quinta-feira, 31 de julho de 2025

A causa nacional

 

      Mais uma vez, somos confrontados por uma polêmica que, de tempos em tempos, volta a inflamar o debate público. Esse é um tema que nunca perde a capacidade de nos capturar, seduzindo-nos com seu apelo ao sentido mais profundo de quem somos aqui e agora, nesse espaço que compartilhamos uns com os outros. Trata-se da causa nacional, revivida pela interferência da maior potência da nossa época, os Estados Unidos da América (EUA), em relação à soberania brasileira.

Assim que se sentiram as garras do falcão sobre a nossa consciência amedrontada, vozes se enfileiraram diante do púlpito e punhos se ergueram em tom de indignação. Lembramo-nos que ainda somos comida servida à mesa de quem pode se servir da nossa amada terra — tão singela e acolhedora com os que nos visitam —, a despeito de cedermos ou não a tal condição. No momento em que escrevo, instauram-se debates ferrenhos mesmo nos sujeitos mais indiferentes ao cotidiano da política, aqueles que se habituaram a dar de ombros para os temas comezinhos de Brasília, pois, quando se mancha o orgulho da nação, sentimos que alguém próximo foi ferido em combate. Erguem-se de imediato as falanges patrióticas, os defensores da camisa canarinho, munidos com seus insuportáveis cânticos futebolísticos. Nacionalismo e soberania, enfim, voltaram à baila.

No entanto, sei bem que caminho por um terreno sinuoso. Muitos se apressarão em dizer que o nacionalismo inspirou crimes imperdoáveis; outros afirmarão que se trata de uma ideologia burguesa, feita para dividir e dominar o proletariado internacional; por fim, haverá quem reclame de que toda essa discussão é excessivamente démodée, pois estaríamos todos em um “mundo sem fronteiras”, uma única “aldeia global”. Vá com calma, camarada! Minha intenção não é aliciar militantes para uma causa ou soldados para uma guerra. Por ora, vamos nos ater aos fatos do noticiário.

O presidente estadunidense, Donald Trump, ameaça o funcionamento do Judiciário brasileiro, em especial a atuação do ministro Alexandre de Moraes, responsável por investigar os ataques golpistas do 8 de Janeiro, bem como os dois principais nomes da família Bolsonaro: Jair Bolsonaro e seu filho Eduardo. Com seu notório estilo impulsivo, Trump quer forçar o Supremo Tribunal Federal (STF) a conceder uma anistia aos seus aliados ideológicos no Brasil, tendo por base uma suposta caça às bruxas liderada pelos membros do mesmo tribunal. Há quem especule, com boas razões, que as semelhanças entre os ataques golpistas ocorridos na Praça dos Três Poderes e aqueles ocorridos, dois anos antes, na invasão ao Capitólio, deram mais razões para que o presidente norte-americano se dispusesse a socorrer Bolsonaro.

De fato, Darren Beattie, secretário da gestão Trump, declarou (24/07) que Alexandre de Moraes “é o coração pulsante do complexo de perseguição e censura contra Jair Bolsonaro”, de modo que a ofensiva trumpista segue se agravando a cada dia que passa. O Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, anunciou a revogação do visto de Alexandre de Moraes e seus familiares. Tal medida foi uma resposta à imposição do ministro para que o ex-presidente usasse tornozeleira eletrônica, algo que o próprio Bolsonaro classificou, diante das câmeras que o filmavam, como “suprema humilhação”. Além disso, foram punidos outros sete ministros do STF, bem como o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, e seus familiares. Trata-se, sem dúvidas, de algo inédito na história entre os dois países, cuja relação bicentenária é marcada por golpes e alianças, crises e afagos, desconfiança e submissão. Se, por um lado, os EUA foram um dos primeiros países a reconhecer a Independência do Brasil, por outro lado, esse mesmo país chancelou o golpe de 1964 e a ditadura que se formaria a partir dele, momento mais crítico da nossa história no século passado.

Até o momento em que escrevo esse texto — estou nos últimos dias de julho —, não há sinais de que Trump queira recuar das suas investidas contra a economia das terras de cá. Ao contrário, alguns antecipam que o republicano possa aprofundar seus ataques no que diz respeito às tarifas impostas contra os produtos brasileiros, golpeando, em especial, o agronegócio, tido como um dos pilares fundamentais da estrutura econômica brasileira e do próprio movimento bolsonarista. Assim, se nada for feito, milhares de empregos serão perdidos e empresas quebrarão, de tal maneira que a economia pode mergulhar numa espiral cataclísmica, cuja consequência a médio e longo prazo ainda é incerta. Enquanto isso, o próprio Eduardo Bolsonaro declarou que não temeria um cenário de “terra arrasada [no Brasil]”, desde que se sentisse “vingado”. Com essa afirmação abjeta, o clã Bolsonaro comprova que seu pretenso amor à pátria não se equivale ao “amor familiar”, ou seja, nada importa mais que o seu instinto de sobrevivência, mesmo que todos afundemos por isso. Poucas vezes se viu tamanho servilismo por parte de uma liderança brasileira em terras estrangeiras.

Diante disso, alguns se apressam em assumir que os ataques à nossa soberania são “uma surpresa” da gestão Trump, nada mais que outra maluquice de um presidente patético. Puro engano! Por mais ridículo que seja Donald Trump e seu movimento político, tais golpes não são um episódio isolado. Ao contrário, eles se inserem na geopolítica estadunidense de oprimir as nações latino-americanas, proibindo-nos de sermos senhores do nosso destino e fazendo daqui o seu bom e velho quintal. Nesse sentido, pouco importa se a Casa Branca é ocupada por um republicano ou democrata. Acaso nos esquecemos dos escândalos de espionagem revelados por Edward Snowden em 2013? Acaso nos esquecemos do apoio dado pelo Departamento de Justiça à Operação Lava Jato? Acaso nos esquecemos da reativação da Quarta Frota em 2008? Afinal, quantas “surpresas” terão de se repetir para que nos convençamos dos interesses irreconciliáveis entre nós e quem governa a Casa Branca? Portanto, se queremos entender o que tem ocorrido nas últimas semanas, precisamos fazer com que a palavra “imperialismo” volte ao vocabulário político das massas, e não há melhor maneira de fazê-lo senão olhando o nosso passado.

         Historicamente, a soberania brasileira foi desafiada em diversos momentos e de diversas formas. Como, por exemplo, na Questão Christie (1861-1865), em que oficiais do Império Britânico, após fazerem arruaça na capital, acabaram presos pela polícia local, o que gerou uma reação explosiva do embaixador William Dougal Christie, representante dos britânicos na Corte do Rio de Janeiro. Tamanha animosidade se iniciara com o saque, por parte de brasileiros, do navio Prince of Wales, que naufragara, acidentalmente, em abril de 1861, na zona costeira do Rio Grande do Sul. A Coroa Britânica demandou indenização pelos prejuízos da pilhagem, mas a questão mantinha-se em aberto. Veio, então, a baderna dos oficiais no bairro da Tijuca. Christie exigiu não só a prisão dos policiais cariocas, seguida pela libertação dos baderneiros, como também uma indenização, acrescida por um injustificável pedido de desculpas. Vendo que sua exigência patética não era atendida, o embaixador ordenou que cinco navios mercantes brasileiros fossem apreendidos na Baía de Guanabara pela Marinha Inglesa, além de tomar o porto carioca à força, violando abertamente a soberania do Brasil. Como é de praxe, os imperialistas aplicaram a sua odiosa “diplomacia das canhoneiras” sobre os povos da periferia. Anos antes, os britânicos haviam operado a mesma estratégia nas Guerras do Ópio, com um sucesso tão fragoroso que os chineses jamais se esqueceriam das implicações de tamanha humilhação. Entretanto, Dom Pedro II comportou-se como estadista à altura daqueles meses conturbados; ao perceber que o embaixador estrangeiro não tinha a menor deferência pelas leis e pelo nosso povo, o imperador, auxiliado pelo notável Marquês de Abrantes e João Batista Calógeras, ordenou que as relações diplomáticas entre as duas nações fossem formalmente rompidas. Acabava-se a estadia de William Christie em nossas terras.

Aqui, é importante ressaltar que os nossos governantes confrontavam, ainda que só diplomaticamente, o maior império do seu tempo, cujo poderio bélico — e solidez econômica — era muito, muito superior ao nosso. Havia razões para crer que, numa eventual escalada, os brasileiros poderiam ser forçados a pagar um preço amargo por sua altivez. Porém, ambas as partes desistiram de entrar em guerra. Novamente, o Marquês de Abrantes e João Batista Calógeras, em sintonia com D. Pedro II, cumpriram um papel decisivo nas negociações por uma disputa que não dependesse da força das armas, terreno seguro para a famigerada armada inglesa. Naquele momento, era preciso posicionar-se num terreno em que as nossas forças se equilibrassem, por mais árdua que fosse a busca por tal solução. Foi decidido que se optasse pelo caminho jurídico. O caso foi julgado pelo rei da Bélgica, Leopoldo I, que era tio da própria Rainha Vitória. O monarca belga surpreendeu a muitos, dando parecer favorável aos brasileiros. O poderoso Império Britânico teve de pedir desculpas, de modo que as relações entre os dois impérios só seriam reestabelecidas em 1865, e nunca mais um oficial estrangeiro ousou comportar-se mal em terras brasileiras. A lição foi aprendida.

Ainda hoje, a Questão Christie é lembrada como um ponto alto da diplomacia brasileira e, especialmente, da liderança de Dom Pedro II, alguém que não se amedrontou diante da possibilidade de ter de enfrentar um império que, como se dizia, não via o sol se pôr. Com essa vitória mais que simbólica, o imperador marcaria a sua época de uma maneira que, se tivesse ocorrido nos EUA, já teria inspirado filmes e séries de televisão, mas, tragicamente, insistimos em dar as costas ao passado, mesmo quando ele deveria nos encher de orgulho patriótico. Pois, a despeito das enormes discrepâncias entre os dois adversários, o Brasil conseguiu se sobressair perante um opositor colossal e afirmar-se como país soberano num século em que ainda engatinhava no concerto das nações. Certamente, o caminho mais cômodo teria sido a “cautela”, a “moderação” e o “pragmatismo”, isto é, atender às ordens do prepotente diplomata britânico, de modo a não pôr em risco as relações com a nação que, em 1822, intermediara a nossa Independência de Portugal. No entanto, os caminhos fáceis, capazes de nos seduzir à primeira vista, acabam nos conduzindo a armadilhas muito piores do que aquilo que havíamos imaginado. Enfim, o tempo provou que aquele embate era mais que justo: ele era necessário para a nossa afirmação nacional.

Diante disso, como uma nação periférica e subdesenvolvida como a nossa pode vir a ser soberana?

Logo de cara, é importante frisar que, no tabuleiro geopolítico, ser soberano não é algo simples. Um dos caminhos escolhidos — e o mais controverso de todos — é o desenvolvimento da sua própria bomba atômica. O regime norte-coreano pagou caro para adquirir seu arsenal nuclear: décadas de cerco e sanções, fome e isolamento. Agora, quem se atreve a invadir Pyongyang e derrubar Kim Jong-un? Em 1994, os ucranianos optaram, em nome de uma boa relação com o Kremlin, por abrir mão do seu arsenal nuclear, algo em torno de três mil ogivas. Que receio Vladimir Putin teve de anexar a Crimeia e, oito anos depois, de invadi-los na maior guerra da nossa geração? Ao que parece, a única linguagem que as grandes potências reconhecem é a capacidade de destruição máxima, de aniquilamento completo da espécie humana. Em um mundo ideal, trataríamos as nossas divergências numa mesa de negociações aberta e igualitária, mas, infelizmente, esta não é a realidade na qual nos encontramos. O mundo atual tem ficado cada vez mais instável e perigoso para os estados que abrem mão de qualquer capacidade de dissuasão, especialmente aqueles que se encontram sob a mira dos interesses das grandes potências. Ignorar isso pode ter um custo muito caro, tendo em vista que, sem a dissuasão nuclear, tornou-se corriqueiro para os ocidentais derrubarem ditaduras: Saddam Hussein, no Iraque; Gaddafi, na Líbia; Bashar al-Assad, na Síria. Nos últimos meses, faltou pouco para que o regime iraniano se somasse a essa lista.

É evidente que, para manter o Judiciário funcionando minimamente, não precisamos recorrer a mísseis balísticos apontados em direção a Washington. Até por que, se o fizéssemos, seríamos o alvo imediato do Pentágono, que nunca permitiria uma nuclearização da América Latina, haja vista a Crise dos Mísseis em Cuba. Por enquanto, nossa verdadeira Independência não passa de um sonho de uma noite de verão, mas isso não significa que devamos adotar vira-latismo como doutrina da política externa, que é o desejo íntimo da gangue Bolsonaro. A extrema-direita não tem nada a nos oferecer enquanto projeto de nação, pois, para sermos soberanos, teremos de sair da sombra dos ditames dos Estados Unidos, um processo violentamente interrompido pelo Golpe de 64 e que os governos progressistas não se mostraram capazes de concretizar. Temos de reaver a consciência do papel que cumprimos no cenário internacional, isto é, nação periférica e subdesenvolvida, para, em seguida, sabermos aonde queremos e precisamos chegar. Essa é a nossa incontornável sina.

Tal como sabem todas as nações verdadeiramente livres, a nossa liberdade não será dada de mão beijada. Nunca o foi e nem poderá ser. Devemos, portanto, defender com orgulho a causa nacional. Devemos ir muito além de cantar o Hino Nacional aos berros, como se estivéssemos em um estádio de futebol. Caso contrário, seremos pisoteados pelos interesses imperiais, que nunca viram com bons olhos a emancipação verdadeira do povo brasileiro. 


Daniel Viana de Sousa

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sexta-feira, 13 de junho de 2025

A Missa fúnebre de um partido político

 

         Na semana passada, a 17ª convenção nacional do PSDB aprovou sua união com o Podemos, um movimento que já era discutido nos corredores de Brasília há muitos meses. Dessa forma, os dirigentes das duas facções buscam unir forças, de modo a obter mais recursos do Fundo Partidário e um maior tempo de rádio e TV. Sua meta é clara: aumentar as chances de eleger uma bancada robusta nas eleições do ano que vem, numa aposta de triunfo do autoproclamado “centro democrático”. Fala-se, também, em uma possível federação com o MDB, cujo objetivo é exatamente o mesmo: dar musculatura a um partido cada vez mais inexpressivo aos olhos das massas populares.

Trata-se de mais um capítulo no longo processo de definhamento de um partido que, em épocas passadas, dava os ares da graça em Brasília, chegando a disputar, com o Partido dos Trabalhadores (PT), pela primazia do comando presidencial.

A essa altura, para os mais jovens, deve parecer estranha a relevância dada por mim ao velório do tucanato. Na verdade, o PSDB foi a face polida e bem-comportada da classe dominante no pós-ditadura (1964-1985). Àquela altura, isto é, na década de 1990, a descendência funesta da Arena perdera apelo popular. E não era de se espantar: frente aos militares trogloditas, Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), o charmoso sociólogo e ministro responsável pelo exitoso Plano Real, apresentava-se como um refinado intelectual paulista. FHC era, sem dúvidas, a face que a burguesia queria vender ao resto do mundo, após o conturbado mandato de Collor (1990-1992) e a transição liderada por Itamar (1992-1995).

No entanto, os dias áureos do PSDB estão relegados aos livros de História, pois, como bem disse seu presidente atual, o ex-governador Marconi Perillo, “o ideal seria seguirmos solo, mas ficamos pequenos”. Realmente, os sinais da risível pequenez tucana estão por todo lado.

A recente despedida dos governadores de Pernambuco e Rio Grande do Sul, Raquel Lyra e Eduardo Leite — dois nomes cotados para disputar o Palácio do Planalto em eleições futuras —, foi mais um duro golpe para esse partido, que, em épocas passadas, esteve à frente de mandatos em diversos estados brasileiros, como São Paulo, Minas Gerais, Ceará etc. De fato, Fernando Henrique, o maior cacique tucano, foi a única liderança do país que ganhou uma eleição presidencial no 1º turno, conseguindo repetir a mesma façanha quatro anos depois. Nem mesmo Lula conseguiu igualar esse feito. Além disso, nas quatro eleições gerais seguintes, o PSDB esteve em todas as disputas de 2º turno, conseguindo obter, em 2014, mais de 51 milhões de votos, seu melhor resultado na história da Nova República. Por fim, em 2016, os tucanos alcançaram sua vitória derradeira: 799 prefeitos e prefeitas eleitos nacionalmente.

Porém, tal como nos ensina a sabedoria popular, a vida dá voltas.

No momento em que a crise econômica estrangulou a sociedade brasileira (2015-2016), sendo, aliás, aprofundada pela instabilidade sociopolítica provocada pelas Jornadas de Junho, as bases sociais que compunham a direita se radicalizaram. À época, percebeu-se que o PT perdera o protagonismo nos movimentos de rua, ao mesmo tempo em que o governo Dilma (2011-2016) via sua popularidade derreter em questão de semanas. Contudo, o golpe mais duro veio de uma controversa operação policial que marcaria aquela década: a Lava Jato; responsável por desgastar a imagem da esquerda aos olhos das classes médias empobrecidas pela crise sistêmica que chacoalhava as estruturas do nosso frágil tecido social. Iniciava-se, assim, o período mais sombrio de Lula e seu partido, cujo pior momento seria a sua prisão em abril de 2018; houve até quem cogitasse — com boas razões — a morte política de ambos. Ainda assim, o velho operário sobreviveria aos ataques e à prisão, saindo do encarceramento para se candidatar, disputar e vencer as eleições de 2022, tornando-se presidente do Brasil pela terceira vez.

Entretanto, o PSDB não se mostraria capaz de resistir ao maremoto do discurso anticorrupção. Pelo contrário, as revelações de que Aécio teria tido, em 2017, conversas suspeitas com o empresário Joesley Batista, ajudou a enterrar de vez as ambições presidenciais do último cacique tucano. De lá pra cá, o partido e suas lideranças mergulharam num lamaçal que nem mesmo a vitória de Doria seria capaz de resgatar. Nesse meio-tempo, nomes históricos da sigla, como Tasso Jereissati, José Serra, Geraldo Alckmin, Aloysio Nunes e Antônio Anastasia, perderam protagonismo, abandonaram o ninho ou simplesmente caíram no ostracismo. Pouco a pouco, ficava mais claro que a mancha da corrupção envolvia praticamente todo o espectro político, ou seja, da esquerda à direita, do progressismo ao conservadorismo, do governo à oposição.

Porém, o golpe final chegaria de onde menos se esperava. Pois, para a ruína do tucanato, renasceu, em torno do clã Bolsonaro, uma extrema-direita que não era vista desde os tempos ditatoriais. De fato, em poucos anos, formou-se um movimento alinhado à ascensão de uma extrema-direita mundial e abertamente contrário ao espírito “cosmopolita”, “democrático” e “civilizado” de FHC, pois se estruturava no ódio à esquerda, ao trabalhador, à mulher, aos negros, à comunidade LGBTQIAPN etc. Esse movimento extremista, que nos habituamos a chamar de bolsonarismo, aniquilou definitivamente a direita tucana, contribuindo para transformar o noticiário político num ringue de golpes baixos e, ao mesmo tempo, num show de horrores. Desde então, as falas obscenas de Bolsonaro e seus seguidores viraram parte do cotidiano, seja em frente às câmeras, seja nas próprias redes sociais; aquilo que, em outras épocas, seria visto como impensável ou inaceitável, agora é banal, corriqueiro. Contudo, a despeito de sua linguagem chula e personalidade detestável, o ex-capitão segue desfrutando uma sólida popularidade nos círculos reacionários, sendo capaz de arregimentar dezenas de milhares de apoiadores a qualquer momento, um feito que nenhuma liderança brasileira é capaz de igualar, excetuando-se o próprio Lula.

Para uma “nova direita” que rasteja pelos meandros das redes sociais, das fake news, do trumpismo, o PSDB virou peça de museu, antiquado demais para as novas disputas de uma república com pés de barro. Na realidade, a conjuntura presente — inflamada por uma crise sistêmica que se agrava a despeito de quem ocupa a cadeira presidencial — demanda das classes dominantes uma direita que destile ódio aos trabalhadores, às mulheres, às minorias e às esquerdas. Para esse agrupamento fascista, não há outra solução que não seja “metralhar a petezada”, isto é, pôr toda culpa sobre os ombros dos “artistas pervertidos”, “professores esquerdistas”, “universitários vagabundos”, “feministas mal amadas”… trata-se de um lamaçal discursivo, um espetáculo de ideias vexatórias, no qual somente o esgoto da Ditadura poderia germinar algo de novo. Nesse sentido, o bolsonarismo é o sintoma mórbido de um sistema político em decomposição.

Ora, seria pretensioso buscar resumir os fatos políticos dos últimos anos em um texto de poucas páginas. Nesse esforço em forma de análise escrita, tentei delinear um esboço, um painel simplificado daquilo que vimos acontecer em tão pouco tempo, de tal maneira que muitos elementos centrais à compreensão da nossa realidade precisaram ser deixados de lado. Mesmo assim, com a simbólica saída dos principais governadores tucanos, Raquel Lyra e Eduardo Leite, podemos dizer que o PSDB está com os dois pés na vala, prestes a ser enterrado de uma vez por todas. Afinal de contas, os dois mandatários preferiram se livrar do partido ao qual pertenciam há décadas, para aderir à legenda controlada por Gilberto Kassab: o Partido Social Democrático (PSD). Fundado em 2011, o PSD é a sigla que detém o maior número de senadores e prefeitos, assim como uma das principais forças partidárias na Câmara dos Deputados.

No futuro, quando os historiadores se dispuserem a estudar a política brasileira desses tempos incertos, eles certamente terão de se ocupar em analisar a figura de Gilberto Kassab. Personalidade sorrateira e camaleônica, Kassab é o epítome do Centrão, o famigerado establishment político brasileiro; ele foi ministro de Dilma, mas não vacilou em apoiar seu impeachment, aceitando, logo em seguida, um ministério no governo Temer (2016-2019); em São Paulo, trabalhou para Dória (2019-2022), porém, agora, está ao lado de Tarcísio de Freitas, ex-ministro da gestão Bolsonaro (2019-2023). Ao longo dos anos, Gilberto Kassab foi vice-prefeito, prefeito e deputado federal por São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, de modo que não seria injusto tê-lo como um carreirista experimentado, um arrivista bem-sucedido, que conhece os corredores palacianos como poucos, pois sabe dançar conforme a música, sabe se ajustar de acordo com a oportunidade que lhe aparece. Kassab não formulou nenhuma ideia que mereça destaque, nem nos presenteou com alguma conquista de relevo; nada nele nos vêm à tona, exceto seu triunfo pessoal em um sistema carcomido pela corrupção, velhacaria e mediocridade. Ainda assim, não devemos nos espantar que ele lidere um dos maiores partidos brasileiros, um partido capaz de influenciar o resultado das eleições que se avizinham. Afinal, o PSD é a expressão mais bem-acabada do atual sistema político nacional.

Hoje, o partido capitaneado por Kassab é o farol que atrai mais e mais tucanos para fora do ninho. Na Paraíba, estado marcado pela presença do PSDB, dois dos principais nomes do clã Cunha Lima, Cássio e Pedro, transferiram-se recentemente para o PSD. Espera-se que Pedro dispute, pela segunda vez, o mandato de governador. Para tanto, o ex-deputado recebeu o cargo de presidente estadual da legenda, reunindo em torno de si diversos nomes da oposição ao governo de João Azevedo (PSB), tais como Veneziano (MDB), Ruy Carneiro (Podemos) e Efraim Filho (União Brasil). Se a sua escolha foi um tiro no pé, o futuro nos dirá.

A essa altura, a revoada dos tucanos sacramenta o fim de uma era para a direita nacional. A época em que a centro-esquerda se alternava no governo com os tucanos se esgotou definitivamente, pois, aos olhos das classes dominantes, o PSDB tornou-se bucha de canhão, um instrumento ineficiente para a conservação do seu poder sobre as massas em um contexto de crise social aguda. E, ainda que a fusão com o Podemos traga de volta alguns milhares de votos e meia dúzia de assentos no Congresso, o PSDB jamais terá de volta o protagonismo, porque a verdadeira Política não se subordina a fundo partidário, tempo de televisão ou marketing eleitoral.

A verdadeira Política transcende os monumentos de Brasília, fazendo-se presente no dia a dia, na realidade concreta de cada pessoa que luta para sobreviver em um país espoliado desde a sua origem. Ao contrário das vulgaridades e cretinices presentes no cotidiano da politicagem rebaixada, a verdadeira Política se dá na luta de classes, no embate ferrenho entre capitalistas e trabalhadores, cujos interesses continuam sendo diametralmente antagônicos. Nessa violenta disputa pelas mentes e corações, o tucanato não é nada mais que uma relíquia farsesca do passado. 

Daniel Viana de Sousa

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terça-feira, 22 de abril de 2025

Adeus, Francisco!

 

Após um pontificado de mais de uma década, o Papa Francisco faleceu nesta segunda-feira (21), exatamente no começo do tempo pascal, época de renascimento e esperança para os cristãos do mundo inteiro. Para quem crê no Evangelho, a partida do pontífice ocorreu num momento simbólico, verdadeiramente marcante para toda a cristandade.

Poucos líderes religiosos buscaram tanto o diálogo ecumênico, o entendimento entre diferentes grupos religiosos, políticos, étnicos e sociais. Possivelmente, seu ponto alto na diplomacia papal foi a costura da reaproximação, em 2015, entre Cuba e Estados Unidos, adversários ferrenhos por mais de seis décadas, algo que pegou de surpresa a maioria dos observadores da geopolítica — e que sofreu um duro revés com a vitória, em 2016, de Donald Trump —; ainda na seara sociopolítica, merece destaque a campanha em prol dos imigrantes, seus embates com extrema-direita global, a ênfase na solidariedade para com os pobres e marginalizados e a publicação da Laudato Si, um dos documentos mais importantes sobre as mudanças climáticas já feitos por um papa. Em suma, Francisco extrapolou não só os muros do Vaticano, mas também as barreiras da intolerância e do dogmatismo, transformando-se numa das figuras mais queridas e marcantes do século XXI. Entretanto, não pretendo fazer aqui uma retrospectiva de sua trajetória, algo que já circula em profusão nos portais de notícia do mundo inteiro.

É improvável que vejamos outro papa tão progressista quanto Bergoglio, que surpreendeu o mundo já na sua eleição, há doze anos, ao ser escolhido para comandar a mais influente e longeva instituição do Ocidente. À época do conclave que o elegeu, Francisco se tornaria o primeiro jesuíta e o primeiro latino-americano a comandar a Santa Sé; fatos tão surpreendentes quanto a renúncia de Bento XVI, algo que não era visto há mais de seiscentos anos, ainda na Idade Média, quando Gregório XII (1406-1415) abriu mão de conduzir a barca de S. Pedro. Às vésperas de renunciar, o papa alemão encontrava-se cercado por crises que estremeceram seu pontificado: as revelações de documentos ultrassecretos por Paolo Gabriele, seu mordomo; os escândalos financeiros do “Vatileaks” e, mais gravemente, o envolvimento de diversos clérigos em denúncias de pedofilia. Ainda assim, ao se justificar perante o público, Bento XVI afirmou que renunciava por conta de problemas relacionados à sua saúde; ele viveria mais nove anos no mosteiro Mater Ecclesiae, incrustado no interior do Vaticano, fazendo aparições ao lado de familiares, amigos e admiradores, inclusive do seu sucessor. Desse modo, a Igreja Católica atravessaria um capítulo peculiar de sua milenar história: um papa emérito convivendo, ao mesmo tempo, com outro recém empossado. Tal coexistência renderia bons frutos, como a publicação, ainda em 2013, de uma encíclica com contribuições de ambas as partes: a Lumen Fidei (Luz da Fé).

Entretanto, sempre se alimentaram boatos da existência de intrigas, decepções e manipulações, que, finalmente, vieram à tona no livro “Nada mais que a verdade”, publicado pelo arcebispo Georg Gänswein, secretário pessoal de Bento XVI. Dentre as várias acusações, Gänswein afirmou que o argentino buscou isolar o papa emérito devido a divergências teológicas e que Bento sentia-se vigiado por Bergoglio. Ao dar sua resposta, Francisco expressou, numa entrevista a Javier Martínez, a seguinte declaração: “que no dia do funeral seja publicado um livro que me deixa chateado, que conta coisas que não são verdade, é muito triste. É claro que isso não me afeta no sentido de que não me condiciona. Mas me machucou que Bento XVI tenha sido usado”. Certamente, aquilo que o público sabe, não deve chegar nem perto do que, de fato, ocorreu na relação entre os dois líderes e suas respectivas facções, forças antagônicas no seio da Igreja. Enquanto que um era enaltecido como teólogo e catedrático brilhante, o outro detinha um carisma capaz de incendiar multidões; enquanto que Ratzinger enfatizava o papel da doutrina e da tradição, Bergoglio reforçava o perdão e a caridade, o acolhimento aos mais diversos grupos sociais. Como é de praxe nas relações humanas, ambos agradaram a uns, ao mesmo tempo em que desagradaram a outros. Um destes inimigos, o arcebispo italiano Viganò, acusou Francisco de ser “herege”, “tirano” e “servo de satanás”, bem como de acobertar casos de pedofilia, o que lhe rendeu uma excomunhão logo em seguida.

Ora, desde os seus primórdios, quando os Apóstolos ainda caminhavam entre judeus e gentios, a Igreja Católica sempre foi uma instituição complexa, com conflitos acalorados e dissensões amargas que chegaram a pôr em xeque sua própria existência. Algumas destas disputas tornaram-se capítulos em livros de História, tais como o Grande Cisma (1054), a Reforma Luterana (1517) e a Reforma Anglicana (1534), movimentos religiosos que desembocariam em guerras devastadoras, sendo a pior delas a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), que arrasou a Europa como nunca se vira antes, forçando os monarcas europeus a criarem meios políticos e diplomáticos que evitassem a sua repetição. Nasceria daí a Paz de Vestefália, marco do Estado Moderno, assim como da gradativa tolerância religiosa entre católicos e protestantes. As futuras guerras europeias não teriam mais um caráter religioso. Ao contrário, com o passar dos séculos, a influência do Cristianismo na geopolítica diminuiria pouco a pouco, culminando na Revolução Francesa (1789), que lançaria as bases do Estado laico que temos hoje. O tempo das Cruzadas e da Inquisição, enfim, começara a ser deixado para trás, e a Europa iniciaria seu período mais áureo, que só se encerraria no começo do século XX, com a deflagração da Primeira Guerra Mundial.

Felizmente, vivemos uma época em que os cristãos não mais usam a religião como desculpa para cruzar a fronteira e cortar as cabeças uns dos outros. De fato, se isso ocorresse em 2025, ficaríamos horrorizados. Questionaríamos, de imediato, a própria fé de quem o fizesse, lembrando a mensagem dada pelo Cristo há dois mil anos atrás: amai-vos uns aos outros, assim como Eu vos amei (João 15:12). Decerto, mesmo na relação com outras religiões, como o Judaísmo e o Islamismo, os pontífices que sucederam o Concílio Vaticano II (1962-1965) têm optado pelo ecumenismo, e não há sinais de que isso mude do dia para a noite. Pois, ao contrário de Donald Trump, que lança ao fogo o esforço geoestratégico dos seus antecessores, os papas não são afeitos a cisões egocêntricas e desmesuradas. No Catolicismo, as rupturas são raríssimas e, do ponto de vista doutrinário, praticamente inexistentes. Prefere-se, ao invés disso, um movimento pendular, uma valsa de muitas décadas, que, na visão dos modernistas mais afoitos, é puro imobilismo. À primeira vista, a Igreja de Roma nos parece congelada no tempo, como uma relíquia de museu. No entanto, ela rumina as mudanças em seu interior, mastigando, no seu próprio ritmo, as ideias que lhe batem à porta. Para a Modernidade, tudo isso parece antiquado e estranho, porém a Igreja Católica não é uma instituição moderna; se o fosse, talvez já tivesse se partido em múltiplas dissensões, tal como ocorre, quase todos os anos, com outras denominações pentecostais.

De S. João XXIII e S. Paulo VI, responsáveis por presidir o último Concílio, até S. João Paulo II, Bento XVI e Francisco, podem-se notar linhas de continuidade, a despeito das grandes transformações sociais, econômicas, culturais e políticas, dos sessenta e sete anos que nos separam da eleição, em 1958, de S. João XXIII, o grande reformista do século passado. Essa é uma das razões que fizeram a Igreja Católica ser o que é hoje: não seguir o ritmo que o mundo lhe pede, mas o seu próprio caminhar, por mais vagaroso que nos pareça.

A questão que desafia o futuro Conclave não é mais o conflito do catolicismo com o mundo à sua volta, pois este simplesmente o ignora, trata-o com fria indiferença; há décadas que o sujeito moderno deu as costas ao Cristianismo, especialmente na Europa, que já fora seu bastião mais seguro. Hoje, o catolicismo precisa tratar suas feridas internas, conciliar-se consigo mesmo, para, em seguida, ir ao encontro do rebanho desgarrado. Pois ninguém se abriga numa casa prestes a desabar; ninguém se salva numa barca prestes a afundar. Necessitamos de reformas profundas, de uma santa ousadia, mas também de um diálogo fraterno com grupos conservadores. Excetuando-se figuras paspalhas como Viganò, há setores à direita com os quais o futuro papa precisará entender-se, caso queira aprofundar as mudanças gestadas por Bergoglio. Por enquanto, não parece haver espaço para uma guinada à direita. Ao menos essa foi a mensagem transmitida, nesta terça-feira (22), por Dom Jaime Spengler, um dos sete cardeais brasileiros que participarão do Conclave. “A maioria do colégio cardinalício foi criado pelo próprio Papa Francisco. Eu creio, ou melhor, imagino que um retrocesso nesse caminho realizado até aqui é impensável”, disse o arcebispo de Porto Alegre.

Ao mesmo tempo, há vozes que pedem um papa mais moderado, de centro-direita, que esteja em sintonia com setores preteridos nos últimos doze anos.

Dentre os 135 cardeais aptos a votar, Francisco nomeou 108, de modo que a sua influência, certamente, se fará presente na Capela Sistina. Graças a Bergoglio, o atual Colégio de Cardeais nunca teve tantos representantes da periferia global, como, por exemplo, Giorgio Marengo (Mongólia), Virgílio da Silva (Timor-Leste), John Ribat (Papua-Nova Guiné) e Dominique Mathieu (Irã), que, embora não estejam na lista dos cotados para comandar a Igreja, integrarão a leva de prelados que poderão escolher o próximo Vigário de Cristo. Para tanto, tais grupos precisarão agir em unidade, algo que é mais difícil do que parece, haja vista a pouca familiaridade e o peso de grupos de considerável influência, como os cardeais norte-americanos, conhecidos pelo seu viés conservador, dos quais o mais notório é o cardeal Burke, famoso por opor-se a Francisco ao longo de todo o seu pontificado. Se os jovens cardeais se fragmentarem, seja por inexperiência ou vaidade, os setores conservadores terão a chance que precisam para eleger um possível contestador das reformas de Francisco.

Na história da Igreja, não é incomum que haja dificuldade em achar nomes que traduzam uma consensualidade. No passado medieval, houve conclaves que chegaram a se estender por anos a fio, com repetidas votações frustradas, até que fosse feita a escolha de um perfil que agradasse um número mínimo de prelados votantes, de modo que, até aqui, ninguém sabe qual será o desfecho do Conclave que avistamos à nossa frente. No momento, temos apenas perguntas em aberto: haverá um Francisco II? a ascensão da extrema-direita global determinará a escolha do próximo papa? a Igreja, enfim, escolherá seu primeiro pontífice asiático, em resposta à ascensão da China comunista, tal como Karol Wojtyla foi uma resposta à União Soviética?

Há quem diga que o Conclave é a eleição mais obscura do mundo. Pois, a despeito dos inúmeros livros e filmes escritos a respeito, as disputas nos corredores do Vaticano sempre foram nebulosas e inacessíveis à maioria dos interessados. Mesmo os conclaves do passado ainda são envoltos por especulações e mistérios. O próprio Bergoglio não chegara a ser cotado entre os papáveis que ocupavam a manchete dos principais jornais vaticanistas, confirmando o célebre ditado italiano "chi entra papa al conclave, ne esce cardinale”, que poderia ser traduzido para “quem entra no conclave como papa, sai como cardeal”.

O que podemos nos assegurar é de que este ano — tal como ocorrera em 2005 e 2013 — será decisivo para o futuro do Catolicismo, bem como para o mundo inteiro.

 

Daniel Viana de Sousa

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