A forma da escrita
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
Livros lidos em 2025
A
cada ano que se acaba, colecionamos as nossas próprias vitórias e fracassos. Quem
for realmente honesto, reconhecerá que nem tudo foi desperdício de tempo, nem tampouco
dirá que colheu apenas os frutos mais saborosos. Nossas vidas não se restringem
ao preto-e-branco dos olhares maniqueístas. Certamente, houve percalços, mas
também momentos de imenso prazer, bem como outras tantas memórias que perdemos
para sempre na agitação do dia a dia, quando estamos ocupados em chegar na hora
marcada, em entregar o trabalho dentro do prazo estipulado, em responder a
mensagem urgente que nos chega pelo celular.
Felizmente,
não há como lembrar de tudo, de modo que cérebro e mente selecionam —
conscientemente ou não — aquilo que permanecerá conosco no decorrer da nossa
jornada. Algumas vezes, as memórias guardadas nos fazem bem; outras vezes, elas
podem nos adoecer se ficarem tempo demais com a gente. A princípio, tal adoecimento
pode vir à tona discretamente, como uma insônia mal resolvida ou uma melancolia
sempre à espreita, no entanto, se ele vier a formar raízes profundas, o sujeito
adoecido estará semeando para si um futuro ainda mais amargo e doloroso. Pouco
a pouco, os sorrisos se tornam escassos, a vivacidade do olhar se esmorece… Dormir
acaba sendo algo mais difícil que o normal; banhar-se e sair de casa vira uma
missão árdua.
Mas
essa história não termina aí. Por vezes, o adoecimento de uma pessoa só pode comprometer
a saúde mental de uma família, empresa, coletivo… de tal maneira que o que
alimentamos internamente não se restringe somente a nós. Na realidade, com
nosso mal-estar individual, aparentemente circunscrito ao nosso ego empoleirado,
podemos estar arruinando a vida que compartilhamos com aqueles que mais amamos.
Como animais encurralados, somos convencidos a observar o mundo por uma
perspectiva estreita e autocentrada, quando, na verdade, precisamos aprender a ampliar
o olhar, de modo a conceber novas maneiras de enxergar. Às vezes, é se
perdoando que, enfim, aprendemos a perdoar os outros; é olhando para si que,
finalmente, aprendemos a olhar para os demais. Ao cuidarmos da nossa saúde
mental, estamos cuidando de todos à nossa volta, pois estamos inseridos num cosmo
compartilhado. Somos folhas de um mesmo galho, ramos nascidos de uma mesma
árvore, árvores germinadas de uma única Terra. Nada está à parte. Quem se vê
apartado dos demais, ainda não compreendeu quem, de fato, é.
É
uma pena que não nos ensinem isso mais cedo, quando estamos ainda no começo das
nossas vidas e podemos evitar os erros mais banais. Para a nossa tragédia
pessoal, saber recordar o que, realmente, importa — e descartar aquilo que nos
faz apenas mal — é uma arte que, em geral, aprendemos com muitos anos
acumulados em nossas costas. Alguns só conseguem aprendê-lo após cumprirem anos
de terapia. Ainda hoje, na educação das nossas crianças e adolescentes, priorizamos
o aprendizado das ciências convencionais, como se o autocuidado e o
autoconhecimento fossem algo secundário e supérfluo, um detalhe a ser tratado a posteriori. Temo que, se isso não
mudar o quanto antes, veremos as novas gerações repetirem os mesmos sofrimentos
e equívocos das gerações passadas.
Meu
esforço em fazer uma lista dos livros que li ao longo do ano, se justifica na necessidade
de olhar para trás e ver o caminho percorrido, recordar a jornada que comecei doze
meses atrás. Ademais, no que diz respeito ao saldo de leituras concluídas, não
posso dizer que fiquei inteiramente satisfeito ou frustrado. Embora tenha lido pouco,
sinto que fui mais longe do que esperava. Ler o Fausto de Goethe, ainda que só a Primeira Parte, foi um dos maiores
desafios literários que eu já tive na minha vida. Suspeito que, no futuro,
terei de voltar a lê-lo.
Por
fim, espero concluir, neste ano, a leitura de vinte livros. Assim, conseguirei ultrapassar
a marca dos anos anteriores. É verdade que ler não é o mesmo que executar uma
prova de atletismo, porém, da minha parte, há que se esforçar em ler mais.
Segue
abaixo a lista dos livros lidos por mim em 2025:
1. Wild
Thing, Philip Norman (Liveright
Publishing Corporation);
2.
Ressureição,
Machado de Assis (Nova Fronteira);
3.
A
Mão e a Luva, Machado de Assis (Nova Fronteira);
4.
O
que fazer?, Vladimir Lênin (Boitempo);
5.
Niketche,
Paulina Chiziane (Companhia de Bolso);
6.
A
Ditadura envergonhada, Elio Gaspari (Intrínseca);
7.
Fausto:
Primeira Parte, Goethe (Editora 34);
sexta-feira, 21 de novembro de 2025
Um novo mundo se constrói
Em
agosto do ano passado, tive a oportunidade de refletir sobre o surgimento de
uma nova ordem do poder global. Naquele momento, abordei diversos temas:
ascensão da China, declínio dos Estados Unidos, crises e guerras mundo afora.
Ainda assim, a minha
ambição em propor uma visão panorâmica e precisa do nosso mundo encontra
limites na infinidade de personagens dignos de nota, na enxurrada de eventos
que se acumulam a cada dia e na complexidade de questões que exigiriam uma
observação mais esmiuçada, além da incontornável falta de tempo do próprio
autor. Realmente, eu abro mão de qualquer pretensão em dar por encerradas as
discussões que levanto nas minhas análises, a despeito dos esforços que faço
nessa direção. Prefiro apontar o destino das aves que voam, ao mesmo tempo em
que recolho os tremores que emergem do reino subterrâneo.
O fato é que toda análise
requer um recorte, de tal maneira que o texto atual repetirá a impressão de ter
sido feito às pressas, ou seja, sem o acabamento que se esperaria de um ourives
frente a uma gema preciosa. Aliás, é possível que, nos dias seguintes à
publicação deste texto, novos acontecimentos o tornem irremediavelmente
defasado, tamanha é a celeridade dos fatos que temos presenciado.
Feitos os ajustes
iniciais, passemos para a análise do cenário internacional.
Não
é preciso ser um especialista para se dar conta de que os alicerces do
tabuleiro geopolítico se estremeceram nos últimos doze meses. Afinal, mesmo o público
leigo, pouco familiarizado com disputas de longa data e termos herméticos, percebe
que vivemos um momento de transição profunda e de tensão crescente, cujo ápice,
até agora, pode ter sido o bombardeamento, por parte da Força Aérea dos EUA, às
instalações nucleares do Irã.
No espaço de algumas
horas, o programa nuclear iraniano, motivo de temores por parte de seus rivais
ao longo de décadas, foi varrido do mapa numa operação de proporções espantosas,
comprovando, mais uma vez, que os americanos não são um tigre de papel. No
mundo de hoje, quantos países detêm a mesma capacidade de planejar, mobilizar,
localizar e destruir seus alvos a meio mundo de distância, e fazendo-o sem nenhuma
baixa militar? Quase nenhum. Isso explica por que os EUA são a maior potência militar do planeta, algo que deve se
manter inalterado por muitos anos à nossa frente.
No
entanto, como todo império em declínio, os estadunidenses não poderiam se satisfazer
em violar apenas a soberania iraniana, pois não é somente Teerã que tem buscado
uma alternativa viável ao imperialismo ianque. Ao contrário, à medida que a
China cresce e fóruns multilaterais, como o BRICS, ganham representatividade
mundial, mais nações batem à porta de Xi Jinping, presidente da segunda maior
economia do planeta e secretário-geral do maior partido comunista do mundo, à
procura de auxílio financeiro para os dias difíceis que testemunhamos. Cada vez
mais, o “dinheiro comunista” chega aos países do Sul Global na forma de
investimentos em infraestrutura, ao mesmo tempo em que Beijing consome,
vorazmente, as commodities extraídas
dessas nações, transformando-se na locomotiva do capitalismo tardio.
Para esses estrategistas,
pouco importa se os seus clientes são fanáticos do Talibã, arquirrivais indianos
ou até mesmo as avançadas empresas do Vale do Silício. Na verdade, todos são
bem-vindos, desde que não se metam nos assuntos internos chineses, ou
atrapalhem a política externa delineada pelo Comitê Permanente do Politburo, a
alta cúpula do seu centenário partido. Assim, no espaço de poucas gerações, tal
estratégia produziu uma façanha sem precedentes na história da Humanidade:
metrópoles surgiram do nada, trens de alta velocidade adentraram o interior, multidões
de jovens se educaram em universidades, mais de setecentas milhões de pessoas
deixaram a pobreza etc. A essa altura, não há mais dúvidas de que a grande
vencedora da globalização foi a República Popular da China.
Tamanho êxito jamais
seria aceito por Washington, que, aliás, sempre apostou que o século XXI seria
um novo “Século Americano”, jamais um século “da China”, ou mesmo “da Ásia”. De
fato, quem se encontra numa posição hegemônica, costuma se convencer não só que
sua vocação à supremacia é um fato inquestionável, mas também que ela é a forma
natural do mundo funcionar, uma espécie de modus
operandi visceralmente superior a todos os demais. Decerto, todos os
impérios sonharam que seu esplendor duraria para sempre, como o brilho do Sol
sobre as suas cabeças, cabendo ao restante da Humanidade contentar-se com a
submissão completa. Os romanos conseguiram sobreviver por mais de mil anos, até
que Constantinopla foi tomada, pelos muçulmanos, em 1453; os ibéricos
inauguraram o primeiro império transoceânico e transcontinental da história,
até serem expulsos das suas colônias pelas mãos dos próprios colonizados; os
britânicos controlaram os mares e, neles, foram invencíveis por gerações, até
verem sua juventude ser dizimada no lamaçal das trincheiras europeias. Todos se
entorpeceram com seus triunfos, convencendo-se que nada seria capaz de
detê-los, mas a realidade dos fatos, enfim, se impôs. Agora, tais impérios não
passam de uma sombra do passado, vivendo apenas nos livros e nos monumentos
deixados para trás. Então, por que o poderio americano teria um destino diferente
dos seus antecessores?
Ao longo das décadas de
1990 e 2000, pensava-se que a abertura chinesa resultaria, necessariamente, na instabilidade
e implosão do regime comunista, o que, por sua vez, poderia levar a uma fragmentação
territorial, algo semelhante ao que acabara de ocorrer à União Soviética e aos
demais países do Pacto de Varsóvia. Além disso, o massacre na Praça da Paz
Celestial expunha uma insatisfação latente naquela sociedade, recém-saída do longo
período maoísta (1949-1976), que poderia ser melhor explorada por quintas-colunas
insufladas externamente, pois, tal como os soviéticos, a China possui minorias
étnicas que poderiam ser seduzidas pelo separatismo. Nessa época, havia um
otimismo quase delirante de que o mundo inteiro se curvaria ao Consenso de
Washington, ou experimentaria a mesma debacle do experimento soviético. Em
suma, apostava-se na impossibilidade de coexistência de uma economia de mercado
ultramoderna com o autoritarismo de Beijing. Porém, o tiro saiu pela culatra e,
pela primeira vez, uma nação assentada no Terceiro Mundo senta-se frente a
frente com os senhores da Casa Branca.
Ao mesmo tempo em que a
China cresce, não há boas notícias para seus velhos antagonistas da Guerra Fria
(1947-1991). Mesmo alguns dos mais fervorosos aliados dos EUA, como Japão,
Coreia do Sul e Austrália, encontram-se pressionados pela nova conjuntura
geoeconômica, haja vista que seu maior parceiro comercial é o dragão asiático. Mesmo
a América Latina, eterna zona de influência dos ianques, lida com o fato de que
não pode prescindir dos vínculos com Beijing. Sem a venda de suas matérias-primas,
como o cobre, a soja e o minério de ferro, grande parte das economias latino-americanas
afundariam em recessão, ou seja, tais laços econômicos se estreitaram a tal
ponto que, a despeito dos desmandos de Trump, uma ruptura tornou-se,
simplesmente, inviável. Em outras palavras, os comunistas usaram as regras do capitalismo
para “virar a mesa”, pegando de surpresa seus antigos adversários.
Logo, os falcões compreendem
que, para preservarem sua hegemonia por mais duas ou três gerações, o caos deve
ser levado à periferia do globo, especialmente, quando se trata daqueles que põem
em xeque sua pretensa autoridade. Afinal, fazer guerra segue sendo sua
expertise. Contudo, até Donald Trump sabe que um enfrentamento militar contra
os chineses resultaria numa hecatombe nuclear, de modo que a destruição será
imposta aos “elos fracos”, isto é, as nações do Sul Global. De acordo com a
visão de mundo dos ocupantes do Salão Oval, deve-se impor aos demais países a
seguinte escolha: ser vassalo ou sofrer as consequências do caminho contrário.
Assim,
diante do sucesso do ataque às instalações iranianas, quais as chances do
presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, sobreviver às recentes investidas de
Washington no Mar do Caribe?
Desde agosto, navios,
caças F-35, submarinos e milhares de tropas foram deslocadas para as cercanias
da costa venezuelana. Enquanto isso, o secretário de guerra dos EUA, Pete Hegseth,
ordenou que o grupo de ataque Gerald Ford, composto pelo maior porta-aviões do
mundo, partisse rumo às águas caribenhas. Ao mesmo tempo em que várias
embarcações — suspeitas de levarem drogas ao território norte-americano — foram
destruídas em águas internacionais, contabilizando dezenas de mortos. Para
estes supostos “narcoterroristas”, não houve direito de defesa. Pelo contrário,
praticaram-se execuções sumárias típicas de um western de gosto duvidoso.
Caracas reage dando fuzis
à população civil e acusa os EUA de fabricarem um conflito, tendo em vista a
derrubada do regime bolivariano, algo que faz todo o sentido, haja vista o fato
de que a Venezuela — além de ser compradora de armamento russo, fornecedora de
petróleo aos chineses e principal aliada de Cuba no continente — é uma das
maiores detentoras de reservas petrolíferas. Aliás, engana-se quem pensa que essa
matéria-prima perderá sua relevância estratégica no futuro próximo. Mesmo com o
avanço gradual da exploração de energias renováveis, economias pujantes, como a
chinesa e a estadunidense, consomem imensas quantidades de combustíveis
fósseis, a despeito dos esforços em transitar para uma economia sustentável.
Não é por acaso que a flutuação do preço do barril ainda faz estremecer as
relações internacionais. Se o seu preço aumenta, a nação petroleira desfruta de
enriquecimento, mas, se o preço do mesmo barril despenca, a explosão de uma
crise torna-se quase inevitável. No caso venezuelano, a dependência da
exportação do petróleo é, sem dúvidas, seu ponto mais fraco.
Ora, invasões militares
em larga escala são, em geral, precedidas por grandes mobilizações de veículos
e tropas, tal como vimos, em 2022, no ataque russo às terras ucranianas. Numa
era de interconectividade global, não haveria como escondê-lo por muito tempo,
restando ao lado enfraquecido clamar por misericórdia de todas as maneiras
possíveis, como já se antecipou o próprio presidente Maduro ao repetir, em
inglês: “no crazy war, please”.
A Casa Branca, por sua
vez, limita-se a responder que está combatendo o narcotráfico, igualando-o ao
terrorismo da Al-Qaeda, e acusa o mandatário venezuelano de chefiar o Cártel de los Soles, porém ninguém
precisa recorrer a um submarino nuclear ou um grandioso porta-aviões para
combater cartéis de droga. Na realidade, a chamada “guerra às drogas” é tudo
menos uma guerra convencional. Armamentos, veículos, táticas e soldados que
podem ser úteis num conflito interestatal, como o que temos visto na Europa
Oriental, acabam sendo ineficientes em uma guerra ao que se têm chamado de
narcoterrorismo. A “batalha contra as drogas” se faz, acima de tudo, no
acolhimento humanizado ao dependente químico, buscando retirá-lo de sua condição
via auxílio médico e psicossocial — algo que passa longe dos planos de quem ocupa
hoje o Salão Oval.
Em geral, a solução
policialesca tem servido, tanto nos EUA como no Brasil, para inchar presídios, militarizar
forças de segurança, aterrorizar comunidades e produzir chacinas. Dessa forma,
pouco importa quantas lanchas sejam bombardeadas no Caribe ou no Pacífico, o
fluxo de narcóticos seguirá seu destino rumo às metrópoles estadunidenses,
alimentando, tragicamente, o número cada vez maior de dependentes químicos, bem
como suas nefastas implicações. Em suma, as movimentações que temos visto não
visam o fim da entrada de drogas nos EUA, por mais que a Casa Branca insista
nessa narrativa. Trata-se, na realidade, do que pode vir a ser a maior
intervenção estadunidense na América Latina em décadas, de tal maneira que nem os
brasileiros poderão manter-se indiferentes ao que se sucederá nos próximos
meses.
Com efeito, do ponto de
vista norte-americano, o momento não poderia ser mais propício para acabar, de
uma vez por todas, com Maduro e o chavismo. Tal como ocorrera com a Síria de Bashar
al-Assad, o apoio de aliados externos serviu como um bote de salva-vidas para o
regime em Caracas. Graças a essa camaradagem, os ocupantes do palácio de
Miraflores resistiram a duras sanções, caos econômico, tentativas de
sublevação, congelamento de ativos e outras formas de ingerência. Apostou-se
até em figuras insípidas, como o autointitulado presidente Juan Guaidó, porém
sem nenhum sucesso prático.
De fato, tentou-se de
tudo, e, mesmo assim, o regime soube se manter de pé ano após ano, algo
raramente visto em nosso continente. Há quem atribua tamanha resiliência à
fidelidade dos militares ao regime, à incompetência da oposição, à politização
das massas, ao apreço do povo pela memória de Chávez, à repressão do governo e
assim por diante. De toda maneira, o chavismo arregimentou parte das classes
populares ao seu favor, enquanto o restante aderiu à oposição ou fugiu para
nações minimamente estáveis. De acordo com a ONU, cerca de 7,7 milhões de
venezuelanos deixaram o país desde a década passada, num dos maiores êxodos
migratórios da contemporaneidade; a vasta maioria emigrou para países
hispano-americanos, como Colômbia, Peru e Chile, mas uma parcela considerável
também se locomoveu para os EUA e o Brasil, gerando tensões xenofóbicas cada
vez mais preocupantes.
A discrepância entre o
poderio bélico dos EUA e da Venezuela dispensa comentários. Basta dizer que, se
Nicolás Maduro recorrer unicamente à força das tropas bolivarianas, por mais
destemidas que sejam as milícias populares, seu destino, provavelmente, será similar
ao de Salvador Allende: morrerá no próprio palácio de Miraflores. Outra forma
de matá-lo seria recorrendo aos métodos da CIA, célebre por elaborar meios de
“neutralizar” lideranças como Fidel Castro. O fato é que, mesmo possuindo armamento
russo, fontes anônimas revelam, em portais de notícia, que as tropas
venezuelanas estão mal equipadas e despreparadas para um confronto direto.
Também lhes falta experiência de combate, um componente imprescindível em
qualquer tipo de guerra. Ademais, com a Rússia ocupada em conquistar o Donbas e
a China tendo de lidar com as tarifas impostas por Trump, a situação Nicolás
Maduro é delicadíssima, para dizer o mínimo. Até aliados ideológicos, como o
presidente da Colômbia, alertam para a necessidade de um governo de transição,
pois, nas suas palavras, “um desmantelamento violento do Estado venezuelano
atual trará um fortalecimento dos grupos e gangues armadas que buscarão
controle territorial”.
No momento em que
escrevo, a aposta de Maduro é encontrar uma forma de evitar a sua saída, ou
pelo menos postergá-la. Segundo o New
York Times, foi oferecida a possibilidade de uma renúncia dentro de dois a
três anos, porém a Casa Branca rejeitou a proposta.
Além disso, a despeito
das diferenças entre Síria e Venezuela, o exemplo do que ocorreu a Bashar al-Assad
deve servir de aviso ao regime bolivariano, pois, no intervalo de apenas duas
semanas, a família Assad, que governou a Síria por mais de cinquenta anos, foi expulsa
pelos rebeldes que combatera desde 2011. De fato, muitos já tinham por certo
que a guerra civil síria, uma das mais brutais do século XXI, estava a caminho
de uma vitória completa por parte do governo em Damasco. Contudo, a mudança de
prioridades geoestratégicas por parte de Moscou e Teerã — além do
enfraquecimento do Hezbollah —, abriu uma oportunidade que os rebeldes souberam
explorar a seu favor, gerando aquilo que, popularmente, é descrito como um “efeito
dominó”. Diante do súbito avanço da oposição, os militares governistas desistiram
de lutar, refugiaram-se em áreas costeiras ou se exilaram. Desse modo, o regime,
simplesmente, caiu, para o espanto dos seus adversários, recebidos de braços
abertos pela população eufórica em Damasco. Quem poderia imaginar que algo tão
repentino e profundo pudesse ocorrer como tamanha rapidez? Mesmo os analistas
mais experientes foram pegos de surpresa.
O caso sírio é um reflexo
dos tempos atuais. As velhas estruturas que consolidavam o poder político em
torno de si e que eram capazes de suportar grandes conflagrações, agora,
colapsam em semanas. Pouco importa se falamos de uma pequenina nação budista como
o Nepal, ou se é uma sociedade islâmica do Oriente Médio como a Síria. Também pouco
importa, aos olhos do Ocidente, se Israel promoveu um genocídio em Gaza, ou se
Donald Trump deseja ser aceito como “rei da América”, a mesma nação que elaborou
o que entendemos por democracia liberal. Tal desmantelamento das macroestruturas
se associa a uma interconexão das diversas crises: mudanças climáticas, extinção
em massa, instabilidade econômica, fluxos migratórios, crise de legitimidade
das democracias etc. Temos, cada vez mais, a sensação de que o mundo ao nosso
redor desmorona numa direção que não somos capazes de prever e muito menos de
controlar. Para suportar tamanho sofrimento, muitos aderem ao fundamentalismo
religioso, ao uso abusivo de entorpecentes, ao isolamento ou mesmo ao suicídio.
Na esfera política, os
sinais desse adoecimento coletivo se apresentam na emergência de políticos que
se dizem “contrários ao sistema”, tais como Trump, Bolsonaro, Milei etc. Além
disso, o acomodamento da esquerda à ordem liberal, em função do desaparecimento
da União Soviética e do aparente triunfo do sistema capitalista, é indissociável
do surgimento desse extremismo pretensamente anti-establishment. Enquanto que,
aos olhos da extrema direita, tais nomes seriam a personificação da esperança
na luta contra o “comunismo” e o “globalismo”, vejo neles sintomas de um
Ocidente que se perdeu pelo caminho, esquecendo-se dos valores que defendera
desde as revoluções liberais do século XVIII. Foi exatamente a partir dessas
revoluções na Inglaterra (1688), EUA (1776) e França (1789), que o Ocidente
testemunhou seu período áureo, sendo, inclusive, capaz de fazer dobrar os demais
povos aos seus ditames. Em nome do progresso econômico, cultural e cientifico,
deixou-se de lado o obscurantismo medieval, de modo que, em épocas de maior lucidez,
tais figuras jamais alcançariam a posição de estadistas. Ao contrário, seriam
relegados à sarjeta.
Sem dúvidas, Donald Trump
é a figura mais midiática da política internacional, porém mais pelos seus desvarios
do que por um suposto brilhantismo na condução da sua política externa, algo
que captura, com extrema facilidade, as manchetes dos portais e o burburinho infindável
das redes sociais. Sua onipresença no noticiário é fruto de um histrionismo
sedento por atenção, e não de uma genialidade desmerecida pela “imprensa
esquerdopata”. Basta compará-lo a presidentes como F.D. Roosevelt ou Abraham Lincoln
para concluir que os EUA vivem uma seríssima crise na formação de lideranças
qualificadas para a complexa tarefa de governar. Sugerir sandices, como a
anexação da Groelândia ou do Canadá, é mais midiático do que se sentar à mesa e
esforçar-se, ao longo de muitos meses, por costurar um acordo minimamente justo
aos envolvidos. Tal como um antiquado imperador romano, Donald Trump precisa
entregar alguma conquista ao seu eleitorado, caso ainda queria rasgar a velha constituição
e arriscar-se na busca de um terceiro mandato.
E para que tanta pressa?
Mais uma vez, a resposta está no crescimento da China.
Em
setembro, foi realizado, no centro de Beijing, um portentoso desfile militar
para comemorar os oitenta anos do fim da 2ª Guerra Mundial. No evento, tido
como um dos mais importantes deste ano, viu-se de tudo: veículos de combate,
tropas em marcha, mísseis balísticos, drones… Ao apresentar seu mais avançado arsenal,
a nação chinesa comprovou que já não é mais uma mera replicadora de tecnologias
vindas de fora. Pouco a pouco, a China volta a ser o que era em épocas
passadas: o reino do meio. Seja no que diz respeito à fabricação de mísseis
hipersônicos ou à manufatura de drones, os chineses estão na disputa pela
vanguarda tecnológica, competindo, palmo a palmo, com os americanos pela
supremacia em áreas sensíveis do meio militar.
Porém, a geopolítica não
se faz só com armas sofisticadas. Qualquer pretendente a superpotência precisa
trazer aliados para o seu lado, em especial os mais fortes, ricos e confiáveis.
Afinal, ninguém salva o próprio pescoço se for largado na selva sozinho. Mesmo
os norte-coreanos reconhecem isso ao se aproximarem de Xi e, em especial, de Vladimir
Putin, haja vista a cooperação militar de Pyongyang na guerra contra os
ucranianos. De fato, à medida que o cenário global mostra-se cada vez mais
instável em todas as latitudes, alianças precisam ser formadas o quanto antes,
de modo que é natural que se fale, cada vez mais, no princípio de uma 2ª Guerra
Fria, ou mesmo de uma possível 3ª Guerra Mundial. Até agora, todos falam em pacificação,
ao mesmo tempo em que afiam o gume de suas espadas.
No
desfile mencionado, como já era de se esperar, a mídia pôs em evidência a
presença de Putin e Kim Jong-un, que assistiram a tudo numa posição
privilegiada. O grau de cortesia da recepção de Xi Jinping demonstra a
relevância desses vizinhos para os seus planos futuros quanto à expansão
chinesa pela Eurásia. No entanto, a visita de Narendra Modi, primeiro-ministro
da Índia, foi um dos fatos mais importantes da geopolítica recente, com possíveis
efeitos adversos para as potências que ainda se perguntam sobre como conter a ascensão
do dragão oriental.
Modi visitou a China pela
primeira vez em sete anos, por ocasião da 24ª cúpula de abertura da Organização
para Cooperação de Shangai (OCS), organismo multilateral criado e capitaneado
por russos e chineses, cujo objetivo é, essencialmente, remodelar as relações
internacionais em favor de Moscou e Beijing. Se, no passado, os diplomatas e
líderes chineses eram cautelosos em suas manobras e ambições geopolíticas,
agora tudo é diferente. Com efeito, Xi Jinping foi explícito em expor — na
presença de vinte lideranças euroasiáticas — a necessidade de uma Iniciativa de
Governança Global (IGG), algo que não se via desde 1991, ano do colapso
soviético. Nas palavras de Xi Jinping, devemos “defender a visão de uma governança
global com ampla consulta e contribuição conjunta para benefício compartilhado,
fortalecer a solidariedade e a coordenação e nos opor ao unilateralismo”.
Qualquer estrategista
minimamente perspicaz sabe que é quase impossível conter o avanço da China sem
o apoio da Índia, sua grande rival regional, possuidora de uma civilização
milenar, uma economia pujante, uma população descomunal e um arsenal nuclear
forte o suficiente para arrasar seus vizinhos em poucas horas. Decerto, foram
registradas escaramuças entre soldados indianos e chineses em anos recentes,
fruto de disputas fronteiriças ainda sem uma solução diplomática. No entanto, a
ida de Narendra Modi à cúpula da OCS parece indicar a disposição, por parte de
ambos os lados, de deixar de lado velhas divergências em nome de um bem comum: sobreviver
aos desvarios de Donald Trump e promover uma maior integração das suas
civilizações.
Por fim, numa foto
emblemática, Vladimir Putin (Rússia), Xi Jinping (China) e Narendra Modi
(Índia) entrelaçaram as suas mãos, simbolizando uma união do mais alto nível.
Nas relações internacionais, fotos não são uma trivialidade; elas comunicam,
explicitamente, algo que dispensa tratados, promessas e palavras. Por outro
lado, ainda temos um longo caminho pela frente. A cartada da terceira guerra
mundial ainda se esconde sob a manga dos EUA, que pode se recusar a abrir mão
da sua hegemonia imperial, levando-nos todos ao matadouro de uma guerra sem
vencedores.
Se
Xi Jinping souber trazer a Índia para o seu lado, superando uma profunda rivalidade
histórica, o Ocidente verá as três maiores potências da Eurásia alinhadas em
oposição aos seus desígnios. E não há nada que ele possa fazer a respeito.
Trata-se de um novo mundo que se constrói.
Daniel Viana de Sousa
© Todos os direitos reservados
quinta-feira, 31 de julho de 2025
A causa nacional
Mais
uma vez, somos confrontados por uma polêmica que, de tempos em tempos, volta a
inflamar o debate público. Esse é um tema que nunca perde a capacidade de nos
capturar, seduzindo-nos com seu apelo ao sentido mais profundo de quem somos
aqui e agora, nesse espaço que compartilhamos uns com os outros. Trata-se da
causa nacional, revivida pela interferência da maior potência da nossa época,
os Estados Unidos da América (EUA), em relação à soberania brasileira.
Assim que se sentiram as
garras do falcão sobre a nossa consciência amedrontada, vozes se enfileiraram diante
do púlpito e punhos se ergueram em tom de indignação. Lembramo-nos que ainda
somos comida servida à mesa de quem pode se servir da nossa amada terra — tão
singela e acolhedora com os que nos visitam —, a despeito de cedermos ou não a
tal condição. No momento em que escrevo, instauram-se debates ferrenhos mesmo
nos sujeitos mais indiferentes ao cotidiano da política, aqueles que se
habituaram a dar de ombros para os temas comezinhos de Brasília, pois, quando
se mancha o orgulho da nação, sentimos que alguém próximo foi ferido em
combate. Erguem-se de imediato as falanges patrióticas, os defensores da camisa
canarinho, munidos com seus insuportáveis cânticos futebolísticos. Nacionalismo
e soberania, enfim, voltaram à baila.
No entanto, sei bem que
caminho por um terreno sinuoso. Muitos se apressarão em dizer que o
nacionalismo inspirou crimes imperdoáveis; outros afirmarão que se trata de uma
ideologia burguesa, feita para dividir e dominar o proletariado internacional; por
fim, haverá quem reclame de que toda essa discussão é excessivamente démodée, pois estaríamos todos em um
“mundo sem fronteiras”, uma única “aldeia global”. Vá com calma, camarada!
Minha intenção não é aliciar militantes para uma causa ou soldados para uma
guerra. Por ora, vamos nos ater aos fatos do noticiário.
O presidente
estadunidense, Donald Trump, ameaça o funcionamento do Judiciário brasileiro, em
especial a atuação do ministro Alexandre de Moraes, responsável por investigar
os ataques golpistas do 8 de Janeiro, bem como os dois principais nomes da
família Bolsonaro: Jair Bolsonaro e seu filho Eduardo. Com seu notório estilo impulsivo,
Trump quer forçar o Supremo Tribunal Federal (STF) a conceder uma anistia aos
seus aliados ideológicos no Brasil, tendo por base uma suposta caça às bruxas
liderada pelos membros do mesmo tribunal. Há quem especule, com boas razões,
que as semelhanças entre os ataques golpistas ocorridos na Praça dos Três
Poderes e aqueles ocorridos, dois anos antes, na invasão ao Capitólio, deram
mais razões para que o presidente norte-americano se dispusesse a socorrer
Bolsonaro.
De fato, Darren Beattie, secretário
da gestão Trump, declarou (24/07) que Alexandre de Moraes “é o coração pulsante
do complexo de perseguição e censura contra Jair Bolsonaro”, de modo que a
ofensiva trumpista segue se agravando a cada dia que passa. O Secretário de
Estado dos EUA, Marco Rubio, anunciou a revogação do visto de Alexandre de
Moraes e seus familiares. Tal medida foi uma resposta à imposição do ministro
para que o ex-presidente usasse tornozeleira eletrônica, algo que o próprio
Bolsonaro classificou, diante das câmeras que o filmavam, como “suprema
humilhação”. Além disso, foram punidos outros sete ministros do STF, bem como o
Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, e seus familiares. Trata-se, sem
dúvidas, de algo inédito na história entre os dois países, cuja relação
bicentenária é marcada por golpes e alianças, crises e afagos, desconfiança e
submissão. Se, por um lado, os EUA foram um dos primeiros países a reconhecer a
Independência do Brasil, por outro lado, esse mesmo país chancelou o golpe de
1964 e a ditadura que se formaria a partir dele, momento mais crítico da nossa
história no século passado.
Até o momento em que
escrevo esse texto — estou nos últimos dias de julho —, não há sinais de que
Trump queira recuar das suas investidas contra a economia das terras de cá. Ao
contrário, alguns antecipam que o republicano possa aprofundar seus ataques no
que diz respeito às tarifas impostas contra os produtos brasileiros, golpeando,
em especial, o agronegócio, tido como um dos pilares fundamentais da estrutura
econômica brasileira e do próprio movimento bolsonarista. Assim, se nada for
feito, milhares de empregos serão perdidos e empresas quebrarão, de tal maneira
que a economia pode mergulhar numa espiral cataclísmica, cuja consequência a médio
e longo prazo ainda é incerta. Enquanto isso, o próprio Eduardo Bolsonaro
declarou que não temeria um cenário de “terra arrasada [no Brasil]”, desde que
se sentisse “vingado”. Com essa afirmação abjeta, o clã Bolsonaro comprova que
seu pretenso amor à pátria não se equivale ao “amor familiar”, ou seja, nada
importa mais que o seu instinto de sobrevivência, mesmo que todos afundemos por
isso. Poucas vezes se viu tamanho servilismo por parte de uma liderança
brasileira em terras estrangeiras.
Diante disso, alguns se
apressam em assumir que os ataques à nossa soberania são “uma surpresa” da gestão
Trump, nada mais que outra maluquice de um presidente patético. Puro engano! Por
mais ridículo que seja Donald Trump e seu movimento político, tais golpes não
são um episódio isolado. Ao contrário, eles se inserem na geopolítica
estadunidense de oprimir as nações latino-americanas, proibindo-nos de sermos
senhores do nosso destino e fazendo daqui o seu bom e velho quintal. Nesse
sentido, pouco importa se a Casa Branca é ocupada por um republicano ou
democrata. Acaso nos esquecemos dos escândalos de espionagem revelados por
Edward Snowden em 2013? Acaso nos esquecemos do apoio dado pelo Departamento de
Justiça à Operação Lava Jato? Acaso nos esquecemos da reativação da Quarta Frota
em 2008? Afinal, quantas “surpresas” terão de se repetir para que nos
convençamos dos interesses irreconciliáveis entre nós e quem governa a Casa
Branca? Portanto, se queremos entender o que tem ocorrido nas últimas semanas,
precisamos fazer com que a palavra “imperialismo” volte ao vocabulário político
das massas, e não há melhor maneira de fazê-lo senão olhando o nosso passado.
Historicamente,
a soberania brasileira foi desafiada em diversos momentos e de diversas formas.
Como, por exemplo, na Questão Christie (1861-1865), em que oficiais do Império
Britânico, após fazerem arruaça na capital, acabaram presos pela polícia local,
o que gerou uma reação explosiva do embaixador William Dougal Christie,
representante dos britânicos na Corte do Rio de Janeiro. Tamanha animosidade se
iniciara com o saque, por parte de brasileiros, do navio Prince of Wales, que naufragara, acidentalmente, em abril de 1861,
na zona costeira do Rio Grande do Sul. A Coroa Britânica demandou indenização
pelos prejuízos da pilhagem, mas a questão mantinha-se em aberto. Veio, então,
a baderna dos oficiais no bairro da Tijuca. Christie exigiu não só a prisão dos
policiais cariocas, seguida pela libertação dos baderneiros, como também uma
indenização, acrescida por um injustificável pedido de desculpas. Vendo que sua
exigência patética não era atendida, o embaixador ordenou que cinco navios
mercantes brasileiros fossem apreendidos na Baía de Guanabara pela Marinha
Inglesa, além de tomar o porto carioca à força, violando abertamente a
soberania do Brasil. Como é de praxe, os imperialistas aplicaram a sua odiosa
“diplomacia das canhoneiras” sobre os povos da periferia. Anos antes, os
britânicos haviam operado a mesma estratégia nas Guerras do Ópio, com um
sucesso tão fragoroso que os chineses jamais se esqueceriam das implicações de
tamanha humilhação. Entretanto, Dom Pedro II comportou-se como estadista à
altura daqueles meses conturbados; ao perceber que o embaixador estrangeiro não
tinha a menor deferência pelas leis e pelo nosso povo, o imperador, auxiliado
pelo notável Marquês de Abrantes e João Batista Calógeras, ordenou que as
relações diplomáticas entre as duas nações fossem formalmente rompidas.
Acabava-se a estadia de William Christie em nossas terras.
Aqui, é importante ressaltar que os nossos governantes confrontavam, ainda que só diplomaticamente, o maior império do seu tempo, cujo poderio bélico — e solidez econômica — era muito, muito superior ao nosso. Havia razões para crer que, numa eventual escalada, os brasileiros poderiam ser forçados a pagar um preço amargo por sua altivez. Porém, ambas as partes desistiram de entrar em guerra. Novamente, o Marquês de Abrantes e João Batista Calógeras, em sintonia com D. Pedro II, cumpriram um papel decisivo nas negociações por uma disputa que não dependesse da força das armas, terreno seguro para a famigerada armada inglesa. Naquele momento, era preciso posicionar-se num terreno em que as nossas forças se equilibrassem, por mais árdua que fosse a busca por tal solução. Foi decidido que se optasse pelo caminho jurídico. O caso foi julgado pelo rei da Bélgica, Leopoldo I, que era tio da própria Rainha Vitória. O monarca belga surpreendeu a muitos, dando parecer favorável aos brasileiros. O poderoso Império Britânico teve de pedir desculpas, de modo que as relações entre os dois impérios só seriam reestabelecidas em 1865, e nunca mais um oficial estrangeiro ousou comportar-se mal em terras brasileiras. A lição foi aprendida.
Ainda hoje, a Questão
Christie é lembrada como um ponto alto da diplomacia brasileira e,
especialmente, da liderança de Dom Pedro II, alguém que não se amedrontou
diante da possibilidade de ter de enfrentar um império que, como se dizia, não
via o sol se pôr. Com essa vitória mais que simbólica, o imperador marcaria a sua
época de uma maneira que, se tivesse ocorrido nos EUA, já teria inspirado
filmes e séries de televisão, mas, tragicamente, insistimos em dar as costas ao
passado, mesmo quando ele deveria nos encher de orgulho patriótico. Pois, a
despeito das enormes discrepâncias entre os dois adversários, o Brasil
conseguiu se sobressair perante um opositor colossal e afirmar-se como país soberano
num século em que ainda engatinhava no concerto das nações. Certamente, o
caminho mais cômodo teria sido a “cautela”, a “moderação” e o “pragmatismo”,
isto é, atender às ordens do prepotente diplomata britânico, de modo a não pôr
em risco as relações com a nação que, em 1822, intermediara a nossa Independência
de Portugal. No entanto, os caminhos fáceis, capazes de nos seduzir à primeira
vista, acabam nos conduzindo a armadilhas muito piores do que aquilo que
havíamos imaginado. Enfim, o tempo provou que aquele embate era mais que justo:
ele era necessário para a nossa afirmação nacional.
Diante disso, como uma
nação periférica e subdesenvolvida como a nossa pode vir a ser soberana?
Logo de cara, é
importante frisar que, no tabuleiro geopolítico, ser soberano não é algo
simples. Um dos caminhos escolhidos — e o mais controverso de todos — é o desenvolvimento
da sua própria bomba atômica. O regime norte-coreano pagou caro para adquirir
seu arsenal nuclear: décadas de cerco e sanções, fome e isolamento. Agora, quem
se atreve a invadir Pyongyang e derrubar Kim Jong-un? Em 1994, os ucranianos
optaram, em nome de uma boa relação com o Kremlin, por abrir mão do seu arsenal
nuclear, algo em torno de três mil ogivas. Que receio Vladimir Putin teve de anexar
a Crimeia e, oito anos depois, de invadi-los na maior guerra da nossa geração? Ao
que parece, a única linguagem que as grandes potências reconhecem é a
capacidade de destruição máxima, de aniquilamento completo da espécie humana. Em
um mundo ideal, trataríamos as nossas divergências numa mesa de negociações
aberta e igualitária, mas, infelizmente, esta não é a realidade na qual nos
encontramos. O mundo atual tem ficado cada vez mais instável e perigoso para os
estados que abrem mão de qualquer capacidade de dissuasão, especialmente
aqueles que se encontram sob a mira dos interesses das grandes potências. Ignorar
isso pode ter um custo muito caro, tendo em vista que, sem a dissuasão nuclear,
tornou-se corriqueiro para os ocidentais derrubarem ditaduras: Saddam Hussein,
no Iraque; Gaddafi, na Líbia; Bashar al-Assad, na Síria. Nos últimos meses,
faltou pouco para que o regime iraniano se somasse a essa lista.
É evidente que, para
manter o Judiciário funcionando minimamente, não precisamos recorrer a mísseis balísticos
apontados em direção a Washington. Até por que, se o fizéssemos, seríamos o
alvo imediato do Pentágono, que nunca permitiria uma nuclearização da América
Latina, haja vista a Crise dos Mísseis em Cuba. Por enquanto, nossa verdadeira
Independência não passa de um sonho de uma noite de verão, mas isso não
significa que devamos adotar vira-latismo como doutrina da política externa,
que é o desejo íntimo da gangue Bolsonaro. A extrema-direita não tem nada a nos
oferecer enquanto projeto de nação, pois, para sermos soberanos, teremos de sair
da sombra dos ditames dos Estados Unidos, um processo violentamente interrompido
pelo Golpe de 64 e que os governos progressistas não se mostraram capazes de concretizar.
Temos de reaver a consciência do papel que cumprimos no cenário internacional,
isto é, nação periférica e subdesenvolvida, para, em seguida, sabermos aonde
queremos e precisamos chegar. Essa é a nossa incontornável sina.
Tal como sabem todas as nações verdadeiramente livres, a nossa liberdade não será dada de mão beijada. Nunca o foi e nem poderá ser. Devemos, portanto, defender com orgulho a causa nacional. Devemos ir muito além de cantar o Hino Nacional aos berros, como se estivéssemos em um estádio de futebol. Caso contrário, seremos pisoteados pelos interesses imperiais, que nunca viram com bons olhos a emancipação verdadeira do povo brasileiro.
Daniel Viana
de Sousa
© Todos os direitos reservados
sexta-feira, 13 de junho de 2025
A Missa fúnebre de um partido político
Na semana passada, a 17ª convenção
nacional do PSDB aprovou sua união com o Podemos, um movimento que já era
discutido nos corredores de Brasília há muitos meses. Dessa forma, os
dirigentes das duas facções buscam unir forças, de modo a obter mais recursos
do Fundo Partidário e um maior tempo de rádio e TV. Sua meta é clara: aumentar
as chances de eleger uma bancada robusta nas eleições do ano que vem, numa
aposta de triunfo do autoproclamado “centro democrático”. Fala-se, também, em uma
possível federação com o MDB, cujo objetivo é exatamente o mesmo: dar
musculatura a um partido cada vez mais inexpressivo aos olhos das massas
populares.
Trata-se
de mais um capítulo no longo processo de definhamento de um partido que, em
épocas passadas, dava os ares da graça em Brasília, chegando a disputar, com o
Partido dos Trabalhadores (PT), pela primazia do comando presidencial.
A
essa altura, para os mais jovens, deve parecer estranha a relevância dada por
mim ao velório do tucanato. Na verdade, o PSDB foi a face polida e
bem-comportada da classe dominante no pós-ditadura (1964-1985). Àquela altura,
isto é, na década de 1990, a descendência funesta da Arena perdera apelo
popular. E não era de se espantar: frente aos militares trogloditas, Fernando Henrique
Cardoso (1995-2003), o charmoso sociólogo e ministro responsável pelo exitoso Plano
Real, apresentava-se como um refinado intelectual paulista. FHC era, sem
dúvidas, a face que a burguesia queria vender ao resto do mundo, após o
conturbado mandato de Collor (1990-1992) e a transição liderada por Itamar
(1992-1995).
No
entanto, os dias áureos do PSDB estão relegados aos livros de História, pois,
como bem disse seu presidente atual, o ex-governador Marconi Perillo, “o ideal
seria seguirmos solo, mas ficamos pequenos”. Realmente, os sinais da risível pequenez
tucana estão por todo lado.
A
recente despedida dos governadores de Pernambuco e Rio Grande do Sul, Raquel
Lyra e Eduardo Leite — dois nomes cotados para disputar o Palácio do Planalto
em eleições futuras —, foi mais um duro golpe para esse partido, que, em épocas
passadas, esteve à frente de mandatos em diversos estados brasileiros, como São
Paulo, Minas Gerais, Ceará etc. De fato, Fernando Henrique, o maior cacique
tucano, foi a única liderança do país que ganhou uma eleição presidencial no 1º
turno, conseguindo repetir a mesma façanha quatro anos depois. Nem mesmo Lula conseguiu
igualar esse feito. Além disso, nas quatro eleições gerais seguintes, o PSDB
esteve em todas as disputas de 2º turno, conseguindo obter, em 2014, mais de 51
milhões de votos, seu melhor resultado na história da Nova República. Por fim,
em 2016, os tucanos alcançaram sua vitória derradeira: 799 prefeitos e
prefeitas eleitos nacionalmente.
Porém,
tal como nos ensina a sabedoria popular, a vida dá voltas.
No
momento em que a crise econômica estrangulou a sociedade brasileira
(2015-2016), sendo, aliás, aprofundada pela instabilidade sociopolítica provocada
pelas Jornadas de Junho, as bases sociais que compunham a direita se
radicalizaram. À época, percebeu-se que o PT perdera o protagonismo nos
movimentos de rua, ao mesmo tempo em que o governo Dilma (2011-2016) via sua
popularidade derreter em questão de semanas. Contudo, o golpe mais duro veio de
uma controversa operação policial que marcaria aquela década: a Lava Jato;
responsável por desgastar a imagem da esquerda aos olhos das classes médias
empobrecidas pela crise sistêmica que chacoalhava as estruturas do nosso frágil
tecido social. Iniciava-se, assim, o período mais sombrio de Lula e seu partido,
cujo pior momento seria a sua prisão em abril de 2018; houve até quem cogitasse
— com boas razões — a morte política de ambos. Ainda assim, o velho operário
sobreviveria aos ataques e à prisão, saindo do encarceramento para se
candidatar, disputar e vencer as eleições de 2022, tornando-se presidente do
Brasil pela terceira vez.
Entretanto,
o PSDB não se mostraria capaz de resistir ao maremoto do discurso anticorrupção.
Pelo contrário, as revelações de que Aécio teria tido, em 2017, conversas
suspeitas com o empresário Joesley Batista, ajudou a enterrar de vez as
ambições presidenciais do último cacique tucano. De lá pra cá, o partido e suas
lideranças mergulharam num lamaçal que nem mesmo a vitória de Doria seria capaz
de resgatar. Nesse meio-tempo, nomes históricos da sigla, como Tasso
Jereissati, José Serra, Geraldo Alckmin, Aloysio Nunes e Antônio Anastasia,
perderam protagonismo, abandonaram o ninho ou simplesmente caíram no
ostracismo. Pouco a pouco, ficava mais claro que a mancha da corrupção envolvia
praticamente todo o espectro político, ou seja, da esquerda à direita, do
progressismo ao conservadorismo, do governo à oposição.
Porém,
o golpe final chegaria de onde menos se esperava. Pois, para a ruína do tucanato,
renasceu, em torno do clã Bolsonaro, uma extrema-direita que não era vista desde
os tempos ditatoriais. De fato, em poucos anos, formou-se um movimento alinhado
à ascensão de uma extrema-direita mundial e abertamente contrário ao espírito “cosmopolita”,
“democrático” e “civilizado” de FHC, pois se estruturava no ódio à esquerda, ao
trabalhador, à mulher, aos negros, à comunidade LGBTQIAPN etc. Esse movimento
extremista, que nos habituamos a chamar de bolsonarismo, aniquilou
definitivamente a direita tucana, contribuindo para transformar o noticiário político
num ringue de golpes baixos e, ao mesmo tempo, num show de horrores. Desde
então, as falas obscenas de Bolsonaro e seus seguidores viraram parte do
cotidiano, seja em frente às câmeras, seja nas próprias redes sociais; aquilo
que, em outras épocas, seria visto como impensável ou inaceitável, agora é
banal, corriqueiro. Contudo, a despeito de sua linguagem chula e personalidade detestável,
o ex-capitão segue desfrutando uma sólida popularidade nos círculos reacionários,
sendo capaz de arregimentar dezenas de milhares de apoiadores a qualquer
momento, um feito que nenhuma liderança brasileira é capaz de igualar, excetuando-se
o próprio Lula.
Para
uma “nova direita” que rasteja pelos meandros das redes sociais, das fake news, do trumpismo, o PSDB virou
peça de museu, antiquado demais para as novas disputas de uma república com pés
de barro. Na realidade, a conjuntura presente — inflamada por uma crise
sistêmica que se agrava a despeito de quem ocupa a cadeira presidencial — demanda
das classes dominantes uma direita que destile ódio aos trabalhadores, às mulheres,
às minorias e às esquerdas. Para esse agrupamento fascista, não há outra
solução que não seja “metralhar a petezada”, isto é, pôr toda culpa sobre os
ombros dos “artistas pervertidos”, “professores esquerdistas”, “universitários
vagabundos”, “feministas mal amadas”… trata-se de um lamaçal discursivo, um
espetáculo de ideias vexatórias, no qual somente o esgoto da Ditadura poderia
germinar algo de novo. Nesse sentido, o bolsonarismo é o sintoma mórbido de um
sistema político em decomposição.
Ora,
seria pretensioso buscar resumir os fatos políticos dos últimos anos em um
texto de poucas páginas. Nesse esforço em forma de análise escrita, tentei
delinear um esboço, um painel simplificado daquilo que vimos acontecer em tão
pouco tempo, de tal maneira que muitos elementos centrais à compreensão da
nossa realidade precisaram ser deixados de lado. Mesmo assim, com a simbólica saída
dos principais governadores tucanos, Raquel Lyra e Eduardo Leite, podemos dizer
que o PSDB está com os dois pés na vala, prestes a ser enterrado de uma vez por
todas. Afinal de contas, os dois mandatários preferiram se livrar do partido ao
qual pertenciam há décadas, para aderir à legenda controlada por Gilberto
Kassab: o Partido Social Democrático (PSD). Fundado em 2011, o PSD é a sigla
que detém o maior número de senadores e prefeitos, assim como uma das
principais forças partidárias na Câmara dos Deputados.
No
futuro, quando os historiadores se dispuserem a estudar a política brasileira desses
tempos incertos, eles certamente terão de se ocupar em analisar a figura de
Gilberto Kassab. Personalidade sorrateira e camaleônica, Kassab é o epítome do Centrão,
o famigerado establishment político brasileiro;
ele foi ministro de Dilma, mas não vacilou em apoiar seu impeachment, aceitando,
logo em seguida, um ministério no governo Temer (2016-2019); em São Paulo, trabalhou
para Dória (2019-2022), porém, agora, está ao lado de Tarcísio de Freitas,
ex-ministro da gestão Bolsonaro (2019-2023). Ao longo dos anos, Gilberto Kassab
foi vice-prefeito, prefeito e deputado federal por São Paulo, o maior colégio
eleitoral do país, de modo que não seria injusto tê-lo como um carreirista
experimentado, um arrivista bem-sucedido, que conhece os corredores palacianos como
poucos, pois sabe dançar conforme a música, sabe se ajustar de acordo com a
oportunidade que lhe aparece. Kassab não formulou nenhuma ideia que mereça
destaque, nem nos presenteou com alguma conquista de relevo; nada nele nos vêm
à tona, exceto seu triunfo pessoal em um sistema carcomido pela corrupção,
velhacaria e mediocridade. Ainda assim, não devemos nos espantar que ele lidere
um dos maiores partidos brasileiros, um partido capaz de influenciar o resultado
das eleições que se avizinham. Afinal, o PSD é a expressão mais bem-acabada do
atual sistema político nacional.
Hoje,
o partido capitaneado por Kassab é o farol que atrai mais e mais tucanos para
fora do ninho. Na Paraíba, estado marcado pela presença do PSDB, dois dos principais
nomes do clã Cunha Lima, Cássio e Pedro, transferiram-se recentemente para o
PSD. Espera-se que Pedro dispute, pela segunda vez, o mandato de governador.
Para tanto, o ex-deputado recebeu o cargo de presidente estadual da legenda,
reunindo em torno de si diversos nomes da oposição ao governo de João Azevedo
(PSB), tais como Veneziano (MDB), Ruy Carneiro (Podemos) e Efraim Filho (União
Brasil). Se a sua escolha foi um tiro no pé, o futuro nos dirá.
A
essa altura, a revoada dos tucanos sacramenta o fim de uma era para a direita
nacional. A época em que a centro-esquerda se alternava no governo com os
tucanos se esgotou definitivamente, pois, aos olhos das classes dominantes, o
PSDB tornou-se bucha de canhão, um instrumento ineficiente para a conservação
do seu poder sobre as massas em um contexto de crise social aguda. E, ainda que
a fusão com o Podemos traga de volta alguns milhares de votos e meia dúzia de
assentos no Congresso, o PSDB jamais terá de volta o protagonismo, porque a
verdadeira Política não se subordina a fundo partidário, tempo de televisão ou
marketing eleitoral.
A verdadeira Política transcende os monumentos de Brasília, fazendo-se presente no dia a dia, na realidade concreta de cada pessoa que luta para sobreviver em um país espoliado desde a sua origem. Ao contrário das vulgaridades e cretinices presentes no cotidiano da politicagem rebaixada, a verdadeira Política se dá na luta de classes, no embate ferrenho entre capitalistas e trabalhadores, cujos interesses continuam sendo diametralmente antagônicos. Nessa violenta disputa pelas mentes e corações, o tucanato não é nada mais que uma relíquia farsesca do passado.
Daniel Viana de Sousa
© Todos os direitos reservados
sábado, 31 de maio de 2025
terça-feira, 22 de abril de 2025
Adeus, Francisco!
Após um
pontificado de mais de uma década, o Papa Francisco faleceu nesta segunda-feira
(21), exatamente no começo do tempo pascal, época de renascimento e esperança
para os cristãos do mundo inteiro. Para quem crê no Evangelho, a partida do
pontífice ocorreu num momento simbólico, verdadeiramente marcante para toda a
cristandade.
Poucos
líderes religiosos buscaram tanto o diálogo ecumênico, o entendimento entre
diferentes grupos religiosos, políticos, étnicos e sociais. Possivelmente, seu
ponto alto na diplomacia papal foi a costura da reaproximação, em 2015, entre
Cuba e Estados Unidos, adversários ferrenhos por mais de seis décadas, algo que
pegou de surpresa a maioria dos observadores da geopolítica — e que sofreu um
duro revés com a vitória, em 2016, de Donald Trump —; ainda na seara
sociopolítica, merece destaque a campanha em prol dos imigrantes, seus embates
com extrema-direita global, a ênfase na solidariedade para com os pobres e
marginalizados e a publicação da Laudato
Si, um dos documentos mais importantes sobre as mudanças climáticas já
feitos por um papa. Em suma, Francisco extrapolou não só os muros do Vaticano, mas
também as barreiras da intolerância e do dogmatismo, transformando-se numa das
figuras mais queridas e marcantes do século XXI. Entretanto, não pretendo fazer
aqui uma retrospectiva de sua trajetória, algo que já circula em profusão nos
portais de notícia do mundo inteiro.
É
improvável que vejamos outro papa tão progressista quanto Bergoglio, que
surpreendeu o mundo já na sua eleição, há doze anos, ao ser escolhido para
comandar a mais influente e longeva instituição do Ocidente. À época do
conclave que o elegeu, Francisco se tornaria o primeiro jesuíta e o primeiro
latino-americano a comandar a Santa Sé; fatos tão surpreendentes quanto a
renúncia de Bento XVI, algo que não era visto há mais de seiscentos anos, ainda
na Idade Média, quando Gregório XII (1406-1415) abriu mão de conduzir a barca
de S. Pedro. Às vésperas de renunciar, o papa alemão encontrava-se cercado por
crises que estremeceram seu pontificado: as revelações de documentos
ultrassecretos por Paolo Gabriele, seu mordomo; os escândalos financeiros do “Vatileaks”
e, mais gravemente, o envolvimento de diversos clérigos em denúncias de pedofilia.
Ainda assim, ao se justificar perante o público, Bento XVI afirmou que
renunciava por conta de problemas relacionados à sua saúde; ele viveria mais
nove anos no mosteiro Mater Ecclesiae,
incrustado no interior do Vaticano, fazendo aparições ao lado de familiares, amigos
e admiradores, inclusive do seu sucessor. Desse modo, a Igreja Católica
atravessaria um capítulo peculiar de sua milenar história: um papa emérito convivendo,
ao mesmo tempo, com outro recém empossado. Tal coexistência renderia bons
frutos, como a publicação, ainda em 2013, de uma encíclica com contribuições de
ambas as partes: a Lumen Fidei (Luz
da Fé).
Entretanto,
sempre se alimentaram boatos da existência de intrigas, decepções e
manipulações, que, finalmente, vieram à tona no livro “Nada mais que a verdade”, publicado pelo arcebispo Georg Gänswein,
secretário pessoal de Bento XVI. Dentre as várias acusações, Gänswein afirmou
que o argentino buscou isolar o papa emérito devido a divergências teológicas e
que Bento sentia-se vigiado por Bergoglio. Ao dar sua resposta, Francisco
expressou, numa entrevista a Javier Martínez, a seguinte declaração: “que no dia do funeral seja publicado um livro
que me deixa chateado, que conta coisas que não são verdade, é muito triste. É
claro que isso não me afeta no sentido de que não me condiciona. Mas me
machucou que Bento XVI tenha sido usado”. Certamente, aquilo que o público
sabe, não deve chegar nem perto do que, de fato, ocorreu na relação entre os
dois líderes e suas respectivas facções, forças antagônicas no seio da Igreja. Enquanto
que um era enaltecido como teólogo e catedrático brilhante, o outro detinha um
carisma capaz de incendiar multidões; enquanto que Ratzinger enfatizava o papel
da doutrina e da tradição, Bergoglio reforçava o perdão e a caridade, o
acolhimento aos mais diversos grupos sociais. Como é de praxe nas relações
humanas, ambos agradaram a uns, ao mesmo tempo em que desagradaram a outros. Um
destes inimigos, o arcebispo italiano Viganò, acusou Francisco de ser “herege”,
“tirano” e “servo de satanás”, bem como de acobertar casos de pedofilia, o que
lhe rendeu uma excomunhão logo em seguida.
Ora, desde
os seus primórdios, quando os Apóstolos ainda caminhavam entre judeus e
gentios, a Igreja Católica sempre foi uma instituição complexa, com conflitos
acalorados e dissensões amargas que chegaram a pôr em xeque sua própria
existência. Algumas destas disputas tornaram-se capítulos em livros de História,
tais como o Grande Cisma (1054), a Reforma Luterana (1517) e a Reforma
Anglicana (1534), movimentos religiosos que desembocariam em guerras
devastadoras, sendo a pior delas a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), que
arrasou a Europa como nunca se vira antes, forçando os monarcas europeus a
criarem meios políticos e diplomáticos que evitassem a sua repetição. Nasceria
daí a Paz de Vestefália, marco do Estado Moderno, assim como da gradativa tolerância
religiosa entre católicos e protestantes. As futuras guerras europeias não
teriam mais um caráter religioso. Ao contrário, com o passar dos séculos, a
influência do Cristianismo na geopolítica diminuiria pouco a pouco, culminando
na Revolução Francesa (1789), que lançaria as bases do Estado laico que temos
hoje. O tempo das Cruzadas e da Inquisição, enfim, começara a ser deixado para
trás, e a Europa iniciaria seu período mais áureo, que só se encerraria no
começo do século XX, com a deflagração da Primeira Guerra Mundial.
Felizmente,
vivemos uma época em que os cristãos não mais usam a religião como desculpa
para cruzar a fronteira e cortar as cabeças uns dos outros. De fato, se isso
ocorresse em 2025, ficaríamos horrorizados. Questionaríamos, de imediato, a
própria fé de quem o fizesse, lembrando a mensagem dada pelo Cristo há dois mil
anos atrás: amai-vos uns aos outros, assim como Eu vos amei (João 15:12). Decerto,
mesmo na relação com outras religiões, como o Judaísmo e o Islamismo, os pontífices
que sucederam o Concílio Vaticano II (1962-1965) têm optado pelo ecumenismo, e
não há sinais de que isso mude do dia para a noite. Pois, ao contrário de Donald
Trump, que lança ao fogo o esforço geoestratégico dos seus antecessores, os papas
não são afeitos a cisões egocêntricas e desmesuradas. No Catolicismo, as
rupturas são raríssimas e, do ponto de vista doutrinário, praticamente
inexistentes. Prefere-se, ao invés disso, um movimento pendular, uma valsa de
muitas décadas, que, na visão dos modernistas mais afoitos, é puro imobilismo.
À primeira vista, a Igreja de Roma nos parece congelada no tempo, como uma
relíquia de museu. No entanto, ela rumina as mudanças em seu interior, mastigando,
no seu próprio ritmo, as ideias que lhe batem à porta. Para a Modernidade, tudo
isso parece antiquado e estranho, porém a Igreja Católica não é uma instituição
moderna; se o fosse, talvez já tivesse se partido em múltiplas dissensões, tal como
ocorre, quase todos os anos, com outras denominações pentecostais.
De S. João
XXIII e S. Paulo VI, responsáveis por presidir o último Concílio, até S. João
Paulo II, Bento XVI e Francisco, podem-se notar linhas de continuidade, a
despeito das grandes transformações sociais, econômicas, culturais e políticas,
dos sessenta e sete anos que nos separam da eleição, em 1958, de S. João XXIII,
o grande reformista do século passado. Essa é uma das razões que fizeram a
Igreja Católica ser o que é hoje: não seguir o ritmo que o mundo lhe pede, mas
o seu próprio caminhar, por mais vagaroso que nos pareça.
A questão
que desafia o futuro Conclave não é mais o conflito do catolicismo com o mundo
à sua volta, pois este simplesmente o ignora, trata-o com fria indiferença; há
décadas que o sujeito moderno deu as costas ao Cristianismo, especialmente na
Europa, que já fora seu bastião mais seguro. Hoje, o catolicismo precisa tratar
suas feridas internas, conciliar-se consigo mesmo, para, em seguida, ir ao
encontro do rebanho desgarrado. Pois ninguém se abriga numa casa prestes a desabar;
ninguém se salva numa barca prestes a afundar. Necessitamos de reformas
profundas, de uma santa ousadia, mas
também de um diálogo fraterno com grupos conservadores. Excetuando-se figuras paspalhas
como Viganò, há setores à direita com os quais o futuro papa precisará
entender-se, caso queira aprofundar as mudanças gestadas por Bergoglio. Por
enquanto, não parece haver espaço para uma guinada à direita. Ao menos essa foi
a mensagem transmitida, nesta terça-feira (22), por Dom Jaime Spengler, um dos
sete cardeais brasileiros que participarão do Conclave. “A maioria do colégio
cardinalício foi criado pelo próprio Papa Francisco. Eu creio, ou melhor,
imagino que um retrocesso nesse caminho realizado até aqui é impensável”, disse
o arcebispo de Porto Alegre.
Ao mesmo
tempo, há vozes que pedem um papa mais moderado, de centro-direita, que esteja
em sintonia com setores preteridos nos últimos doze anos.
Dentre os
135 cardeais aptos a votar, Francisco nomeou 108, de modo que a sua influência,
certamente, se fará presente na Capela Sistina. Graças a Bergoglio, o atual
Colégio de Cardeais nunca teve tantos representantes da periferia global, como,
por exemplo, Giorgio Marengo (Mongólia), Virgílio da Silva (Timor-Leste), John
Ribat (Papua-Nova Guiné) e Dominique Mathieu (Irã), que, embora não estejam na
lista dos cotados para comandar a Igreja, integrarão a leva de prelados que
poderão escolher o próximo Vigário de Cristo. Para tanto, tais grupos precisarão
agir em unidade, algo que é mais difícil do que parece, haja vista a pouca
familiaridade e o peso de grupos de considerável influência, como os cardeais norte-americanos,
conhecidos pelo seu viés conservador, dos quais o mais notório é o cardeal
Burke, famoso por opor-se a Francisco ao longo de todo o seu pontificado. Se os
jovens cardeais se fragmentarem, seja por inexperiência ou vaidade, os setores
conservadores terão a chance que precisam para eleger um possível contestador
das reformas de Francisco.
Na história
da Igreja, não é incomum que haja dificuldade em achar nomes que traduzam uma
consensualidade. No passado medieval, houve conclaves que chegaram a se
estender por anos a fio, com repetidas votações frustradas, até que fosse feita
a escolha de um perfil que agradasse um número mínimo de prelados votantes, de
modo que, até aqui, ninguém sabe qual será o desfecho do Conclave que avistamos
à nossa frente. No momento, temos apenas perguntas em aberto: haverá um Francisco
II? a ascensão da extrema-direita global determinará a escolha do próximo papa?
a Igreja, enfim, escolherá seu primeiro pontífice asiático, em resposta à
ascensão da China comunista, tal como Karol Wojtyla foi uma resposta à União
Soviética?
Há quem
diga que o Conclave é a eleição mais obscura do mundo. Pois, a despeito dos
inúmeros livros e filmes escritos a respeito, as disputas nos corredores do
Vaticano sempre foram nebulosas e inacessíveis à maioria dos interessados. Mesmo
os conclaves do passado ainda são envoltos por especulações e mistérios. O
próprio Bergoglio não chegara a ser cotado entre os papáveis que ocupavam a
manchete dos principais jornais vaticanistas, confirmando o célebre ditado
italiano "chi entra papa al
conclave, ne esce cardinale”, que poderia ser traduzido para “quem entra no
conclave como papa, sai como cardeal”.
O que
podemos nos assegurar é de que este ano — tal como ocorrera em 2005 e 2013 — será
decisivo para o futuro do Catolicismo, bem como para o mundo inteiro.
Daniel
Viana de Sousa
© Todos os
direitos reservados