sexta-feira, 13 de junho de 2025

A Missa fúnebre de um partido político

 

         Na semana passada, a 17ª convenção nacional do PSDB aprovou sua união com o Podemos, um movimento que já era discutido nos corredores de Brasília há muitos meses. Dessa forma, os dirigentes das duas facções buscam unir forças, de modo a obter mais recursos do Fundo Partidário e um maior tempo de rádio e TV. Sua meta é clara: aumentar as chances de eleger uma bancada robusta nas eleições do ano que vem, numa aposta de triunfo do autoproclamado “centro democrático”. Fala-se, também, em uma possível federação com o MDB, cujo objetivo é exatamente o mesmo: dar musculatura a um partido cada vez mais inexpressivo aos olhos das massas populares.

Trata-se de mais um capítulo no longo processo de definhamento de um partido que, em épocas passadas, dava os ares da graça em Brasília, chegando a disputar, com o Partido dos Trabalhadores (PT), pela primazia do comando presidencial.

A essa altura, para os mais jovens, deve parecer estranha a relevância dada por mim ao velório do tucanato. Na verdade, o PSDB foi a face polida e bem-comportada da classe dominante no pós-ditadura (1964-1985). Àquela altura, isto é, na década de 1990, a descendência funesta da Arena perdera apelo popular. E não era de se espantar: frente aos militares trogloditas, Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), o charmoso sociólogo e ministro responsável pelo exitoso Plano Real, apresentava-se como um refinado intelectual paulista. FHC era, sem dúvidas, a face que a burguesia queria vender ao resto do mundo, após o conturbado mandato de Collor (1990-1992) e a transição liderada por Itamar (1992-1995).

No entanto, os dias áureos do PSDB estão relegados aos livros de História, pois, como bem disse seu presidente atual, o ex-governador Marconi Perillo, “o ideal seria seguirmos solo, mas ficamos pequenos”. Realmente, os sinais da risível pequenez tucana estão por todo lado.

A recente despedida dos governadores de Pernambuco e Rio Grande do Sul, Raquel Lyra e Eduardo Leite — dois nomes cotados para disputar o Palácio do Planalto em eleições futuras —, foi mais um duro golpe para esse partido, que, em épocas passadas, esteve à frente de mandatos em diversos estados brasileiros, como São Paulo, Minas Gerais, Ceará etc. De fato, Fernando Henrique, o maior cacique tucano, foi a única liderança do país que ganhou uma eleição presidencial no 1º turno, conseguindo repetir a mesma façanha quatro anos depois. Nem mesmo Lula conseguiu igualar esse feito. Além disso, nas quatro eleições gerais seguintes, o PSDB esteve em todas as disputas de 2º turno, conseguindo obter, em 2014, mais de 51 milhões de votos, seu melhor resultado na história da Nova República. Por fim, em 2016, os tucanos alcançaram sua vitória derradeira: 799 prefeitos e prefeitas eleitos nacionalmente.

Porém, tal como nos ensina a sabedoria popular, a vida dá voltas.

No momento em que a crise econômica estrangulou a sociedade brasileira (2015-2016), sendo, aliás, aprofundada pela instabilidade sociopolítica provocada pelas Jornadas de Junho, as bases sociais que compunham a direita se radicalizaram. À época, percebeu-se que o PT perdera o protagonismo nos movimentos de rua, ao mesmo tempo em que o governo Dilma (2011-2016) via sua popularidade derreter em questão de semanas. Contudo, o golpe mais duro veio de uma controversa operação policial que marcaria aquela década: a Lava Jato; responsável por desgastar a imagem da esquerda aos olhos das classes médias empobrecidas pela crise sistêmica que chacoalhava as estruturas do nosso frágil tecido social. Iniciava-se, assim, o período mais sombrio de Lula e seu partido, cujo pior momento seria a sua prisão em abril de 2018; houve até quem cogitasse — com boas razões — a morte política de ambos. Ainda assim, o velho operário sobreviveria aos ataques e à prisão, saindo do encarceramento para se candidatar, disputar e vencer as eleições de 2022, tornando-se presidente do Brasil pela terceira vez.

Entretanto, o PSDB não se mostraria capaz de resistir ao maremoto do discurso anticorrupção. Pelo contrário, as revelações de que Aécio teria tido, em 2017, conversas suspeitas com o empresário Joesley Batista, ajudou a enterrar de vez as ambições presidenciais do último cacique tucano. De lá pra cá, o partido e suas lideranças mergulharam num lamaçal que nem mesmo a vitória de Doria seria capaz de resgatar. Nesse meio-tempo, nomes históricos da sigla, como Tasso Jereissati, José Serra, Geraldo Alckmin, Aloysio Nunes e Antônio Anastasia, perderam protagonismo, abandonaram o ninho ou simplesmente caíram no ostracismo. Pouco a pouco, ficava mais claro que a mancha da corrupção envolvia praticamente todo o espectro político, ou seja, da esquerda à direita, do progressismo ao conservadorismo, do governo à oposição.

Porém, o golpe final chegaria de onde menos se esperava. Pois, para a ruína do tucanato, renasceu, em torno do clã Bolsonaro, uma extrema-direita que não era vista desde os tempos ditatoriais. De fato, em poucos anos, formou-se um movimento alinhado à ascensão de uma extrema-direita mundial e abertamente contrário ao espírito “cosmopolita”, “democrático” e “civilizado” de FHC, pois se estruturava no ódio à esquerda, ao trabalhador, à mulher, aos negros, à comunidade LGBTQIAPN etc. Esse movimento extremista, que nos habituamos a chamar de bolsonarismo, aniquilou definitivamente a direita tucana, contribuindo para transformar o noticiário político num ringue de golpes baixos e, ao mesmo tempo, num show de horrores. Desde então, as falas obscenas de Bolsonaro e seus seguidores viraram parte do cotidiano, seja em frente às câmeras, seja nas próprias redes sociais; aquilo que, em outras épocas, seria visto como impensável ou inaceitável, agora é banal, corriqueiro. Contudo, a despeito de sua linguagem chula e personalidade detestável, o ex-capitão segue desfrutando uma sólida popularidade nos círculos reacionários, sendo capaz de arregimentar dezenas de milhares de apoiadores a qualquer momento, um feito que nenhuma liderança brasileira é capaz de igualar, excetuando-se o próprio Lula.

Para uma “nova direita” que rasteja pelos meandros das redes sociais, das fake news, do trumpismo, o PSDB virou peça de museu, antiquado demais para as novas disputas de uma república com pés de barro. Na realidade, a conjuntura presente — inflamada por uma crise sistêmica que se agrava a despeito de quem ocupa a cadeira presidencial — demanda das classes dominantes uma direita que destile ódio aos trabalhadores, às mulheres, às minorias e às esquerdas. Para esse agrupamento fascista, não há outra solução que não seja “metralhar a petezada”, isto é, pôr toda culpa sobre os ombros dos “artistas pervertidos”, “professores esquerdistas”, “universitários vagabundos”, “feministas mal amadas”… trata-se de um lamaçal discursivo, um espetáculo de ideias vexatórias, no qual somente o esgoto da Ditadura poderia germinar algo de novo. Nesse sentido, o bolsonarismo é o sintoma mórbido de um sistema político em decomposição.

Ora, seria pretensioso buscar resumir os fatos políticos dos últimos anos em um texto de poucas páginas. Nesse esforço em forma de análise escrita, tentei delinear um esboço, um painel simplificado daquilo que vimos acontecer em tão pouco tempo, de tal maneira que muitos elementos centrais à compreensão da nossa realidade precisaram ser deixados de lado. Mesmo assim, com a simbólica saída dos principais governadores tucanos, Raquel Lyra e Eduardo Leite, podemos dizer que o PSDB está com os dois pés na vala, prestes a ser enterrado de uma vez por todas. Afinal de contas, os dois mandatários preferiram se livrar do partido ao qual pertenciam há décadas, para aderir à legenda controlada por Gilberto Kassab: o Partido Social Democrático (PSD). Fundado em 2011, o PSD é a sigla que detém o maior número de senadores e prefeitos, assim como uma das principais forças partidárias na Câmara dos Deputados.

No futuro, quando os historiadores se dispuserem a estudar a política brasileira desses tempos incertos, eles certamente terão de se ocupar em analisar a figura de Gilberto Kassab. Personalidade sorrateira e camaleônica, Kassab é o epítome do Centrão, o famigerado establishment político brasileiro; ele foi ministro de Dilma, mas não vacilou em apoiar seu impeachment, aceitando, logo em seguida, um ministério no governo Temer (2016-2019); em São Paulo, trabalhou para Dória (2019-2022), porém, agora, está ao lado de Tarcísio de Freitas, ex-ministro da gestão Bolsonaro (2019-2023). Ao longo dos anos, Gilberto Kassab foi vice-prefeito, prefeito e deputado federal por São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, de modo que não seria injusto tê-lo como um carreirista experimentado, um arrivista bem-sucedido, que conhece os corredores palacianos como poucos, pois sabe dançar conforme a música, sabe se ajustar de acordo com a oportunidade que lhe aparece. Kassab não formulou nenhuma ideia que mereça destaque, nem nos presenteou com alguma conquista de relevo; nada nele nos vêm à tona, exceto seu triunfo pessoal em um sistema carcomido pela corrupção, velhacaria e mediocridade. Ainda assim, não devemos nos espantar que ele lidere um dos maiores partidos brasileiros, um partido capaz de influenciar o resultado das eleições que se avizinham. Afinal, o PSD é a expressão mais bem-acabada do atual sistema político nacional.

Hoje, o partido capitaneado por Kassab é o farol que atrai mais e mais tucanos para fora do ninho. Na Paraíba, estado marcado pela presença do PSDB, dois dos principais nomes do clã Cunha Lima, Cássio e Pedro, transferiram-se recentemente para o PSD. Espera-se que Pedro dispute, pela segunda vez, o mandato de governador. Para tanto, o ex-deputado recebeu o cargo de presidente estadual da legenda, reunindo em torno de si diversos nomes da oposição ao governo de João Azevedo (PSB), tais como Veneziano (MDB), Ruy Carneiro (Podemos) e Efraim Filho (União Brasil). Se a sua escolha foi um tiro no pé, o futuro nos dirá.

A essa altura, a revoada dos tucanos sacramenta o fim de uma era para a direita nacional. A época em que a centro-esquerda se alternava no governo com os tucanos se esgotou definitivamente, pois, aos olhos das classes dominantes, o PSDB tornou-se bucha de canhão, um instrumento ineficiente para a conservação do seu poder sobre as massas em um contexto de crise social aguda. E, ainda que a fusão com o Podemos traga de volta alguns milhares de votos e meia dúzia de assentos no Congresso, o PSDB jamais terá de volta o protagonismo, porque a verdadeira Política não se subordina a fundo partidário, tempo de televisão ou marketing eleitoral.

A verdadeira Política transcende os monumentos de Brasília, fazendo-se presente no dia a dia, na realidade concreta de cada pessoa que luta para sobreviver em um país espoliado desde a sua origem. Ao contrário das vulgaridades e cretinices presentes no cotidiano da politicagem rebaixada, a verdadeira Política se dá na luta de classes, no embate ferrenho entre capitalistas e trabalhadores, cujos interesses continuam sendo diametralmente antagônicos. Nessa violenta disputa pelas mentes e corações, o tucanato não é nada mais que uma relíquia farsesca do passado. 

Daniel Viana de Sousa

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terça-feira, 22 de abril de 2025

Adeus, Francisco!

 

Após um pontificado de mais de uma década, o Papa Francisco faleceu nesta segunda-feira (21), exatamente no começo do tempo pascal, época de renascimento e esperança para os cristãos do mundo inteiro. Para quem crê no Evangelho, a partida do pontífice ocorreu num momento simbólico, verdadeiramente marcante para toda a cristandade.

Poucos líderes religiosos buscaram tanto o diálogo ecumênico, o entendimento entre diferentes grupos religiosos, políticos, étnicos e sociais. Possivelmente, seu ponto alto na diplomacia papal foi a costura da reaproximação, em 2015, entre Cuba e Estados Unidos, adversários ferrenhos por mais de seis décadas, algo que pegou de surpresa a maioria dos observadores da geopolítica — e que sofreu um duro revés com a vitória, em 2016, de Donald Trump —; ainda na seara sociopolítica, merece destaque a campanha em prol dos imigrantes, seus embates com extrema-direita global, a ênfase na solidariedade para com os pobres e marginalizados e a publicação da Laudato Si, um dos documentos mais importantes sobre as mudanças climáticas já feitos por um papa. Em suma, Francisco extrapolou não só os muros do Vaticano, mas também as barreiras da intolerância e do dogmatismo, transformando-se numa das figuras mais queridas e marcantes do século XXI. Entretanto, não pretendo fazer aqui uma retrospectiva de sua trajetória, algo que já circula em profusão nos portais de notícia do mundo inteiro.

É improvável que vejamos outro papa tão progressista quanto Bergoglio, que surpreendeu o mundo já na sua eleição, há doze anos, ao ser escolhido para comandar a mais influente e longeva instituição do Ocidente. À época do conclave que o elegeu, Francisco se tornaria o primeiro jesuíta e o primeiro latino-americano a comandar a Santa Sé; fatos tão surpreendentes quanto a renúncia de Bento XVI, algo que não era visto há mais de seiscentos anos, ainda na Idade Média, quando Gregório XII (1406-1415) abriu mão de conduzir a barca de S. Pedro. Às vésperas de renunciar, o papa alemão encontrava-se cercado por crises que estremeceram seu pontificado: as revelações de documentos ultrassecretos por Paolo Gabriele, seu mordomo; os escândalos financeiros do “Vatileaks” e, mais gravemente, o envolvimento de diversos clérigos em denúncias de pedofilia. Ainda assim, ao se justificar perante o público, Bento XVI afirmou que renunciava por conta de problemas relacionados à sua saúde; ele viveria mais nove anos no mosteiro Mater Ecclesiae, incrustado no interior do Vaticano, fazendo aparições ao lado de familiares, amigos e admiradores, inclusive do seu sucessor. Desse modo, a Igreja Católica atravessaria um capítulo peculiar de sua milenar história: um papa emérito convivendo, ao mesmo tempo, com outro recém empossado. Tal coexistência renderia bons frutos, como a publicação, ainda em 2013, de uma encíclica com contribuições de ambas as partes: a Lumen Fidei (Luz da Fé).

Entretanto, sempre se alimentaram boatos da existência de intrigas, decepções e manipulações, que, finalmente, vieram à tona no livro “Nada mais que a verdade”, publicado pelo arcebispo Georg Gänswein, secretário pessoal de Bento XVI. Dentre as várias acusações, Gänswein afirmou que o argentino buscou isolar o papa emérito devido a divergências teológicas e que Bento sentia-se vigiado por Bergoglio. Ao dar sua resposta, Francisco expressou, numa entrevista a Javier Martínez, a seguinte declaração: “que no dia do funeral seja publicado um livro que me deixa chateado, que conta coisas que não são verdade, é muito triste. É claro que isso não me afeta no sentido de que não me condiciona. Mas me machucou que Bento XVI tenha sido usado”. Certamente, aquilo que o público sabe, não deve chegar nem perto do que, de fato, ocorreu na relação entre os dois líderes e suas respectivas facções, forças antagônicas no seio da Igreja. Enquanto que um era enaltecido como teólogo e catedrático brilhante, o outro detinha um carisma capaz de incendiar multidões; enquanto que Ratzinger enfatizava o papel da doutrina e da tradição, Bergoglio reforçava o perdão e a caridade, o acolhimento aos mais diversos grupos sociais. Como é de praxe nas relações humanas, ambos agradaram a uns, ao mesmo tempo em que desagradaram a outros. Um destes inimigos, o arcebispo italiano Viganò, acusou Francisco de ser “herege”, “tirano” e “servo de satanás”, bem como de acobertar casos de pedofilia, o que lhe rendeu uma excomunhão logo em seguida.

Ora, desde os seus primórdios, quando os Apóstolos ainda caminhavam entre judeus e gentios, a Igreja Católica sempre foi uma instituição complexa, com conflitos acalorados e dissensões amargas que chegaram a pôr em xeque sua própria existência. Algumas destas disputas tornaram-se capítulos em livros de História, tais como o Grande Cisma (1054), a Reforma Luterana (1517) e a Reforma Anglicana (1534), movimentos religiosos que desembocariam em guerras devastadoras, sendo a pior delas a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), que arrasou a Europa como nunca se vira antes, forçando os monarcas europeus a criarem meios políticos e diplomáticos que evitassem a sua repetição. Nasceria daí a Paz de Vestefália, marco do Estado Moderno, assim como da gradativa tolerância religiosa entre católicos e protestantes. As futuras guerras europeias não teriam mais um caráter religioso. Ao contrário, com o passar dos séculos, a influência do Cristianismo na geopolítica diminuiria pouco a pouco, culminando na Revolução Francesa (1789), que lançaria as bases do Estado laico que temos hoje. O tempo das Cruzadas e da Inquisição, enfim, começara a ser deixado para trás, e a Europa iniciaria seu período mais áureo, que só se encerraria no começo do século XX, com a deflagração da Primeira Guerra Mundial.

Felizmente, vivemos uma época em que os cristãos não mais usam a religião como desculpa para cruzar a fronteira e cortar as cabeças uns dos outros. De fato, se isso ocorresse em 2025, ficaríamos horrorizados. Questionaríamos, de imediato, a própria fé de quem o fizesse, lembrando a mensagem dada pelo Cristo há dois mil anos atrás: amai-vos uns aos outros, assim como Eu vos amei (João 15:12). Decerto, mesmo na relação com outras religiões, como o Judaísmo e o Islamismo, os pontífices que sucederam o Concílio Vaticano II (1962-1965) têm optado pelo ecumenismo, e não há sinais de que isso mude do dia para a noite. Pois, ao contrário de Donald Trump, que lança ao fogo o esforço geoestratégico dos seus antecessores, os papas não são afeitos a cisões egocêntricas e desmesuradas. No Catolicismo, as rupturas são raríssimas e, do ponto de vista doutrinário, praticamente inexistentes. Prefere-se, ao invés disso, um movimento pendular, uma valsa de muitas décadas, que, na visão dos modernistas mais afoitos, é puro imobilismo. À primeira vista, a Igreja de Roma nos parece congelada no tempo, como uma relíquia de museu. No entanto, ela rumina as mudanças em seu interior, mastigando, no seu próprio ritmo, as ideias que lhe batem à porta. Para a Modernidade, tudo isso parece antiquado e estranho, porém a Igreja Católica não é uma instituição moderna; se o fosse, talvez já tivesse se partido em múltiplas dissensões, tal como ocorre, quase todos os anos, com outras denominações pentecostais.

De S. João XXIII e S. Paulo VI, responsáveis por presidir o último Concílio, até S. João Paulo II, Bento XVI e Francisco, podem-se notar linhas de continuidade, a despeito das grandes transformações sociais, econômicas, culturais e políticas, dos sessenta e sete anos que nos separam da eleição, em 1958, de S. João XXIII, o grande reformista do século passado. Essa é uma das razões que fizeram a Igreja Católica ser o que é hoje: não seguir o ritmo que o mundo lhe pede, mas o seu próprio caminhar, por mais vagaroso que nos pareça.

A questão que desafia o futuro Conclave não é mais o conflito do catolicismo com o mundo à sua volta, pois este simplesmente o ignora, trata-o com fria indiferença; há décadas que o sujeito moderno deu as costas ao Cristianismo, especialmente na Europa, que já fora seu bastião mais seguro. Hoje, o catolicismo precisa tratar suas feridas internas, conciliar-se consigo mesmo, para, em seguida, ir ao encontro do rebanho desgarrado. Pois ninguém se abriga numa casa prestes a desabar; ninguém se salva numa barca prestes a afundar. Necessitamos de reformas profundas, de uma santa ousadia, mas também de um diálogo fraterno com grupos conservadores. Excetuando-se figuras paspalhas como Viganò, há setores à direita com os quais o futuro papa precisará entender-se, caso queira aprofundar as mudanças gestadas por Bergoglio. Por enquanto, não parece haver espaço para uma guinada à direita. Ao menos essa foi a mensagem transmitida, nesta terça-feira (22), por Dom Jaime Spengler, um dos sete cardeais brasileiros que participarão do Conclave. “A maioria do colégio cardinalício foi criado pelo próprio Papa Francisco. Eu creio, ou melhor, imagino que um retrocesso nesse caminho realizado até aqui é impensável”, disse o arcebispo de Porto Alegre.

Ao mesmo tempo, há vozes que pedem um papa mais moderado, de centro-direita, que esteja em sintonia com setores preteridos nos últimos doze anos.

Dentre os 135 cardeais aptos a votar, Francisco nomeou 108, de modo que a sua influência, certamente, se fará presente na Capela Sistina. Graças a Bergoglio, o atual Colégio de Cardeais nunca teve tantos representantes da periferia global, como, por exemplo, Giorgio Marengo (Mongólia), Virgílio da Silva (Timor-Leste), John Ribat (Papua-Nova Guiné) e Dominique Mathieu (Irã), que, embora não estejam na lista dos cotados para comandar a Igreja, integrarão a leva de prelados que poderão escolher o próximo Vigário de Cristo. Para tanto, tais grupos precisarão agir em unidade, algo que é mais difícil do que parece, haja vista a pouca familiaridade e o peso de grupos de considerável influência, como os cardeais norte-americanos, conhecidos pelo seu viés conservador, dos quais o mais notório é o cardeal Burke, famoso por opor-se a Francisco ao longo de todo o seu pontificado. Se os jovens cardeais se fragmentarem, seja por inexperiência ou vaidade, os setores conservadores terão a chance que precisam para eleger um possível contestador das reformas de Francisco.

Na história da Igreja, não é incomum que haja dificuldade em achar nomes que traduzam uma consensualidade. No passado medieval, houve conclaves que chegaram a se estender por anos a fio, com repetidas votações frustradas, até que fosse feita a escolha de um perfil que agradasse um número mínimo de prelados votantes, de modo que, até aqui, ninguém sabe qual será o desfecho do Conclave que avistamos à nossa frente. No momento, temos apenas perguntas em aberto: haverá um Francisco II? a ascensão da extrema-direita global determinará a escolha do próximo papa? a Igreja, enfim, escolherá seu primeiro pontífice asiático, em resposta à ascensão da China comunista, tal como Karol Wojtyla foi uma resposta à União Soviética?

Há quem diga que o Conclave é a eleição mais obscura do mundo. Pois, a despeito dos inúmeros livros e filmes escritos a respeito, as disputas nos corredores do Vaticano sempre foram nebulosas e inacessíveis à maioria dos interessados. Mesmo os conclaves do passado ainda são envoltos por especulações e mistérios. O próprio Bergoglio não chegara a ser cotado entre os papáveis que ocupavam a manchete dos principais jornais vaticanistas, confirmando o célebre ditado italiano "chi entra papa al conclave, ne esce cardinale”, que poderia ser traduzido para “quem entra no conclave como papa, sai como cardeal”.

O que podemos nos assegurar é de que este ano — tal como ocorrera em 2005 e 2013 — será decisivo para o futuro do Catolicismo, bem como para o mundo inteiro.

 

Daniel Viana de Sousa

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segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Livros lidos em 2024

 

Com mais um ano concluído, uma nova lista de livros lidos apresenta-se aqui. Como é de praxe, você verá que nela há um pouco de tudo: literatura, história, espiritualidade, ciência política etc. E digo isso sem a pretensão de tornar-me um polímata renascentista. Sei bem que estou demasiadamente distante do patamar dos velhos mestres, cuja envergadura faria de mim uma criança bagunçando as palavras com suas manias. Nessa vida que sigo desbravando, sou nada mais que um curioso, um errante à procura dos mais variados recantos da mente humana. Como pensavam os grandes filósofos, teóricos e artistas? Só estudando pra saber.

Ainda assim, não posso afirmar que apreciei tudo que acabei lendo. Há livros que prometem mais do que, realmente, podem entregar aos seus leitores, tornando-se, assim, obras esquecíveis, destinadas à obscuridade nas prateleiras dos sebos. Muitas delas não passam de modinhas sem fôlego, impulsionadas por um marketing agressivo e, claro, um frenesi de consumidores abobados. Em parte, elas cumprem a função de azeitar o mercado editorial, que, em sua maioria, vê nos livros nada mais que um produto a ser comercializado, reflexo de uma sociedade em que nada importa mais que o lucro. Num mundo ideal, os best-sellers fariam com que as pessoas adquirissem o precioso hábito da leitura, de tal maneira que passassem a frequentar as livrarias procurando por novos títulos e autores. No entanto, a despeito do sucesso comercial dos best-sellersa maior parte da nossa gente continua apartada dos livros.

A chatice em ler certos livros deve-se a inúmeras razões: às vezes, a escrita do autor é hermética e torturante, ou o tema é enfadonho, ou foi mal traduzido e assim por diante. Contudo, avaliar a qualidade dos livros abaixo, tanto os bons quanto os ruins, não é o propósito deste texto. Ao invés de perder tempo falando acerca do trabalho alheio, fruto daquilo que não me cabe julgar, prefiro me ocupar em trilhar as veredas que tenho à minha frente. A labuta em escrever exige de mim um esforço extenuante, de modo que o tempo torna-se escasso e a escolha das prioridades algo inevitável. Aqueles que veem nisso uma forma de sacrifício, não estão equivocados. Deixemos, portanto, que os críticos façam seu trabalho.

Ler onze livros em um ano, é muito pouco. Mesmo que alguns destes títulos sejam imponentes calhamaços de mil páginas, no fundo, eu sei bem que poderia ter lido mais. Fazê-lo, contudo, requer uma disciplina que não tenho, especialmente, se o autor for maçante. Ah, como invejo os leitores vorazes! Nunca deixarei de admirar quem desfruta da capacidade de ler dezenas e mais dezenas de livros por ano. Ao contrário desses indivíduos, minha leitura é demorada, cadenciada por passos de tartaruga, o que não quer dizer que seja mais qualificada que as demais. Aliás, não foram raras as vezes em que cochilei lendo o trabalho de alguns autores; também não foram raras as vezes em que gritei aliviado por acabar um livro terrivelmente tedioso. Ainda na mesma semana, fiz questão de ir ao sebo para me livrar dele. Faz parte da vida.

Por fim, aos que padecem da mesma desgraçada desatenção que eu, só me resta dizer uma coisa: não há outra forma de se aprimorar a leitura, exceto insistindo em retornar a ela dia após dia.

Para o próximo ano, vou estabelecer a meta de vinte e cinco livros lidos.

 

1.      Memórias do subsolo, Fiódor Dostoievski (Editora 34);

2.      Tradução – Ato Desmedido, Boris Schnaiderman (Perspectiva);

3.      Sobre a natureza humana, Roger Scruton (Editora Record);

4.      Tolos, fraudes e militantes, Roger Scruton (Editora Record);

5.      A Alma do mundo, Roger Scruton (Editora Record);

6.      Socialismo traído, Roger Keeran e Thomas Kenny (LavraPalavra);

7.      Introdução à literatura fantástica, Tzvetan Todorov (Perspectiva);

8.      História do Brasil: Uma interpretação, Carlos Guilherme Mota & Adriana Lopez (Editora 34);

9.      A nuvem do não-saber, Anônimo (Editora Vozes);

10.  Reforma ou revolução?, Rosa Luxemburgo (Expressão popular);

11.  Escritos políticos, Frantz Fanon (Boitempo).

 

 

Daniel Viana de Sousa

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sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Rumo à guerra total?


            Existem muitas palavras para “guerra”, e nenhuma delas, quando vista de perto, é bonita. Talvez, sejam “heroicas” ou “trágicas” para quem for contar uma história no cinema, no teatro ou na televisão. Mas, quando se trata da vida real, uma dor inexprimível estampa a face de quem é obrigado a deixar tudo para trás, bem como quem perde parte de si, na carne ou no coração, tendo apenas a lápide fria no chão, com um nome querido que não se pode mais ver ou abraçar. Não há beleza alguma em guerrear. No entanto, de tempos em tempos, os humanos fazem guerra uns contra os outros, como se, de repente, toda memória desaparecesse e a mesma lição tivesse de ser recontada de novo. Criam-se máquinas novas, justificativas “humanitárias”, prevenções estratégicas, ideologias “libertárias”… apenas para que, ao final de outra matança, quando os ânimos se acalmarem, possamos redescobrir o significado da paz.

Mais de mil dias já se passaram desde o início da guerra na Ucrânia, o maior conflito armado da contemporaneidade, responsável por estremecer as relações internacionais do Atlântico ao Pacífico, colocando as maiores potências militares do planeta cada vez mais próximas de uma conflagração nuclear. De um lado, a Ucrânia segue sendo apoiada pela coalização dos países ocidentais, em especial aqueles pertencentes à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN); do outro lado, a Rússia mantém-se firme no seu ímpeto de subjugar o governo em Kiev, responsável por aproximar a Ucrânia do Ocidente, ou seja, fora da zona de influência histórica de Moscou.

No enfrentamento aos russos, já se tentou de tudo: sanções econômicas, congelamento de ativos, exclusão das Olímpiadas, expulsão de fóruns multilaterais, ameaças de prisão, explosão de gasodutos oceânicos… a lista se estende interminavelmente, de tal maneira que, à exceção de alguns poucos países, nenhuma outra nação sofre, ao menos na perspectiva do Ocidente, tamanho ostracismo político, econômico e moral quanto a Rússia, que segue sendo governada, há décadas, por Vladimir Putin, visto por muitos como um intragável autocrata. Na realidade, o que parece faltar aos ocidentais é a perspectiva de que o mundo real vai muito além da Champs-Élysées, em Paris, ou do que a Quinta Avenida, em Nova York.

Há anos que Putin tem apostado suas fichas no aprofundamento das relações russas com o chamado Sul Global — desde potências ascendentes, como Índia e China, até países periféricos na Ásia, África e América Latina. A causa disso reside no isolamento imposto por europeus e estadunidenses, que terminou por convencer a cúpula no Kremlin de que era preciso recorrer a iniciativas livres da interferência de Washington e seus aliados, tais como os BRICS, Organização para Cooperação de Xangai (OCX), União Econômica Eurasiática (UEE) e afins. Entretanto, nenhuma parceria comercial poderia se igualar à aliança formalizada entre o Kremlin e Beijing, principal aliada do regime moscovita em diversos setores da economia, da geopolítica e das forças armadas. Mesmo assim, se as manobras de Putin se tornarão um bote de salva-vidas para si e, principalmente, o povo russo, só o tempo poderá nos dizer.

Enquanto isso, na falta de manobras políticas exitosas, Moscou recorre ao que “tem de melhor”: mísseis hipersônicos com capacidade para cgar ogivas nucleares, um projétil que nunca fora utilizado por nenhum país detentor desse tipo de tecnologia. Se, no começo da guerra, os russos evitavam recorrer a esse tipo de armamento, agora, fazem-no diante do mundo inteiro, anunciando nas cadeias de rádio e televisão. Isso se explica, em parte, pelo simples fato de que poucos possuem força bélica para enfrenta-los nesse patamar tecnológico, e, certamente, os ucranianos não poderão fazê-lo sem o auxílio do Ocidente, haja vista que o Kremlin assombrou seus rivais ao lançar, na semana passada (21/11), um míssil nunca antes visto. Batizado como Oreshnik, o artefato — capaz de atingir alvos a uma velocidade de 3 km por segundo — destruiu uma fábrica em Dnipro, no centro da Ucrânia, atravessando mais de mil quilômetros de distância, de tal modo que, hoje, a guerra está a favor de Putin e seus aliados.

Tragicamente, a despeito dos anseios de milhões de vítimas, não é possível prever um encerramento à matança iniciada em 2014, quando o Kremlin ordenou, após a queda do presidente ucraniano Víktor Yanukóvytch, a anexação da Crimeia e o suporte a rebeldes separatistas no Donbass. Pelo contrário, os dois lados querem reverter a disputa a qualquer preço, ainda que isso custe, ano após ano, o sangue de centenas de milhares de jovens nos campos de batalha. Ondas e mais ondas de soldados são condenados ao matadouro, triturados e espezinhados até o derradeiro suspiro, de uma forma que não se vira, na Europa, desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Algumas fontes relatam dezenas de milhares de mortos de ambos os lados; ao passo que outras falam em centenas de milhares, sem que o número pare de crescer um dia sequer.

E as cidades ucranianas, especialmente as do front, reduziram-se a destroços, escombros do que já fora teatros, escolas, igrejas etc. Além disso, acusações de violação dos Direitos Humanos somam-se aos números crescentes de deserção dos dois lados. Em resposta a isso, Kiev e Moscou apelam ao surrado senso de patriotismo — tão potente em épocas passadas —, mas que tem sido incapaz de seduzir as juventudes desalentadas. Quem se orgulharia de dar a vida por Zelensky ou Putin? As massas sabem que essa não é uma guerra em nome dos interesses coletivos, porque, nessa questão, trabalhadores ucranianos e russos querem exatamente a mesma coisa: coexistência pacífica e próspera. De fato, a dimensão dos dados referentes à deserção de soldados ucranianos é espantosa. Segundo o site Euronews, “unidades inteiras [do exército ucraniano] abandonaram os seus postos, deixando as linhas defensivas vulneráveis e acelerando as perdas territoriais”. Ainda segundo a mesma matéria, mais de 100 mil combatentes ucranianos desertaram desde Fevereiro de 2022, sendo provável que o número real seja ainda maior.

Do lado russo, a Associated Press (AP) divulgou, em abril, um número também impressionante: dezenas de milhares de russos tentaram escapar da convocação feita por Putin, seja cruzando as fronteiras da Rússia com a Geórgia, localizada ao sul, e a Finlândia, na região setentrional do país, seja buscando refúgio nos Estados Unidos, Alemanha e França. À época do primeiro plano de convocação de reservistas, algo em torno de 300 mil jovens, circularam imagens de satélite em que milhares de veículos congestionavam a fronteira russa com Mongólia, Cazaquistão e Geórgia. Nos meses subsequentes ao acirramento das lutas no front, quando foi se tornando claro que a invasão não gozava da popularidade — e do êxito — que Putin planejara, noticiou-se que alguns jovens puderam fugir, enquanto que outros acabaram encarcerados ou mortos. Ora, levando em conta que o Kremlin costuma sufocar quaisquer informações danosas à imagem do regime, como, por exemplo, o número oficial de baixas desde que se iniciou a sua “operação militar especial”, espera-se que a cifra verdadeira seja mais elevada.

Ao longo dos últimos meses, um novo capítulo desse conflito veio à tona, pois ambas as partes adquiriram reforços valiosos para a manutenção do seu esforço bélico. O que poderia parecer, para os mais desinformados, uma “simples escaramuça entre eslavos”, assumiu uma nova dimensão, responsável por colocar em risco o futuro da Humanidade. De fato, a entrada desses novos atores significa mais um passo rumo a um conflito generalizado, isto é, a pavorosa Terceira Guerra Mundial. Nessa nova etapa, com a gestação paulatina de diferentes blocos no “concerto das nações”, a possibilidade de uma escalada que fuja ao controle das cúpulas que regem seus respectivos países, sejam elas de direita ou esquerda, tem se tornado cada vez maior.

Com efeito, num indisfarçável gesto de apoio à invasão russa, China, Irã e Coreia do Norte têm negociado, cada um à sua maneira, diversas formas de suporte à economia, à indústria e às manobras estratégicas delineadas por Moscou. Ao mesmo tempo, parceiros econômicos centrais, como Índia e Brasil, recusam-se a boicotar o gigante eslavo, mantendo de pé seus setores produtivos mais essenciais, como a exportação de commodities e de tecnologia bélica. Aliás, como havia apontado anteriormente, as sanções impostas pelo Ocidente não conseguiram colapsar a sociedade russa, tampouco frear a sua máquina de guerra, de modo que centenas de milhares de combatentes jazem mortos nas estepes congeladas, sem que isso resulte — até agora, pelo menos — em uma implosão do regime putinista.

Na realidade, as movimentações do tabuleiro geoestratégico ocorridas ao longo dos últimos anos, põem o mundo em uma situação que não se vira desde o fim da Guerra Fria (1947-1991). Com a recente entrada da Finlândia e da Suécia à OTAN, as fronteiras russas terão tropas do Ocidente a pouco mais de 100 quilômetros de São Petersburgo, a segunda cidade mais rica da Rússia, com importância histórica e cultural para todos os povos de origem eslava. Como resposta a essa adesão, Putin mobilizou, pela primeira vez desde o fim da URSS, forças nucleares para a Bielorrússia, que faz fronteira com Polônia, Lituânia e Letônia, países pertencentes à aliança ocidental. Ora, como é de conhecimento público, um ataque a um membro da OTAN é um ataque às demais nações que integram o tratado.

Além disso, o presidente russo tem lançado ameaças de que, caso se sinta ameaçado, poderá recorrer ao seu arsenal nuclear. Na verdade, foi declarado recentemente que, mesmo num cenário de ataque com armas convencionais perpetrado pelo Ocidente, Moscou pode, como resposta a essa agressão, optar pelo uso de armas de destruição em massa, chegando mesmo a usá-las contra os “centros de decisão”, ou seja, bases militares pertencentes à OTAN. Para tanto, basta que o Kremlin interprete o ataque como uma ameaça existencial ao Estado Russo, isto é, ao regime de Vladimir Putin. Ora, após o lançamento do primeiro míssil, será impossível antecipar os próximos passos: caminharemos rumo à catástrofe ou à mesa de negociação? Sabe-se que EUA e Rússia possuem bombas termonucleares suficientes para acabar com a vida humana em todo planeta, de modo que, caso isso se confirme, não haverá vencedores; basta apenas que acionem as suas respectivas cadeias de comando e o mundo arderá em chamas em um intervalo de pouquíssimas horas. Após o fim de tudo, case reste algum sobrevivente, este se verá diante de um inferno coberto por trevas, escombros e radiação.

Enquanto a guerra termonuclear não explode, Putin recorre às demais cartas que guarda na manga, pois, mesmo sem uma declaração formal de guerra, os norte-coreanos entraram com tudo no conflito, arregimentando, além de mísseis e munição, um exército que, segundo fontes da Bloomberg, poderia contabilizar, futuramente, 100 mil combatentes. O regime de Pyongyang possui mais de 1 milhão de militares na ativa, o que representa um dos maiores exércitos em atividade, de tal maneira que pouca falta lhe fará tais soldados nas escaramuças contra os vizinhos sul-coreanos. Segundos alguns meios de comunicação, tais batalhões detêm pouca experiência. Ainda assim, sua chegada aprofunda um agravamento do cenário geopolítico. Além da Coreia do Norte, os iranianos têm fornecido armamento, especialmente drones, os quais têm se mostrado indispensáveis aos dois lados do conflito.

Em resposta a essa escalada, Washington autorizou o uso de mísseis americanos de longo alcance ATACMS (Army Tactical Missile System) contra instalações militares no interior da Rússia, algo totalmente inédito no histórico de embates entre ocidentais e russos. O Reino Unido também se somou aos estadunidenses, autorizando o uso de mísseis Storm Shadow, que são semelhantes aos ATACMS. Até pouco tempo, as manobras de Kiev se limitavam a incursões de drones que, algumas vezes, alcançaram o centro Moscou, mas se mostraram incapazes de reverter a guerra em si. Na realidade, alguns observadores afirmaram, no decorrer dos últimos dois anos, que a disputa afundara num impasse, podendo ter seu “final” semelhante àquele entre as Coreias: uma guerra sem vencedores e congelada no tempo, mas em tensão permanente, pronta para explodir a qualquer instante. Tal cenário ainda pode se concretizar, caso nenhum dos lados consiga realizar seus objetivos estratégicos.

Sem dúvidas, não era por acaso que o presidente ucraniano, em viagem pela Europa e EUA, implorava pela licença de atacar o interior da Rússia com ATACMS — antes, os mísseis só eram disparados contra alvos nas regiões conquistadas pelo Kremlin, o que não impediu as vitórias do exército russo em carnificinas brutais, como ocorrera em Bakhmut e Avdiivka. De fato, a cúpula em Kiev apressou-se em fazer, no dia seguinte à autorização (19/11), um ataque de mísseis americanos na região de Bryansk, localizada a 110 km da fronteira ucraniana. Desse modo, mais uma linha vermelha traçada pelos russos foi violada. Antes, Putin alertara que não toleraria o uso de mísseis de longo alcance contra alvos no interior da Rússia. Alguns se perguntam seriamente: até onde irá a paciência do Kremlin?

Ora, nos primeiros anos da guerra, apostava-se que a chegada dos modernos tanques ocidentais significaria uma reviravolta em benefício dos ucranianos, o que simplesmente não aconteceu; em seguida, realizou-se, na primavera de 2023, uma contraofensiva contra as áreas tomadas pela Rússia, resultando num completo fracasso; depois, a mesma ilusão se repetiu com a compra dos caças F-16. Por fim, esperando dividir as tropas inimigas, os ucranianos invadiram, em agosto de 2024, a região fronteiriça de Kursk, algo que foi incapaz de se converter numa ameaça séria a Moscou. Por conseguinte, erguem-se vozes no Ocidente que pedem não apenas um cessar-fogo, mas também um fim definitivo à guerra.

Chegamos, então, à pergunta central desta reflexão: até onde isso irá? Caminhamos em direção à Terceira Guerra Mundial? Não há dúvidas de que a reposta para tal questão definirá alguns dos acontecimentos mais determinantes da geopolítica nos duros anos à nossa frente.

Ora, no noticiário internacional, é quase um consenso que as eleições americanas teriam um papel crucial no desenrolar da guerra entre russos e ucranianos. No entanto, mesmo com o seu desfecho já conhecido por todos, a incerteza persiste. Muitos veem o destino do mundo nas mãos do próximo ocupante da Casa Branca, o republicano Donald Trump, detentor do segundo maior arsenal nuclear do planeta. Afinal, o principal sustentáculo do regime de Zelensky, ao longo de toda guerra, foi a gestão de Joe Biden, tido por alguns como um dos piores líderes da história recente dos EUA. Não há dúvidas de que o retorno de Trump à presidência se deve, em parte, ao fracasso dos Democratas em dialogar com as classes trabalhadoras empobrecidas pela globalização e radicalizadas pela degradação da sua condição de vida no “país mais poderoso do mundo”, mas isso demandaria uma análise à parte. Em suma, Zelensky precisa do apoio dos falcões, mas, até agora, não há indícios de que o presidente eleito esteja disposto a patrocinar uma guerra iniciada na gestão do seu rival.

Contudo, o cenário geopolítico não para de ficar mais intricado. Ontem (01/12), em entrevista a um jornal brasileiro, Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin há mais de duas décadas, afirmou que a Rússia não pretende recorrer ao seu arsenal atômico, mas declarou que “a situação está mudando drasticamente”. Aliás, ele não crê que Trump possa, por conta própria, encerrar tal conflito em um telefonema. Ao contrário, o porta-voz recorreu ao polêmico termo deep state, para referir-se a uma espécie de estado subterrâneo que haveria nos centros de comando de Washington, que seria responsável pelos rumos da política externa desse país, sempre à revelia das intenções do presidente, seja ele democrata ou republicano, liberal ou conservador, imperialista ou pacifista. Peskov também afirmou não nutrir esperanças quanto às futuras relações do Kremlin com a Casa Branca, haja vista as 56 sanções que Trump utilizou contra a Rússia no seu primeiro mandato.

Por fim, no final da semana passada (30/11), Zelensky anunciou que poderia fazer concessões territoriais aos russos, desde que, em troca, recebesse proteção da OTAN, algo que, como se sabe, Moscou jamais aceitará. Putin preferiria esticar ao máximo sua “operação militar especial”, correndo o risco de perder mais capitais, soldados e estabilidade interna, do que permitir o controle da Ucrânia pela aliança militar do Ocidente. Na visão de quem mora na Praça Vermelha, Kiev não pode se separar ou afrontar os desígnios impostos por Moscou, de modo que, caso seja preciso, todas as opções podem ser consideradas, incluindo as mais pérfidas e abomináveis. Portanto, nessa carnificina entre povos irmãos, se há uma certeza, ela poderia se resumir em uma frase: triunfará quem suportar por mais tempo o sofrimento necessário para dobrar o joelho do adversário.

 

Daniel Viana de Sousa

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sábado, 5 de outubro de 2024

Por que votar em Júnior Pires

              

            Nos tempos presentes, chegamos a mais uma encruzilhada, mais um momento em que o destino coletivo de nossa cidade será modelado por nossas escolhas amanhã, seis de outubro, dia de eleição municipal. Neste domingo, cada eleitor deverá escolher qual caminho a capital da Paraíba percorrerá nos próximos quatro anos. Seguiremos com o progresso ou deixaremos de lado as inovações da gestão de Cícero Lucena (PP)? Manteremos os mesmos ocupantes da Câmara Municipal, a casa do povo pessoense, ou abriremos espaço para novos atores políticos?

          Ora, nunca antes foi tão necessária uma renovação da política legislativa. Estou convencido de que precisamos de uma repactuação que possa dar continuidade às conquistas alcançadas nos últimos quatro anos, assim como trazer a juventude organizada para a política, com uma linguagem mais próxima da sua realidade e dos seus anseios humanos. Novos tempos demandam novas ideias e novos personagens. Isso só poderá se concretizar, em primeiro lugar, com a renovação dos ocupantes da Câmara Municipal de João Pessoa.

         Dar um voto a Júnior Pires, significa apostar num futuro melhor para a capital que mais cresce no Nordeste, uma cidade que vem chamando a atenção de todo o Brasil por suas belezas naturais, dinamismo econômico, qualidade de vida, estabilidade, segurança e assim por diante. Devemos confiar que os melhores dias de Jampa estão batendo à porta, pedindo para entrar. Ainda que o cotidiano nos desafie com obstáculos, aparentemente, intransponíveis, nossa querida cidade vive, graças à gestão de Cícero e João Azevedo (PSB), uma grande transformação, tornando-se, cada vez mais, um modelo para o restante do país. Com efeito, não será surpreendente se Cícero ganhar esta eleição no 1º turno das votações.

        Acompanhando esse processo de transformações, uma nova geração de figuras públicas tem se sobressaído. Pouco a pouco, novos rostos têm vindo à tona, trazendo consigo novas mentalidades, novas maneiras de se conectar com as pessoas, independentemente de sua origem, crença ou posição social. Dentre estes jovens, destaco a atuação do advogado Júnior Pires (PSB), homem de família e trabalhador que soube fazer seu caminho na gestão do Procon-JP.

       Júnior não precisa recorrer às mentiras e outros ataques que certos candidatos, rotineiramente, fazem, tentando amealhar para si meia dúzia de votos, proferindo barbaridades em frente às câmeras. Tal tática — se fosse posta em prática na nossa cidade — só poderia nos conduzir a uma grave dissensão social, uma conflagração com seríssimas consequências para as classes mais vulneráveis, sempre vítimas das arbitrariedades perpetradas pelos amantes do poder. Basta! Política não é playground, tampouco cenário para atuação de coachs e outros arrivistas.

        Júnior Pires é, de fato, alguém que traz novos ares à política de João Pessoa. E, mesmo sendo jovem, ele não carece de experiência na máquina pública. Sua gestão à frente do Procon-JP rendeu-lhe destaque na vida política da cidade e elogios por parte dos contribuintes. Projetos sociais como o “Proncon-JP vai às aulas” marcaram a vida de muitas famílias de baixa renda, auxiliando aqueles que mais necessitam do poder público para, enfim, darem uma reviravolta em suas vidas. Afinal, a função do Estado é estar do lado de quem mais precisa. Assim, graças à competência e seriedade de Júnior — e da equipe que o cerca —, os eleitores seguramente irão elegê-lo para a Câmara Municipal de João Pessoa.

       Júnior não é um defensor da intolerância, um disseminador do medo ou do ódio. Pelo contrário, sua biografia é, desde os tempos em que militara no movimento estudantil, há mais de dez anos atrás, uma prova do seu compromisso com as pautas progressistas, bem como com os setores mais carentes da nossa sociedade. Hoje, Júnior anda de cabeça erguida tanto nos condomínios de luxo quanto nas comunidades periféricas de João Pessoa. Ninguém lhe fecha a porta na cara. Ninguém se recusa a abrir um diálogo franco e pessoal com ele, pois os pessoenses sabem de sua firmeza e retidão de caráter, de tal maneira que, vencendo nas urnas amanhã, sua caminhada estará apenas no começo, e não no fim.


Daniel Viana de Sousa

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quinta-feira, 29 de agosto de 2024

25 personagens que me influenciaram

 

O universo da cultura pop sempre me cativou, e — ao contrário do que dizem por aí — há uma quantidade considerável de material bom a ser consumido, sem medo de se ingerir elementos nocivos à saúde da inteligência. De fato, nem tudo que a indústria cultural gera é imprestável ou supérfluo. Na verdade, o mundo pop me acompanhou desde bem cedo, seja nos filmes e séries, nos animes e mangás, seja na literatura de best-sellers e blockbusters, de modo que aquilo que sou, em parte, nasceu dessa simbiose de arte e entretenimento.

Após fazer listas de músicas, filmes, álbuns e séries, chegou a hora de apresentar alguns dos personagens de ficção mais marcantes que conheci até aqui. Escolhi um personagem por livro, filme, anime ou série, de modo que, certamente, muito material bom ficou de fora. Na realidade, qualquer classificação é parcialmente injusta — às vezes, o que fica de fora não é menos impactante do que aquilo que acaba sendo escolhido para aparecer aqui —, mas não lhes trazer lista alguma seria, a meu ver, ainda pior, pois temos de dar algum norte a quem nos lê. Afinal, o tempo que dispomos é sempre curto. Precisamos deixar o mundo que nos é familiar se quisermos acessar o que trafega além do horizonte, caso contrário teremos vivido uma existência que nos frustrará perante a morte. Nesse sentido, os heróis helenos estavam corretos em temer a mediocridade de uma vida levada bovinamente.

Lamento por aqueles que não enxergam valor nos labirintos da ficção, optando pelo torpor de um domingo no sofá, deleitando-se com pizza e guaraná em frente à televisão. Ainda hoje, é fácil acomodar-se a uma distração tão desnecessária quanto a rotina televisiva; não deveríamos nos espantar que ela seja concebida, desde os postos de comando dos conglomerados de comunicação, para nos enfiar esterco goela abaixo, sem nenhuma reflexão ou qualquer coisa que, de fato, promova uma transformação no indivíduo. Muito pelo contrário, a morbidez cognitiva é a regra do que assistimos ao ligar o televisor, bem como boa parte do que está em evidência nas redes sociais. De certa forma, a televisão ainda é um retrato do Brasil, um espelho no qual podemos ter um vislumbre da sociedade em que vivemos. Afastar-se de tudo isso, como um estoico monástico, só pode nos trazer ganhos à saúde física e mental.

Ler, por sua vez, requer um heroísmo que se torna cada vez mais penoso à medida que o leitor deixa o conhecimento de lado, preferindo as banalidades de uma sociedade viciada em se entreter, como se fugisse de um silêncio feroz, capaz de devorá-lo se fosse, enfim, liberto. Seria esse silêncio a causa de um coração sufocado e inquieto? Estariam as suas consciências gemendo desgraçadamente? Nesse caso, a leitura seria “ameaçadora”, porque poderia nos levar a portas perigosas. Quem não é habituado a percorrer tais recantos tortuosos, costuma se sentir desperdiçando o próprio tempo, e logo deixa o livro de lado. Assim disse Tyrion Lannister: do mesmo modo que a espada precisa da pedra para se manter afiada, a mente precisa dos livros; ela precisa lê-los página por página, sem pressa de chegar ao final, sugando seu sumo até o âmago, comungando, com o protagonista, de suas dores e alegrias, derrotas e conquistas.

Ler nunca foi fácil para os iniciantes, o que, talvez, explique o fato da maioria dos brasileiros não lerem livros ao longo de suas vidas. Claro que, no caso nacional, há outros aspectos socioeconômicos que precisam ser considerados: o alto preço dos livros, o sucateamento da educação pública, o desincentivo à busca pelo saber, a falta de tempo livre do trabalhador que transita pelas grandes cidades e assim por diante. O fato é que, enquanto coletividade, ainda somos um povo avesso à leitura, ao contato com o livro na intimidade do quarto de dormir. Enquanto a televisão tem seu lugar garantido na sala de estar dos brasileiros, o livro é quase um extraterrestre para a família comum, sem mesmo uma estante que o comporte adequadamente.

Agora, falemos da lista que trago nessa postagem.

O que esses personagens têm em comum? Difícil pergunta. Talvez uma certa nobreza nipônica, paixão cavalheiresca, uma valentia heroica, resiliência homérica, mas também (em alguns casos) uma pureza primaveril que os torna incompreensíveis à sua época. Alguns influenciaram a minha infância e adolescência, enquanto que outros chegaram até mim só na vida adulta. Tal qual um Prometeu que nos traz a luz do esclarecimento, conhecê-los mexeu comigo, transformando minha forma de ver o mundo à nossa volta. Também não nego que minha solidão tenha sido atenuada após esse encontro, pois eles são a personificação daquilo que os rebeldes compartilham entre si: uma individualidade irredutível, singularidade incapaz de se dobrar, disposta a nadar contra a maré e sacrificar-se se for preciso. Nesses tempos de resignação apática, tais personagens são uma lufada de brisa acolhedora e, ao mesmo tempo, um furacão dentro das nossas cabeças.

A lista abaixo apresenta alguns dos personagens que mais me chamaram a atenção:

 

1.    Kenshin Himura (Samurai X);

2.    Myamoto Musashi (Vagabond);

3.    Ip Man (Donnie Yen);

4.    Moritsugu Katsumoto (Ken Watanabe);

5.    John Keating (Robin Williams);

6.    Dr. Carlo Antonini (Emílio de Mello - PSI);

7.    Dolores Abernathy (Evan Rachel Wood);

8.    Ryoko (Tenchi Muyo);

9.    Nausicaa (Nausicaa do Vale do Vento);

10. Forrest Gump (Tom Hanks);

11. Tyrion Lannister (As Crônicas de Gelo e Fogo);

12. William Wallace (Mel Gibson);

13. Jacques Mayol (A imensidão azul);

14. Santiago (O Velho e o Mar);

15. Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis);

16. Neo/ sr. Anderson (Matrix);

17. André (Lavoura Arcaica);

18. Ulisses (Alfred Tennyson);

19. João Grilo (Auto da Compadecida);

20. Príncipe Míchkin (O Idiota);

21. Furiosa (Charlize Theron);

22. Coringa (Heath Ledger);

23. Feanor (Silmarillion);

24. Gandalf (O Senhor dos Anéis);

25. Anakin Skywalker/Darth Vader (Star Wars).

 

 

Daniel Viana de Sousa

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terça-feira, 30 de julho de 2024

Um novo mundo emerge

  

            Fala-se muito que uma transformação mundial está a caminho, porém os fatos mais recentes — e os processos dos quais eles fazem parte — demonstram que tal mudança, na realidade, já chegou até nós.

            Não vivemos mais a conjuntura do final do século passado, em que os Estados Unidos (EUA) gozavam, mesmo nos rincões desconhecidos do mundo globalizado, de uma hegemonia inconteste. À época, os norte-americanos podiam decretar invasões a países como o Iraque sem temer represálias, confiantes de que, ao final de qualquer cenário, estariam mais fortes do que antes. Hoje, sua influência ainda é enorme, porém em franco declínio nos diversos aspectos que constituem a potência de um império global, de tal maneira que dificilmente os falcões da Casa Branca poderão evitar o rebaixamento do seu domínio no xadrez geopolítico. Em certos continentes, como as Américas e a Europa Ocidental, seu controle continuará implacável. Entretanto, a periferia segue aprofundando seus laços com a superpotência emergente: a República Popular da China.

            Desde que iniciou sua ascensão, a China tem recebido projeções de analistas convictos de que seu colapso viria a qualquer momento. Para estes profetas do apocalipse, o modelo concebido por Deng Xiaoping era — e continua sendo — insustentável, devido ao suposto anacronismo e totalitarismo do partido comunista, que, em tese, seria incompatível com o desenvolvimento das forças produtivas mais avançadas. Na época, esperava-se que a China repetisse o colapso da União Soviética e do restante do Bloco Socialista, atribuída, em boa medida, a medidas políticas e econômicas atabalhoadas, feitas por uma burocracia corrupta e ossificada, excessivamente afastada da classe trabalhadora. Porém, os fatos lhes mostraram o contrário. O gigante asiático tornou-se, após mais de quarenta anos de desenvolvimento fulminante, a locomotiva do capitalismo contemporâneo. Até hoje, nenhum outro país testemunhou um progresso socioeconômico que se igualasse ao de Beijing. No passado, quem poderia ter imaginado que o capitalismo seria salvo de si mesmo por políticas capitaneadas pelo partido comunista chinês?

            Mesmo assim, a China está longe de ser um país idílico, com todos os seus problemas mitigados ou resolvidos — talvez, o seu maior desafio seja o impacto socioambiental causado pela industrialização em larga escala, embora avanços tenham sido feitos. As acusações de violação dos Direitos Humanos, a explosiva desigualdade social, a problemática relação com Hong Kong, o Tibete e o Xinjiang, também são temas espinhosos para os dirigentes comunistas. Todavia, os EUA também tiveram de lidar com questões internas graves, tais como conflitos raciais (ainda combustível para crimes e divisões internas), uma Guerra Civil, o genocídio das nações indígenas etc. Por outro lado, numa sociedade tão complexa como a chinesa, soluções rápidas e fáceis são fantasiosas; há que se recordar que esse povo traz consigo milênios de história, cultura e tradição, tendo, portanto, uma profunda compreensão da sua identidade e missão para os anos vindouros. Isso se expressa, por exemplo, em planejamentos para as décadas futuras que, no hemisfério ocidental, seriam incompreensíveis e irrealizáveis. Estou me referindo ao projeto popularmente conhecido como as “Novas Rotas da Seda”, que, se for concretizado, transformará a feição da Humanidade para o restante do século XXI.

            Hoje, quase todos os países, incluindo fiéis aliados dos EUA, como Austrália, Alemanha e Coreia do Sul, têm como seu maior parceiro comercial a China, de modo que não há quase nada que os estadunidenses possam fazer para alterar uma conjuntura tão adversa aos seus interesses. Em tempos de carestia generalizada, o “dinheiro comunista” é mais que bem-vindo: trata-se de uma tábua de salvação para economias em crise severa e/ou permanente, como é o caso de quase toda a periferia do sistema capitalista. O que seria do agronegócio e do extrativismo brasileiro sem a demanda insaciável da economia chinesa por commodities? É a busca por matérias-primas que, de fato, mantém de pé a balança comercial brasileira. Aliás, há quem afirme que vivemos um neocolonialismo à chinesa, em que a relação metrópole-periferia estaria sendo, lentamente, transferida de Washington para Beijing; quanto a isso, devemos aguardar que o futuro nos traga as respostas.

            Também há quem enfatize o poderio bélico dos EUA como uma garantia da sua supremacia. Entretanto, mesmo tendo capacidade de intimidar nações menores e submissas com seus jatos, mísseis e porta-aviões, os norte-americanos experimentaram derrotas amargas ao longo dos últimos setenta anos. Numa perspectiva mais ampla, de pouco serviu aos falcões possuir a maior máquina de extermínio e destruição que já se viu, pois, desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quase todas as guerras perpetradas pelos EUA resultaram em impasse, recuo ou fiasco. Basta recordar o intragável armistício, em 1953, com a Coreia do Norte, o fracasso, em 1961, da invasão da Baía dos Porcos, o fiásco, em 1973, para o Vietnam, o revés, em 2021, para o Talibã; tampouco eles triunfaram em tentar aniquilar seus arqui-inimigos, Rússia, Coreia do Norte, Síria e Venezuela, com intervenções, bloqueios e sanções econômicas. Mesmo a vitória no Iraque, uma guerra custosa e que pouco lhes serviu, não realizou seu intento máximo: o cerco e futuro ataque ao Irã, que se mantém ainda de pé como o maior antagonista aos EUA no Oriente Médio.

            Enquanto isso, acumulam-se, por toda parte, os sintomas de um mundo em convulsão. A cada ano que passa, tais sinais tornam-se mais visíveis: na Europa Oriental, os russos acumulam vitórias contra os ucranianos, ainda que com colossais perdas humanas e materiais; no Oriente Médio, articula-se uma resposta aos ataques israelenses contra o povo palestino, o que pode provocar uma guerra regional entre muçulmanos e judeus; na África, em menos de três anos, seis países, Gabão, Níger, Mali, Guiné, Sudão e Burkina Faso, passaram por insurreições das suas forças armadas; na América Latina, o chavismo ganha uma frágil sobrevida com a terceira vitória eleitoral de Nicolás Maduro, preservando o sentimento antiamericano no continente mais próximo à Casa Branca; no meio ambiente, eventos climáticos extremos põe em risco a estabilidade de sociedades de diversas partes do globo; por fim, no mercado financeiro das economias emergentes, fala-se em desdolarização das nações que buscam maior autonomia frente ao poderio do dólar.

            Ao mesmo tempo, guerras “menores” ameaçam explodir. Destacam-se os conflitos no Cáucaso, especialmente entre armênios e azerbaijanos, ameaças de anexação de Essequibo pelos venezuelanos, bem como o interminável conflito entre coreanos do sul e do norte etc. Ademais, guerras civis prosseguem sem solução visível para um futuro próximo, como na Síria, na Etiópia, no Sudão, no Iémen, em Mianmar e assim por diante. Há, por fim, repetidas escaramuças fronteiriças entre chineses e indianos, eternos rivais — e detentores de armamento nuclear — no continente asiático; o mesmo ocorre na disputa entre indianos e paquistaneses pelo domínio da Caxemira, ou nas disputas marítimas, entre vietnamitas, filipinos e chineses, pelo controle sobre o Mar do Sul da China. Por fim, muitos já antecipam como inevitável uma escalada militar, ainda nesta década, entre Taipei e Beijing, dando como certa a intenção da China em resolver o conflito com os vizinhos taiwaneses da pior forma possível: uma guerra aberta no estreito de Taiwan, por ponde transita parte considerável das mercadorias globais, em especial os semicondutores asiáticos. Nesses contextos de gravíssima perturbação global, a ONU exerce um papel inexpressivo, próximo à irrelevância geopolítica.

Tais fatos retratam o colapso de uma ordem internacional moribunda e caquética, sem sinais de que possa ser salva por um heroico ocupante da Casa Branca, seja ele/ela republicano ou democrata, globalista ou nacionalista, progressista ou conservador. Na verdade, a questão que mais deve preocupar a Humanidade quanto ao mandatário no Salão Oval, será a sua escolha entre conduzir o mundo a uma conturbada partilha de poder ou à progressiva deterioração de um cenário geopolítico às portas do extermínio nuclear. A dimensão e a duração de tal processo podem ser debatidas, mas a sua inevitabilidade não. Aqui, deve-se sublinhar que uma parte dos ocidentais jamais admitiu ceder terreno a um povo do terceiro mundo, uma ex-colônia sua, haja vista que a Coreia do Sul é um protetorado americano e o Japão, vencido na Guerra do Pacífico, foi forçado a abdicar, no papel, de quaisquer ambições militares. De fato, ainda há, no seio das elites do Atlântico Norte, quem considere os asiáticos uma sub-raça a ser invadida, subjugada e colonizada.

            A aliança entre Vladimir Putin e Xi Jinping, formalmente anunciada em fevereiro de 2022, às vésperas da invasão russa à Ucrânia, ainda que enfrente percalços pelas desconfianças ancestrais entre os dois povos, representa um marco na história do século XXI. Trata-se do encontro entre a segunda maior economia mundial e a maior potência bélica da Eurásia, possuidora de colossais reservas de combustível e matéria-prima; é o amadurecimento diplomático de um par que compõe o núcleo do BRICS e da Organização de Cooperação de Shangai, e que são considerados o maior obstáculo à hegemonia estadunidense. Ambos compreenderam que, aliando-se, possuem meios e recursos para desafiar e transformar o status quo em benefício próprio, algo que, há quinze anos atrás, seria inviável. Se houver uma nova ordem mundial que evite um conflito nuclear entre as potências, ela será capitaneada por tal união de países, representantes da maioria global, assim como da maior parte das riquezas produzidas pela Humanidade.

            Sem dúvidas, quem apostou, há mais de trinta anos, em um “fim da História”, cometeu um erro crasso: a democracia liberal continua sendo posta em xeque e os paradigmas econômicos do Consenso de Washington perderam parte da sua credibilidade. O enriquecimento faraônico das elites ocidentais não alcançou as camadas populares, que, com o passar dos anos, acumularam ressentimento, passando a desconfiar — com boas razões — do establishment político. Ora, o próprio lema que consagrou a campanha de Donald Trump em 2016, o MAGA (Make America Great Again), carrega consigo o reconhecimento de um presente que frustrou expectativas alimentadas pelas lideranças bipartidárias. Com efeito, nesse apelo infantil, nostálgico e simplório, está exposto o fracasso dos presidentes que ocuparam a Casa Branca nas três décadas em que a China mais cresceu: Bill Clinton (1993 – 2001), George W. Bush (2001 – 2009) e Barack Obama (2009 – 2017); os dois primeiros acabaram relegados ao ostracismo, enquanto que Obama tenta sobreviver à maré que põe em xeque o establishment partidário no ocidente. Não é por acaso que, ao tratar dos seus antecessores, Trump se apresente como uma espécie de “ruptura com o sistema”, um adversário do “deep state”. Se isso guarda alguma verdade, é outra discussão.

Também não é por acaso que a classe trabalhadora do ocidente clame por uma mudança, seja esta qual for. Romper com o passado fez com que as classes populares elegessem, em 2008, o primeiro presidente negro dos EUA, e que acabou sendo sucedido, oito anos depois, por Trump, uma figura ainda mais controversa, ou seja, outro gesto de mudança abrupta. No entendimento do americano comum, as velhas soluções não parecem funcionar, as instituições perderam parte da sua inabalável credibilidade e a corrupção tomou conta de quase tudo. Daí provém, em parte, a razão de assaltar o Capitólio em 2021: se as instituições não vêm ao povo, o próprio povo deve ir até elas, tomando-as tal qual ocorrera com a Bastilha francesa. Felizmente, os extremistas não obtiveram seu objetivo máximo: instabilizar o cenário político a tal ponto que fossem capazes de impedir a saída de Trump do poder. No entanto, a insatisfação das camadas populares permanece mais viva do que nunca, e tanto o trumpismo quanto o bolsonarismo sobrevivem, a despeito das derrotas eleitorais de 2020 e 2022.

A base que os mantém de pé, de fato, não abre mão de suas convicções, tal qual fanáticos de uma seita obscura. Eles são, em boa medida, homens das camadas médias e baixas da sociedade que viram sua qualidade de vida chafurdar nas últimas décadas; muitos tiveram uma educação rasteira e com poucas chances de ascensão social, vivendo em lugarejos remotos do interior dos EUA, em meio a um clima provinciano e reacionário, sem os ares cosmopolitas de metrópoles como New York, Los Angeles e San Francisco. Não é à toa que Trump foi derrotado, tanto em 2016 quanto em 2020, na maioria das grandes capitais americanas, ao passo em que venceu nos condados mais remotos.

Em 2016, a reação de alguns democratas preteridos trouxe à baila seu elitismo, uma incapacidade crônica em buscar compreender o cotidiano dos mais pobres. Foi a própria Hillary Clinton quem definiu os apoiadores de Trump como “deploráveis”. Na realidade, a profunda humilhação que estes “deploráveis” sentem pela sua pobreza, os obriga a achar alguém para culpar, de sorte que os demagogos saíram à procura dos bodes expiatórios ideais: imigrantes, muçulmanos, esquerdistas, minorias etc. Até agora, o receituário da intolerância rendeu algumas vitórias à extrema direita. Mais uma vez, vestir-se como outsider, isto é, alguém “fora do sistema”, acabou por se tornar a virtude máxima para o homem público, ainda que isso não passe de conversa furada. Nesse sentido, o atentado contra Donald Trump caiu como uma luva para os seus seguidores, tal como ocorrera, em 2018, com Bolsonaro, pois o consagrou como mártir da “luta pela liberdade” contra a cultura esquerdista woke. Logo, quem esperava que Trump saísse da cena política após seu revés, em 2020, agora precisa lidar com a possibilidade do seu retorno à Casa Branca, o que daria fôlego a movimentos extremistas em diversas regiões do globo.

Mesmo assim, a História costuma nos surpreender. Às vezes, ela o faz de uma maneira que preferiríamos que não ocorresse. Sentimo-nos frustrados por não poder mudar nada do que achamos errado e injusto, até que a mudança vem quando menos esperamos, como um incêndio que toma de súbito a casa inteira. Quem lutou à mão armada contra a Ditadura (1964-1985) deve ter se sentido numa luta de Davi contra Golias, e muitos morreram com bravura e heroísmo, mas sem conseguir depor os militares e muito menos pôr fim ao capitalismo. Até que a democracia ressurgiu, o povo respirou aliviado e os militares voltaram à caserna. Em poucos anos, a Ditadura, que parecera, em outros tempos, tão sólida, passou a ser um capítulo nos livros empoeirados de história. Parece que a maré da mudança nos foge do controle, quer aceitemos isso ou não.

Na juventude, convencemo-nos de que os nossos sonhos se confirmarão, até que a maturidade nos imponha as verdades mais indigestas. Houve quem sonhasse que a União Soviética duraria para sempre, que ela seria o farol que conduziria a Humanidade à libertação; houve também quem dissesse que, em pouco tempo, o capitalismo morreria pelas suas contradições internas. Nenhuma dessas previsões, tão populares em épocas passadas, se concretizaram. A experiência soviética sumiu do mapa, deixada de lado por seus velhos dirigentes, enquanto que o capitalismo segue regendo a Humanidade com sua massacrante espoliação. Palavras como “socialismo” e “revolução” deixaram o horizonte coletivo, e ninguém se dispõe a desafiar a exploração das massas no Brasil e no mundo. Sentimo-nos como George Floyd: sem conseguir respirar.

Por outro lado, nós podemos nos assegurar, hoje, de um único fato: as tendências que despontaram nos últimos anos apontam para um futuro distinto daquele que existira gerações passadas, e não há sinais de que essa mudança — em forma de avalanche incontrolável — possa ser revertida ou contida pelos centros dominantes, seja por meio de sanções, golpes ou de incursões militares. Pelo contrário, alguns destes centros carcomidos por seus vícios e preconceitos parecem incapazes de assimilar o que está acontecendo. Nas palavras do próprio Xi Jinping, em encontro com Putin, testemunhamos a maior mudança dos últimos duzentos anos, quando as nações imperialistas impuseram, a ferro e fogo, sua dominância sobre o planeta. Naqueles tempos, africanos, asiáticos e latino-americanos provaram o amargor da espoliação, do racismo e do genocídio. Agora, tudo é diferente, porque, como previra Mackinder, ainda em 1904, quem controla a Eurásia, controla o mundo. Péssima notícia para Washington, que jamais teve de lidar com um adversário tão poderoso quanto o bloco sino-russo, de modo que sua reação a esse desafio determinará o restante do século XXI.

Por fim, permito-me encerrar essa avaliação num tom filosófico. Talvez haja na sabedoria do Oriente algo que nós, ocidentais, devêssemos aprender o mais rápido possível, pois, tal como os budistas nos ensinam há mais de vinte e cinco séculos, a roda da impermanência é inescapável e avassaladora; seu movimento esmaga pobres e ricos, fracos e fortes, miseráveis e poderosos. A essa altura da história humana, quem pode detê-la?

 

Daniel Viana de Sousa

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