terça-feira, 31 de maio de 2022

A miséria que nos ronda (Parte I)

 

         O fato de Mario Vargas Llosa apoiar a reeleição de Jair Bolsonaro, testifica a decrepitude da direita liberal, algo que, aliás, não é inédito na História do nosso flagelado continente — tampouco um dado isolado dos fenômenos em operação na atualidade nacional e internacional. É só mais um atestado quanto àquilo que os pobres e marginalizados sempre sentiram na própria pele: violência, desumanidade, exploração e o mais vil desprezo.

     Quero antecipar de antemão que não pretendo fazer uma crítica à obra literária do autor peruano, mas refletir acerca de seu mais recente posicionamento político quanto às Eleições Gerais de 2022.

         Em primeiro lugar, é preciso que se diga que a afeição da direita liberal pelo que há de pior na política do nosso continente não é um ponto fora curva, ou uma indesejável fatalidade que proveria de um período histórico caracterizado por “extremismos” de ambas as partes do espectro político.

O fato é que, ao longo de séculos de dominação por parte das elites escravagistas, sempre fomos explorados pelos políticos “preocupados com o mau humor do mercado”, “o intervencionismo do Estado na Economia” ou aqueles que profetizavam “a iminente fuga de investidores”. Estes plutocratas e oligarcas não só ajudaram a perpetuar regimes tirânicos — como as ditaduras gestadas nos conflitos da Guerra Fria —, como também fizeram vista grossa a tragédias devastadoras, como, por exemplo, o morticínio da Pandemia do Novo Coronavírus. Isso reflete sua completa indiferença quanto aos apelos por moradia, segurança, emprego, acesso à cultura, educação e saúde de qualidade, bem como o fim da inflação, da desigualdade social e da fome.

            De fato, a direita liberal e a extrema-direita caminham lada a lado quando o assunto é a perpetuação da exploração da classe trabalhadora e a submissão vexatória dos povos da América Latina à Casa Branca. Se o farão explicitamente agora, assumindo uma aliança execrável, tal como ocorreu em 2018, é só um detalhe periférico. Nos bastidores, tudo caminha de acordo com os desejos das classes dominantes, que sabem estar no comando de todo o processo de sucessão (ou não) de Jair Bolsonaro, o presidente troglodita e mentecapto.

            Isto evidencia o fato que, em nosso atribulado continente, o conflito de classes assume um aspecto mais brutal, movediço e perigoso que em qualquer outra região do capitalismo. Ainda assim, até o momento em que escrevo este texto, nenhum postulante ao Palácio do Planalto que se oponha a Bolsonaro promete convocar e conduzir as massas a um processo de disputa pela hegemonia social, cultural e política do Brasil. Tratam-se de cabos eleitorais com vastíssima expertise quanto ao processo eleitoral, conquanto incapazes de abrir novos horizontes, novas possibilidades para as massas angustiadas. Para uns, Lula é mais do mesmo; enquanto que, para outros, Bolsonaro é o pior do mesmo.

A aliança de Lula com Geraldo Alckmin e as demais oligarquias do Nordeste — embora tenha sido uma “boa jogada política” — reafirmou a vocação do ex-presidente como um homem de conciliações de cúpula, de conchavos em buffets nababescos e requintados, um espaço no qual as demandas do povo não são discutidas ou levadas em conta. É claro que os seguidores do ex-presidente apontarão o fato que ele também janta com os pobres, algo incomum se levarmos em conta a biografia dos seus antecessores. Mas, não é preciso ser um experiente analista político para saber que, a despeito de enaltecer sua origem nordestina e operária, quem faz a cabeça de Lula são os gentlemen da Faria Lima e da Avenida Paulista. O apreço de Lula por suas raízes populares, ainda que possa denotar uma sincera afeição pessoal, me parece uma elaboração discursiva para causar arrepios nos ouvintes das camadas populares.

Não é difícil ver que Lula fará todo tipo de arremedo estratégico, movendo-se mais e mais para o centro político, de modo a convencer as elites de que fará uma gestão bem-comportada e equilibrada, sem grandes surpresas ou radicalismos. Daí o convite ao ex-governador Alckmin, ilustre emissário dos endinheirados paulistas. Isso é tudo que eles mais querem: tranquilidade social para fazerem seus negócios com os estrangeiros sem quaisquer sustos no âmbito doméstico, ou seja, pôr o povo para hibernar e deixar passar a boiada. Para tanto, Lula não vacilará em se aliar aos que derrotaram Dilma Rousseff, fizeram base de apoio a Michel Temer, elegeram Bolsonaro etc. Afinal, o ex-presidente nunca deixou de enfatizar que, para governar, é preciso dialogar com quem o povo elege, sem jamais apelar às ruas, ao calor das massas. Certamente, seria ingenuidade esperar que houvesse uma mudança no repertório de Lula a essa altura da sua trajetória política. O ex-presidente jamais será um revolucionário, um antagonista do sistema que o colocou na cadeira presidencial por oito anos seguidos.

Não nego que exista uma larguíssima diferença entre estas duas personalidades políticas, Lula e Bolsonaro, especialmente no fato de que o ex-presidente seja o mais autêntico dos democratas e o mais popular dos nossos presidentes, muito mais fiel à ordem instaurada após 1988 que o capitão reformado. Porém, nenhum dos dois é capaz de romper com uma das piores chagas do sistema representativo brasileiro: a corrupção. Pois, ao longo de suas trajetórias políticas, nenhum dos postulantes confrontou, abertamente, esta odiosa chaga, que parece sobreviver a qualquer sistema político, seja ele uma Ditadura Militar, uma República oligárquica ou uma Democracia populista. De fato, a despeito da instabilidade provocada pela Operação Lava Jato, a corrupção parece proliferar em qualquer ambiente ou conjuntura, perpetuando-se geração após geração, sem que nenhum esforço político seja capaz de derrota-la. E uma parcela expressiva do povo, sem abrir mão de suas preferências, há muito tempo se deu conta disso. Entretanto, seria preciso escrever outro texto para me aprofundar no tema da corrupção.

            Diante do antagonismo de dois “populistas” — maneira pela qual os meios de comunicação costumam rotular tanto Bolsonaro quanto Lula —, a direita liberal faz sua escolha natural e previsível: aliar-se ao extremismo de direita. De fato, quem a conhece de perto, não foi pego de surpresa com a fala de Mario Vargas Llosa, haja vista que, em tempos de instabilidade social e crise aguda do capitalismo, o liberalismo de direita sempre abre mão de seus escrúpulos para reter o controle da política econômica, enquanto o extremismo executa suas arbitrariedades e perseguições mais abomináveis, ou seja, são dois lados da mesma moeda.

Na realidade, para manter ou alcançar o poder, a extrema-direita e a direita liberal se habituaram não somente a costurarem entre si uma aliança espúria, mas também a recorrer às forças aquarteladas, ao pequeno e grande empresariado, aos devaneios da grande imprensa, aos medos da classe média decadente, aos evangélicos e católicos ultraconservadores e à intervenção direta de Washington. Este é um script que os latino-americanos estão acostumados a ver se repetir uma geração após a outra, como se fossemos eternas vítimas de uma doença hereditária e incurável, capaz de se renovar à revelia dos nossos mais extenuantes esforços políticos. Basta poucas palavras para resumir nossa condição: os senhores da matança expulsam e executam nossos líderes, matam de fome e ignorância nossos filhos, destroem a ferro e fogo nossos biomas, colocam à venda nossas riquezas, espezinham nossa cultura, saqueiam nosso patrimônio, apagam nosso passado, escrevem nosso futuro e escravizam nossos braços.

Como escapar dessa condição subdesenvolvida, sub-humana e, terrivelmente, dantesca? Certamente, o triunfo dos povos oprimidos não provirá da sapiência de uma direita liberal, que se vê como uma nata esclarecida, requintada, racional e cosmopolita. Isso é gabolice deseducada e provinciana, um excremento intelectual feito sob medida para ludibriar um eleitorado iletrado, despolitizado e desesperançado, sempre à procura da mais recente novidade no mercado de quinquilharias ideológicas do nosso capitalismo periférico.

Algo tão ruim e antipopular só poderia vicejar em regimes ditatoriais, através de estelionatos eleitorais ou, como é o nosso caso, numa crise aberta do sistema político e institucional, iniciado após mais de vinte anos de Ditadura Militar e a promulgação, em 1988, da Constituição Cidadã. Sem dúvidas, trata-se de uma crise de enorme gravidade e, ao mesmo tempo, profundamente peculiar, capaz de oferecer oportunidades inauditas para setores da política que antes estavam à margem da tediosa, simbiótica e amorfa díade PSDB-PT. O radicalismo, o inconformismo e a possibilidade de ruptura completa com tudo que se construiu, estão novamente em pauta, na boca do seu Zé e da dona Maria. Isso alimenta temores em muitos, tanto quem mora no andar de cima quanto aqueles que ainda se lembram do Regime Militar. Como partido da ordem, o PT luta ferrenhamente pela manutenção do sistema que colocou Lula na presidência, ou seja, com a chave do cofre público. Em outras palavras, “que se dane o socialismo”!

Claro que os petistas terão nostalgia dos tempos em que o tucanato era seu amado arquirrival, já que suas vitórias mais contundentes se deram sobre o Picolé de Chuchu, o vingativo Aécio Neves e José Serra, com sua implacável bolinha de papel. A miséria ideológica dos tucanos terminou por ser a mola propulsora do lulismo; com efeito, muitos brasileiros passaram a votar no PT em reação ao neoliberalismo propalado pelas gestões tucanas, enquanto que, movidos pelos escândalos de corrupção, outra parcela de brasileiros aferrou-se a votar contra o PT, de tal maneira que se consumou o “voto da negação” ao candidato mais rejeitado publicamente. Nas eleições que se aproximam, esse voto, movido por emoções e rancores intestinais, determinará o vencedor.

O tempo, por sua vez, teima em se colocar em movimento, pondo em marcha potências e impulsos irrefreáveis, sejam eles racionais ou não. Por mais que as forças dominantes se esforcem em manter as massas sob o seu controle despótico, a mudança dos ventos insiste em bater à nossa porta, estejamos de prontidão ou flagrados em crime de lesa-pátria. O que hoje — devido a entraves e circunstâncias momentâneas — pode parecer insuperável, amanhã se mostra irremediavelmente moribundo, frágil como uma torre de areia à beira-mar. Por vezes, quem se encontra no olho do furacão, tende a “tampar o sol com a peneira”, ou seja, encontrar soluções fugazes e parciais para problemas que excedem em demasia suas capacidades de resolução. O sucesso passageiro dessas tomadas de decisão ilude os ocupantes do poder ou do simples gerenciamento do país, no caso, refiro-me ao próprio Lula e seu círculo decisório. Eles foram incapazes de perceber que seu modus operandi não só consagrou sua própria derrocada moral, como também os cegou para a iminência da ruína consumada com o impeachment de Dilma Rousseff, a condenação e prisão de Lula, bem como a eleição de Bolsonaro. De repente, os aliados lhes deram as costas, as massas não atenderam seu grito por socorro e os adversários os golpearam sem compaixão. Em suma, a entropia das forças políticas e sociais é inadiável.

Ainda assim, estamos num país que anseia por soluções imediatas, haja vista as catástrofes que se repetem ano após ano, dia após dia, sem que possamos repousar a cabeça no leito sem sangue na pele, lágrimas no rosto e um nó na garganta. É duro ser filho do Brasil, um rapaz “latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior”. Cito uma catástrofe envolvendo deslizamentos de terra, agora em Recife, que ceifou, numa única e trágica noite, a vida de mais de cem brasileiros, incluindo crianças e bebês; todos eram pobres e a vasta maioria era de origem africana. Há poucos meses atrás, mais de duzentas pessoas morreram soterradas em Petrópolis, também por conta de deslizamentos, sem contar as vítimas empobrecidas, desabrigadas e traumatizadas, bem como as crianças largadas na orfandade. Só quem sofre na pele, sabe a dimensão concreta e completa das palavras que ponho aqui. Faz-se necessário que as ouçamos amorosamente, assimilando seu desamparo, angústia e revolta.

Isso é inaceitável para um país que aspira possibilitar um mínimo de dignidade para a sua gente, cujos antepassados sofreram agruras iguais ou ainda piores. Encarar com indiferença e fatalismo esse episódio, perpetua a condição de miserabilidade do povo trabalhador. É preciso se erguer e mobilizar as massas para uma mudança minimamente substantiva, caso contrário os nossos mortos se acumularão aos montes, normalizando um cotidiano macabro para as gerações presentes e futuras.

Pois, esta é somente a ponta de um iceberg de enormes proporções, um exemplo mórbido que remete a uma série de elementos internos e conjunturais, múltiplos retalhos de uma crise sistêmica altamente explosiva e complexa, que responsabiliza todos os ocupantes de posições de comando no Estado e na sociedade brasileira em geral. Refiro-me aos presidentes vivos e mortos, deputados, senadores, dirigentes partidários, vereadores, prefeitos e governadores; também me refiro os latifundiários, banqueiros, militares entreguistas, magnatas da indústria e todos os membros togados do Judiciário — eu poderia citar nominalmente as figuras, mas isso tornaria o texto mais alongado que o desejado. Em outras palavras, colocar toda responsabilidade numa única figura, é coisa de quem procura, espertamente, manipular a opinião pública ao seu bel-prazer.

Porém, para compreender a crise brasileira em sua completa profundidade, é preciso analisar o resultado das Eleições de 2018. Portanto, voltemos os olhos mais uma vez à ascensão da extrema-direita.

Antes de mais nada, cabe aqui uma pergunta indigesta: quem conhecia o atual presidente antes da facada, do impeachment de Dilma, da Operação Lava Jato ou mesmo das Jornadas de Junho? Medíocre politicamente, Bolsonaro sempre foi uma figura burlesca e coadjuvante no Congresso, chamando mais atenção por ser parlapatão e loroteiro que qualquer outra coisa que pudesse fazer. No entanto, ele venceu o invencível PT; foi Bolsonaro quem melhor soube aproveitar a fissura no status quo do famigerado establishment político-partidário nacional. Por pura sorte ou instinto visceral, ele escutou como ninguém o clamor da chamada silent majority, expressão largamente popularizada pelo corrupto Richard Nixon, protagonista do escândalo Watergate. É claro que, como expressarei nas próximas linhas, este não foi o único fator que contribuiu para a consagração do amalucado presidente. Porém, é preciso que se diga que, esse assombroso êxito, representa uma nova etapa na dinâmica da luta de classes no Brasil.

O pleito de 2018 foi estremecido pela prisão de Lula, a principal figura do campo progressista na América Latina, figura de proa do maior partido da centro-esquerda latino-americana. As consequências desse fato histórico ainda reverberam em nosso cenário político-social. Além disso, é preciso destacar os seguintes fatores: a brutal recessão econômica do biênio 2015/2016 — responsabilizada em Dilma Rousseff e sua equipe ministerial —, um antipetismo cada vez mais enraivecido, a cisão de Ciro Gomes com a cúpula do PT, a propagação sistemática de fake news, uma cruzada da extrema-direita trompista a nível mundial, personificada por Steve Bannon, uma adesão em massa da classe média à propaganda anticorrupção da Lava-Jato, a cristalização do voto evangélico e um apoio inédito de uma parcela das Forças Armadas ao então milico presidenciável.

A combinação desses elementos, conduziu o processo eleitoral a um cenário cada vez mais incerto e tumultuado, de modo que o debate das questões mais graves e prementes da nossa crise acabou ceifado outra vez, dando lugar ao personalismo mais rasteiro e ignaro que tive a “oportunidade” de ver na vida pública brasileira. Limitamo-nos a escolher o “messias” de predileção, sem levar em conta o fato de que essa crise não se resolverá unicamente a partir da pessoa ou do partido que escolhemos pôr na presidência. Há que se ter um projeto de Brasil claro, coeso e bem definido, que não atenda somente aos plutocratas e suas matrizes externas, mas essencialmente a todos os brasileiros e brasileiras, a fim de que se dê um basta ao improviso que costuma caracterizar a gestão pública nos últimos decênios.

Na realidade, os múltiplos elementos que caracterizam a crise brasileira se estendem há décadas (em alguns casos, há séculos), independentemente da bandeira partidária ou da figura que os ignóbeis teimam em mitificar. Aliás, parece haver um desejo maquiavélico, por parte dos polos dominantes da atual conjuntura, em ocultar por completo as partes que compõem o quadro catastrófico no qual estamos imersos, colocando por debaixo do tapete o que poderia servir como flagelo nas mãos de um adversário eloquente, carismático e, principalmente, sem rabo preso. Cada lado culpa o outro, rebaixando o debate público ao nível mais esterilizante e vexaminoso que se poderia imaginar, algo digno de uma tragicomédia sofrível e imprestável. Excetuando-se Ciro Gomes, ninguém que pleiteia a presidência da República busca conscientizar as massas sobre a real dimensão dos dilemas e desafios que temos de solucionar enquanto nação em busca do justo progresso, da paz premente e da soberania irrecusável.

De fato, para Lula, o povo quer ter de volta o direito de comer picanha e cerveja, o que pode ser verdade; contudo, não é comendo carne nobre e cerveja gelada que os nossos entraves serão superados e o Brasil alcançará o desenvolvimento pleno de suas imensas potencialidades. Perde-se, portanto, a preciosa oportunidade de transformar o processo eleitoral numa grande arena educativa, apostando as fichas na sabedoria da gente comum e não no vazio da sua barriga. A jogada de Lula se traduz num consumismo alienante, despolitizado e popularesco, feito sob medida para esfriar de vez o clima nas ruas, lançando o Brasil em mais um ciclo de euforia passageira: o nosso conhecidíssimo “voo de galinha”. Dessa maneira, o PT atesta sua vocação para gerir e resguardar os interesses das famílias abastadas, aquelas que ocupam o diminuto topo da pirâmide social, e que há muito não se sentem ameaçadas por qualquer forma de agitação popular.

Até que, para o espanto generalizado, a violência se consumou no dia 6 de Setembro de 2018, com a facada perpetrada contra Jair Bolsonaro. Antes do golpe físico à sua pessoa, Bolsonaro se configurava como um coadjuvante com uma singela possibilidade de ir para o segundo turno, mas, após esse fato inédito, o capitão reformado se tornou — aos olhares de seus apoiadores — um mártir cruelmente vitimado, ou até mesmo o alvo predileto de um suposto complô esquerdista, que não seria capaz de ceder ao clamor popular, disposto a pagar qualquer preço por um revés petista. Pois, para estes delirantes incautos, devido à sua propalada incorruptibilidade cívica, só Bolsonaro representaria uma “ameaça ao sistema”. Daí se originaria a sua grotesca mitificação por parte dos apoiadores mais bitolados.

Por outro lado, é preciso asseverar que, na minha opinião, muitos votaram no fascista sem se darem conta da gravidade que seu discurso representava para todos nós e, de modo especial, para com as mulheres e as minorias atormentadas pelo ardor inquisitorial do extremismo neoconservador. Estou me referindo àquele sujeito que, na seara política, abre mão da árdua tarefa de cultivar um espírito crítico, preferindo se comportar como um maria-vai-com-as-outras, em geral, por medo da condenação dos parentes, amores e amigos que o cercam. Com efeito, não se pode desprezar o fardo de ser isolado por conta das próprias posições político-partidárias, acabando como uma ilha num mar de ódio à sua volta, sem ninguém que se disponha a dar um ombro amigo, uma escuta atenta e compassiva. Quem crê ser fácil remar contra a maré, indo de encontro a tudo que se diz, se acredita e se faz publicamente, certamente está cercado de sequazes que pensam o mesmo que si mesmo, isto é, vive numa pequenina bolha, sem contato direto com um argumento minimamente divergente.

Na realidade, é duríssimo ser isolado por aqueles que se ama e se convive diariamente, visto como um traidor dos valores e costumes do meio em que se vive.

Todos temos essa espécie de cultura política que normatiza os votos a partir do próprio umbigo, sem levar em conta o fato de que o outro nem sempre compartilha dos mesmos princípios e perspectivas que nós cremos como algo indiscutível. A verdade que nos orienta individualmente não é facilmente transferível ou compartilhável, tal como um post na internet; a verdade que cada um de nós carrega consigo é fruto de anos de formação, experiências, traumas, loucuras e inclinações, essencialmente, individuais, ou seja, cada pessoa é regida por uma vastíssima constelação de elementos próprios e especificidades que transcende o mero olhar, a rotulação rasteira e inútil que vemos nos “debates” das redes sociais. Isto se agrava muito mais se levarmos em conta o fato de que, a grande maioria não apenas desconhece os demais à sua volta, ela também não conhece a si mesma. É neste ponto preciso que está a missão de cada um de nós, cujas vidas estão fadadas a desvanecer no crepúsculo dos últimos dias. A morte é o destino do corpo que carregamos, mas o que construímos e dizemos pode, para o bem ou para o mal, manter-se vivo por mais algum tempo, contribuindo para a desgraça ou a prosperidade da família, do povo e do mundo que deixamos para trás. Avançaríamos muito enquanto sociedade se cada um se ocupasse em inquirir o próprio ser, ao invés de perder tempo com o que vê no jardim alheio. Enfim, os dois partícipes mais notórios das Eleições de 2022 foram tirados das entranhas da gente comum, isto é, são faces fidelíssimas, nesse momento histórico, da nação brasileira, de modo que, para quem deseja ver-se livre deles, deve começar a mudar a si mesmo e, se for possível, o entorno em que gasta seus dias.

Para muitos que acompanham os tremores sísmicos da vida pública pós-2013, o clima que se iniciou após a vitória da extrema-direita é de beligerância permanente, antagonismo a tudo que se oponha ao presidente beócio, exatamente como alguns dos seus seguidores costumam se posicionar: “contra tudo e contra todos”. Isso é atraente para quem está à procura de uma desculpa para descarregar sua frustração e ódio no teclado do computador, nas matanças perpetradas nas favelas ou dentro da própria família. É como se o período eleitoral não chegasse ao fim nunca, prolongando-se indefinidamente, como um duelo sem hora para acabar. Isso implica um sério desgaste psicofísico nas pessoas envolvidas, diariamente, com celeumas constrangedoras e degeneradas, cujas consequências nem todos estão aptos para suportar. Fala-se que, nos anos seguidos pela vitória de Bolsonaro, a procura por atendimento psicoterápico aumentou, explodindo de vez com a chegada da pandemia. Sem dúvidas, trata-se de um dado que reflete os tempos em que vivemos.

O militante “profissional”, por sua vez, esse personagem destemido e bizarro, tem pouco traquejo e sensibilidade para assimilar as circunstâncias práticas e mundanas do eleitor maria-vai-com-as-outras; devido ao seu partidarismo juvenil, crédulo e sectário, ele crê que votar na sua liderança predileta, é uma obviedade lógica e acertada. Considera-se guardião e propagador de uma mensagem libertadora para as massas, sem notar que sua voz, em geral, não carrega nada de especial para quem o ouve dia após dia, seja em casa, na praça, na escola ou no sindicato. 

Penso que os militantes seriam mais úteis à sociedade se dessem ouvidos justamente às pessoas mais despolitizadas, no intuito de compreende-las em seu contexto socioeconômico, familiar e cultural. Ao invés de posarem de esclarecidos, iluminados por uma sapiência reservada aos iniciados, estes sujeitos deveriam aprender a acolher quem se apresenta à sua frente, independente da condição do ser humano em questão.

Sem dúvidas, o militante partidário também é um batalhador na sua perigosa empreitada, principalmente quando o faz por heroísmo bravio e inciativa pessoal, remando contra a maré do obscurantismo que nega a política por pendores moralistas e individualistas. É justo lembrar que, no Brasil, mata-se militante todo ano sem qualquer compaixão; esta é a carranca mais hedionda do “capitalismo com face humana”; e a maioria dessas investigações acabam engavetadas.

Porém, de tempos em tempos, ouvimos falar da decepção de um desses coitados, que achava ter encontrado a facção detentora do único caminho luminoso para a pátria, mas que, enfim, se dá conta de que não passa de um peão nas tramoias dos verdadeiros senhores do jogo, aqueles que mechem os pauzinhos à revelia da militância; até que, após ser feito de idiota à exaustão, o fatigado militante decide deixar a vida partidária e recolher-se às discussões meteorológicas, futebolísticas e matrimoniais. Com o passar do tempo, ele percebe que jogou fora dias preciosos da sua vida e, acima de tudo, tremendo esforço com aquilo que nunca foi capaz de conduzir ou controlar. Tratava-se de uma boa distração para quem é cheio de sonhos febris e delírios de grandeza.


Daniel Viana de Sousa

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sábado, 30 de abril de 2022

Livros lidos em 2020

 

       Não há dúvidas de que o ano de 2020 foi absolutamente trágico para os seres humanos. Uma pandemia varreu — e continua varrendo — a sociedade humana, sendo acompanhada por uma crise econômica de enorme gravidade. Excetuando-se as vítimas do novo coronavírus, ninguém sofreu mais que os pobres e marginalizados, que viram suas condições de vida drasticamente reduzidas à miséria, ao desamparo e à fome. Seus efeitos continuam presentes entre nós e, certamente, se prolongarão por muitos anos à frente.

Cada um reagiu a essa tragédia à sua maneira. Houve quem assumisse uma postura leviana, criminosa e insensível, como também houve quem se sensibilizasse ao ponto de jamais sair de sua casa enquanto houvesse risco real de contaminação. No que diz respeito a mim, tive uma série de desafios a superar. Contudo, pretendo expor essa fase da minha vida a posteriori. O que posso dizer de antemão é que sou grato por não ter perdido nenhum familiar ou amigo próximo. Felizmente, todos acabaram salvos dessa inesperada catástrofe. Quanto às vítimas e famílias enlutadas, ofereço minhas lágrimas e preces.

Quanto aos livros lidos, devo reconhecer que li pouquíssimo material. Na realidade, por um tempo, deixei de me dedicar ao autodesenvolvimento literário. Passei boa parte do tempo procrastinando ou simplesmente fazendo companhia aos meus pais. Em parte, foi um demorado retiro sabático, que, aliás, não espero repetir outra vez na vida. Hoje, sinto-me motivado a dar vazão à pulsão criadora que tenho dentro de mim, bem como dedicar-me à leitura de tudo que puder ter em mãos. O fato de estar desempregado dificulta meu autodesenvolvimento, pois, como se sabe, os livros no Brasil têm um preço que excede a renda média da maior parte dos cidadãos. Isso é um fato gravíssimo para um país que almeja superar o analfabetismo e subdesenvolvimento. Sou grato por meus pais poderem comprar livros para mim; devo a eles mais do que posso pôr neste textinho.

Enfim, segue abaixo a lista de livros lidos em 2020:

1.      Cartas a um jovem terapeuta, Contardo Calligaris (Editora Planeta)

2.      Psicologia das massas, Sigmund Freud (Companhia das Letras)

3.      Capitães do Brasil, Eduardo Bueno (Estação Brasil)

4.      Pais e Filhos, Ivan Turguêniev (Companhia das Letras)

5.      Cruz e Souza. O Poeta Alforriado, Godofredo de Oliveira Neto (Garamond)

6.      Formação do Império Americano, Moniz Bandeira (Civilização Brasileira)

7.      Meditando a vida, Lama Padma Samten (Editora Peirópolis)

8.      Crítica do Programa de Gotha, Karl Marx (Editora Boitempo)

9.      Simplesmente Irmãos Vol. 1, (Irmãos Maristas)

 

 

Daniel Viana

© Todos os direitos reservados

sexta-feira, 4 de março de 2022

Um trágico espetáculo de horrores

 

            À medida que os dias passam, é cada vez mais claro que chegamos a um ponto gravíssimo nas relações internacionais do século XXI. As principais nações do mundo se veem às portas de um racha similar à criação, em Agosto de 1961, do Muro de Berlim. Muitos já afirmam, sem quaisquer dúvidas, que vivemos os primórdios de numa nova Guerra Fria. Se isso representa um retrocesso a estágios primitivos da sociabilidade humana ou um avanço para novas disputas, debates e conquistas sociopolíticas, só o tempo é quem dirá. Em conjunturas como a atual, é comum que até os mais experientes analistas se precipitem em vaticinar realidades que simplesmente não se concretizam. Há que se ter cuidado, pois tudo pode mudar numa questão de dias ou até de horas.

            Quando se avalia as causas e consequências da guerra na Ucrânia, naturalmente se comenta acerca da decadência dos Estados Unidos da América (EUA), líder do mundo ocidental desde o fim da Segunda Guerra Mundial, cuja liderança liberal e belicosa marcou, profundamente, a vida de todos ao longo do século XX e do início do século XXI. Nesse espaço de tempo, os EUA se tornou a maior força militar, política, econômica, ideológica e cultural que a Humanidade jamais viu em toda sua história. A despeito das duras derrotas que sofreu na Coreia, em Cuba, no Vietnam e no Afeganistão, a águia norte-americana conseguiu chegar à terceira década do novo século como um império multicontinental capaz de estrangular os seus adversários com as mais diversas manobras geopolíticas: sanções e bloqueios econômicos, golpes de estado, guerra midiática, assassinato de líderes, intervenções militares etc. Antagonizar com um poderio destas dimensões, requer uma unidade social, resiliência e soberania que, de fato, nem todas as nações possuem em suas mãos, de tal maneira que se contam nos dedos os reais adversários da Casa Branca que se mantêm de pé no mundo atual. Entretanto, Vladimir Putin acaba de desafiar essa hegemonia com um conflito nas bordas da mais importante área de influência norte-americana: a Europa.

Como muitos jornalistas reafirmam repetidamente, não se via tamanha ousadia, por parte dos russos, desde o inesperado fim da União Soviética. Realmente, a Rússia que vemos no presente não é mais aquela dos tempos de Gorbatchev e Boris Iéltsin; seu orgulho nacional está reavivado e sua confiança nas próprias forças é nítido e amedrontador para quem esperava uma Rússia acomodada às próprias fronteiras. Contudo, a despeito da descomunal superioridade militar dos russos sobre os ucranianos, o cenário mantém-se aberto às mais diversas possibilidades. Nesta seara, fazer previsões é demasiadamente arriscado. Entretanto, parece-me claro que o desfecho da guerra entre os dois principais estados eslavos, ajudará a avaliar se os falcões estão no princípio embrionário de sua fase terminal ou não. Derrotas significativas se somaram ao longo dos anos recentes, como, por exemplo, as quedas na Síria e no Afeganistão, reforçando um recuo cada vez mais visível no alcance de seus objetivos estratégicos.

No entanto, o que mais chama a minha atenção, neste momento, não é o aspecto estratégico-militar do conflito, e sim a profunda e preocupante miséria que o acarretou. Tanto as lideranças dos países emergentes quanto os assim denominados big players dão amostras diárias da sua incapacidade em criar qualquer espécie de consenso e amenização das crescentes tensões geopolíticas. Até o presente momento, prefere-se ameaçar os opositores com sanções e isolamento diplomático, bem como de recorrer-se aos mais diversos e danosos recursos militares, o que, certamente, acarretaria numa Terceira Guerra Mundial, ou seja, o fim da Humanidade tal como a conhecemos hoje. Biden, Putin, Macron, Scholz, Zelensky, Johnson, Jens Stoltenberg e Ursula von der Leyen não foram preparados para ocupar os cargos de liderança das suas nações e organizações. É aterrorizante que alguns destes líderes tenham, nesse exato instante, o controle direto sobre armas nucleares, capazes de obliterar por inteiro toda a espécie humana.

Os russos recorrem à guerra não porque são bárbaros sanguinários e expansionistas, mas porque o diálogo político, que vem se estendendo desde a anexação da Crimeia, em 2014, se mostrou infrutífero para os seus interesses imediatos na Europa Oriental — aqui, vale lembrar que esta é uma zona de influência russa há séculos, de modo que não é uma surpresa que os russos se enfureçam com a crescente influência estadunidense no seu “quintal ocidental”. Ao que parece, a determinação e a ousadia de Putin foram subestimadas. A beligerância retórica transformou-se, para a surpresa da maioria, numa ação concreta. Ele não poderia permitir que seus conterrâneos o vissem como fraco, incapaz de defender o famoso orgulho russo, que norteou czares e czarinas ao longo de séculos. Portanto, ao contemplar a possibilidade do vizinho se juntar à União Europeia e à própria OTAN, Putin deu um passo à frente no jogo de xadrez, embora o xeque-mate ainda não tenha se materializado. Com efeito, enquanto escrevo esse texto, seu avanço terrestre tem sido contido pelas forças de Zelensky. Não se pode negar a bravura dos militares e civis ucranianos frente a um dos mais avançados exércitos do mundo. Kiev ainda se mantém sob o controle do jovem e inexperiente presidente.

A guerra de bravatas e adjetivos explodiu nas mídias virtuais, que são as únicas que realmente têm repercussão junto às massas. Cada lado se comporta como se fosse dono da verdade, portador dos valores mais elevados e altruístas. Frente a isso, há que se manter a cautela e a coerência com os próprios valores. Para mim, toda agressão militar é condenável, todo golpe de estado é reprovável, toda dominação interestatal é inaceitável, toda repressão às minorias é incompatível com os verdadeiros valores humanos. Não é uma surpresa que, para justificar a assim chamada “operação especial”, Putin argumente que a Ucrânia seja inseparável da Rússia, tal como um pequenino apêndice do corpo humano. Não é à toa que, fazendo uso do aparato de repressão estatal, Putin se esforce tanto em silenciar as contestações internas aos seus desmandos. No interior da Rússia, ainda há quem discorde dessa postura militarista. Ao mesmo tempo, é incompreensível que o Ocidente continue usando a OTAN para amedrontar alguém disposto a usar de todos os meios possíveis para vencer a guerra. Não se trata de “pôr o rabo entre as pernas”, mas de reconhecer que um passo em falso pode resultar numa escalada apocalíptica e irreversível para todos os lados. Além do mais, isolar o Kremlin economicamente, tal como vem sendo feito pelos países ocidentais, coloca-o ainda mais nos braços de Xi Jinping, numa aliança que desafia os falcões estadunidenses de uma maneira como jamais se viu antes. Estarão os norte-americanos cavando a própria sepultura? O tempo certamente dirá.

Outro sinal de decadência política e de guerra declarada é o uso exacerbado de hipérboles, insultos e ameaças. Como era de se esperar em qualquer conflito, todos abandonaram por completo a moderação. Usa-se, cada vez mais, recursos retóricos que transmitam força bruta, confiança demasiada e determinação resoluta. Assim, pretende-se convencer as massas de que o inimigo recuará e que os aliados triunfarão, trazendo à pátria os espólios da conquista bélica. Quem se deixa levar por essas leviandades discursivas, especialmente as que mexem com o que temos de mais sensível e pessoal, acaba se distanciando do incontornável deserto do real. É difícil manter-se desperto em meio ao tumulto de falas, imagens e emoções que vemos nas mídias dia após dia. A guerra é muito mais complexa e intricada que um discurso ideológico em rede nacional; a despeito das desculpas ideológicas, ela reflete o que temos de mais brutal e animalesco, nossa insensatez mais primitiva e violenta. Não sei se superaremos esse instinto belicoso, tão proveitoso ao lucro de inúmeras empresas multinacionais, que colocam os seus interesses acima de qualquer propósito humanitário. A guerra sempre interessou aos poderosos que se serviam da carne dos pobres, infelizes que pegavam em armas para matar os desterrados do outro lado da terra.

Para aqueles que, como eu, sempre ansiaram por um mundo pacificado, preocupado tão somente em gerar prosperidade e bem-estar coletivo, o que temos visto nas telas de celulares, computadores e televisores é cada vez mais desolador.

 

Daniel Viana

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domingo, 27 de fevereiro de 2022

Uma crítica à política externa bolsonarista

 

         Ao longo dos últimos dias, o mundo tem observado, no leste europeu, fatos de extrema relevância geopolítica e geoeconômica. Não há quem não assuma um posicionamento com base naquilo que acredita ser ideologicamente factível e lógico. Entretanto, neste texto, não me aprofundarei nas justificativas do Kremlin para atacar Kiev, nem se o Ocidente acertou em fomentar o militarismo nas fronteiras da Rússia, bem como em expandir a OTAN para o leste. Em outro momento, me deterei nestas questões mais amplas e sensíveis.

Temos diante de nós um fato: a Rússia invadiu a Ucrânia, pondo um fim à estabilidade política que se estendeu ao longo de décadas na Europa Oriental. Cada nação tem apresentado o seu posicionamento com base nas mais variadas justificativas políticas, ideológicas, históricas, econômicas e socioculturais. Uma mudança de proporções globais encontra-se diante de nós, com consequências que se estenderão por muitos anos à nossa frente. Talvez, assim como ocorreu nos primeiros dias da Pandemia do Novo Coronavírus, nem todos tenham se dado conta do tamanho da mudança que temos testemunhado.

            Em meio a isso, o governo brasileiro tem demonstrado sua indisfarçável mediocridade. Demonstrar solidariedade ao presidente russo, Vladimir Putin, foi um dos mais graves erros de política externa de Jair Bolsonaro. Isso pode ser justificado por diversas razões. Primeiro, a vastíssima e respeitável tradição diplomática brasileira sempre prezou pela manutenção da neutralidade nos conflitos entre Estados, a menos que haja um desrespeito ao Direito Internacional e às determinações da ONU. Não assumimos abertamente um lado, até que isto se configure incontornável. Segundo, temos boas relações políticas, históricas e comerciais com os dois envolvidos, Rússia e Ucrânia, de modo que não é do nosso interesse imediato assumir um posicionamento claramente contrário a qualquer um dos dois, como, por exemplo, romper relações diplomáticas com o Kremlin ou Kiev. Terceiro, numa situação de agravamento das tensões, é injustificável fazer uma visita a qualquer um dos envolvidos, haja vista que somos parceiros dos dois países. Em suma, a boa diplomacia sempre preza pela coerência das suas escolhas e pelo pragmatismo, algo que, simplesmente, não ocorre na gestão Bolsonaro.

       No meu entendimento, a boa diplomacia prefere o pragmatismo aos furores ideológicos. Pois, nas relações entre as nações, há que se prezar tanto pelos ganhos a curto prazo, quanto pelos ganhos a longo prazo, o que nem sempre está ligado ao que acreditamos estar em sintonia com as nossas premissas e convicções ideológicas. Nesse âmbito político, não se deve cometer quaisquer leviandades a troco de nada, pisando à toa naqueles que poderiam vir a ser bons parceiros comerciais. Caminha-se com extrema cautela, com olhos bem abertos para as oportunidades que certas conjunturas históricas propiciam para a nação em si, tal como Getúlio Vargas fez em relação ao posicionamento do Brasil na Segunda Guerra Mundial: sem afobação, ele trouxe aos brasileiros uma série de benefícios econômicos, ao mesmo tempo em que se posicionou a favor da libertação dos povos da tirania nazifascista. Tal fato histórico não mudou o passado ditatorial de Getúlio, mas deixou, na nossa memória coletiva, a consciência de que uma política externa lúcida pode trazer avanços concretos à classe trabalhadora brasileira.

Deve-se saber o momento preciso de ser maleável. Evitando, assim, ser injustamente compreendido como incoerente e falsário. Os partidários mais fanáticos, certamente, irão esbravejar e espernear contra quaisquer movimentos conciliadores, de tal maneira que, um bom governante, está com os seus ouvidos atentos aos seus aliados moderados. Eles são a parte que, geralmente, está mais lúcida, serena e próxima da realidade. Vale lembrar, por exemplo, que a conservadora e brutal Ditadura Militar brasileira fez com que fossemos o primeiro país a reconhecer a independência de Angola — então governada por um partido de esquerda —, algo que estava em sintonia com os interesses comerciais e financeiros das classes dominantes brasileiras, apoiadores de extrema relevância para a própria Ditadura. Isto exemplifica a boa condução diplomática de uma nação soberana.

        O apoio de Bolsonaro a Putin foi um desnecessário tiro no escuro, típico de um governante que tenta escapar, a qualquer custo, do isolamento ao qual se encontra mergulhado. Se ele tivesse cancelado a viagem de antemão, teria tido a oportunidade de demonstrar ao Ocidente que não está de acordo com as manobras militares que já ocorriam nas bordas da Ucrânia, logo, que é um democrata pacifista, humanitário e libertário. Entretanto, a verdade sempre prevalece. O mundo testificou mais uma vez que o gigante latino-americano é governado por um soldadinho arrivista, autoritário, radioativo e despreparado. E não há nada que negue isso, de modo que o falso messias se enforca na sua mediocridade. Sua postura inepta e obtusa coloca o país num completo vexame internacional, naquele que já é um dos fatos mais determinantes da nossa contemporaneidade. Assim sendo, o próximo mandatário certamente terá muito trabalho pela frente; ele se verá diante da cansativa missão histórica de concertar as rachaduras e limpar as manchas deixadas por todo lado.

Ao longo dos últimos anos, tem-se ficado cada vez mais claro que a gestão de Jair Bolsonaro representa o maior desastre que já acometeu a sociedade brasileira. Jamais se viu, em nosso país, um mandatário disposto a arruinar por completo o que ainda poderia ser tido como bom no Brasil. Estamos testemunhando, em primeira mão, um processo histórico de arrasamento da nossa nação, tal como nunca se viu em qualquer civilização ocidental. Para tanto, basta levar em conta as centenas de milhares de mortes da pandemia, a abjeta concentração de renda, o isolamento internacional, a destruição sistemática dos nossos biomas, a depreciação moral e financeira das Instituições ligadas à ciência e ao ensino, o desmantelamento de órgãos culturais imprescindíveis, como, por exemplo, o Ministério da Cultura, a proliferação de grupos neonazistas, o armamento de extremistas, a cisão das famílias e grupos de amigos, o retrocesso da linguagem política ao fanatismo descerebrado, o ressurgimento da inflação e da fome, o desemprego, o empobrecimento e a precarização das massas etc. Portanto, o aspecto diplomático é somente parte de uma catástrofe que se estende por todos os lados, cuja reparação levará ainda muitos anos para ser concluída.

Não é necessário ser de esquerda para se opor a Bolsonaro. Basta alimentar dentro de si uma nesga de solidariedade, tolerância, empatia, amor ao conhecimento, escuta atenta ao próximo… Quem sabe ouvir e respeitar, reconhece, na psique bolsonarista, um estrago que pode se aproximar da irreversibilidade completa. Os erros do Partido dos Trabalhadores, cometidos ao longo de quatro mandatos presidenciais, são visíveis a olho nu, é verdade, mas jamais o petismo se aproximou do que a ideologia bolsonarista é hoje: uma seita de fanáticos embevecidos de ódio virulento, pavores delirantes, ignorância profunda, crenças infundadas, desejos tragicamente reprimidos e intolerância decrépita. Não há como pactuar com essa gente. É preciso evidenciar suas falhas, derrota-los eleitoralmente, prender os eventuais criminosos e reconquistar de vez o espírito das massas.

 

Daniel Viana

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sábado, 15 de janeiro de 2022

Enfim, libertos?

 

                Assim como a vasta maioria das pessoas vivas, não tenho dúvidas de que os últimos anos foram absolutamente trágicos para a Humanidade, excetuando-se, é claro, a plutocracia que esconde suas fortunas em paraísos fiscais e que acumula lucros vexaminosos ano após ano. Entretanto, é notório que a situação varia sensivelmente de um país para o outro. No nosso caso, pode-se dizer que o Brasil caminha em direção ao desastre, a despeito da horripilante gestão do nosso infame e desumano mandatário, Jair Bolsonaro.

                Todavia, o que vou escrever a seguir, não diz respeito ao presidente atual. Haverá o momento certo de expor ainda mais a sua indisfarçável e intratável mediocridade, fruto de uma personalidade histriônica e obtusa, que jamais deveria ter posto os pés no Palácio do Planalto ou ter alguma notoriedade em meio à nossa sociedade.

                Prefiro ater-me àquilo que temos observado há meses no noticiário: o vigoroso renascimento político de Lula, dado por muitos como o próximo presidente do Brasil. De certa forma, tudo isso me encanta quando penso no Brasil. Pois se trata de um indivíduo exposto a uma das maiores campanhas de ataque midiático que se teve notícia em nossa história, mas que, a despeito de todos os esforços da Casa-Grande, conseguiu sobreviver e andar de cabeça erguida na rua. Quem se atreve a negar sua perspicácia e sua popularidade a essa altura? Para o bem ou para o mal, Lula sobreviveu e segue dando as cartas no debate acerca do presente e do futuro do país.

                Em meio a isso, muitos seguidores do ex-presidente se juntam para nos lembrar que “no tempo dele, tudo era melhor”. Ora, se compararmos o passado recente com uma soma de pandemia, debacle econômica, queda da renda, apocalipse climático, escassez e pobreza generalizadas, bem como uma aguda crise de representatividade, tudo que veio antes parece róseo, um arco-íris de plenitude e bem-estar coletivo, o que não é verdade.

Para não cair nos chavões e lugares-comuns do nosso mindset político, é urgente um pingo de lucidez nos raciocínios, nos posicionamentos e nas palavras. Desconfie das soluções fáceis. Falar sem cautela, movido por um desejo de se destacar em meio aos outros, é simplesmente contraproducente. Como disse um poeta certa vez, “o Brasil não é para iniciantes”. O nosso cenário é mais complexo do que se imagina.

Os petistas dizem que criticar o Partido dos Trabalhadores (PT) é fácil, uma espécie de comportamento de manada reacionário e condicionado pelos grandes conglomerados de comunicação. Entretanto, quem se identifica como anticapitalista, antifascista, progressista, trabalhista, socialista ou comunista, sabe o quão complexo é criticar os ditames do partido fundado pelo ex-presidente Lula, líder em todas as pesquisas de intenção de voto. Sempre estamos às voltas com acusações de sectarismo, esquerdismo, extremismo, ou, nos piores casos, de que estamos “a serviço da direita”. São acusações que beiram ao que há de mais cômico na imaginação política.

Ainda hoje, Lula enche o peito para nos lembrar que o seu partido é o maior da América Latina. E ele está coberto de razão. Logo, devemos dar a este partido aquilo que lhe é de direito: uma insistente e incansável crítica quanto às consequências de suas políticas para o povo brasileiro nas últimas décadas. Afinal, foram treze longos anos de gestão petista, cujo final desembocou numa calamitosa recessão, até então sem paralelo em nossa história repleta de tragédias. A famosa autocrítica que se cobra de Lula e do PT é aquela que tanto ouvimos nos meios de comunicação de massa. Mas, esta é vaga, moralista e pequeno-burguesa. Deve-se cobrar aquilo que estava nas origens do PT, que tanto deu esperanças aos trabalhadores e trabalhadoras, que não hesitaram em arregaçar as mangas e engrossar as fileiras do partido no idos de Fevereiro de 1980. À época, ser do PT, significava assumir a luta por uma sociedade mais igualitária, com uma autêntica justiça social, sempre a favor dos mais pobres, contrariando os interesses do patrão.

De fato, como toda força hegemônica em seu devido momento histórico, o lulismo e o petismo procuram ignorar, calar ou difamar os seus críticos mais coerentes, para que, assim, possa dar sobrevida ao seu próprio status quo. Aos lulistas e petistas já não interessa mais o vento da mudança. Faz décadas que ser membro do PT deixou de ser sinônimo de rebeldia, inconformismo ou mesmo de preferência pelos mais pobres. Na realidade, deve-se pontuar que o mundo mudou muito de 1980 para cá: as gerações, as relações, as ideologias, as tecnologias e o cenário internacional são completamente diferentes. Contudo, ao invés de ouvir o apelo por mudança, o PT se apegou àquilo que achou válido para si, deixando para trás seu passado legitimamente popular.

O PT que emergiu no início dos anos 1980, representou um avanço para o nosso país. Não tenho dúvidas quanto a isso. Entretanto, todos os partidos políticos estão sujeitos a uma decadência própria de quem não se renova, de quem não se rejuvenesce, mantendo-se prisioneiro de dogmas que envelhecem à medida que o tempo passa. Aliar-se a uma burguesia decadente e a partidos fisiológicos, no intuito de preservar uma governabilidade sem povo, foi um desses dogmas desastrados. O único aliado de um partido proveniente das camadas populares é o próprio povo e ninguém mais. Nunca haverá espaço para nós nos salões dos endinheirados. Mais cedo ou mais tarde, o partido verdadeiramente operário que se apoiar num conchavo com a burguesia será removido, perseguido e aniquilado. A luta de classes é tão real hoje quanto na época de Marx e Engels, de Lênin e Mao Tse-tung, de Marighella e da Guerrilha do Araguaia.

                Para mim, Lula não representa esperança, mas uma anestesia que possibilitará à nossa insensível e selvagem burguesia desfigurar, desmantelar, desmobilizar ainda mais a sociedade brasileira. Claro que, frente a uma figura nefasta como Bolsonaro e seu projeto de destruição da nossa nação, votar em Lula parece a escolha mais imediata, dada a boa lembrança que uma favorável parcela da gente brasileira tem para com ele. Jamais negaria isso. Aliás, não espero conseguir a compreensão do militante petista, haja vista a cegueira patológica que corrompe os lulistas mais fanáticos e descerebrados. O debate lúcido, racional e sincero está simplesmente cancelado para estes encarcerados do personalismo.

                Lula sempre foi um negociador de conciliações, o que, em tempos passados, pode ter dado relativamente certo. Decerto, em sua gestão, a burguesia lucrou rios de dinheiro, ao mesmo tempo em que os desfavorecidos foram salvos da fome e da pobreza mais extrema. Ademais, postos de trabalho foram criados, setores da economia avançaram a passos largos, os pobres entraram nas universidades, nos shoppings e nos aeroportos, as escolas técnicas se espraiaram e a política externa foi um pouquinho mais arrojada que o normal, bem como leis — absolutamente necessárias e civilizadoras — como a Maria da Penha foram criadas e ratificadas. Outras conquistas chamaram a atenção de todos, como a recepção da Copa do Mundo e das Olimpíadas, de modo a confirmar a emancipação da nação brasileira aos olhos do chamado “mundo civilizado”. A grande massa tinha a sensação de que, enfim, o nosso amado e sofrido Brasil havia acompanhado o bonde da história.

                Só que, os fatos históricos nem sempre caminham pari passu com as nossas convicções ideológicas e pessoais. Na realidade, tanto a esquerda quanto a direita costumam manipular a História e, se possível, até mesmo a realidade para os seus próprios fins. É claro que a busca da verdade quase sempre esbarra na impossibilidade de se chegar a conclusões indubitáveis. No entanto, é possível saber, com segurança, de que certos fatos certamente ocorreram, não só devido às provas materiais que os corroboram, como também pelos testemunhos daqueles que participaram das ilicitudes em questão. Negá-los, parece mais um exercício de ilusionismo do que de esclarecimento jornalístico ou histórico. Portanto, digo, sem quaisquer dúvidas, que a corrupção envileceu a gestão de Lula e Dilma — o que não nega a sua existência em épocas anteriores.

                Contudo, a corrupção não foi o maior dos males da gestão petista, por incrível que esta afirmação pareça. Ao contrário do que a classe média moralista pensa, a corrupção não é a trava que nos impede de se desenvolver ao ponto de alcançar as nações ricas, porque estas também sofrem da mesma moléstia e seguem nos governando de cima. A corrupção é endêmica ao capitalismo, e não uma anomalia que o aflige, de tal maneira que o entreguista abobado é mais um que desconhece o funcionamento das engrenagens do poder e do aviltante acúmulo de riquezas que caracteriza o sistema capitalista. Assim sendo, é ingênuo afirmar que o PT criou a corrupção, bem como que as cifras tenham superado tudo que houve antes. Sempre houve quem se aproveitasse do poder para chafurdar seu caráter no lamaçal da indecência. Dourar o passado, como se este fosse uma espécie de horizonte utópico para os desencantados do nosso presente, é um insulto à inteligência de quem já mergulhou nas entranhas da nossa trágica história.

                Ora, se a corrupção não foi o pior e nem o único dos gravíssimos erros do PT, quais outros enganos poderiam ser destacados? Eu poderia dizer que Lula cortejou e alimentou a mesma cúpula de sanguessugas do MDB que, mais tarde, iria defenestrar Dilma Rousseff da cadeira presidencial e que nos conduziria a um vórtice de absurdos e insanidades, desembocando nas Eleições de 2018, cujo fim todos nós sabemos qual foi; eu poderia dizer que Lula apoiou uma política de segurança pública que resultou numa escalada de encarceramento e assassinato de negros e pardos, tal qual nunca se viu antes na história desse país; eu poderia dizer que Lula abortou qualquer tentativa de enfrentamento à concentração de poder dos clãs ligados aos meios de comunicação brasileiros; eu poderia dizer que Lula fortaleceu o mesmo agronegócio que mais tarde se converteria num bastião do bolsonarismo e que sempre foi antipopular, um arqui-inimigo dos povos indígenas e quilombolas; eu poderia dizer que Lula não se importou em desmobilizar as massas do protagonismo político, de modo a abrir espaço, nas ruas, para uma grotesca extrema-direita, que surrupiaria Dilma da presidência. Essa lista poderia seguir adiante, ao longo de muitas páginas, mas creio ter dado uma noção clara do meu profundo desacordo com as políticas petistas.

                Também é digno de nota que, terminada a Ditadura e promulgada a Constituição, era indiscutivelmente premente a reforma do Estado Brasileiro, como, por exemplo, a Reforma Tributária, a Reforma da Previdência, a Reforma Agrária, a Reforma Urbana e assim por diante. Collor não o fez, tampouco Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, o que não deve surpreender a ninguém que conheça a quem estes senhores serviam. Claro que a superação da hiperinflação foi uma conquista importante, porém ela era insuficiente para curar um país abissalmente injusto como o nosso. Acreditou-se que o PT pudesse fazê-lo melhor que os demais, mas não foi o que acorreu. Lula, tal como um mero populista, simplesmente surfou na mais prodigiosa e surpreendente popularidade — resultante, em boa medida, do famigerado boom das commodities — para eleger uma inepta, impopular e canhestra sucessora, que, mais tarde, colaboraria para afundar o Brasil numa tenebrosa recessão. Quer queira, quer não, isso ficará registrado em sua controversa biografia.

                A despeito de tudo isso, há quem alimente sinceras esperanças quanto ao nosso futuro próximo. Afinal, estamos chegando ao final do pior governo da nossa história. Um verdadeiro desgoverno, para ser mais preciso, que só pode ser defendido pelos canalhas, fanáticos, manipulados e pelos entreguistas. Logo, é de se esperar que saiamos do fundo do poço a partir do ano que vem.

Não me envolvo em discussões com nenhum dos dois grupos risivelmente antagônicos — haja vista que ambos servem aos mesmos senhores —, pois sei bem que não há argumentos que se façam ouvir em meio ao fragor ruidoso das paixões políticas. E, antes que eu seja apressadamente acusado de traidor pela pseudoesquerda do PT, afirmo que, no segundo turno, votarei em qualquer um que se oponha a essa catástrofe que representa Bolsonaro, o que, obviamente, inclui Lula. Todavia, respeito e compreendo quem decidir votar em branco ou anular o seu voto.

                Até o presente momento, não se vê qualquer mudança de rumos na maneira com que Lula e o PT pretendem governar o nosso país a partir de 2023. Ao contrário, de vez em quando surge no noticiário o famoso “Lulinha paz e amor”, ridícula alegoria de quem pretende atenuar a ferocidade das classes dominantes, tão afeitas à submissão do povo brasileiro. Com efeito, repete-se que antes era melhor, sendo que foram justamente as estultas decisões do passado que nos conduziram à catastrófica realidade que vivemos hoje. Colocar toda responsabilidade em Bolsonaro, é um equívoco de quem tem memória curta, de quem se apressa em condenar só uma parcela dos malfeitores que arruinaram a morada em que vivemos. Quando Lula assumirá o seu quinhão de responsabilidade, de modo a corrigir o prumo do navio antes que ele colida com o iceberg?

                É claro que, diante de todo o horror que representou a gestão de Bolsonaro, o lulista mais afobado dirá: “Antes era melhor!”. Ora, eu não nego que tenha sido, mas não me permitirei falsear aquilo que, verdadeiramente, foi a Era Lula-Dilma.

 

Daniel Viana

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sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Livros lidos em 2021

 

            Este foi o ano que eu mais li. No entanto, permaneço insatisfeito com a exígua quantidade de tomos consumidos, tendo em vista que o número de livros lidos por estrangeiros, geralmente, é superior ao meu. É claro que a maioria dos brasileiros lê muito menos que eu, porém isso não me dá direito de acostumar-me à postura de semiletrado. É preciso se desafiar, ir além dos próprios limites, rumo a uma vida em constante transformação. Não seria o escritor uma figura peregrina? Não seria sua busca uma condenação à solitude?

Ora, se levarmos em conta que tenho sérias pretensões de ser escritor, cujo ofício baseia-se na elaboração de novas maneiras de expressar-se com a Linguagem, o buraco acaba sendo mais fundo, haja vista que um escritor não deveria se limitar a ler menos de trinta livros por ano. Certamente, todo escritor tem de ter uma perturbadora fome por livros e mais livros, de modo a acumular em seu microcosmo o máximo de possibilidades, variedades e sabores da língua em que se expressa. Nessa empreitada, não pode haver procrastinação ou preguiça.

            Ainda assim, tenho motivos para alegrar-me. Pois, neste ano que acaba, tive o prazer de começar a ler autoras de alcance nacional, tais como Clarice Lispector (!), Adelia Prado e Aline Bei; também tive a oportunidade de conhecer autores estrangeiros que não fossem pertencentes à Anglofonia, como, por exemplo, Domenico Losurdo, um italiano, e Rainer Maria Rilke, autor de língua alemã. Ainda assim, meu mergulho na Literatura foi tímido. Sinto que preciso de mais, muito mais. Um universo inteiro está à minha espera.

            Eis, portanto, minha lista de livros lidos em 2021, um ano absolutamente diferente de todos que vivi.

 

1.      Simplesmente irmãos vol.2 (Irmãos Maristas)

2.      Uma história dos jesuítas, John W. O’Malley (Edições Loyola)

3.      Crise Colonial e Independência (Editora Objetiva)

4.      Olhando para dentro (Editora Objetiva)

5.      Colonialismo e luta anticolonial, Domenico Losurdo (Boitempo)

6.      Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke (Biblioteca Azul)

7.      Perto do coração selvagem, Clarice Lispector (Rocco)

8.      A paixão segundo G.H., Clarice Lispector (Rocco)

9.      A hora da estrela, Clarice Lispector (Rocco)

10.  O Cristianismo na Idade Média, Danilo Mondoni (Edições Loyola)

11.  O Cristianismo na Antiguidade, Danilo Mondoni (Edições Loyola)

12.  E os cristãos se dividiram, Danilo Mondoni, (Edições Loyola)

13.  A Caminho com Inácio, Arturo Sosa (Edições Loyola)

14.  O peso do pássaro morto, Aline Bei (Nós)

15.  Pequena coreografia do Adeus, Aline Bei (Companhia das Letras)

 

 

Daniel Viana

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