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sábado, 30 de dezembro de 2023

Antes de mais nada, sou um humanista


            As mais severas dúvidas acompanham a vida das mentes atordoadas e lúcidas, dos seres sublimes e triviais, das almas de inefável candura, assim com aquelas, terrivelmente, pérfidas e imorais; por mais que os homens se arvorem em convicções e teses dogmáticas, não lhes será permitido o repouso eterno no berço das certezas banais.

Pois, de tempos em tempos, somos invariavelmente expostos ao próprio fracasso, atingidos pela mais profunda frustração. Percebemos que a nossa visão alcança somente uma parte do caminho a ser percorrido, de modo que, para ir além, precisamos deixar de lado muito do que nos guiou e redescobrir um novo caminhar para a jornada que surge à nossa frente. Refazer-se por completo; recriar-se por inteiro. É isso que nos exige a existência.

Quanto maior for sua resistência perante os processos de transformação, maior será o sofrimento em dar à luz uma nova criatura. A rigidez daquele que nega as demandas de um renascimento nesta vida, acaba por se tornar a causa de um sofrimento sem-fim e a fonte de um seríssimo entrave pessoal. É duro reconhecer a urgência da mudança, porém ignora-la nos envenena, nos aprisiona e nos atormenta profundamente. Assim, é absolutamente normal que muitas lágrimas venham a escorrer pela nossa face nos dias vindouros, aceitemos isso ou não.

Porém, há algo que sobrevive às crises e passagens, aos traumas e desenganos. Nisso está aquilo que nos é mais íntimo, sincero e precioso, e que devemos buscar, a fim de realizarmos o que, de fato, somos. Sem essa realização, sentiremos que a nossa vida — tão rara e passageira — foi em vão, que fomos derrotados pela própria displicência. Para tanto, resta-nos enfrentar o medo de agir. Certamente, a insegurança nos assombrará de inúmeras formas, tal como ocorrera com todas as gerações passadas, pois ela é nossa companheira, nossa fiel acompanhante ao longo de toda a estrada. Senti-la, nos fará mais humanos e menos arrogantes.

Ora, eu sempre soube que devia me debruçar sobre o papel com caneta à mão, tornar-me um escritor de ficção, um criador de universos, um inventor de personagens. Ao mesmo tempo, assumir uma profissão que fosse meu ganha-pão, foi um percurso solitário, árduo e, às vezes, angustiante. Nunca me vi trabalhando em alguma carreira tradicional, isto é, advogado, médico, engenheiro etc., de modo que levei anos para chegar a algum lugar, mas, me ver como um artista das letras, foi constitutivo desta existência que carrego. Houve vezes em que larguei de escrever, é verdade, mas sempre dei meia-volta, pus de lado o que me atrapalhava, e voltei a dar à luz uma literatura própria. Disso, eu nunca me arrependi.

Agora, compreendo que sou um humanista não apenas pelo completo e precoce desinteresse pelas chamadas ciências exatas, mas também por uma atração íntima pela subjetividade humana, por aquilo que emerge do seu interior nas formas mais variadas de explosão feérica e de criatividade pulsante. A despeito de quaisquer dúvidas, esta certeza sobreviveu às mais intensas mudanças da minha história pessoal. Ainda que a minha compreensão do que seria a Literatura — e do que seria eu mesmo enquanto escritor — mudasse com o passar do tempo, algo se mantinha vivo em mim. É possível que fosse uma missão individualista, ou uma ambição de se destacar em meio à multidão anônima, mas, ainda assim, havia algo a mais. É graças a essa força, que ainda não sei nomear, que eu pude chegar até aqui: escrevendo e publicando textos neste oceano chamado de internet.

            Não sei a quem devo esse gosto pelas Humanidades. Ao ambiente familiar, devo muito do que sou, mas as raízes não dão conta de explicar nem parte dessa história. Tenho parentes que não compartilham das mesmas preferências, a despeito de termos tido uma infância inteira juntos, com tristezas e alegrias tão próximas. Nós podemos debater e apreciar certos artistas e suas obras, contudo, em algum momento, cada um escolherá seu caminho, posicionando-se à parte, longe dos demais. A família é a origem, mas sua influência se desvanece à medida que os anos passam. Podemos retornar a ela em certos momentos, porém os avós morrem, em seguida, os pais e os tios e, depois, os irmãos mais velhos, até que nos resta nada além de nós mesmos e as memórias que sustentamos conosco. Ao final, teremos de andar com as nossas pernas e descobrir a nossa voz, tal qual o fizemos na primeira infância, porém sem nenhuma garantia de gracejos e aplausos.

Reconheço que, falar de si mesmo, denota em mim um certo grau de soberba. Além disso, há que se registrar que ninguém anda lendo este blog, o que, às vezes, me dá algum alívio. Pois, quero que a porta ao meu mundo interior mantenha-se fechada às almas fúteis; quero que nada chegue àqueles olhares adestrados pelo apelo convencional; quero que se danem às valas do inferno os amantes das mesmices, das conversas permeadas por mediocridade; quero me livrar de tudo que carrega consigo o comodismo frívolo do olhar alheio.

Assim, tenho feito textos sem a preocupação de divulga-los, pois os vejo como ensaios de algo maior e melhor, algo que, talvez, comece a dar as caras no ano que se aproxima. No entanto, não posso assegurar nada, haja vista os fracassos em dar fim a projetos anteriores: romances abandonados; histórias inconclusas; contos atrofiados; ensaios de meia linha.

Falta-me, sobretudo, disciplina, mas sei que me aproximo, um dia após o outro, de algo novo, algo mais próximo de um ideal de beleza que ainda não sei explicar numa linguagem corriqueira, e nem me preocupo se um dia saberei explicar, pois o meu objetivo é confundir a cabeça, deixa-la desnorteada, ao invés de te vender a ideia de que sei de alguma coisa nessa terra louca que não para de rodar, rodar e rodar…

 

 

 

Daniel Viana de Sousa

© Todos os direitos reservados

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Cor de jade

  

Hoje, o mar estava cor de jade; acobertado por um manto nebuloso e exprimindo aquele tom esmeraldino proveniente das rochas tiradas da profundeza, sua essência era por demais remota e sua calmaria perturbava-se com os ventos vindos do Sul.

As nuvens lhe davam, ao mesmo tempo, uma expressão de agouro e contrição, sobriedade e encantamento. Mas, ainda assim, faziam-no mais apaixonante que a propalada beleza humana, espalhada por murais e bajulada em infindáveis textos românticos. Aquilo que eu pude ver não precisava de arranjos, enfeites ou cosméticos, porque era, simplesmente, belo. E foi isso que me levou ao seu encontro.

Porém, aos demais, nada escapava à sua indiferença, um desinteresse tão vazio quanto mórbido — eles queriam sol, mas não podiam vê-lo; queriam águas mornas, mas elas estavam frias demais; queriam corpos nus, mas se viram diante do próprio reflexo. Para eles, aquela não passava de mais uma praia e de mais um céu, outro ponto turístico em sua checklist tediosamente fabricada pelo senso comum. No dia seguinte, eles iriam para outro lugar qualquer, tirando suas fotos, fazendo suas poses, fabricando amores…

Quando o assunto é viajar, a maioria se contenta com o turismo de manada, quando, na realidade, nós deveríamos nos atrever a ficar face a face com o mais completo desconhecido, com aquilo que menos se espera topar na rua. A possibilidade de se surpreender com algo que lhes fuja do controle, causa tremores febris nessa gente; não é por acaso que suas vidas sejam tão deprimentes e suas mentalidades simplórias; eles se contentam com quase nada do que o mundo lhes tem a oferecer, conservando-se miseráveis seguidores da turba que lhes afaga o coração. Não duvido, portanto, que eles passem pela existência sem terem, realmente, vivido.

Quanto ao prazer do reencontro familiar com o mar cor de jade, que é tão exuberante quanto qualquer outra beleza que surja por aí, dedico esta crônica às vésperas do suntuoso verão brasileiro. Ao contrário de outros lugares, o calor paraibano ainda guarda uma suavidade, quase que primaveril, de modo que se trata de um privilégio estar aqui, sentado na poltrona do quarto, tendo a praia do Bessa ao alcance dos meus olhos. Poderia largar tudo que me prende a essa cadeira, a essa busca por mais um ganha-pão, e ir ao seu encontro na tênue linha do horizonte, onde céu e mar, enfim, se beijam.

Às vezes, sou tomado pela vontade de gritar às ondas que se sucedem numa inconcebível eternidade:

— Por favor, nunca me privem do teu som, do teu cheiro e dessa imensidão que nunca se exaure! Pois, seja de manhã ou ao final da tarde, no verão abrasivo ou no inverno acinzentado, teu encanto sobre mim se provará imediato! Prefiro teu contorno, tua silhueta ondulada, tua reentrância singular, a qualquer praia televisiva, a qualquer balneário novelesco. Contigo por perto, a vida acaba sendo menos dura e amarga, menos tenebrosa e solitária.

É assim que caminho rumo às águas trazidas pelo místico oriente, de onde nossos ritos e magos provieram e de onde o sol emerge triunfante. Gozo ao mergulhar nas suas ondas e sorvo por entre as mãos seu sumo verdejante; abraço suas águas como quem, finalmente, revê um sincero amigo e me atrevo a ir até onde posso alcança-lo, sem medo de me afogar em sua generosidade.

Quem pode tirá-lo de mim agora?

 

 

 

Daniel Viana de Sousa

© Todos os direitos reservados

domingo, 11 de julho de 2021

Dia ensolarado


       Caminhei ao léu por horas, curtindo o sol tropical na praia do Bessa; caminhei de pés descalços, olhando o céu azul, mirando as nuvens esparsas no limiar do horizonte sem-fim; caminhei sozinho, acompanhado tão somente do prazer de novamente sentir a vida pulsar, vibrar e cantar dentro de mim.

Não há porque sentir medo de morrer, a despeito daquela carnificina no noticiário das sete, na qual os pretos pagam o preço de ter a pele que faz a súbita rajada soar. Devo dizer a verdade para você: eu estou nos Elíseos. Tenho o privilégio de não ouvir tiros onde acordo, de não ser continuamente ameaçado pela força policial, pois moro junto à camada mais protegida da sociedade: os brancos endinheirados — os trinta negros estão naquele féretro que desce morro abaixo, para além do umbral que cinde o nosso mundo e o dos mortos.

E nesse dia de sol ninguém falou comigo. O silêncio ruge na baía tropical; ele se avoluma com as primeiras nuvens que cercam a praia, ameaçando-nos com uma chuva torrencial. É melhor assim, pois estavam todos com seus filhos, seus brinquedos e cachorros adestrados; estavam os casais reunidos em volta de suas crias pequenas, tal como uma horda primitiva, cavando poços d’água e construindo castelos de areia, à medida que a maré subia, engolindo suas obras de frágil areia branca. Nesse mundo que vivemos, todas as coisas vêm e vão, mas algo parece se perpetuar: a disposição das pessoas de acordo com a sua pele, de acordo com a família e a comunidade na qual nasce e cresce.

Na praia em que cresci, tudo sempre esteve disposto numa estranha ordem familiar, de modo que preferi não me meter, de modo a evitar aborrecer os transeuntes. Sou apenas uma criaturinha que reflete e — às vezes — se revolta com a maneira com que as pessoas estão postas nessa sociedade de castas. O que eu poderia fazer além de escrever uma crônica? O que eu poderia fazer além de exprimir meu assombro com a maneira com que essa sociedade foi concebida desde os tempos imemoriais? Se fosse possível, eu diria: pergunte aos navegantes, aos bandeirantes, aos primeiros comerciantes, aos escravagistas, aos grandes capitalistas, pergunte aos cafeicultores e toda essa escrota turba que fez o Brasil ser assim.

Alguém diria em meu ouvido: “uma volta ao passado já não é possível, meu amigo”. Seria melhor que todos nos reconciliássemos com o que veio antes, mas a memória faz a rajada parecer mais potente, pois nos recorda de cada dantesca derrota, de cada chacina facínora, de cada botina na goela da nossa gente. A memória de tudo é dura demais pra uma só pessoa aguentar, de modo que me embriago, absorvo o pó lentamente e tento passar o que posso àqueles que vêm à minha presença.

Não procuro fazer mais que o possível pela minha gente mutilada, escorraçada… Por enquanto, vamos viver do que der, cuidando uns dos outros sempre que puder, deixando a verdadeira Revolução para tempos vindouros, quando a pauta não for mais sobreviver ao medo da morte que se avizinha a todo instante. Pode me chamar de covarde se quiser. Eu digo que, se manter vivo, nutrido nas íntimas entranhas pelo saboroso pulsar da vida, é a maior façanha do sujeito pobre, favelado e preto. Não cobremos dele mais que uma digna sobrevivência nesse inferno tropical.

Aos revolucionários, eu digo: não guardem as armas! Apenas saibam usá-las com fervor incendiário nos dias de chuva, pois, nos de sol, a praia vai estar lotada de brasileiros jogando frescobol, bebendo água de coco e surfando nas ondas mansas e deleitosas. Os massacres são sucessivamente recalcados: põe-se o suspeito atrás das grades — ou simplesmente fuzila-o à beira da estrada — como se isso pudesse restaurar uma harmonia, que, de fato, nunca existiu entre nós. Somos desarmônicos desde a gênese de séculos passados. Quando Cabral aportou nas praias tupiniquins, fomos marcados pela desigualdade brutal que perdura até hoje, sem qualquer alteração que possa pôr um fim à imoral acumulação da riqueza coletiva.

Uma vez que, nas ruas, não se enxerga qualquer forma de rebelião, qualquer contestação à realidade presente limita-se a esperanças de teor eleitoral, bem como ao famigerado personalismo, tão requentado por nossas limitações sociopolíticas. Que tragédia! Excetuando-se os conhecidos militantes, com suas ideologias conflitivas e opiniões variadas, as ruas parecem hibernar num sono profundo. Consequência duma despolitização generalizada? Pode ser que sim, mas, creio na modorra típica do brasileiro comum, que ainda não tem consciência plena da sua própria cidadania, senso de responsabilidade com a realidade, coletivismo na sua relação com os demais etc.

Ah, eu sei que sou uma gota d’água nesse oceano que circunda a praia do Bessa; sou pura poeira cósmica que, após viajar pelo infindável cosmo, assumiu a forma do hominídeo evoluído, capaz de ler e rabiscar palavras no papel; sou filho do Altíssimo, que nos ama e nos guarda eternamente; sou uma partícula que se movimenta, confusamente, à procura de um sentido que traga alento a essa estranha solidão que nos rodeia, periférica condição latino-americana; sou fruto da terra que me gerou, cuja insatisfeita procela se agita em meu interior.

 

Daniel Viana

© Todos os direitos reservados

domingo, 30 de maio de 2021

Eis o que eu faço com os meus dias

 

Nestes tempos de pandemia, faço pouco durante o dia e menos ainda à noite; durmo bastante, divago em sonhos estranhos, deito-me no divã de F. Serrano às cinco da tarde, ouço Pink Floyd, caminho na praia durante o pôr-do-sol e, pra ser honesto com você, estou satisfeito com isso. Nada de correria ou inquietação! Afinal de contas, por que eu me comportaria diferente? Concentro-me em fruir cada momento demoradamente, como se realizasse um ritual solene à meia-noite, após me banquetear num festim nababesco. Passo a passo, vou escrevendo o que está ao meu alcance, contando aquilo que naturalmente brota em minha mente entorpecida pela cafeína. De fato, ao invés de pôr as minhas finitas energias à procura de resultados apressados, deleito-me em viver cada segundo como se fosse um instante sabático.

Há quem critique esse meu jeito desanuviado, próprio — diriam alguns — de quem ainda se encontra nos seus vinte e poucos anos, ou seja, sem as reponsabilidades típicas da maturidade: sair da casa dos pais, crescer numa empresa, pagar as próprias contas, casar-se com uma parceira, ter filhos, ver os anos irem embora… Posso dizer que estou numa fase da minha existência em que algumas urgências simplesmente não se materializaram, o que, de um ponto de vista particular, não deixa de ser um privilégio. Não ter filhos na juventude foi uma escolha consciente de quem preferiria usufruir do tempo mais tranquilamente. Além disso, admito que não tenho ainda a sobriedade que se requer de um pai de família. Ultimamente, minha cabeça anda nas nuvens, de modo que estou só, sem grandes aflições ou intensos amores, mas passo bem. Interiormente, sei que fiz o certo. Claro, não posso negar que a minha condição financeira era uma razão determinante para não ter filhos antes dos trinta.

Todavia, o ócio que estou apregoando não requer horas infindáveis sobre o sofá. É óbvio que isto seria para uns poucos abastados, considerando a realidade social da qual somos parte. Na verdade, eu defendo uma ociosidade que está ao alcance de qualquer um. Basta olhar por um breve momento a luz matutina atravessar a janela, perceber os caminhos retilíneos dos feixes em busca do chão; basta contemplar o trajeto das aves que cruzam o céu vespertino para alimentar suas pequenas crias; basta olhar nos olhos de quem se ama e dizer, em belas palavras, tudo que se sente por ela, sem receio de passar vergonha por ser sincero; basta beber uma xícara de café, enquanto se olha a paisagem da varanda… Não há segredos para experimentar cada instante que a vida nos oferece.

Além do mais, suspeito que é desse tipo de contemplação que surgem os poemas, as sinfonias e os amores mais excelsos, dignos de serem apreciados por nossos corpos sensíveis à beleza imaterial. Quanto a mim, posso dizer que foi justamente nos dias ociosos que eu dei à luz os meus trabalhos mais sensíveis, aqueles que me enchem de um orgulho paternal, de modo que tenho dificuldades em colocar a arte da escrita como um simples labor, pois, para mim, ela também está revestida de lazer e ócio criativo.

Há quem diga — em geral, sem saber de onde vêm tais palavras — que o trabalho dignifica o homem. Ah, que tolice! Não custa lembrar que o trabalho foi a punição dada a Adão por comer o fruto proibido. Não custa lembrar que o vocábulo “trabalho” tem sua origem num instrumento de tortura usado pelos antigos romanos. Então, é válido dizer que trabalhar está mais próximo de uma punição dada ao homem e à mulher desde os tempos imemoriais, do que de um caminho para a sua redenção. Para mim, o trabalho é uma cisão do humano com sua natureza contemplativa.

Também há quem diga que a labuta diária dá sentido à nossa existência, o que, no meu entendimento, é risível; pois, defendo que o mero viver carrega, dentro de si mesmo, o sentido completo da nossa fatigosa errância terrena, independentemente de termos um ofício para nos ocuparmos ou não. Não somos robôs, seres descarnados de necessidades físicas, psíquicas e espirituais, tais como o descanso, a contemplação, o silêncio e a meditação — por mais que o capitalismo inumano insista em nos desprover da espiritualidade humana.

Se não somos máquinas, o que seríamos então? Essa é uma questão que renderia tratados teológicos e filosóficos — algo que, certamente, não pretendo fazer nesse brevíssimo texto. No entanto, creio que posso versar algumas divagações rasteiras, não muito estranhas ao senso comum. Em primeiro lugar, sabe-se que, do ponto de vista microscópico, nós somos constituídos da matéria que se originou nas estrelas mais longínquas, de modo que somos, indubitavelmente, seres cósmicos, destinados à universalidade, entretanto, não é justo reduzir o humano apenas à matéria palpável e observável. Isto seria um erro grosseiro, uma falta imperdoável. Em segundo lugar, minha fé ensina que habita em nós o Espírito que deu origem à Criação. Nós somos, de fato, seu receptáculo mais honroso. Aqui, vale lembrar que Cristo se fez carne, no intuito de sentir, em sua pele incorruptível, o significado de ser humano, o que, consequentemente, dignificou toda a Humanidade. Portanto, cada homem e mulher — também incluo os que não se veem representados pelos dois gêneros mencionados —, independentemente de sua história pregressa, tem uma dignidade inalienável e inquestionável, simplesmente por serem irmãos e irmãs do Cristo. Tais considerações me obrigam a refutar a ideia de que o humano teria, desde a sua concepção primordial, uma natureza maléfica, o que a tornaria merecedora dos castigos inerentes ao trabalho.

Enfim, o Espírito Santo fez de nós a sua morada mais honrosa; Ele preferiu nos inundar interiormente, como água viva em potes de barro, exercendo os mais sublimes impulsos, de tal maneira que estamos voltados à criação — artística ou não — desde o princípio dos tempos, desde a gênese da própria vida. Cada um de nós é parte inseparável da Criação, bem como partícipe do seu início. Em suma, o ato criador está conosco desde sempre, basta dar vazão a ele. Fazê-lo é minha conquista máxima, minha busca diária e meu anseio inesgotável, de modo que não recuo dos silêncios que a hesitação às vezes me provoca, mas me permito desbravar os continentes obscuros do meu interior, mesmo que eu acabe me perdendo em trilhas confusas e desusadas. Sigo sempre em frente, na direção que a minha intuição apontar, sem nunca perder, é claro, o mapa traçado pelos mestres do passado. Escrevo, escrevo, escrevo… Eis o que eu faço com os meus dias.

 

 

Daniel Viana

© Todos os direitos reservados

quarta-feira, 31 de março de 2021

Por que escrevo

É difícil achar razões para aquilo que é inato, próprio de condições internas à forma de viver. De fato, meu interior é tormentoso, cheio de impulsos febris e descontrolados, que pedem saída, como água represada saindo aos borbotões. É assim que a pulsão pela escrita ruge dentro de mim. Como explicar a vazão desse rugido em letras miúdas, que se desenrola com particular ferocidade nas minhas veleidades artísticas — essa mania de querer ser um homem das letras?

Desde o tempo em que fui criança — lá no alvorecer dos anos 2000, época das minhas primeiras descobertas literárias —, sonhei em arrebatar a atenção das pessoas com um livro benfeito. Este desejo veio sem pedir licença, cobrando de mim esforços hercúleos, que se traduziam em calos nas mãos machadas de tinta escura, arroxeadas pela pressão da caneta à pele parda, doloridas pelo repetitivo esforço de pressionar uma ponta de ferro contra a espessura de dezenas de papéis acumulados. Um preço ínfimo se comparado à satisfação infantil de ver laudas e mais laudas de folha rabiscada, com linhas e mais linhas de história desconexa. Um troféu que seria engavetado na escrivaninha de madeira clara, depósito de sonhos artísticos, um montículo amarelado de velhas folhas recicladas.

Ora, como havia dito anteriormente, eu queria escrever um livro, e queria que ele fosse grande, como aqueles que passavam de mão em mão na nossa pequena família de leitores de fantasia: O Senhor dos Anéis, O Hobbit e o Silmarillion. Nada de pequenos fragmentos da realidade, como as crônicas que hoje escrevo, ou mesmo de narrativas curtas, como os contos. Na época, eu queria uma trilogia de fantasia com ares medievais, nos moldes daquela concebida por Tolkien, ou seja, repleta de seres mitológicos, com tramas diabolicamente envolventes e de uma profundidade inquestionavelmente erudita. Levaria ainda uns bons anos para que eu soubesse apreciar a genialidade de grandes contistas, tais como Murilo Rubião, Hemingway e Tchekhov. Tudo ao seu tempo.

Eu me punha a delinear linhagens de reis míticos, a catalogar subespécies de elfos, anões e dragões legendários e a desenhar estranhos mapas de terras fantásticas. Tudo na ingênua esperança de repetir, com as minhas próprias mãos, aquilo que o escritor sul-africano fizera décadas antes de eu nascer. Infelizmente, de nada adiantou o meu esforço, mesmo que nunca perdesse o desejo primordial pela escrita. Pois, aquilo que eu fazia, não passava de um mero pastiche do que já fora realizado. Não havia originalidade, mas apenas imitação ruim, fruto de uma fascinação juvenil. Eu não nego que às vezes me sentia um pacóvio, um tolo, por tentar repetir o que já fora feito com refinadíssima maestria. Faltava-me algo que eu não sabia bem o que era.

Ainda assim, eu me mantinha escrevendo, como se este fosse o passatempo perfeito para uma mente inquieta, sempre obcecada em criar mundos alternativos à realidade circundante. Digo “passatempo”, pois ainda não enxergava a escrita como uma atividade profissional, embora eu desejasse obter prestígio e dinheiro com ela. De fato, às vezes eu me imaginava como um jovem autor de sucesso, cercado de admiradores e de algumas beldades, lido por milhões de leitores e próximo de me tornar, de uma vez por todas, o maior escritor vivo da Língua Portuguesa. Como você pode ver, eu sempre sonhei alto, sempre busquei os tronos de fama e glória.

À época, não me amedrontava a condição periférica na qual eu estava submetido: um adolescente mestiço do nordeste brasileiro, proveniente de uma classe média ameaçada de cair na pobreza, com educação literária mediana e sem acesso a qualquer tipo de mídia que não fosse a “democrática” internet. Vivendo num país que estranha a sua literatura nacional, que consume a cultura estrangeira, ao invés da nossa cultura brasileira, criando o que Suassuna chamava de “gosto médio”; um país chamado Brasil, que despreza o benfazejo saber acadêmico, enaltecendo unicamente o improviso dos bons futebolistas, eu escolhia justamente um ofício que me condenava à irrelevância social. Perceba: hoje, eu não me amedronto com a solidão, com a má remuneração e a irrelevância do ofício que escolhi, pois quero tão somente me realizar enquanto ser humano e artista, a despeito do reconhecimento alheio ser, de fato, inexistente. Alegra-me saber que não sou o primeiro a atravessar essa cortina de silêncio, porque outros grandes nomes me precederam. Alguns escritores, como Franz Kafka, morreram praticamente desconhecidos; outros, como Bulgákov, não viram os seus melhores trabalhos publicados, devido à dureza do sistema em que viviam, e assim segue a roda da história. Para lidar com o suplício do anonimato — cuja dureza começava, lentamente, a questionar minhas capacidades —, tive de buscar outros ídolos com os quais eu pudesse me consolar: na pintura, eu tinha Van Gogh; na escrita literária, Charles Bukowski e assim por diante. Não necessariamente eu lia suas obras, mas me inspirava em suas biografias, de modo a crer que, de alguma maneira, aquilo que é imortal inevitavelmente triunfa. E assim eu seguia, escrevendo aqui e acolá, ruminando textos que, devido à falta de meios para publicar, acabavam engavetados, rasgados ou esquecidos em alguma estante pela casa. Só meia dúzia de pessoas leu o que escrevi antes de 2019; destas, nenhuma provavelmente se lembra de alguma coisa que pus no papel.

Enquanto isso, o tempo passava, os textos mudavam, as leituras evoluíam e as dúvidas se amontoavam. Passei a ter diferentes questionamentos para diferentes problemas que surgiam na minha mente: qual o sentido da vida? qual a origem do mal? qual a maneira de superar a morte? como ser feliz no decorrer da existência? como funciona o mundo atual? como superar o sofrimento?… Esses questionamentos não vieram de repente, mas foram surgindo à medida que a realidade mudava e à medida que eu mergulhava em elucubrações interiores. Tais investigações geralmente eram um mar sem-fim de palavras, ou seja, não chegavam a uma conclusão definitiva a respeito do que eu realmente pensava. Em suma, eu não dava um ponto final às minhas divagações. Contudo, elas faziam com que eu estendesse os limites do meu pensamento a novas fronteiras, de tal maneira que eu já não era o mesmo de antes. Aos poucos, meus pensamentos iam saindo da mesmice, do raciocínio habitual que permeia as ideias de tantas pessoas hoje em dia. Todavia, eu ainda estava longe do que almejava para mim mesmo: um escritor que se expressasse verdadeiramente por meio da linguagem. De fato, sempre pus grandes expectativas sobre os meus ombros, o que não deixa de ser uma forma de automutilação.

Até que chegou o ano de 2019. Após anos sonhando alto e amargando frustrações, cheguei à conclusão de que não adiantava mais esperar por uma oportunidade aleatória. Era preciso publicar, colocar a cara no mundo. Assim sendo, eu dei início à publicação de fragmentos num blog, chamado “A forma da escrita”. Desde o princípio, eu já tinha em mente o que escrever: crônicas e contos, narrativas curtas. Não só era o que eu acreditava ser mais apropriado a esse tipo de mídia, como era o que eu me sentia à vontade para oferecer aos futuros leitores Mas, após uns quatro meses, cansei-me com a baixa receptividade e dei um fim repentino ao blog. Contudo, essa história não termina aqui.

Em 2020, a pandemia do novo coronavírus forçou-me a ficar em casa. Tudo se resumiu às quatro paredes do meu quarto, de modo que não era mais possível recorrer a desculpas para ficar estagnado. Os pensamentos fervilhavam em minha mente inquieta. Novas ideias pediam vazão em forma de palavras. Portanto, era preciso escrever, de tal maneira que o blog ressuscitou. Após voltar a publicar os textos de 2019 e de ter em mãos a oportunidade de escrever novas histórias, me pus a pensar a razão de ser um homem dedicado à linguagem, cujo esforço se dá na formulação de uma mensagem à espera de ser decodificada por pessoas que eu nem sequer conheço. Afinal, por que eu escrevo? No passado, no tempo de criança, tive as minhas razões para escrever, mas, agora, elas já não se sustentam mais. De fato, sou um novo homem. A grande maioria dos seres humanos passa a vida sem se preocupar em deixar para trás algum opúsculo qualquer. Então, por que eu faço parte desse grupo de pessoas, que busca consolação no ato de escrever?

Para responder a essa questão, te digo o seguinte: não fui eu quem escolhi a escrita, mas a escrita quem me escolheu desde o princípio da minha vida. Aliás, sei que não sou o primeiro a dizer essas palavras: outros já formularam esse pensamento antes. Pois bem, foi essa força — misteriosa e sem nome — que fez de mim seu súdito, seu servo mais ordinário. No entanto, estou mui longe do patamar de Machado de Assis, Raduan Nassar e José Saramago. Sou um reles acólito nessa religião particular. Resta-me escrever, pôr em prática aquilo para o qual eu sou chamado dia após dia, como um escravo que se vê preso a um destino inescapável. Claro que, ser destinado à escrita, não elimina a necessidade do esforço diário, de descobrir como expressar aquilo que está preso dentro de mim, sem cair numa verborragia incontrolável. Expressar-se requer mais que a mera vontade de gesticular, de ligar sentenças aleatórias ou de balbuciar poemas mal versados; para se expressar com desenvoltura, requer-se uma dedicação quase sacerdotal à linguagem, aos seus meandros e amplos espaços à espera de serem desvendados. O ato de escrever, portanto, requer mais que um gesto de voluntarismo; é uma atitude perante a vida, outrossim é dom, oferecido pelos céus àqueles que se dispõem a carregar o fardo de comunicar-se, de ir ao encontro dos outros, que ele nem sabe bem quem é, mas que o examinarão com olhos de ferro. Eu escrevo porque devo, porque preciso, porque amo estar nas linhas esmiuçadas, espicaçadas e esfaceladas.


Daniel Viana

© Todos os direitos reservados

domingo, 22 de novembro de 2020

Voragem Luminosa

O mal que nos consome

      Quando caminho a céu aberto, sentido o azul do alto me esquentar, me consterno ao notar que todos ao meu redor se predem à tela do celular. Será que ninguém percebe a direção para a qual estamos a rumar? Basta um tropeço no escuro e tudo pode se acabar dentro dum fosso qualquer. E, de fato, alguns terminam no fundo do poço, sem meios de se salvar dessa voragem luminosa. Parece que não adianta mais falar; parece que nos resta parar e esperar que os poucos sobreviventes saiam dessa perdição distópica, desfecho apocalíptico de proporções inéditas. Será que estou exagerando? Creio que não, meu amigo. Quer saber o que penso disso tudo?

As telas me sufocam; elas me cercam como abutres por todos os lados; seus corpos inertes são sustentados por peões catatônicos, incapazes de se verem livres dessas estranhas amarras virtuais; suas luzes artificiais giram à minha volta, como espíritos endiabrados trazidos dum universo paralelo, invocados por um ardiloso feiticeiro cuja primeva intenção fora nos ludibriar com falsas promessas de inesgotável felicidade. Sua fantasmática onipresença — modelada numa espectral miríade de formatos variados — é uma tortura ao meu bucólico espírito, já exaurido de tanta virtualidade, de tanto contato imaterial.

E digo mais: um preço está sendo pago por nossa geração. O distanciamento da realidade concreta nos custa a compreensão de quem realmente somos, do que de fato precisamos e para onde devemos rumar as nossas mentes e corações. Vagamos à toa, de clique em clique, de uma postagem para a outra, cada vez mais desunidos, dispersos e manipulados. Com efeito, nós alimentamos uma economia sedenta por nossa insatisfação, por nossa sensação de que algo está em falta; nós somos alvejados por padrões de consumo e de beleza que são, propositalmente, moldados para uma ínfima minoria de privilegiados, a fim de que estejamos, mais uma vez, insatisfeitos com a realidade presente; somos impelidos a repetir uns aos outros, em códigos de consumo de massa, no intuito de criar um senso coletivo de pertencimento à mesma alcateia de lobos famintos, à mesma turba de zumbis sanguinários.

Claro que eu poderia me trancar no quarto e fingir que esse mundo confuso não mais existe. Seria suficiente dar um giro na chave, para, em seguida, lança-la ao quinto dos infernos, depois, eu me cobriria com um lençol da cabeça aos pés, enterrando o rosto num travesseiro que sorvesse minhas lágrimas amarguradas. Tudo se resumiria ao silêncio do meu quarto, ou seja, eu reduziria a realidade ao que existe de mais simplista e banal. Em suma, eu tentaria ter em mãos um mínimo de controle sobre uma vida que é, por natureza, complexa e exuberante. Assim, eu daria um fim ao capitalismo decadente e tardio da nossa sociedade pós-moderna? Suspeito que nem os isolacionistas possam tanto com sua fuga da realidade. No entanto, para alguns, tudo funciona exatamente como aquela expressão estadunidense: “enough is enough”. Sem dúvidas, essa tem sido a escolha de muitos ultimamente: a reclusão final e peremptória.

Mas eu sou diferente. Creio que algo em mim prefere estar em meio à loucura que vivemos — e que se adensa à medida que o tempo passa, assimilando tecnologias sofisticadas, novas tendências e conflitos inauditos. Não temo as chamas do incêndio que nos acomete. Na verdade, mesmo com tantas dificuldades, ainda estamos respirando e sobrevivendo, usufruindo da oportunidade de transformarmos a realidade que nos cerca, de tal maneira que se aproxima a hora da decisão. Iremos nos render à realidade manifesta ou mudar tudo de uma vez por todas, como se a Revolução fosse um chamado ao momento decisivo que vivemos! Haveremos de nos decidir. Enquanto isso, vou vivendo o que posso de cada dia, vou aprendendo com essa realidade o que ela me apresenta. Acima de tudo, eu quero apreender o que se passa, a despeito da consternação que o presente acarreta.

 

Daniel Viana

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terça-feira, 6 de outubro de 2020

A todo vapor


   Luzes acesas à minha volta; agora, só vejo corpos em movimento, sorrisos num outdoor dizendo o que deve ser feito a toda hora, tudo isso sempre ditando, lá do lado de fora, a ordem pra que todos sigam em frente, que tudo é sempre "sem demora", que a felicidade só cabe no bolso de quem se esforça, que o boom da vida se procura na vitrine da moda, que paz e amor é coisa de quem chora, e que ninguém se atreva a conter essa roda de girar pelo mundo afora, destruindo a fauna e a flora, moendo a vaga memória dos povos de outrora, se valendo da guerra pra contar a sua própria história e fazendo da nossa vida uma realidade morta.

    De manhã, meu corpo acorda cansado, por se sentir servo da própria sina, por ser amordaçado toda vez que digo que a violência não ensina, por ver o mundo se voltar contra a menina que ousou falar na própria língua, por não ter o mesmo direito de quem anda no andar de cima — essa gente que, aliás, se porta como se fosse divina —, por ver a democracia derreter como resina, por ter ofertado os meus átomos em pedaços nessa usina que consome vidas. Quem me dera ter encontrado uma milagrosa medicina, uma única vacina pra toda essa usura urdida na urbes capitalista!

    De repente, um operário se lança aos berros pelo anfiteatro, incendiando os ares com todos os fatos acerca dos seus males: "Sei que sou usado pelos altos poderes! Ah, como sei! Não diga que preciso ler pra sentir o sangue vertido escorrer pelo escuro do capacho. A fadiga vai muito além de uma teoria qualquer; ela me consome por dentro; ela me aniquila por inteiro; ela é um fato puramente verdadeiro. De canto a canto, ouço um único lamento: 'eu não aguento mais, meus irmãos'; eles são de corpos em sofrimento, são de olhos marcados pelo soco do tempo; ombros vergados como um reles rebento, já cansado de ser varado pelo vigor do vento; são semblantes desfigurados pelo esgotamento". Contudo, esse povo se recusa a cessar sua triste tortura, pois, tomar as rédeas da própria ventura, requer suportar o som do silêncio, o som da incerteza que está presente em todos os momentos de decisão.

   À tarde, o noticiário se agita com um escândalo de última hora, com um massacre a tiros em mais uma escola, com uma economia subdesenvolvida que jamais decola; e com o povo padecendo aos milhões na esfola, que é como eu traduzo aqui o trabalho ininterrupto por uma esmola; além disso, temos mais uma fala do presidente, que, por sinal, só enrola; e temos o Chile em plena revolta, que lança às alturas um continente ansioso por mudar a sua trajetória. De fato, eu não pertenço à malta inglória, mas sou obra da esquerda que ferveu o mundo com sua história, que marcou em todos o signo da sua trajetória. Sim, quero a vitória de quem se sacrifica, quero dar glória aos trabalhadores e aos revolucionários, quero exaltar a memória de quem sonhou com um mundo melhor, bem melhor que o de agora.

 

Daniel Viana 

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quinta-feira, 4 de junho de 2020

Um tributo a John Coltrane


     Ao ouvir Peace on Earth, me vejo diante da eternidade; um espaço amplo se abre diante de mim, como o cosmo multidimensional; nesse lugar, as miudezas terrenas parecem tão distantes, quase inexistentes, pois fomos alçados às alturas por obra dum espírito soberano, um místico John Coltrane; nesse ponto, o cansaço intrínseco à existência, dá lugar ao repouso no calor que emana além do meu ser. Não tenho mais medo; não venho com perguntas à espera de responder ou quaisquer culpas do que não pude realizar. Me coloco plenamente aberto, em pleno florescer, e me permito ser amado pelo célere som que logo vem, em notas pelo timbre do saxofone metálico. Ah, fui tocado no ponto mais íntimo do meu ser, no âmago das coisas que não posso dizer, pois, como você poder ver, as palavras falham quando o prazer transcende o mero viver.

    Uma cor floresce à minha volta, pacífica e intensa forma luminosa; tomando a forma dum raio violáceo, meio róseo em seu íntimo traço, que se une à minha essência na forma de gotas em pura incandescência, provavelmente derretidas duma estrela qualquer numa amálgama misteriosa, tal como um riacho luminoso que escorre pelo vazio do espaço transcendente — a presença dessa força insólita, criatura repleta de potência, se perdeu para sempre.

   Sei que tudo pode parecer uma vertigem de sonhos, um delírio singular pelo jazz americano, ou, ainda, um apelo hermético a um tipo de abstracionismo peculiar, mas tudo me envolve de maneira tal que nem quero saber o que você vai pensar, como o resto do mundo vai me julgar, porque isso que te digo sem vacilar, esse testemunho íntimo e particular, é próprio duma Consciência preocupada apenas em despertar, abrindo os olhos para aquilo que antes não podia ser contemplado, sentido ou experienciado. Meus olhos se enchem de lágrimas, de tal modo que um sorriso vem à tona, pois já não há o que temer; e uma sensação de triunfo sobre a morte, de emoção soberana me ocorre. Agora, me sinto prestes a retornar ao útero ancestral; me sinto com as asas que foram perdidas no passado; me sinto voando rumo aos céus, sem nada que possa me segurar. Somente John Coltrane é capaz disso.

Daniel Viana
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Publicado em 28 de Setembro de 2019

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Dê um passo à frente



   As luzes são cativantes quando desaparecem; deixando seus rastros pela correnteza e na vastidão do céu que não podemos tocar, é assim com os rasgos violáceos pelo ar; pinturas feitas na despedida do Sol sobre o mar, é possível notar seus traços nas nuvens róseas, bem como nos tons mais rubros ao limiar do cosmo. Somos como essas luzes que partem em busca de outro lugar, que saem sempre à procura do que não sabem onde está, que ardem — ah, como ardem! — e que teimam em nunca se acabar. É assim, de mãos dadas, que partimos em direção aos barrancos mais afastados da enseada. Queremos ficar a sós.

      Cada passo à frente traz do poente clareza aos olhos; meu amor sente minha ânsia por felicidade, que é quente como o disco dourado que adormece na praia. Nosso ventre se une à sombra de uma nuvem que atenua o astro incandescente; mesmo assim, ela me abrasa com sua carne coberta de areia ardente: "Adentre! Adentre em mim com sua oferta! Esse ardor que me queima, que me acerta, lava-me da culpa de estar incerta entre a fuga em seus braços e minha vivência deserta". E foi como uma sereia, que não se refreia ante a lascívia da sua mente, mas clareia tudo para que exista inteiramente, que ela se esparramou em mim. Foi assim que dei toda vazão esperada à paixão pulsante em meu peito fervente.

      Me deito contigo nesse leito da praia que nos consente; é nela que se espraia a forma inocente do nosso libido totalmente amansado. Ah, como me deleito por me sentir o teu amante, o teu eleito, o teu companheiro mais ansiado! Pois, no teu jeito tão afeito a me olhar, me descubro satisfeito, bem como me aceito perante todos nesse mar! Contudo, à medida que vejo o astro repousar, uma inquietude faz a minha alma se agitar.

     Saiba que os meus olhos nunca se perdem quando você passa, mas é preciso reconhecer, após tanto caminhar, que todos os caminhos se dividem, mesmo que todos os rios anseiem por seu mar. É preciso ver como as luzes se despedem à beira-mar: seus raios nos rasgam ainda mais calorosos quando os vemos se apartar. É assim que devemos preservar a lembrança do nosso amor: sem brigas que possam nos desunir, sem mágoas que possam nos molestar. Por que se deter, dia após dia, ao mesmo lugar? Não será o apego uma forma de se iludir, ao invés de se amar? Viveremos só de recordar o passado?

        A partir daqui, as minhas promessas se esgotam. Eu não tenho, ainda que me peças, aquelas juras de felicidade eterna; eu te ofereço, isso sim, em cada uma dessas linhas, a quebra com todas as fantasias que nos ensinaram a acreditar. Tudo vai passar do seu tempo. Mesmo o ódio mais tenaz, às vezes tão súbito em seu surgimento, não consegue triunfar além de um mero instante fugaz. E mesmo que nos livrássemos de qualquer tormento, quem nos preservaria da morte, por exemplo? Quem se apega aos outros em excesso, arrisca-se a jamais se erguer no primeiro tropeço que qualquer relação traz. O mundo sempre se refaz das suas perdas; o humano, por sua vez, é frágil demais pra tantas quedas.

       Talvez você diga: "Lá vai mais um homem fugidio, cheio de escolhas repentinas, vagando à procura do que não sabe explicar". Na verdade, eu não nego que padeço de uma loucura: navegar o oceano incerto, onde as águas em movimento cortam as minhas raízes do chão. Quero ser um explorador da vida, um navegante perdido em sua imensidão. É imbuído desse sentimento, que navego sem qualquer direção ou apego pelo que já é, simplesmente, pura recordação. Mas, para dar esse passo, é sempre preciso abrir mão, ainda que se abra uma fissura em nosso coração.

        Dizem que o verdadeiro amor é aquele que não acaba, mas penso exatamente o contrário: o verdadeiro amor sempre abre espaço para o novo, ainda que o velho possa ser saudoso, cheio de brilho, como um astro luminoso. Já posso ouvir cantar, no limiar do horizonte, as aves migrantes. Ah, eu quero voar com elas: sem quaisquer entraves e muito acima dos mirantes. Preciso ir além dos suspiros de paixão à noite, onde o meu âmago acaba se tornando seu refém; preciso findar esse prazer, onde o meu corpo se detém ao seu, e que já não mais mereço. Escute: de todo fim se provém um recomeço. O mundo, certamente, te trará outros desejos, me tornando aquém aos seus anseios. Pois o futuro não contém qualquer feição, senão aquela que projetamos por esperança ou desespero; o futuro nos pede, somente, que saibamos sempre recomeçar.


Daniel Viana
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Publicado em 22 de Outubro de 2019

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Às voltas com o desencanto



     Vejo olhos cansados por onde passo. No rápido encontro que tive com um amigo do trabalho, percebi um olhar meio baço, quase opaco, ombros caídos e um papo de que tudo no Brasil estava errado; logo em seguida, na conversa que troquei às pressas com um jovem desempregado, um murmúrio iracundo se elevava da sua voz e atirava balas contra tudo, e uma aspiração iconoclasta era sugerida, meio que aos sussurros, por medo de que a vigilância se desse conta daquela subversão marxista-leninista, de modo a nos prender e fuzilar à beira de uma vala qualquer, pois, agora, valia tudo contra o povo exausto, totalmente espoliado, como sempre, do seu direito à paz, à terra e ao pão; um pouco depois, reparei na presença de uma moça altiva, ela estava sentada ao nosso lado, vestida de negro e púrpura, segredando à sua amiga como resistir ao desencanto, como não ter aquele vislumbre desamparado, sempre direcionado ao vazio áspero do asfalto, ao escuro do petróleo, que era entrecortado somente por carros em sentidos contrários, rápidos como animais enfurecidos e desenfreados.

    Sem demora, surgiu à nossa frente uma turba, um horda furibunda, uma malta alucinada, avacalhando com tudo, mesmo que sem conteúdo, fazendo-se valer apenas da pura violência; eles estavam uniformizados, fardados à moda brasileira, como uma só torcida futebolística que (aparentemente) visava tão somente o bem coletivo; no entanto, aqueles que preservavam o olhar acurado, o devido respeito à coerência discursiva, o distanciamento analítico (tão necessário ao bom juízo em nossos dias), sabiam que ali estava uma gente à beira da sandice, dando mostras, por meio de seu discurso, de uma indiscutível demência; eles falavam da volta de Sebastião, da vinda de um frota norte-americana, da malhação do Judas e assim por diante. Quando percebi que não tinha como ser ouvido, que não valia a pena gritar à toa, simplesmente me levantei e me retirei sem grandes saudades, sendo seguido pelos meus amigos que não se faziam valer à força, pois a vida é curta e vale a pena ser vivida agora. Tudo isso numa boa, como dizem os surfistas.

    Esse breve momento que acabo de narrar, tão célere e agitado quanto um pôr do sol que naufraga na linha do horizonte chamuscado, ocorreu, há alguns meses, para milhões. Foi uma experiência coletiva, digamos assim; um dia em que cada um cumpriu à risca o protocolo pré-programado: uns votaram nesse ou naquele partido, dando fim ao seu desejo tão longamente ansiado. Hoje, dá pra perceber em que enrascada nos metemos, não é mesmo? Até com a França a gente anda brigando, cara. E dizem que alguns da turba alucinada já mudaram de lado, mas o que eu acredito mesmo é que tudo há de passar, inclusive o infame desmiolado que se sentou à mesa com o Pentágono. Enfim, cabe aqui um último aviso, numa espécie de breve anedota, evidentemente pensada antes que o ódio político venha à tona: este é (em parte) um texto ficção que se inspirou nos dias que vivemos, nas tardes modorrentas de um verão sombrio que ainda não acabou. Vida longa ao Brasil! Vida longa ao povo brasileiro! E salve-se quem puder…


Daniel Viana
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Publicado em Agosto de 2019

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Colado à tua forma


      Como é bom sentir na boca rósea a presença firme da tua forma; em cada curva dessa enseada morna, o gosto da uva me deixa eriçado; é nesse jeito áspero com que a tua língua me roça, aberto à fantasia da paixão que é só nossa, que o homem se descobre completo na mulher que o toca. É por isso que a ilusão da tua cópia, esse arremedo ajustado à moda, é cilada farsesca, é mentira a ser lançada fora; tal como a rosa prometida na véspera, a projeção luminosa da tela é sempre uma realidade inóspita.

     Lembre-se quando estamos a sós, degredados a se amar no sigilo secreto do teu quarto: tua voz se torna o meu pior algoz, a cada som que se ergue, sempre num tom mais veloz; e quando a maciez dá lugar ao gemido mais feroz, rompe em nós, sem que se fira, a fera felina mais atroz, cuja faísca é, com certeza, essa nossa "paixão imprópria", essa tal "fome repentina", ou, se preferir, a "condição primitiva" que enlaça as carnes ansiosas por arder… E se esquecermos o que vem após, o dia que se segue ao encontro veloz, é possível que tudo isso dure um pouco mais, é possível que a eternidade se faça presente em meio a nós.

     Pois bem… sempre que o meu corpo se encontra ao teu, nas tardes tórridas em que ardes com chama própria, tendo meu ventre colado à tua carne, onde se cultua para que a vida se encarne, minha força contida jorra tal como aço ardente em tua forma. Pois quando me enlaço no seu afago, no espaço íntimo aos amantes reservado, é que me descubro masculino apaixonado; antes, no reduto solitário, sou apenas falo. Ah, e como me corrói essa dor! Ela me atravessa pelo talo do meu ser! O fato de estar ilhado sem você, é como vagar afastado por um deserto escaldante, tendo apenas a promessa de um futuro ao teu lado.

     Diante das farsas postas em lugar do tato, eu faço essa pergunta: quem nunca se sentiu à deriva? quem nunca se viu à parte? Muitos já se acostumaram, é verdade, mas, por um tempo,  eu achei difícil tirar os olhos do teto, acreditei ser impossível recolher as lágrimas do chão do meu quarto; acabei ficando à espera da vida, mas tudo acabou sendo em vão. Aos que chegavam perto de mim, sempre aos beijos e abraços, eu dizia: "Não prove do meu veneno. Estou necrosado por dentro. Nada mais me alegra, nem mesmo o passar do tempo".

     Esse mundo sem contato qualquer, exceto o inquieto clique imediato, revela um rosto exato à minha frente, retrato de um mundo aparente, cujo único ato é um tique carente por espaço. Quero que você atente à essa geração ausente: quem era parte do presente, rolando seus corpos de criança na areia quente da praia, dando forma aos seus castelos no lodo mole, esvaiu-se de repente. Às vistas do céu, no suave toque da terra e do mar, éramos todos uma só gente; agora, estamos ensimesmados, voltados ao próprio umbigo, como se o mundo se resumisse a um perfil no ciberespaço.

     Portanto, ao invés do reflexo inerte, deixe em mim um toque macio, ainda que breve, antes que algo nos leve pra longe do mesmo destino, pra onde só reste um suspiro solto no ar; pois somos feitos para amar com toda verve, pra viver à flor da pele. Quebre a frieza desse espelho que promete ser você, que almeja reluzir o próprio ser! Tanta luz não pode se resumir a uma bateria vulgar, e já não há lápide melhor para a morte do amor que a tela de um celular. Baby, nada disso há de perdurar! Quero um encontro contigo, quero te ver e te abraçar, quero sair pra falar no teu ouvido… não há porque esperar.

Daniel Viana
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Publicado em 24 de outubro de 2019

sábado, 9 de maio de 2020

Nada pode me magoar, Baby



       Queria ter escrito antes que a memória se perdesse: seu sorriso naquele momento não deve ser esquecido, Baby. Não me perca entre as palavras, pois o silêncio entre elas é a porta que você deve usar; e mesmo que tenham nos convencido a falar de amor, saiba que aquele sorriso expressa tudo que há para se contar. Então, repita-o sem vacilo sempre que precisar entrar em mim, e fantasiar, em asas de serafim, minhas noites com sua presença; contido nele está a essência da minha busca sem fim. Nada precisa ser dito, Baby, nenhum esforço demasiado. Apenas contorne o palavreado.

            Às custas da noite inteira, expressei minha ânsia por uma companheira num mundo em convulsão e, de alguma maneira, você sabia que a melhor palavra não traria o mesmo que a sua alegria. Encontramos a ponte que nos une; e percebemos que somos, com toda certeza, uma mesma fonte que reúne corpos dispostos a queimar. Ah, sinto o calor agora, nas veias do pescoço e nas fantasias da imaginação, mas meus olhos, perdidos no espaço, são vagos na lembrança desse passado. Divago pelo escuro do quarto, tateando à procura da forma com que memória se torna relato.

            É duro como o tempo esmaece a cor das flores em sua Primavera; seu castigo cai sempre nas lembranças mais singelas, deixando à espera minhas feridas abertas. Ainda sinto a dor da infância; ainda choro a perda da criança; enquanto olho à distância teu sorriso perder toda substância. E, à medida que o tempo avança, Baby, vejo a esperança no futuro valer menos a cada dia que um homem não alcança o que tive com você. Às vezes, penso em salvar as coisas que um dia pudemos viver, mas algo em mim parece dizer: "É para que percebas o momento acontecer; é para que vivas, ao invés de reter".

            Estar à procura do passado com você, é como vagar no cosmo estrelado, com luzes que já estão a morrer: tão logo acabo por ver, percebo o inato vazio de não ter aonde pisar. São nebulosas além do alcance as formas com que tudo parece acontecer: mesmo que seja belo reviver cada instante, só de relance é possível descortinar seu contorno distante. No fim, tudo gira em espirais que não posso conter: lembranças faiscantes, porém fadadas a se distanciar, até um buraco tragar sua forma eternamente. Então, devo contar aquilo que der numa poesia sem verso, mas em excesso de tudo por você, Baby.

            Sentados à sombra da noite, quando o verão nos convida a procurar motivos para se encontrar, não encontramos outra língua que pudesse falar o que queríamos dizer. Fizemos o mesmo que todos os casais. Acabamos trocando detalhes sobre nós, como cantos de sereias em pleno mar: ouvidos por ondas que acabam por se esgotar, sentidos sem espaço para permear. Há, finalmente, quem nunca se acomoda ao mesmo prazer; cujo espírito curioso não precisa de algo por acontecer, de voar em busca do futuro por medo do presente. É isso, Baby, que faz tudo em você ser diferente, e que não tira o teu sorriso da minha mente.

            Estava distraído com tudo que passou, quando sua mão deslizou por detrás do rosto, sentindo o cabelo solto, algo que traz conforto durante o toque dos olhares; e, num mero instante, todo seu semblante veio a brilhar. Nada foi mais vibrante do que estar naquele lugar. Mesmo assim, tudo em volta teimou em te ignorar. Coube a mim antever nessas palavras a forma de preservar o que não se pode rever. Ante esse gesto fugaz, minha arte veio finalmente a nascer; em meio ao teu corpo, somente contentar é um dever. Baby, minha escrita serve à preservação do que ainda nos resta: mulheres cuja presença nos leva à transformação.

            Esse sorriso me desperta para um amor que não pode ser ensimesmado, muito pelo contrário, sua única meta é ver-se doado à pessoa amada. Na hora certa, tudo em mim pareceu desaguar em mar aberto, de modo que essa crônica pode afundar numa loucura sincera. Ser tão aberta assim, é de uma coragem que a poucos se revela, pois é incerta a vida em seu caminhar, nunca saberemos quem se aproxima para nos partir e quem veio para nos amar. Portanto, ao invés de acabar apegado, resolvi plantar esse amor no meu lado esquerdo. Está anotado o teu conselho, que, ao contrário do meu, não requer tanta conversa.

            Já vaguei a esmo minha vida inteira; estive à procura daquilo que vivi numa noite à sua maneira: uma mulher que me acolha no coração, sem medo de ser uma flecha certeira. Portanto, antes que toda memória se perca, receba essa crônica e tenha certeza em si mesma; antes que sua alegria se torne passageira, numa correnteza que arrasta nossas vidas para um mundo que a entristeça. Mesmo que uma faca fria percorra a memória que te faz sofrer, nunca se acomode em ver seu sorriso esvaecer. Saiba que nada pode me magoar, Baby, a menos que você se esqueça de si mesma.

Daniel Viana
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Publicado em 18 de Outubro de 2019