humana, ainda que estejamos num período de visível decadência sociocultural.

Enfim, como em todas as listas que faço, a ordem não diz muita coisa. O que verás a seguir foi tão somente o que veio à mente num lampejo triunfante e caótico.

 

1.    Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Bands (1967), The Beatles;

2.    À Vontade (1967), Baden Powell;

3.    Electric Ladyland (1968), Jimi Hendrix;

4.    Let it Bleed (1969), The Rolling Stones;

5.    Stand! (1969), Sly and the Family Stone;

6.    All Things Must Pass (1970), George Harrison;

7.    Dark Side of the Moon (1973), Pink Floyd;

8.    What’s Going On (1971), Marvin Gaye;

9.    Led Zeppelin IV (1971), Led Zeppelin;

10. A Love Supreme (1965), John Coltrane;

11. In a Silent Way (1969), Miles Davis;

12. Highway 61 Revisited (1965), Bob Dylan;

13. The Inner Mounting Flame (1971), Mahavishnu Orchestra;

14. L.A. Woman (1971), The Doors;

15. Clube da Esquina (1972), Clube da Esquina;

16. Acabou Chorare (1972), Novos Baianos;

17. Elis & Tom (1974), Tom Jobim e Elis Regina;

18. A Tábua de Esmeralda (1974), Jorge Bem Jor;

19. Cartola (1974), Cartola;

20. Criaturas da Noite (1975), O Terço;

21. Era uma vez um homem e seu tempo (1979), Belchior;

22. Legend (1984), Bob Marley;

23. O Tempo não Para (1988), Cazuza;

24. As Quatro Estações (1989), Legião Urbana;

25. Selected Ambient Works 85-92 (1992), Aphex Twin;

26. Da Lama ao Caos (1994), Chico Science e Nação Zumbi;

27. Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão (1994), Marisa Monte;

28. Meio desligado (1994), Kid Abelha;

29. The Bends (1995), Radiohead;

30. Fleet Foxes (2008), Fleet Foxes.

 

Daniel Viana de Sousa

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