sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Coração errante

 

Tudo que o tempo esgarça

cativa meu coração errante:

a velhice consumida pela traça

a santa loucura dum mero instante.

 

Sou homem que detesta a farsa,

mas que venera um furor arrogante:

o selvagem que luta pela taça

e o amor embevecido da puta amante.

 

Sempre me livre da maldita desgraça

de viver sem um apelo vibrante,

morrendo como uma vil ameaça

ao prazer duma paixão extravagante.

 

Me conceda uma felicidade esparsa,

semeada em cada lugarejo distante,

pontilhada numa folha que realça

minha busca por um gozo delirante.

 

Daniel Viana

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Corações

 

Ah, meu coração arde por ti,

sempre alegre e apaixonado,

desde o princípio em que te vi,

tempo de desejo desenfreado.

 

Esse coração é parte de ti,

caríssimo amor ansiado,

Não importa se estou aqui ou ali:

sempre estarei feliz ao teu lado.

 

Peço o teu coração para mim.

Não por merecimento desbragado,

mas por anelo que arde sem fim,

princípio de um ego desamparado.

 

Meu coração te chama assim:

“É preciso se amar por completo,

superando a marca de Caim.

Pecar é só deixar que a verve

vá embora sem deixar um sim”.


Daniel Viana

© Todos os direitos reservados

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Ana Lídia

 

Minha tia é mulher

Que luta pela vida,

Que sabe bem o que quer,

Que não se dá por vencida.

 

Tenho orgulho dessa mulher

Que merece por todos ser recebida,

Que é companheira de fé,

É verdadeira sem medo de ser traída.

 

Ana Lídia é mulher

Que precisa ser reconhecida.

Ela encara o que vier!

Ela merece ser aplaudida!

 

Daniel Viana

© Todos os direitos reservados

Demasiadamente humano

 

Mi amor, Victória…

 

Tus ojos son la luz de mi vida;

Tu pelo es el manto que me calienta en el frio;

Tus hombros me sostienen en la debilidad;

Tu boca es la sagrada fuente de mi placer.

 

¡Perdona mis miserias!

¡Perdona mis errores!

Y vuelve a aceptarme en tu corazón.

Yo soy demasiadamente humano.

 

Daniel Viana

© Todos os direitos reservados

domingo, 22 de novembro de 2020

Voragem Luminosa

O mal que nos consome

      Quando caminho a céu aberto, sentido o azul do alto me esquentar, me consterno ao notar que todos ao meu redor se predem à tela do celular. Será que ninguém percebe a direção para a qual estamos a rumar? Basta um tropeço no escuro e tudo pode se acabar dentro dum fosso qualquer. E, de fato, alguns terminam no fundo do poço, sem meios de se salvar dessa voragem luminosa. Parece que não adianta mais falar; parece que nos resta parar e esperar que os poucos sobreviventes saiam dessa perdição distópica, desfecho apocalíptico de proporções inéditas. Será que estou exagerando? Creio que não, meu amigo. Quer saber o que penso disso tudo?

As telas me sufocam; elas me cercam como abutres por todos os lados; seus corpos inertes são sustentados por peões catatônicos, incapazes de se verem livres dessas estranhas amarras virtuais; suas luzes artificiais giram à minha volta, como espíritos endiabrados trazidos dum universo paralelo, invocados por um ardiloso feiticeiro cuja primeva intenção fora nos ludibriar com falsas promessas de inesgotável felicidade. Sua fantasmática onipresença — modelada numa espectral miríade de formatos variados — é uma tortura ao meu bucólico espírito, já exaurido de tanta virtualidade, de tanto contato imaterial.

E digo mais: um preço está sendo pago por nossa geração. O distanciamento da realidade concreta nos custa a compreensão de quem realmente somos, do que de fato precisamos e para onde devemos rumar as nossas mentes e corações. Vagamos à toa, de clique em clique, de uma postagem para a outra, cada vez mais desunidos, dispersos e manipulados. Com efeito, nós alimentamos uma economia sedenta por nossa insatisfação, por nossa sensação de que algo está em falta; nós somos alvejados por padrões de consumo e de beleza que são, propositalmente, moldados para uma ínfima minoria de privilegiados, a fim de que estejamos, mais uma vez, insatisfeitos com a realidade presente; somos impelidos a repetir uns aos outros, em códigos de consumo de massa, no intuito de criar um senso coletivo de pertencimento à mesma alcateia de lobos famintos, à mesma turba de zumbis sanguinários.

Claro que eu poderia me trancar no quarto e fingir que esse mundo confuso não mais existe. Seria suficiente dar um giro na chave, para, em seguida, lança-la ao quinto dos infernos, depois, eu me cobriria com um lençol da cabeça aos pés, enterrando o rosto num travesseiro que sorvesse minhas lágrimas amarguradas. Tudo se resumiria ao silêncio do meu quarto, ou seja, eu reduziria a realidade ao que existe de mais simplista e banal. Em suma, eu tentaria ter em mãos um mínimo de controle sobre uma vida que é, por natureza, complexa e exuberante. Assim, eu daria um fim ao capitalismo decadente e tardio da nossa sociedade pós-moderna? Suspeito que nem os isolacionistas possam tanto com sua fuga da realidade. No entanto, para alguns, tudo funciona exatamente como aquela expressão estadunidense: “enough is enough”. Sem dúvidas, essa tem sido a escolha de muitos ultimamente: a reclusão final e peremptória.

Mas eu sou diferente. Creio que algo em mim prefere estar em meio à loucura que vivemos — e que se adensa à medida que o tempo passa, assimilando tecnologias sofisticadas, novas tendências e conflitos inauditos. Não temo as chamas do incêndio que nos acomete. Na verdade, mesmo com tantas dificuldades, ainda estamos respirando e sobrevivendo, usufruindo da oportunidade de transformarmos a realidade que nos cerca, de tal maneira que se aproxima a hora da decisão. Iremos nos render à realidade manifesta ou mudar tudo de uma vez por todas, como se a Revolução fosse um chamado ao momento decisivo que vivemos! Haveremos de nos decidir. Enquanto isso, vou vivendo o que posso de cada dia, vou aprendendo com essa realidade o que ela me apresenta. Acima de tudo, eu quero apreender o que se passa, a despeito da consternação que o presente acarreta.

 

Daniel Viana

© Todos os direitos reservados

terça-feira, 6 de outubro de 2020

A todo vapor


   Luzes acesas à minha volta; agora, só vejo corpos em movimento, sorrisos num outdoor dizendo o que deve ser feito a toda hora, tudo isso sempre ditando, lá do lado de fora, a ordem pra que todos sigam em frente, que tudo é sempre "sem demora", que a felicidade só cabe no bolso de quem se esforça, que o boom da vida se procura na vitrine da moda, que paz e amor é coisa de quem chora, e que ninguém se atreva a conter essa roda de girar pelo mundo afora, destruindo a fauna e a flora, moendo a vaga memória dos povos de outrora, se valendo da guerra pra contar a sua própria história e fazendo da nossa vida uma realidade morta.

    De manhã, meu corpo acorda cansado, por se sentir servo da própria sina, por ser amordaçado toda vez que digo que a violência não ensina, por ver o mundo se voltar contra a menina que ousou falar na própria língua, por não ter o mesmo direito de quem anda no andar de cima — essa gente que, aliás, se porta como se fosse divina —, por ver a democracia derreter como resina, por ter ofertado os meus átomos em pedaços nessa usina que consome vidas. Quem me dera ter encontrado uma milagrosa medicina, uma única vacina pra toda essa usura urdida na urbes capitalista!

    De repente, um operário se lança aos berros pelo anfiteatro, incendiando os ares com todos os fatos acerca dos seus males: "Sei que sou usado pelos altos poderes! Ah, como sei! Não diga que preciso ler pra sentir o sangue vertido escorrer pelo escuro do capacho. A fadiga vai muito além de uma teoria qualquer; ela me consome por dentro; ela me aniquila por inteiro; ela é um fato puramente verdadeiro. De canto a canto, ouço um único lamento: 'eu não aguento mais, meus irmãos'; eles são de corpos em sofrimento, são de olhos marcados pelo soco do tempo; ombros vergados como um reles rebento, já cansado de ser varado pelo vigor do vento; são semblantes desfigurados pelo esgotamento". Contudo, esse povo se recusa a cessar sua triste tortura, pois, tomar as rédeas da própria ventura, requer suportar o som do silêncio, o som da incerteza que está presente em todos os momentos de decisão.

   À tarde, o noticiário se agita com um escândalo de última hora, com um massacre a tiros em mais uma escola, com uma economia subdesenvolvida que jamais decola; e com o povo padecendo aos milhões na esfola, que é como eu traduzo aqui o trabalho ininterrupto por uma esmola; além disso, temos mais uma fala do presidente, que, por sinal, só enrola; e temos o Chile em plena revolta, que lança às alturas um continente ansioso por mudar a sua trajetória. De fato, eu não pertenço à malta inglória, mas sou obra da esquerda que ferveu o mundo com sua história, que marcou em todos o signo da sua trajetória. Sim, quero a vitória de quem se sacrifica, quero dar glória aos trabalhadores e aos revolucionários, quero exaltar a memória de quem sonhou com um mundo melhor, bem melhor que o de agora.

 

Daniel Viana 

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quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Por que estudo Psicanálise

 

Sigmund Freud, criador da Psicanálise.

      Após anos de terapia psicanalítica, as convicções que carregamos são postas em xeque, de tal maneira que uma transformação interior se torna incontornável. Ela pode ser lenta, mas é seguramente inadiável. Com efeito, ao mesmo tempo que algumas certezas caem por terra, outras surgem como uma força inesperada, um surpreendente ânimo, que nos toma pelo braço e que guia os nossos passos rumo a um tentador desconhecido, um mundo à espera de ser redescoberto inúmeras vezes. Creio que fazer uma terapia psicanalítica é, em boa medida, mergulhar naquilo que é próprio do mistério humano: o inconsciente.

    Não é por acaso que, para a formação de um psicanalista, é indispensável a experiência da análise pessoal. Como ajudar alguém a realizar essa inóspita travessia sem tê-la feito por conta própria? Ora, foi ao fazer a minha terapia, que me senti seguro para considerar a possibilidade de iniciar uma formação teórica em Psicanálise. Foi decifrando meus atos falhos, meus lapsos, minhas insistentes repetições e manias que cheguei ao ponto de me perguntar: por que não se arriscar a decifrar outrem? Seguramente não houve uma luz que caísse do céu sobre mim; em outras palavras, não houve uma mudança súbita, mas sim uma transformação gradativa, como um infante que aprende aos pouquinhos sobre o mundo à sua volta.

      Ainda assim, persiste a pergunta: por que se tornar um psicanalista? o que me move nessa peculiar direção?

    Suspeito ter em mim um desejo sigiloso, uma vontade peculiar em ver desabrochar, à minha frente, os segredos, os delírios, os devaneios, as sandices e desejos da mente humana. É como se eu quisesse ser a privilegiada testemunha daquilo que só ouvimos falar nos romances psicológicos de Dostoievski, ou nos melhores filmes hollywoodianos ou, ainda, em histórias diversas, que só a imaginação criativa do Homo Sapiens é capaz de criar. Também desejo ajudar, é claro, com uma ética da escuta que acolhe quaisquer pensamentos. Isso inclui desde as divagações mais ordinárias, até às ideias que a nossa sociedade costuma ignorar, condena e vilipendia.

     Dito isso, creio ter dado cabo (momentaneamente) a uma questão insistente, que se fará presente pelo resto da minha vida. Pois, ser psicanalista, é uma espécie de vocação, para a qual temos de revolver o terreno das dúvidas à procura de respostas, para a qual temos de insistir em redescobrir o sentido de deitar no divã, de estudar os textos teóricos e de acompanhar aqueles que nos procuram. A jornada (felizmente) nunca acaba; ela se prolonga até onde for a nossa busca, o nosso anseio por compreender o mundo, a existência e o desejo.

 

Daniel Viana

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