terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

O peso do luto passeia pelos bulevares

  

         Chegamos ao primeiro aniversário da invasão russa às terras ucranianas, e nada parece deter a selvageria devoradora das armas modernas e dos belicistas que as têm consigo; sangue é derramado e vidas são tomadas, dia após dia, sem que surja qualquer sinal de trégua entre os adversários. Não tenho dúvidas de que este será visto como um dos momentos mais emblemáticos da primeira metade do Século XXI, junto com o atentado às Torres Gêmeas, a quebra do Lehman Brothers e a Pandemia do Novo Coronavírus. Milhões de vidas foram atingidas pela invasão russa, alimentando medo e ódio nos corações de povos que, antes, se consideravam irmãos.

Há décadas que os europeus não testemunhavam uma guerra de vastas proporções em seu entorno geoeconômico e geoestratégico. Pensava-se que seu belicismo se encerrara em 1945, e que, após o desaparecimento da temida “ameaça comunista”, a Europa repousaria numa fraternidade ad aeternum. Porém, a disputa entre a ordem estabelecida pelo Ocidente e seu maior contestador, Vladimir Putin, veio à tona em dimensões assombrosas. Tanques, drones, misseis e tropas russas cruzam as planícies da Europa Oriental, tendo como alvo as localidades ucranianas a leste do Dnieper. A resiliência dos ucranianos surpreende a todos, mas não durará para sempre. Fala-se que o número de mortos pode ter ultrapassado os cem mil. E, segundo o Kremlin, nenhuma manobra militar está descartada, o que, logicamente, inclui o uso de armas de destruição em massa contra as forças de Kiev e sua população civil.

Ao contrário do que a imprensa e o senso comum nos repetem à exaustão, a eclosão de uma guerra não se deve apenas ao “fracasso do diálogo” ou ao “desrespeito à coexistência pacífica” entre forças rivais, mas a um sinal claro da fragilidade dos avanços feitos pela Humanidade em séculos passados, como, por exemplo, a simples noção de um “Direito Internacional” a ser respeitado pelo “concerto das nações”. Na realidade, as regras postas no papel são incapazes de deter a beligerância das grandes potências, sejam elas do Ocidente ou de qualquer outro lugar. As regras feitas à mão têm força, quando os reais detentores do poder concordam que assim o seja. Alteradas as circunstâncias, novas regras serão concebidas e impostas pelos vencedores aos vencidos.

No tabuleiro dos interesses imperiais, os possuidores de matérias-primas, abundante mão de obra e posições estratégicas, convivem com a faca no pescoço. Vulneráveis à voracidade dos tiranos, tais nações são obrigadas a se curvar para títeres, arrivistas, elites servis e ditaduras sanguinárias, exatamente como ocorrera conosco à época do Golpe de 1964. Os imperialistas explorarão justificativas “civilizatórias”, perfumadas com o bom-mocismo hollywoodiano, forte o suficiente para cativar a opinião pública do hemisfério ocidental. De fato, no que diz respeito a uma horizontalidade do acesso à informação, os avanços da internet não impediram que os EUA reproduzissem, mais uma vez, a verdade imposta ao resto do mundo. Tendo em vista sua astúcia imperial, os estadunidenses elegem os mocinhos e vilões, os agressores e agredidos, numa eficiência ainda inalcançável para seus opositores. Lutar contra essa rede de ilusões, é uma tarefa incontornável para os que buscam ter sua própria soberania e libertação.

Para os ocidentais, há algo de “diferente” nesta guerra. Antes, os afligidos pelas bombas e mísseis eram afegãos, somalis, iraquianos, sírios, líbios e outros povos distantes, segregados dos centros capitalistas. Antes, a decrepitude dos cadáveres e os urros de terror estavam afastados das belíssimas avenidas parisienses e das pontes sobre o Tâmisa. Antes, a guerra parecia uma idiossincrasia do Terceiro-Mundo, um traço exclusivo das subculturas periféricas, tipicamente semiletradas e incivilizadas.

Agora, os europeus veem os cadáveres de perto e sentem o cheiro da morte chegar às suas casas; o inenarrável peso do luto passeia pelos bulevares; os jatos e tanques que despejavam bombas nas “terras obscuras e sub-humanas”, agora caem sobre seus pontos turísticos, suas praças, hotéis, igrejas, shoppings, praias e mansões de luxo. Agora, os mortos e desterrados têm pele alva e olhos claros, parecem-se com seus filhos e irmãos; eles batem à porta dos vizinhos afortunados por vastas riquezas à procura de emprego e abrigo, sendo que a economia estagnou-se, a inflação decolou e não há emprego para todos.

          A guerra entre russos e ucranianos reafirma uma dantesca tragédia: nada nos impede de retroceder ao primitivismo mais implacável e inumano. Aquilo que exaltamos como fruto de nosso progresso filosófico e material, tão comumente consagrado à eternidade, pode implodir numa semana agitada, até mesmo no espaço de algumas poucas horas. Na verdade, a globalização nos pôs enfileirados sobre uma corda esticada ao máximo: a despeito dos terríveis vendavais do século passado, temos conseguido nos equilibrar, porém, se nos descuidarmos para aquilo que nos mantêm unidos, isto é, a busca sincera por um mundo melhor para todos, cairemos imediatamente no mesmo abismo, e este será o fim para toda a Humanidade.

Nos tempos atuais, tal ameaça nunca esteve tão próxima de se realizar quanto nos últimos doze meses. Cada vez mais, a linha tênue se estica, ao mesmo tempo que os adversários afirmam não querer ou planejar uma Guerra Mundial. O fato é que suas ações os contradizem. A todo momento, os rivais financiam o esforço de guerra, despejam bombas, matam civis, refazem seus estratagemas e recrutam mercenários.

Para que estejamos lúcidos em meio à tempestade, falta-nos uma peça no quebra-cabeças do cenário internacional. Trata-se da perspectiva russa quanto à guerra, que é, em parte, um capítulo da criação de um mundo multipolar. Com efeito, a maioria do nosso povo desconhece a Rússia; possivelmente não saibam nem onde localiza-la no mapa; e, ao serem apresentados pelas vozes da imprensa brasílica, recebem uma caricatura desenhada pelo setor propagandístico dos EUA. Não é por acaso que a maior parte da imprensa se esforce em deturpar as motivações russas: estamos habituados a papaguear tudo que nos chega do norte; poucos ainda guardam algum senso crítico.

Essa manipulação em larga escala é parte da grande guerra em curso, do esforço estadunidense em sustentar o status quo, anunciando a reedição de mais um século americano. No entanto, essa disputa está longe de um desfecho favorável a Washington, indicando, caso todos optem por não se matar, uma transição em câmera lenta para a multipolaridade. Por outro lado, acredito que, enquanto houver países com armas de destruição em massa, a verdadeira paz jamais irá se concretizar. O temor de um rompante, por parte de um país vizinho ameaçador, bem como traumas de guerras passadas, obriga as nações a buscar meios de dissuasão cada vez mais extremos. Há que se chegar a um consenso global sobre essas terríveis armas.

Isso jamais ocorrerá sem a anuência de Moscou, o que nos traz de volta ao conflito na Ucrânia.

Em primeiro lugar, os russos jamais aceitarão um desfecho que comprometa, a médio e longo prazo, seus objetivos estratégicos, o que inclui a segurança de suas bordas ocidentais, haja vista que a região sofreu três invasões em dois séculos, cujo objetivo foi aniquilar e, no caso dos nazistas, escravizar os eslavos. Para a glória do povo russo e de seus aliados, todos foram vencidos e humilhados. Uma instabilidade nessa região põe em grave risco centros históricos, como Moscou e São Petersburgo, berços não só da cultura russa, mas também de todos os povos de língua eslava. Portanto, ter segurança, influência e controle sobre as terras a oeste do Kremlin, será, com toda certeza, uma demanda de Putin aos seus adversários na mesa de negociações.

É óbvio que, para angariar apoio interno, o Kremlin esforçou-se em deslegitimar a soberania, a liberdade e a paz de seus vizinhos. Nos dias de hoje, o invasor precisa maquiar suas intenções, apresentando justificativas minimamente louváveis, lógicas e coerentes, sejam elas verídicas ou não. Para tanto, Putin acusou a expansão da OTAN, as sucessivas agressões aos separatistas próximos à fronteira russa, a proliferação de grupos neonazistas etc. Nenhuma dessas alegações é falsa, mas nenhuma delas sustenta a necessidade de uma invasão armada e o prolongamento de uma guerra sem-fim.

Quem detém legitimidade para negar a adesão de Kiev à OTAN e à União Europeia, senão o povo ucraniano em si? É compreensível que, nesta fase histórica, os ucranianos queiram aproximar-se da União Europeia. Afinal, orbitar em torno da próspera Alemanha, em tese, parece ser mais proveitoso que em torno da nebulosa Moscou. Os tempos gloriosos do czarismo e do bolchevismo se foram; agora, eles não passam de peças de museu. Os russos jamais deveriam, a partir de seus próprios interesses, exercer uma ingerência criminosa em nações vulneráveis e periféricas. Quem condena o intervencionismo estadunidense, por sua arbitrária e bárbara sede de poder, deveria somar-se à condenação da invasão às terras ucranianas. Agir de maneira contrária, é um sinal de contradição e fanatismo.

 Tal como já disse em análises passadas, não sou especialista em Relações Internacionais. Apenas traço, a partir do meu escasso alcance inquisitivo, algumas ideias e impressões, cacos de vidro que tento reunir numa interpretação compreensível e consistente. Como a maioria das pessoas, sinto-me esmagado pela torrente de informação — e desinformação — que circula, desvairadamente, nas vielas sinuosas da internet. Abraçar alguma certeza, tem se tornado mais contraproducente a cada ano que passa. Certamente, o silêncio tornou-se a opção de quem não quer colocar o próprio pescoço na guilhotina.

O conflito na Ucrânia é, em parte, um acirramento da luta geopolítica entre o Ocidente e a aliança euroasiática, vista como ameaça intolerável à hegemonia de Washington, sejam eles republicanos ou democratas, negros ou brancos, homens ou mulheres. Tal aliança deve, na interpretação dos falcões, ser extirpada a qualquer custo, sempre em nome da liberdade, da democracia e de sua segurança nacional. Pois só uma união entre chineses e russos pode colocar em xeque o “Novo Século Americano”, que se traduz em mais pobreza, destruição e morte para os países periféricos e emergentes. Assim sendo, o embate geopolítico do nosso século foi delimitado na década passada: de um lado, encontra-se o sistema de dominação neoliberal, encabeçado pelos EUA; enquanto que, do outro lado, emerge a proposta de integração e prosperidade concebida por Xi Jinping e o Partido Comunista Chinês, as Novas Rotas da Seda.

Na realidade, a sombra do dragão chinês já encobriu vastos continentes nos últimos anos. Hoje, o principal parceiro econômico de quase todo o continente africano e latino-americano é a China. Por todo lado, obras de infraestrutura financiadas com capital chinês, povoam a paisagem de nações exploradas e empobrecidas, deixando a marca da influência chinesa nestas terras, antes feridas pelo colonialismo europeu. Ao passo que, na Ásia, mesmo seu velho rival, o Japão, não pode se contrapor à influência crescente do dragão nas nações vizinhas.

Ano após ano, prenuncia-se que a experiência chinesa sofrerá uma crise terminal, que abrirá a possibilidade de uma derrota irreversível do Partido Comunista frente à sociedade chinesa, cuja sede pela democracia liberal estaria escondida dos holofotes da mídia ocidental. Os arautos dessa ruína profética parecem antecipar que a China Comunista perecerá como um tigre de papel, tal qual ocorrera com sua predecessora, a União Soviética. Certamente, o futuro nos trará surpresas, mas o que se comprovou até aqui, geração após geração, foi a resiliência obstinada não só dos comunistas chineses, mas também dos cubanos, vietnamitas e norte-coreanos. Por enquanto, mesmo com a desaceleração de sua economia, as expectativas da liderança do Partido Comunista têm sido realizadas.

A perspectiva de uma irmandade com os chineses, possibilitou a Putin implodir seus laços com o Ocidente sem cair numa depressão econômica de vastas proporções. Pouco a pouco, a Rússia tem acoplado toda sua sociedade à civilização chinesa, seja no aspecto econômico, seja no aspecto militar e político. Foi uma jogada de extremo risco, mas que, até agora, tem lhe permitido esgrimir contra a Ucrânia e fazer ameaças à OTAN. Putin e Xi Jinping, os desafiantes da velha ordem, confiam entre si, ou seja, a maior potência militar eurasiana e principal fornecedora de gás natural do mundo, aliou-se à locomotiva do capitalismo contemporâneo. União ideal para ambos; terror gélido para seus adversários.

Suspeito que a década atual (2023-2033) será de enorme importância quanto aos processos apontados ao longo deste ensaio. Aproximamo-nos de uma virada decisiva nessa encarniçada disputa? A resposta para essa questão é: não há como predizer qual lado emergirá na condição de vencedor. É simplesmente impossível prever quando ou como tudo isso se encerrará. Nenhum dos adversários está imune de ser golpeado fatalmente; ambos trazem problemas internos que tendem a se agravar e rivais por todos os lados, de modo que seus planos podem naufragar a qualquer momento. Por fim, enquanto existirem armas de destruição em massa, não estará descartada a possibilidade de nos destruirmos pelas nossas próprias mãos; seu desmantelamento e proibição devem ser tarefas imediatas para quem luta pela autodeterminação dos povos, pela prosperidade das nações e, em última instância, pela paz mundial.

           

Daniel Viana de Sousa

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domingo, 8 de janeiro de 2023

Brasília em disputa

  

Os fatos se sucedem rapidamente. Novas informações chegam a todo instante para quem se dispõe a lê-las. De fato, quem antecipava, ou mesmo sonhava, que o ano de 2023 seria um passeio no parque para o novo governo, acaba de colidir com a duríssima realidade da grande crise brasileira, tal qual um motorista cego bate de frente com um incontornável muro de aço e concreto.

A fúria extremista, gestada há anos pelo regime bolsonarista, atinge o coração da democracia, pondo em xeque toda a institucionalidade brasileira. Os prédios públicos que melhor simbolizam o Estado Democrático de Direito foram invadidos, saqueados e aviltados por uma turba de criminosos enlouquecidos. Aquilo que fora ensaiado muitas vezes, com a coordenação do próprio Jair Bolsonaro, concretizou-se de maneira sórdida e bárbara. Não seria exagero afirmar que a crise política iniciada, há quase dez anos, com os protestos de Junho de 2013, alcançou hoje um ponto de tensão nunca antes visto. Hoje pode ter sido o pior dia da República desde o fim da Ditadura Militar.

Tanto os militantes comprometidos com a luta anticapitalista e antifascista, quanto os cidadãos defensores dos valores democráticos, devem se manifestar publicamente. Calar-se, significa abrir brechas para a extrema-direita. A democracia liberal tem contradições e limitações gritantes, porém o surgimento de um regime fascista seria um retrocesso civilizacional de proporções nunca antes vista em nossa amada terra. Nesse ponto da história humana, em que uma crise climática e humanitária bate à nossa porta, se mergulharmos no extremismo fascista, haveremos perfurado o último prego do próprio caixão.

O que vier a partir de agora, pode determinar o restante do Governo Lula. Se o presidente e seu entorno político demonstrarem fraqueza ou confusão, correrão o risco de sofrer ataques cada mais violentos, abrindo brechas para um eventual Golpe de Estado. Por enquanto, tal possibilidade ainda é muito distante, porém cogitá-la não está fora da realidade. Uma força política que falha em manter o controle e a ordem social, perde espaço para outra mais forte, que, certamente, achará uma maneira de reprimir seus opositores.

Não pode haver hesitação em achar, prender, questionar e punir tais criminosos; seu lugar é atrás das grades, no banco dos réus e, por fim, no ostracismo; o mesmo vale para seus financiadores, cujos nomes serão trazidos à tona nas próximas semanas. Todos devem emergir do submundo da conspiração virtual e dar satisfações à Justiça do país, inclusive os que se refugiam no exterior, esperando proteção de nações estrangeiras. Chegou a hora de todos mostrarem suas caras em público.

É cada vez mais claro que a batalha política em nosso país não se resolverá tão somente nas urnas, na aceitação do chamado rito eleitoral. Não estamos mais na conjuntura de décadas passadas, em que o questionamento às urnas era conversa de uma minoria maluca. A despeito do esforço de muitos em recuperar um tempo perdido na lembrança, refiro-me aos dois mandatos de Lula, o passado não volta e nem se repete. Para mim, está claro que seu terceiro mandato será, no mínimo, instável, tal qual fora a gestão de Dilma e seus sucessores. Numa perspectiva mais ampla, anunciou-se hoje o alvorecer de uma década tão turbulenta quanto a que se encerrou anos atrás, ou seja, teremos instabilidade política, crise social e estagflação convivendo simultaneamente — somando-se ao agravamento do cenário internacional.

Os fatos se assemelham à invasão do Capitólio norte-americano, ocorrida no início do ano retrasado, que, por algumas horas, deixou de cabelos em pé as classes dominantes daquele país. Há anos, temos visto a intolerância, o autoritarismo e o extremismo se disseminarem mundo afora, tal qual um vírus altamente transmissível. Até agora, nada parece deter essa maré beligerante e corrosiva — confirma-se, assim, a disposição da psique humana para a insanidade, o ódio mais lacerante e autodestrutivo. Enquanto isso, os líderes e movimentos à esquerda tentam livrar-se do desencanto, da apatia e da paralisia, mas lhes falta recuperar a força de sonhar um outro mundo para as gerações presentes e futuras; contentam-se com pequenas vitórias e estratégias repetidas à exaustão. 

Não sou um cientista político. Limito-me a dizer o que penso e a defender publicamente uma posição de radicalismo à esquerda, que se contraponha ao capitalismo dos nossos dias, o principal responsável pelas diversas crises que assolam toda a Humanidade. Exercer a cidadania implica posicionar-se politicamente, seja a favor do status quo ou contra dele. Com efeito, não sou imparcial, tampouco me ausentarei das questões nacionais, a fim de buscar agradar a todos. Ademais, não duvido que exista pessoas mais bem preparadas que eu na seara política, mas não me omitirei. Quem se dispuser a acompanhar minhas modestas publicações, saberá, exatamente, o que penso destes dias que estamos vivendo.

Sinceramente, eu não esperava ter de escrever um texto desses tão cedo; afinal, estamos no comecinho da segunda semana do ano. Mas, como se diz por aí, a realidade se impõe. Cabe a nós, seus mais fiéis estudiosos, interpretá-la com esmero e lucidez. 

 

Daniel Viana de Sousa

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sábado, 31 de dezembro de 2022

Esterco político e futuro promissor

 


Para o bem daqueles que sonham com um país renascido, um Brasil liberto de seus males inumanos e ancestrais, já podemos anunciar a plenos pulmões: o cativeiro acabou!

Que o energúmeno presidente vá embora de uma vez, e nunca mais volte a pisar nas terras que ajudou a arruinar. Sua fuga canhestra representa a vitória de todos os progressistas, socialistas e democratas, bem como a redenção dos diversos grupos sociais marginalizados e perseguidos pela extrema-direita.

Se Lula conduzirá uma gestão inovadora, responsável e eficiente, proporcionando justiça social, estabilidade socioeconômica e combate à corrupção, já é outra conversa. Deve-se dar um passo de cada vez, sem a arrogância de crer-se capaz de resolver tudo numa canetada.

Agora, com o fascismo derrotado eleitoralmente, de fato, emerge, ao alcance da vista mais exaltada, um momento de esperança há muito ansiado, pois se encerrou o ciclo político dos Bolsonaros e sua caterva, a mais parva, inepta, burlesca e criminosa gente a ocupar o Palácio do Planalto.

A despeito da desconfiança que uma chapa Lula-Alckmin pode vir a causar na militância socialista — na qual eu me incluo —, não se pode negar a mudança que se opera em nosso meio. A conclusão que qualquer um pode chegar é muito simples: o ressurgimento político de Alckmin é preferível a uma vitória da extrema-direita, que, felizmente, não ocorreu.

Mesmo com 58 milhões de votos conquistados, ou seja, o melhor desempenho de um presidente em eleições, Bolsonaro não soube fortalecer-se após o resultado das urnas, apequenando-se mais e mais, tanto aos olhos dos seus adversários quanto àqueles que se dispuseram a cercar os quarteis, ansiosos por se livrarem da democracia que, em 2018, os trouxe ao poder e que agora os devolve à lata de lixo da História. Ao contrário do Partido dos Trabalhadores (PT), que, em 2016, não hesitou em descer a rampa do Palácio que ocupara há mais de uma década, e que, nas eleições passadas, aceitou — num republicanismo inconteste — a derrota para a extrema-direita, Jair Bolsonaro cola em sua testa a figura de mau perdedor, mau-caráter e líder antidemocrático. Em suma, ele usufrui da democracia quando ela o favorece, porém a despreza quando o resultado é contrário aos seus interesses egocêntricos.

Não foi à toa que, desde o resultado das Eleições, vieram à tona as figuras mais histriônicas e hilárias. Ocupando as portas dos quartéis na vã esperança de que algum tipo de reviravolta tomasse de assalto a cadeira presidencial, os desmiolados da extrema-direita apelam à truculência, ao autoritarismo, ao voluntarismo mais delirante, ao sebastianismo mais vira-lata que já se viu em terras tupiniquins. No fundo, eles não têm o que fazer. Lamentam o fim das Eleições, tal qual lamentamos o fim da Copa do Mundo ou o desfecho de uma série muito querida. Falta-lhes assunto à mesa, algo que ocupe o vazio na cabeça — limitaram-se à pequenez da política cotidiana e, agora, precisarão purgar-se do consumo irresponsável de tanta mediocridade, caso contrário, chafurdarão no lamaçal desse sinistro obscurantismo, que nos afundou no atraso, na miséria, no isolamento e no adoecimento coletivo. Decerto, não tenho dúvidas de que até o lero-lero dessa subcultura extremista seja altamente prejudicial à alma humana. Logo, querem um terceiro, um quarto e um quinto turno, pelo menos até que Bolsonaro se reeleja, dando-lhes o conforto de uma ingênua certeza: “o país foi salvo do comunismo”.

Mesmo assim, Jair Bolsonaro não atendeu aos pedidos dos “patriotas”, comprovando que seus flertes autoritários resumiam-se a uma tosca bravata. Faltou-lhe um sinal claro por parte das Forças Armadas? Ainda não se sabe. Tais informações começarão a circular a partir de 2023, de modo que seria leviano afirmar hoje alguma coisa do tipo: “os militares são legalistas” ou “os militares de hoje não querem mais dar golpes”. A caserna nunca foi uma instituição, realmente, transparente e popular; tampouco, se alheou em definitivo da política após o fim da Ditadura (1964-1985); basta recordar a agitação e desconfiança, por parte alguns de seus setores mais retrógrados, com a Comissão da Verdade, que se estendeu de 2011 a 2014, no primeiro mandato de Dilma Rousseff. Assim diz o célebre ditado popular: quem não deve, não teme.

E, de fato, Bolsonaro tem razões para preocupar-se. Dentro de poucos dias, a corda estará em seu pescoço, estrangulando-o mais e mais. A viagem aos Estados Unidos pode ser uma de suas rotas de fuga. Há tempos que as irregularidades e ilicitudes se acumulam não só à sua volta mas também no âmago da sua família, mas não vou me ater ao ocaso da linhagem bolsonarista, pois isso exigiria demasiada informação neste textinho que estou a escrever.

Como disse, sua prioridade será fugir da cadeia, guardando para si os restos de sua relevância política no seio do espectro anticomunista e reacionário da sociedade brasileira. Por enquanto, não há nada de novo nesse esgoto emporcalhado da extrema-direita brasileira, de modo que se mantém viva a possibilidade de que Bolsonaro — ou um de seus filhos — se candidate em 2026, especialmente se Lula definhar e Trump conseguir a façanha de voltar à Casa Branca, repetindo outra vez a ascensão do autoritarismo no hemisfério ocidental. Resta saber se Lula fará um mandato minimamente digno do seu retorno ao centro político do país. Caso isso se concretize, o retorno da velhacaria bolsonarista irá demorar mais quatro anos.

Ademais, ao contrário de Lula, Bolsonaro não deixará qualquer legado às gerações vindouras, exceto sua tragicômica lembrança. Em décadas futuras, a marca do seu curto mandato será a de um sujeito bocudo, agressivo, insensato e insensível, um salteador do cofre público, absolutamente, incompetente e desumano, cuja conquista foi cevar a guerra em nossa terra, já tão sofrida por males e enganos. Diante disso, devemos nos perguntar: qual foi sua grande obra? qual transformação Bolsonaro foi capaz de implementar em benefício dos mais pobres? o que deixou para aqueles que o sucederem? A resposta é, simplesmente, NADA. As inumeráveis celeumas que protagonizou, a desavergonhada inépcia diante dos obstáculos socioeconômicos do nosso país, reconhecendo, ainda em 2019, que não nascera para ser presidente, e a aberrante gestão da saúde pública no decorrer da Pandemia do Novo Coronavírus, foram algumas das principais marcas do seu mandato catastrófico. 

(Se você chegou até aqui, provavelmente já notou que há um inesgotável leque de possibilidades para se adjetivar Bolsonaro e sua claque de larápios. Para mim, encontrar tantas palavras para descrever esse desgoverno, não é uma labuta intelectual extenuante, tampouco um esforço para chamar a sua atenção; trata-se, antes de tudo, de um divertimento.)

Enfim, não se pode negar que passamos pela fase mais dramática da Redemocratização. Há até quem diga, com boas razões, que esta foi a maior crise de toda nossa história. Pois, se somarmos os eventos acumulados desde Junho de 2013, as crises passadas não nos dividiram tão violentamente quanto esta que se aproxima do seu término. As projeções mais recentes acerca do PIB indicam que 2023 será um ano de crescimento minguado, tal como ocorrera na década passada. No entanto, uma economia fraca não é necessariamente um estopim de crises maiores, tampouco se trata de um mal irremediável. Em geral, as grandes crises são o desenlace conjunto de fatores altamente explosivos, que se acumularam ano após ano, sem que os governantes se dispusessem a encontrar uma solução que as desarmassem; a princípio, tais crises põem em risco uma sociedade por inteiro, porém, no capitalismo, é a classe trabalhadora quem arca com os custos, enquanto que a casta dos abastados desfruta de um patrimônio quase intocado. No atual sistema econômico, como os marxistas nos falam há mais de um século, a crise se constitui como um aspecto orgânico do sistema em si. Achar uma solução definitiva para essa repetição sucessivas de crises, implica, necessariamente, em superar o próprio capitalismo, porém, em certos ambientes, discutir a superação do capitalismo ora é visto como piada, ora é tratado como um tabu.

Enquanto o capitalismo não morre, voltemos às nossas questões que, embora pareçam provincianas, impactam todo o sistema-mundo.

Foi-se embora o emblemático cercadinho; os caminhões da mudança já expurgaram os salões presidenciais, e aquilo que, há alguns meses atrás, parecia distante, está se consumando diante dos nossos olhos. Bolsonaro perdeu! O esterco está sendo varrido, tal qual um câncer é extirpado de um corpo adoentado; sua persistente sobrevida marcou a todos, lacerou a carne de inocentes, vitimou os mais vulneráveis… porém nada sobrevive à mudança dos tempos. As vítimas de sua gestão devem ser lembradas e redimidas, de modo que, anistiar os algozes da matança bolsonarista, seria o maior tropeço da recém-inaugurada presidência petista. Há que se fazer justiça, a fim de que não se repita a impunidade criminosa em relação aos inconciliáveis crimes da Ditadura Militar.

Amanhã, a despeito das críticas que se possa fazer a Lula e ao PT, se iniciará um novo tempo para o povo brasileiro.

 

 

Daniel Viana de Sousa

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sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Livros lidos em 2022

 

      O ano de 2022 marcou, profundamente, minha vida pessoal, espiritual e intelectual. Os detalhes dessa aventura estão espalhados em textos que publiquei ao longo dos meses, além de outros que pretendo terminar futuramente — à exceção daquilo que pretendo reservar àqueles que me veem de perto. Afinal, todos têm direito a um pouco de discrição em suas vidas.

Aquilo que vou apresentar aqui, ao final de mais um ciclo formativo, é a lista dos livros e autores que li em 2022. Eventualmente, o leitor notará que, neste ano que está prestes a acabar, li quase o mesmo que em anos passados. No entanto, quero deixar claro minha insatisfação quanto ao resultado final. Obviamente, ler não é uma prova de atletismo ou uma espécie de exibição circense, isto é, quantidade e velocidade não são o mesmo que qualidade. Pois há livros e escritores incontornáveis, cuja densidade e complexidade equivalem a dezenas de autores medianos; quem se dedica à leitura sabe bem do que estou falando. Contudo, tenho clareza de que, como escritor e ambicioso aspirante a humanista, eu deveria ler ao menos o triplo do que apresentarei aqui.

Há muito por se aprender, meus estimados leitores e leitoras! O universo cultural e científico criado, ao longo dos últimos milênios, pelos mais notáveis da Humanidade é algo que beira ao infinito; de fato, ninguém pode declarar que sua jornada intelectual concluiu-se, que chegou ao seu limite. Com efeito, quanto mais me dedico à leitura e ao estudo, mais compreendo a profunda dimensão da minha vexatória ignorância. É por causa disso que me frustro com os resultados do meu esforço. Não escondo meu lado preguiçoso e indisciplinado, prisioneiro da procrastinação mais entorpecida e irresponsável. Muitos ainda esperam que isso se resolverá em algum momento do futuro, mas, estando prestes a completar trinta anos, desconfio que esse traço da minha personalidade se manterá inalterado. Enfim, suspeito que serei discípulo dos velhos mestres até o fim da minha vida, o que não se configura como algo necessariamente ruim.

Por fim, espero que esta listinha propicie, aos meus leitores e leitoras, uma noção aproximada do meu percurso ao longo do ano. Evidentemente, não incluí na lista os textos que li na internet, pois a quantidade é demasiadamente elevada, além de estarem dispersos em vários sites e colunas.

 

1.      Vida e morte no budismo tibetano, Chagdud Tulku Rinpoche (Makara); Portões da prática budista, Chagdud Tulku Rinpoche (Makara);

2.      Chamamento ao povo brasileiro, Marighella (UBU);

3.      A política armada, Hector Luís Saint-Pierre (Editora UNESP);

4.      A igreja militante, Charles R. Boxer (Companhia das Letras);

5.      China Tropical, Gilberto Freyre (Global Editora);

6.      Nordeste, Gilberto Freyre (Brasiliense);

7.      Revolução Coreana, Paulo Fagundes Visentini, Helena Hoppen Melchionna, Ana Lúcia Danilevicz Pereira (UNESP); Revolução Cubana, Luís Fernando Ayerbe (UNESP);

8.      Ensaios escolhidos, Augusto Meyer (José Olympio Editora);

9.      Machado de Assis – Vida e Obra Vol. 2, Magalhães Júnior (Record);

10.  Os sofrimentos do jovem Werther, Goethe (Penguin – Companhia);

11.  A arte do Romance, Milan Kundera (Companhia das Letras);

12.  Por que escrevo, George Orwell, (Penguin – Companhia);

13.  O Estrangeiro, Albert Camus (Record);

14.  O Mito de Sísifo, Albert Camus (Record);

15. Mensagem, Fernando Pessoa (Nova Fronteira).

 

Daniel Viana de Sousa

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sábado, 29 de outubro de 2022

Memórias deste mês de Setembro (Parte II)

 

Dizer que somos perpetradores e vítimas do nosso entorno é uma obviedade. Tanto contribuímos quanto somos vitimados pelas escolhas dos outros. Reconhecer a própria responsabilidade nessa tempestade que nos devora, é um sinal raro de lucidez e uma amostra de maturidade. De fato, mesmo aqueles que se dizem “neutros”, são construtores da realidade que nos rodeia, pois se recusam a combater, apoiar ou criar um novo lado na cotidiana batalha das ideias. Sempre há algo por ser dito, uma palavra que, ao ser proferida, desvia levemente o rumo ou a interpretação dos acontecimentos diários. Silenciar-se não é ausentar-se, mas se envolver na indiferença por outros meios.

A indiferença da nação no 7 de Setembro de 2022 foi um grito paralisante e sintomático, um sinal do nosso Brasil nessa terceira década do século XXI. Com duzentos anos de “independência” completos, nos comportamos com uma indisfarçável apatia política: fomos à praia, à piscina do prédio, ao cinema da esquina ou à casa da namorada, como se fosse um feriado qualquer, uma insossa data festiva, sem qualquer significância pessoal ou coletiva. Ao invés de nos mobilizarmos na data mais emblemática da nossa nacionalidade, optamos pela distração e o gozo individual. Certamente, não cabe a mim fazer qualquer juízo moralizante acerca do comportamento das pessoas. Afinal, o esgotamento físico e mental ao longo de sucessivas semanas de trabalho merece o devido descanso.

Contudo, a realidade não se transforma sem ação.

Muito poderia ter sido feito, tal qual ocorrera há cem anos atrás, na Semana de Arte Moderna. Nossos compatriotas não são infecundos, nem insensíveis ao que vem ocorrendo nos últimos decênios; aliás, suspeito que haja muita inventividade contida nas periferias, onde não se teme ousar, atrever-se a dar à luz a algo novo, insurgindo-se contra os ditames das classes dominantes. Contudo, no ano do Bicentenário da Independência, não se noticiou nada que contagiasse os jovens, os artistas e os demais grupos sociais que compõem a sociedade brasileira contemporânea. A indiferença coletiva se manifestou num marasmo completo, um desleixo contagioso e desanimador.

Mas, afinal, qual liderança conduziria tal processo de forma diferente?

Há um desencantamento que nos salta os olhos por toda parte, seja na escola ou na fábrica, na delegacia ou na praça… há quem fale que o Brasil falhou, definitivamente, como nação, incapaz de achar uma solução para seus dilemas, mazelas e contradições — será que isso explicaria a indiferença quanto ao Sete de Setembro? Ao longo da História, houve quem tentasse explicar tal sensação íntima — e ao mesmo tempo coletiva — de fracasso nacional. Por incrível que pareça, já disseram que o calor tropical seria a razão que nos condenaria ao subdesenvolvimento! Não creio que possa apresentar aqui uma solução, haja vista que isso requereria a reflexão conjunta de economistas, sociólogos, ambientalistas, empreendedores, políticos etc., profissões que estou longe de querer exercer. Entretanto, estando na condição de cidadão, acho que posso dar algumas opiniões sobre o que vem ocorrendo no Brasil.

Trago este texto às vésperas do segundo turno das Eleições de 2022, de tal maneira que posso lhe afirmar que, independentemente de quem triunfar, o Brasil se conservará fendido, gravemente enfermo das contradições que tem acumulado, no mínimo, desde o impeachment de Dilma Rousseff (2011-2016). Se olharmos numa perspectiva histórica mais abrangente, chegaríamos no Golpe de 1964, responsável por aniquilar um genuíno movimento democrático-popular que lutaria a favor das Reformas de Bases, propostas pelo presidente Jango (1961-1964). Bem mais que os governos do PT e o PSDB, o Golpe de 64 construiu boa parte da sociedade que temos hoje: uma brutal desigualdade social, a favelização dos grandes centros urbanos, a formação de monopólios da comunicação, a concentração de terras em grandes latifúndios etc.

Sempre que pensamos no Brasil que temos — e no Brasil que virá —, lidamos, diretamente, com a herança de gerações passadas, aquelas que lidaram com os desafios de se construir um país como esse, nascido do escravismo, do colonialismo, do extermínio, do obscurantismo, da monocultura e do racismo. Reduzir tais elementos a meras “coisas do passado”, como se seus efeitos se dissociassem do presente, é um erro crasso e um claro apagamento das lutas populares contra as sucessivas opressões que se formaram em nossa história nacional. Os descendentes destes canalhas não querem que o povo tenha memória, muito menos ânimo para lutar nas ruas, pois recordar significa resgatar a luta dos esquecidos, dos vencidos e dos traídos.

Há uma obra inconclusa à espera de um líder capaz de soerguer toda uma nação que sai da sua pior década aos frangalhos. Deixando à parte os bilionários, quase todos sofreram — cada um na sua própria bolha socioeconômica — duríssimos golpes na pandemia, sem contar as vítimas diretas e indiretas da doença em si. Somando-se isso aos demais fatores econômicos e políticos, é cada vez mais claro que o Brasil se vê afogado em crises sistêmicas, convencendo alguns de que não há solução dentro da ordem democrática, de modo a conjecturar rupturas com a Constituição de 1988. A necessidade da sustentação (ou não) dessa democracia que temos há mais de três décadas, será discutida por mim em outro texto.

O trabalho de reconstruir esse país desde suas fundações, cuja responsabilidade, provavelmente, recairá nos ombros de Lula (2003-2010), não se encerrará em poucos anos. Se Jair Bolsonaro (2019-2022) for derrotado, tanto nas urnas quanto nas ruas, veremos o fascismo varrido do Palácio do Planalto, mas não o veremos extirpado do seio do Brasil. Brasília não é o Brasil! Há uma discrepância abissal entre a realidade cotidiana do povo e a vidinha maçante do parlamentar brasileiro. O destino do país sempre esteve nas mãos da classe trabalhadora — mesmo que inconsciente disso —, e não nas mãos dos congressistas engravatados, títeres das forças econômicas que nos tiranizam há mais de cinco séculos. Se as massas se mobilizarem a favor da liberdade, da soberania e da igualdade, o status quo estremecerá e as janelas se abrirão para um novo momento histórico do povo brasileiro.

Há que se ter paciência generosa, confiança e coragem heroicas. Caso contrário, nos afundaremos na depressão e no desespero. O momento em que vivemos, nos exige um sacrifício genuíno por uma causa maior que qualquer individualidade, tendo sempre em mente aqueles que estão por vir e que, certamente, nos julgarão do futuro. Nossas decisões se preservarão por muitos anos na carne, na terra, na água e na memória coletiva. O que diremos a eles? Ergueremos nossa fronte orgulhosamente ou seremos tomados por um vexame súbito? Trata-se de um divisor de águas para mim e você, para quem virá ou que está chegando agora, de modo que a responsabilidade pelo futuro pertence a todos. Nesse cenário, tal como ocorrera em Abril de 1964, não há espaço para isenção ou descompromisso, neutralidade ou bom-mocismo.

Portanto, a luta deve ser renhida e a disciplina precisa ser espartana, sem dar descanso ao fascismo que espreita. Lutemos nas praças, nas escolas, nos presídios, nas favelas, nas florestas e nas praias. Viva o Brasil! Viva o povo brasileiro!

 

 

Daniel Viana de Sousa

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sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Memórias deste mês de Setembro (Parte I)

 

Fui no sábado (10/09), com meus irmãos, ao show de despedida do Bituca. Que honra! Poucas vezes havia feito uma viagem que me desse tanto prazer.

Esse não foi meu primeiro show de Milton Nascimento, nem foi o mais impactante que presenciei, contudo, quando se está acompanhado de grandes amigos, tudo merece ser lembrado por muitos anos; trata-se de uma experiência sensitiva e espiritual insubstituível, pois nada e nem ninguém repetirá cada brilho, cada explosão sonora, cada surpresa que nos imergiu num oceano revolto de sensações únicas. Esses momentos não tornarão a ocorrer, de tal maneira que será criada, em nós que lá estivemos, a marca de que passamos por algo que toca a magia de se viver, que sombreia o enigmático sentido de estarmos no aqui e agora.

Esse foi um dia feito para se viver vagarosamente, sem pressa de sentir cada sensação interior; ao mesmo tempo, ele também foi feito para conversar a respeito do que anda rolando por aí. Refiro-me, claro, à política, que entra em ebulição à medida que Setembro se despede, dando lugar às expectativas de Outubro. É preocupante como tantas pessoas depositam, no embate do próximo mês, a principal condição para continuarem felizes ou não, isto é, o triunfo do petismo ou da extrema-direita. Qualquer que seja o resultado, muitos, ao se darem conta de sua derrota, vão perder a cabeça por algumas horas, dias ou semanas. Portanto, deve-se ter cuidado após a abertura das urnas. Afinal, a política não se encerra nas eleições, e ainda persiste a possibilidade de Bolsonaro recorrer a manobras inconstitucionais, isto é, um Golpe de Estado.

Voltemos ao show de Bituca.

Milton foi sensível e nostálgico, capaz de entrar em contato com o que temos de mais íntimo. Poucos detêm a chave que acessa tais profundezas, despertando em nosso peito os sentimentos mais singelos. Hoje, a maioria dos “artistas” executam performances espetaculosas, regurgitando uma cacofonia sonora e compondo letras de gosto duvidoso. Nos casos menos catastróficos, “os artistas” fazem pastiche, imitações de meia-tigela, que lhes rendem algum espaço no mercado da subcultura, de tal maneira que acabam angariando alguma fortuna para si e, obviamente, para aqueles que mexem os pauzinhos por trás da cortina.

Este não é o caso da maioria dos artistas brasileiros que obtiveram algum sucesso comercial. Seria tolo ignorar, por exemplo, o êxito estético e comercial de uma canção belíssima como Garota de Ipanema, ou fazer vista grossa para a obra de nomes como Chico Science, Raul Seixas, Baden Powell, Ney Matogrosso, Cartola, Tim Maia, Elis Regina etc. Certamente, Tom Jobim e Vinicius não são os únicos da nossa terra a ocupar o panteão da música nacional e internacional. Ao contrário, muitos ainda emergem da multidão anônima, graças ao seu sacrifício, talento, esforço e, claro, alguma dose de apadrinhamento.

Por outro lado, gênios de verve afiada ainda morrem na praia, sem gozarem de um merecido reconhecimento por sua excepcional inventividade. Bastaria citar o nome trágico do maior afro-brasileiro que se enveredou pela poesia: Cruz e Sousa. O poeta de Desterro nasceu, amadureceu e morreu sem os louros que lhe eram devidos; encoberto pelo racismo e elitismo de uma época em que o escravismo reinava soberanamente, foi oprimido pela miséria e pela indiferença dos seus pares, embriagados com o parnasianismo reinante. Entretanto, bastaria algumas décadas para que ele ingressasse a plêiade dos nossos melhores escritores, sendo visto como um dos poetas mais extraordinários que nasceram no lado de cá do Atlântico. Claro que houveram outros como Cruz e Sousa, tanto antes como após sua morte; na realidade, temo ser esta a sina da maioria, insuportavelmente, posta à parte de qualquer possibilidade de triunfo.

Cabe às novas gerações pôr-se a estudar os que nos precederam, resgatando quem foi esquecido, perdido ou deixado à margem pelas mais variadas razões, refletindo acerca das imposições e circunstâncias que os fizeram perder-se na obscuridade. Afinal, cada época cria — algumas vezes de forma arbitrária e injusta — seus heróis, vilões e figurantes. É salutar criticar-se, de tempos em tempos, o que levou certas figuras a ocupar os altares ou as sarjetas. Quanto a tais regras de julgamento, nós também estamos incluídos, embora seja do costume da crítica não assumir tal falibilidade.

E quanto a Milton Nascimento?

Este músico, nascido de uma mãe solteira e formado no seio de Minas Gerais, é um destes seres cujo vulto, ao atravessar tantos tempos, engrandece a nação, sua gente e sua época. Milton é mais que um musicista habilidoso, ou um compositor bem-sucedido: ele é parte do que nos faz intimamente humanos, capazes de ir muito além do que pensávamos poder. Saber que estamos testemunhando sua partida, é algo que me marca. Pois, ainda me lembro das aulinhas, há vinte anos atrás, na escola pública Maria Geny de Sousa Timoteo, quando a professora nos fez sentar para ouvir, atentamente, “Canção da América” e “Coração de Estudante”. Também me lembro quando meu pai ouvia “Caçador de mim”, dizendo ser esta a canção da sua vida, e minha mãe sentia o mesmo com “Maria, maria”.

Portanto, assim como eu, muitos outros foram tocados por esse artista, que construiu parcerias emblemáticas para a nossa MPB. Estou me referindo àquelas canções com Chico Buarque, Caetano Veloso, Mercedes Sosa, Gilberto Gil etc., listar aqui cada uma delas, demandaria de você, caro leitor, ainda mais de seu exíguo e precioso tempo. Ademais, sendo politizado e sensível às causas sociais, Milton é impecável também nos seus posicionamentos públicos, sem precisar de palavreado para dizer o que ferve no peito para ser dito. Em tempos como este ano atribulado, tal atributo não só é raro, como também é de uma urgência libertadora, tal como se estivéssemos num cativeiro inescapável e dantesco. (Onde estão os nossos libertadores?) Acumulam-se em nosso meio os artistas insossos, tão ingenuamente conformados ao bom-mocismo que lhes é ensinado — ou imposto — desde bem cedo. Buscam agradar gregos e troianos, sendo que ninguém pode fazê-lo sem implodir a própria consciência. Milton os supera com larguíssima vantagem.

Entretanto, digo a quem me lê que este ensaio não é uma crítica musical — ofício do qual estou longe de qualquer pretensão. Na verdade, escrevo aqui um simples depoimento, cujo intuito é tratar sobre sentimentos e algumas memórias pessoais; uma espécie de cântico beneditino, misturado a uma despretensão franciscana, ou seja, extirpado de ambições jesuíticas, com seus noctívagos circunlóquios pascais. Enfim, que cada um tire destes pensamentos o que for aproveitável para si. Para mim, seria uma grande alegria saber que ao menos uma pessoa sentiu uma faísca inquietante em seu coração.

E por que a despretensão franciscana?

Nesse momento em que me atrevo a escrever, sinto-me incapaz de conceber aventuras novelísticas, de modo que escolhi me acomodar a rápidas pinceladas, feitas às pressas em noites insones, permeadas pelo sigilo do silêncio noturno e agitadas pelo sibilar da brisa fria no meu quarto voltado ao oceano escuro. Falta-me fôlego para nadar num rio demasiadamente agitado e pedregoso, tais como romances e afins. Mesmo os gêneros breves me intimidam, por exemplo, com sua feitura labiríntica e intricada sobreposição de camadas interpretativas. Portanto, reconheço que perdi aquele atrevimento típico da mais incauta petulância, quando os Elíseos parecem ao alcance de mãos mundanas, quando a sombra olímpica ascende no limiar das possibilidades mais venturosas.

Até que, de repente, me achei preso ao marasmo do anonimato, quando os sonhos ecoam, na mente alheia, como uma fábula abobada, um anseio que beira a maluquice completa. Sonhar para quê? Essa sempre foi uma pergunta tola para os sonhadores e, ao mesmo tempo, onipresente para os pragmáticos que teimam em “manter os pés no chão”. Por outro lado, como diz o saber popular: sonhar não custa nada. É prazeroso antever, nas miragens interiores, um cenário de triunfo sobre todos os obstáculos. Afinal, quem não quer, em algum momento do futuro próximo, “ser feliz pra valer”? Entretanto, a existência que partilhamos não está sob o nosso comando. Podemos agir para dobrá-la à nossa vontade pessoal, mas sempre persistirá a possibilidade de que a reação do nosso entorno seja contrária às nossas expectativas.

 

Daniel Viana de Sousa

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sábado, 20 de agosto de 2022

Cálice Profano

 


Alheio às velhas luzes distantes,

cujo seráfico vagar eu me aparto,

bebo do cálice de visões delirantes,

santo sumo, profano e catártico.

 

As hostes me banem do espaço

sem poder ferir meu furor radiante,

pois nasci para o fragor famigerado

de ser completo a todo instante.

 

Ferve nisso o Maligno inebriante,

cujo prazer é permanente fardo.

São vermes vorazes de amante

possuídas sem me deixarem farto.

 

Trago, assim, a rijeza do diamante

e a rebeldia de quem é incauto,

e abrir espaço no mar fustigante

para fazer emergir meu último ato.

 

Não fui estimado pelo celebrante

do ritual com o qual não comparto.

Pois, sou proscrito sem atenuante,

vadio apócrifo desde o próprio parto.

 

 

 

Daniel Viana de Sousa

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