sexta-feira, 4 de março de 2022

Um trágico espetáculo de horrores

 

            À medida que os dias passam, é cada vez mais claro que chegamos a um ponto gravíssimo nas relações internacionais do século XXI. As principais nações do mundo se veem às portas de um racha similar à criação, em Agosto de 1961, do Muro de Berlim. Muitos já afirmam, sem quaisquer dúvidas, que vivemos os primórdios de numa nova Guerra Fria. Se isso representa um retrocesso a estágios primitivos da sociabilidade humana ou um avanço para novas disputas, debates e conquistas sociopolíticas, só o tempo é quem dirá. Em conjunturas como a atual, é comum que até os mais experientes analistas se precipitem em vaticinar realidades que simplesmente não se concretizam. Há que se ter cuidado, pois tudo pode mudar numa questão de dias ou até de horas.

            Quando se avalia as causas e consequências da guerra na Ucrânia, naturalmente se comenta acerca da decadência dos Estados Unidos da América (EUA), líder do mundo ocidental desde o fim da Segunda Guerra Mundial, cuja liderança liberal e belicosa marcou, profundamente, a vida de todos ao longo do século XX e do início do século XXI. Nesse espaço de tempo, os EUA se tornou a maior força militar, política, econômica, ideológica e cultural que a Humanidade jamais viu em toda sua história. A despeito das duras derrotas que sofreu na Coreia, em Cuba, no Vietnam e no Afeganistão, a águia norte-americana conseguiu chegar à terceira década do novo século como um império multicontinental capaz de estrangular os seus adversários com as mais diversas manobras geopolíticas: sanções e bloqueios econômicos, golpes de estado, guerra midiática, assassinato de líderes, intervenções militares etc. Antagonizar com um poderio destas dimensões, requer uma unidade social, resiliência e soberania que, de fato, nem todas as nações possuem em suas mãos, de tal maneira que se contam nos dedos os reais adversários da Casa Branca que se mantêm de pé no mundo atual. Entretanto, Vladimir Putin acaba de desafiar essa hegemonia com um conflito nas bordas da mais importante área de influência norte-americana: a Europa.

Como muitos jornalistas reafirmam repetidamente, não se via tamanha ousadia, por parte dos russos, desde o inesperado fim da União Soviética. Realmente, a Rússia que vemos no presente não é mais aquela dos tempos de Gorbatchev e Boris Iéltsin; seu orgulho nacional está reavivado e sua confiança nas próprias forças é nítido e amedrontador para quem esperava uma Rússia acomodada às próprias fronteiras. Contudo, a despeito da descomunal superioridade militar dos russos sobre os ucranianos, o cenário mantém-se aberto às mais diversas possibilidades. Nesta seara, fazer previsões é demasiadamente arriscado. Entretanto, parece-me claro que o desfecho da guerra entre os dois principais estados eslavos, ajudará a avaliar se os falcões estão no princípio embrionário de sua fase terminal ou não. Derrotas significativas se somaram ao longo dos anos recentes, como, por exemplo, as quedas na Síria e no Afeganistão, reforçando um recuo cada vez mais visível no alcance de seus objetivos estratégicos.

No entanto, o que mais chama a minha atenção, neste momento, não é o aspecto estratégico-militar do conflito, e sim a profunda e preocupante miséria que o acarretou. Tanto as lideranças dos países emergentes quanto os assim denominados big players dão amostras diárias da sua incapacidade em criar qualquer espécie de consenso e amenização das crescentes tensões geopolíticas. Até o presente momento, prefere-se ameaçar os opositores com sanções e isolamento diplomático, bem como de recorrer-se aos mais diversos e danosos recursos militares, o que, certamente, acarretaria numa Terceira Guerra Mundial, ou seja, o fim da Humanidade tal como a conhecemos hoje. Biden, Putin, Macron, Scholz, Zelensky, Johnson, Jens Stoltenberg e Ursula von der Leyen não foram preparados para ocupar os cargos de liderança das suas nações e organizações. É aterrorizante que alguns destes líderes tenham, nesse exato instante, o controle direto sobre armas nucleares, capazes de obliterar por inteiro toda a espécie humana.

Os russos recorrem à guerra não porque são bárbaros sanguinários e expansionistas, mas porque o diálogo político, que vem se estendendo desde a anexação da Crimeia, em 2014, se mostrou infrutífero para os seus interesses imediatos na Europa Oriental — aqui, vale lembrar que esta é uma zona de influência russa há séculos, de modo que não é uma surpresa que os russos se enfureçam com a crescente influência estadunidense no seu “quintal ocidental”. Ao que parece, a determinação e a ousadia de Putin foram subestimadas. A beligerância retórica transformou-se, para a surpresa da maioria, numa ação concreta. Ele não poderia permitir que seus conterrâneos o vissem como fraco, incapaz de defender o famoso orgulho russo, que norteou czares e czarinas ao longo de séculos. Portanto, ao contemplar a possibilidade do vizinho se juntar à União Europeia e à própria OTAN, Putin deu um passo à frente no jogo de xadrez, embora o xeque-mate ainda não tenha se materializado. Com efeito, enquanto escrevo esse texto, seu avanço terrestre tem sido contido pelas forças de Zelensky. Não se pode negar a bravura dos militares e civis ucranianos frente a um dos mais avançados exércitos do mundo. Kiev ainda se mantém sob o controle do jovem e inexperiente presidente.

A guerra de bravatas e adjetivos explodiu nas mídias virtuais, que são as únicas que realmente têm repercussão junto às massas. Cada lado se comporta como se fosse dono da verdade, portador dos valores mais elevados e altruístas. Frente a isso, há que se manter a cautela e a coerência com os próprios valores. Para mim, toda agressão militar é condenável, todo golpe de estado é reprovável, toda dominação interestatal é inaceitável, toda repressão às minorias é incompatível com os verdadeiros valores humanos. Não é uma surpresa que, para justificar a assim chamada “operação especial”, Putin argumente que a Ucrânia seja inseparável da Rússia, tal como um pequenino apêndice do corpo humano. Não é à toa que, fazendo uso do aparato de repressão estatal, Putin se esforce tanto em silenciar as contestações internas aos seus desmandos. No interior da Rússia, ainda há quem discorde dessa postura militarista. Ao mesmo tempo, é incompreensível que o Ocidente continue usando a OTAN para amedrontar alguém disposto a usar de todos os meios possíveis para vencer a guerra. Não se trata de “pôr o rabo entre as pernas”, mas de reconhecer que um passo em falso pode resultar numa escalada apocalíptica e irreversível para todos os lados. Além do mais, isolar o Kremlin economicamente, tal como vem sendo feito pelos países ocidentais, coloca-o ainda mais nos braços de Xi Jinping, numa aliança que desafia os falcões estadunidenses de uma maneira como jamais se viu antes. Estarão os norte-americanos cavando a própria sepultura? O tempo certamente dirá.

Outro sinal de decadência política e de guerra declarada é o uso exacerbado de hipérboles, insultos e ameaças. Como era de se esperar em qualquer conflito, todos abandonaram por completo a moderação. Usa-se, cada vez mais, recursos retóricos que transmitam força bruta, confiança demasiada e determinação resoluta. Assim, pretende-se convencer as massas de que o inimigo recuará e que os aliados triunfarão, trazendo à pátria os espólios da conquista bélica. Quem se deixa levar por essas leviandades discursivas, especialmente as que mexem com o que temos de mais sensível e pessoal, acaba se distanciando do incontornável deserto do real. É difícil manter-se desperto em meio ao tumulto de falas, imagens e emoções que vemos nas mídias dia após dia. A guerra é muito mais complexa e intricada que um discurso ideológico em rede nacional; a despeito das desculpas ideológicas, ela reflete o que temos de mais brutal e animalesco, nossa insensatez mais primitiva e violenta. Não sei se superaremos esse instinto belicoso, tão proveitoso ao lucro de inúmeras empresas multinacionais, que colocam os seus interesses acima de qualquer propósito humanitário. A guerra sempre interessou aos poderosos que se serviam da carne dos pobres, infelizes que pegavam em armas para matar os desterrados do outro lado da terra.

Para aqueles que, como eu, sempre ansiaram por um mundo pacificado, preocupado tão somente em gerar prosperidade e bem-estar coletivo, o que temos visto nas telas de celulares, computadores e televisores é cada vez mais desolador.

 

Daniel Viana

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domingo, 27 de fevereiro de 2022

Uma crítica à política externa bolsonarista

 

         Ao longo dos últimos dias, o mundo tem observado, no leste europeu, fatos de extrema relevância geopolítica e geoeconômica. Não há quem não assuma um posicionamento com base naquilo que acredita ser ideologicamente factível e lógico. Entretanto, neste texto, não me aprofundarei nas justificativas do Kremlin para atacar Kiev, nem se o Ocidente acertou em fomentar o militarismo nas fronteiras da Rússia, bem como em expandir a OTAN para o leste. Em outro momento, me deterei nestas questões mais amplas e sensíveis.

Temos diante de nós um fato: a Rússia invadiu a Ucrânia, pondo um fim à estabilidade política que se estendeu ao longo de décadas na Europa Oriental. Cada nação tem apresentado o seu posicionamento com base nas mais variadas justificativas políticas, ideológicas, históricas, econômicas e socioculturais. Uma mudança de proporções globais encontra-se diante de nós, com consequências que se estenderão por muitos anos à nossa frente. Talvez, assim como ocorreu nos primeiros dias da Pandemia do Novo Coronavírus, nem todos tenham se dado conta do tamanho da mudança que temos testemunhado.

            Em meio a isso, o governo brasileiro tem demonstrado sua indisfarçável mediocridade. Demonstrar solidariedade ao presidente russo, Vladimir Putin, foi um dos mais graves erros de política externa de Jair Bolsonaro. Isso pode ser justificado por diversas razões. Primeiro, a vastíssima e respeitável tradição diplomática brasileira sempre prezou pela manutenção da neutralidade nos conflitos entre Estados, a menos que haja um desrespeito ao Direito Internacional e às determinações da ONU. Não assumimos abertamente um lado, até que isto se configure incontornável. Segundo, temos boas relações políticas, históricas e comerciais com os dois envolvidos, Rússia e Ucrânia, de modo que não é do nosso interesse imediato assumir um posicionamento claramente contrário a qualquer um dos dois, como, por exemplo, romper relações diplomáticas com o Kremlin ou Kiev. Terceiro, numa situação de agravamento das tensões, é injustificável fazer uma visita a qualquer um dos envolvidos, haja vista que somos parceiros dos dois países. Em suma, a boa diplomacia sempre preza pela coerência das suas escolhas e pelo pragmatismo, algo que, simplesmente, não ocorre na gestão Bolsonaro.

       No meu entendimento, a boa diplomacia prefere o pragmatismo aos furores ideológicos. Pois, nas relações entre as nações, há que se prezar tanto pelos ganhos a curto prazo, quanto pelos ganhos a longo prazo, o que nem sempre está ligado ao que acreditamos estar em sintonia com as nossas premissas e convicções ideológicas. Nesse âmbito político, não se deve cometer quaisquer leviandades a troco de nada, pisando à toa naqueles que poderiam vir a ser bons parceiros comerciais. Caminha-se com extrema cautela, com olhos bem abertos para as oportunidades que certas conjunturas históricas propiciam para a nação em si, tal como Getúlio Vargas fez em relação ao posicionamento do Brasil na Segunda Guerra Mundial: sem afobação, ele trouxe aos brasileiros uma série de benefícios econômicos, ao mesmo tempo em que se posicionou a favor da libertação dos povos da tirania nazifascista. Tal fato histórico não mudou o passado ditatorial de Getúlio, mas deixou, na nossa memória coletiva, a consciência de que uma política externa lúcida pode trazer avanços concretos à classe trabalhadora brasileira.

Deve-se saber o momento preciso de ser maleável. Evitando, assim, ser injustamente compreendido como incoerente e falsário. Os partidários mais fanáticos, certamente, irão esbravejar e espernear contra quaisquer movimentos conciliadores, de tal maneira que, um bom governante, está com os seus ouvidos atentos aos seus aliados moderados. Eles são a parte que, geralmente, está mais lúcida, serena e próxima da realidade. Vale lembrar, por exemplo, que a conservadora e brutal Ditadura Militar brasileira fez com que fossemos o primeiro país a reconhecer a independência de Angola — então governada por um partido de esquerda —, algo que estava em sintonia com os interesses comerciais e financeiros das classes dominantes brasileiras, apoiadores de extrema relevância para a própria Ditadura. Isto exemplifica a boa condução diplomática de uma nação soberana.

        O apoio de Bolsonaro a Putin foi um desnecessário tiro no escuro, típico de um governante que tenta escapar, a qualquer custo, do isolamento ao qual se encontra mergulhado. Se ele tivesse cancelado a viagem de antemão, teria tido a oportunidade de demonstrar ao Ocidente que não está de acordo com as manobras militares que já ocorriam nas bordas da Ucrânia, logo, que é um democrata pacifista, humanitário e libertário. Entretanto, a verdade sempre prevalece. O mundo testificou mais uma vez que o gigante latino-americano é governado por um soldadinho arrivista, autoritário, radioativo e despreparado. E não há nada que negue isso, de modo que o falso messias se enforca na sua mediocridade. Sua postura inepta e obtusa coloca o país num completo vexame internacional, naquele que já é um dos fatos mais determinantes da nossa contemporaneidade. Assim sendo, o próximo mandatário certamente terá muito trabalho pela frente; ele se verá diante da cansativa missão histórica de concertar as rachaduras e limpar as manchas deixadas por todo lado.

Ao longo dos últimos anos, tem-se ficado cada vez mais claro que a gestão de Jair Bolsonaro representa o maior desastre que já acometeu a sociedade brasileira. Jamais se viu, em nosso país, um mandatário disposto a arruinar por completo o que ainda poderia ser tido como bom no Brasil. Estamos testemunhando, em primeira mão, um processo histórico de arrasamento da nossa nação, tal como nunca se viu em qualquer civilização ocidental. Para tanto, basta levar em conta as centenas de milhares de mortes da pandemia, a abjeta concentração de renda, o isolamento internacional, a destruição sistemática dos nossos biomas, a depreciação moral e financeira das Instituições ligadas à ciência e ao ensino, o desmantelamento de órgãos culturais imprescindíveis, como, por exemplo, o Ministério da Cultura, a proliferação de grupos neonazistas, o armamento de extremistas, a cisão das famílias e grupos de amigos, o retrocesso da linguagem política ao fanatismo descerebrado, o ressurgimento da inflação e da fome, o desemprego, o empobrecimento e a precarização das massas etc. Portanto, o aspecto diplomático é somente parte de uma catástrofe que se estende por todos os lados, cuja reparação levará ainda muitos anos para ser concluída.

Não é necessário ser de esquerda para se opor a Bolsonaro. Basta alimentar dentro de si uma nesga de solidariedade, tolerância, empatia, amor ao conhecimento, escuta atenta ao próximo… Quem sabe ouvir e respeitar, reconhece, na psique bolsonarista, um estrago que pode se aproximar da irreversibilidade completa. Os erros do Partido dos Trabalhadores, cometidos ao longo de quatro mandatos presidenciais, são visíveis a olho nu, é verdade, mas jamais o petismo se aproximou do que a ideologia bolsonarista é hoje: uma seita de fanáticos embevecidos de ódio virulento, pavores delirantes, ignorância profunda, crenças infundadas, desejos tragicamente reprimidos e intolerância decrépita. Não há como pactuar com essa gente. É preciso evidenciar suas falhas, derrota-los eleitoralmente, prender os eventuais criminosos e reconquistar de vez o espírito das massas.

 

Daniel Viana

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sábado, 15 de janeiro de 2022

Enfim, libertos?

 

                Assim como a vasta maioria das pessoas vivas, não tenho dúvidas de que os últimos anos foram absolutamente trágicos para a Humanidade, excetuando-se, é claro, a plutocracia que esconde suas fortunas em paraísos fiscais e que acumula lucros vexaminosos ano após ano. Entretanto, é notório que a situação varia sensivelmente de um país para o outro. No nosso caso, pode-se dizer que o Brasil caminha em direção ao desastre, a despeito da horripilante gestão do nosso infame e desumano mandatário, Jair Bolsonaro.

                Todavia, o que vou escrever a seguir, não diz respeito ao presidente atual. Haverá o momento certo de expor ainda mais a sua indisfarçável e intratável mediocridade, fruto de uma personalidade histriônica e obtusa, que jamais deveria ter posto os pés no Palácio do Planalto ou ter alguma notoriedade em meio à nossa sociedade.

                Prefiro ater-me àquilo que temos observado há meses no noticiário: o vigoroso renascimento político de Lula, dado por muitos como o próximo presidente do Brasil. De certa forma, tudo isso me encanta quando penso no Brasil. Pois se trata de um indivíduo exposto a uma das maiores campanhas de ataque midiático que se teve notícia em nossa história, mas que, a despeito de todos os esforços da Casa-Grande, conseguiu sobreviver e andar de cabeça erguida na rua. Quem se atreve a negar sua perspicácia e sua popularidade a essa altura? Para o bem ou para o mal, Lula sobreviveu e segue dando as cartas no debate acerca do presente e do futuro do país.

                Em meio a isso, muitos seguidores do ex-presidente se juntam para nos lembrar que “no tempo dele, tudo era melhor”. Ora, se compararmos o passado recente com uma soma de pandemia, debacle econômica, queda da renda, apocalipse climático, escassez e pobreza generalizadas, bem como uma aguda crise de representatividade, tudo que veio antes parece róseo, um arco-íris de plenitude e bem-estar coletivo, o que não é verdade.

Para não cair nos chavões e lugares-comuns do nosso mindset político, é urgente um pingo de lucidez nos raciocínios, nos posicionamentos e nas palavras. Desconfie das soluções fáceis. Falar sem cautela, movido por um desejo de se destacar em meio aos outros, é simplesmente contraproducente. Como disse um poeta certa vez, “o Brasil não é para iniciantes”. O nosso cenário é mais complexo do que se imagina.

Os petistas dizem que criticar o Partido dos Trabalhadores (PT) é fácil, uma espécie de comportamento de manada reacionário e condicionado pelos grandes conglomerados de comunicação. Entretanto, quem se identifica como anticapitalista, antifascista, progressista, trabalhista, socialista ou comunista, sabe o quão complexo é criticar os ditames do partido fundado pelo ex-presidente Lula, líder em todas as pesquisas de intenção de voto. Sempre estamos às voltas com acusações de sectarismo, esquerdismo, extremismo, ou, nos piores casos, de que estamos “a serviço da direita”. São acusações que beiram ao que há de mais cômico na imaginação política.

Ainda hoje, Lula enche o peito para nos lembrar que o seu partido é o maior da América Latina. E ele está coberto de razão. Logo, devemos dar a este partido aquilo que lhe é de direito: uma insistente e incansável crítica quanto às consequências de suas políticas para o povo brasileiro nas últimas décadas. Afinal, foram treze longos anos de gestão petista, cujo final desembocou numa calamitosa recessão, até então sem paralelo em nossa história repleta de tragédias. A famosa autocrítica que se cobra de Lula e do PT é aquela que tanto ouvimos nos meios de comunicação de massa. Mas, esta é vaga, moralista e pequeno-burguesa. Deve-se cobrar aquilo que estava nas origens do PT, que tanto deu esperanças aos trabalhadores e trabalhadoras, que não hesitaram em arregaçar as mangas e engrossar as fileiras do partido no idos de Fevereiro de 1980. À época, ser do PT, significava assumir a luta por uma sociedade mais igualitária, com uma autêntica justiça social, sempre a favor dos mais pobres, contrariando os interesses do patrão.

De fato, como toda força hegemônica em seu devido momento histórico, o lulismo e o petismo procuram ignorar, calar ou difamar os seus críticos mais coerentes, para que, assim, possa dar sobrevida ao seu próprio status quo. Aos lulistas e petistas já não interessa mais o vento da mudança. Faz décadas que ser membro do PT deixou de ser sinônimo de rebeldia, inconformismo ou mesmo de preferência pelos mais pobres. Na realidade, deve-se pontuar que o mundo mudou muito de 1980 para cá: as gerações, as relações, as ideologias, as tecnologias e o cenário internacional são completamente diferentes. Contudo, ao invés de ouvir o apelo por mudança, o PT se apegou àquilo que achou válido para si, deixando para trás seu passado legitimamente popular.

O PT que emergiu no início dos anos 1980, representou um avanço para o nosso país. Não tenho dúvidas quanto a isso. Entretanto, todos os partidos políticos estão sujeitos a uma decadência própria de quem não se renova, de quem não se rejuvenesce, mantendo-se prisioneiro de dogmas que envelhecem à medida que o tempo passa. Aliar-se a uma burguesia decadente e a partidos fisiológicos, no intuito de preservar uma governabilidade sem povo, foi um desses dogmas desastrados. O único aliado de um partido proveniente das camadas populares é o próprio povo e ninguém mais. Nunca haverá espaço para nós nos salões dos endinheirados. Mais cedo ou mais tarde, o partido verdadeiramente operário que se apoiar num conchavo com a burguesia será removido, perseguido e aniquilado. A luta de classes é tão real hoje quanto na época de Marx e Engels, de Lênin e Mao Tse-tung, de Marighella e da Guerrilha do Araguaia.

                Para mim, Lula não representa esperança, mas uma anestesia que possibilitará à nossa insensível e selvagem burguesia desfigurar, desmantelar, desmobilizar ainda mais a sociedade brasileira. Claro que, frente a uma figura nefasta como Bolsonaro e seu projeto de destruição da nossa nação, votar em Lula parece a escolha mais imediata, dada a boa lembrança que uma favorável parcela da gente brasileira tem para com ele. Jamais negaria isso. Aliás, não espero conseguir a compreensão do militante petista, haja vista a cegueira patológica que corrompe os lulistas mais fanáticos e descerebrados. O debate lúcido, racional e sincero está simplesmente cancelado para estes encarcerados do personalismo.

                Lula sempre foi um negociador de conciliações, o que, em tempos passados, pode ter dado relativamente certo. Decerto, em sua gestão, a burguesia lucrou rios de dinheiro, ao mesmo tempo em que os desfavorecidos foram salvos da fome e da pobreza mais extrema. Ademais, postos de trabalho foram criados, setores da economia avançaram a passos largos, os pobres entraram nas universidades, nos shoppings e nos aeroportos, as escolas técnicas se espraiaram e a política externa foi um pouquinho mais arrojada que o normal, bem como leis — absolutamente necessárias e civilizadoras — como a Maria da Penha foram criadas e ratificadas. Outras conquistas chamaram a atenção de todos, como a recepção da Copa do Mundo e das Olimpíadas, de modo a confirmar a emancipação da nação brasileira aos olhos do chamado “mundo civilizado”. A grande massa tinha a sensação de que, enfim, o nosso amado e sofrido Brasil havia acompanhado o bonde da história.

                Só que, os fatos históricos nem sempre caminham pari passu com as nossas convicções ideológicas e pessoais. Na realidade, tanto a esquerda quanto a direita costumam manipular a História e, se possível, até mesmo a realidade para os seus próprios fins. É claro que a busca da verdade quase sempre esbarra na impossibilidade de se chegar a conclusões indubitáveis. No entanto, é possível saber, com segurança, de que certos fatos certamente ocorreram, não só devido às provas materiais que os corroboram, como também pelos testemunhos daqueles que participaram das ilicitudes em questão. Negá-los, parece mais um exercício de ilusionismo do que de esclarecimento jornalístico ou histórico. Portanto, digo, sem quaisquer dúvidas, que a corrupção envileceu a gestão de Lula e Dilma — o que não nega a sua existência em épocas anteriores.

                Contudo, a corrupção não foi o maior dos males da gestão petista, por incrível que esta afirmação pareça. Ao contrário do que a classe média moralista pensa, a corrupção não é a trava que nos impede de se desenvolver ao ponto de alcançar as nações ricas, porque estas também sofrem da mesma moléstia e seguem nos governando de cima. A corrupção é endêmica ao capitalismo, e não uma anomalia que o aflige, de tal maneira que o entreguista abobado é mais um que desconhece o funcionamento das engrenagens do poder e do aviltante acúmulo de riquezas que caracteriza o sistema capitalista. Assim sendo, é ingênuo afirmar que o PT criou a corrupção, bem como que as cifras tenham superado tudo que houve antes. Sempre houve quem se aproveitasse do poder para chafurdar seu caráter no lamaçal da indecência. Dourar o passado, como se este fosse uma espécie de horizonte utópico para os desencantados do nosso presente, é um insulto à inteligência de quem já mergulhou nas entranhas da nossa trágica história.

                Ora, se a corrupção não foi o pior e nem o único dos gravíssimos erros do PT, quais outros enganos poderiam ser destacados? Eu poderia dizer que Lula cortejou e alimentou a mesma cúpula de sanguessugas do MDB que, mais tarde, iria defenestrar Dilma Rousseff da cadeira presidencial e que nos conduziria a um vórtice de absurdos e insanidades, desembocando nas Eleições de 2018, cujo fim todos nós sabemos qual foi; eu poderia dizer que Lula apoiou uma política de segurança pública que resultou numa escalada de encarceramento e assassinato de negros e pardos, tal qual nunca se viu antes na história desse país; eu poderia dizer que Lula abortou qualquer tentativa de enfrentamento à concentração de poder dos clãs ligados aos meios de comunicação brasileiros; eu poderia dizer que Lula fortaleceu o mesmo agronegócio que mais tarde se converteria num bastião do bolsonarismo e que sempre foi antipopular, um arqui-inimigo dos povos indígenas e quilombolas; eu poderia dizer que Lula não se importou em desmobilizar as massas do protagonismo político, de modo a abrir espaço, nas ruas, para uma grotesca extrema-direita, que surrupiaria Dilma da presidência. Essa lista poderia seguir adiante, ao longo de muitas páginas, mas creio ter dado uma noção clara do meu profundo desacordo com as políticas petistas.

                Também é digno de nota que, terminada a Ditadura e promulgada a Constituição, era indiscutivelmente premente a reforma do Estado Brasileiro, como, por exemplo, a Reforma Tributária, a Reforma da Previdência, a Reforma Agrária, a Reforma Urbana e assim por diante. Collor não o fez, tampouco Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, o que não deve surpreender a ninguém que conheça a quem estes senhores serviam. Claro que a superação da hiperinflação foi uma conquista importante, porém ela era insuficiente para curar um país abissalmente injusto como o nosso. Acreditou-se que o PT pudesse fazê-lo melhor que os demais, mas não foi o que acorreu. Lula, tal como um mero populista, simplesmente surfou na mais prodigiosa e surpreendente popularidade — resultante, em boa medida, do famigerado boom das commodities — para eleger uma inepta, impopular e canhestra sucessora, que, mais tarde, colaboraria para afundar o Brasil numa tenebrosa recessão. Quer queira, quer não, isso ficará registrado em sua controversa biografia.

                A despeito de tudo isso, há quem alimente sinceras esperanças quanto ao nosso futuro próximo. Afinal, estamos chegando ao final do pior governo da nossa história. Um verdadeiro desgoverno, para ser mais preciso, que só pode ser defendido pelos canalhas, fanáticos, manipulados e pelos entreguistas. Logo, é de se esperar que saiamos do fundo do poço a partir do ano que vem.

Não me envolvo em discussões com nenhum dos dois grupos risivelmente antagônicos — haja vista que ambos servem aos mesmos senhores —, pois sei bem que não há argumentos que se façam ouvir em meio ao fragor ruidoso das paixões políticas. E, antes que eu seja apressadamente acusado de traidor pela pseudoesquerda do PT, afirmo que, no segundo turno, votarei em qualquer um que se oponha a essa catástrofe que representa Bolsonaro, o que, obviamente, inclui Lula. Todavia, respeito e compreendo quem decidir votar em branco ou anular o seu voto.

                Até o presente momento, não se vê qualquer mudança de rumos na maneira com que Lula e o PT pretendem governar o nosso país a partir de 2023. Ao contrário, de vez em quando surge no noticiário o famoso “Lulinha paz e amor”, ridícula alegoria de quem pretende atenuar a ferocidade das classes dominantes, tão afeitas à submissão do povo brasileiro. Com efeito, repete-se que antes era melhor, sendo que foram justamente as estultas decisões do passado que nos conduziram à catastrófica realidade que vivemos hoje. Colocar toda responsabilidade em Bolsonaro, é um equívoco de quem tem memória curta, de quem se apressa em condenar só uma parcela dos malfeitores que arruinaram a morada em que vivemos. Quando Lula assumirá o seu quinhão de responsabilidade, de modo a corrigir o prumo do navio antes que ele colida com o iceberg?

                É claro que, diante de todo o horror que representou a gestão de Bolsonaro, o lulista mais afobado dirá: “Antes era melhor!”. Ora, eu não nego que tenha sido, mas não me permitirei falsear aquilo que, verdadeiramente, foi a Era Lula-Dilma.

 

Daniel Viana

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sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Livros lidos em 2021

 

            Este foi o ano que eu mais li. No entanto, permaneço insatisfeito com a exígua quantidade de tomos consumidos, tendo em vista que o número de livros lidos por estrangeiros, geralmente, é superior ao meu. É claro que a maioria dos brasileiros lê muito menos que eu, porém isso não me dá direito de acostumar-me à postura de semiletrado. É preciso se desafiar, ir além dos próprios limites, rumo a uma vida em constante transformação. Não seria o escritor uma figura peregrina? Não seria sua busca uma condenação à solitude?

Ora, se levarmos em conta que tenho sérias pretensões de ser escritor, cujo ofício baseia-se na elaboração de novas maneiras de expressar-se com a Linguagem, o buraco acaba sendo mais fundo, haja vista que um escritor não deveria se limitar a ler menos de trinta livros por ano. Certamente, todo escritor tem de ter uma perturbadora fome por livros e mais livros, de modo a acumular em seu microcosmo o máximo de possibilidades, variedades e sabores da língua em que se expressa. Nessa empreitada, não pode haver procrastinação ou preguiça.

            Ainda assim, tenho motivos para alegrar-me. Pois, neste ano que acaba, tive o prazer de começar a ler autoras de alcance nacional, tais como Clarice Lispector (!), Adelia Prado e Aline Bei; também tive a oportunidade de conhecer autores estrangeiros que não fossem pertencentes à Anglofonia, como, por exemplo, Domenico Losurdo, um italiano, e Rainer Maria Rilke, autor de língua alemã. Ainda assim, meu mergulho na Literatura foi tímido. Sinto que preciso de mais, muito mais. Um universo inteiro está à minha espera.

            Eis, portanto, minha lista de livros lidos em 2021, um ano absolutamente diferente de todos que vivi.

 

1.      Simplesmente irmãos vol.2 (Irmãos Maristas)

2.      Uma história dos jesuítas, John W. O’Malley (Edições Loyola)

3.      Crise Colonial e Independência (Editora Objetiva)

4.      Olhando para dentro (Editora Objetiva)

5.      Colonialismo e luta anticolonial, Domenico Losurdo (Boitempo)

6.      Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke (Biblioteca Azul)

7.      Perto do coração selvagem, Clarice Lispector (Rocco)

8.      A paixão segundo G.H., Clarice Lispector (Rocco)

9.      A hora da estrela, Clarice Lispector (Rocco)

10.  O Cristianismo na Idade Média, Danilo Mondoni (Edições Loyola)

11.  O Cristianismo na Antiguidade, Danilo Mondoni (Edições Loyola)

12.  E os cristãos se dividiram, Danilo Mondoni, (Edições Loyola)

13.  A Caminho com Inácio, Arturo Sosa (Edições Loyola)

14.  O peso do pássaro morto, Aline Bei (Nós)

15.  Pequena coreografia do Adeus, Aline Bei (Companhia das Letras)

 

 

Daniel Viana

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terça-feira, 30 de novembro de 2021

Não há esperança

          Livrar-se das ilusões e suas falsas promessas é um processo tão amargo, que a maioria, por comodismo e insegurança, simplesmente prefere manter-se presa à sua bolha de fantasias e mentiras.

A sociedade ocidental tem como um dos seus mais preciosos fundamentos a noção de liberdade individual. Crê-se que cada um é livre para fazer o que bem entende, ainda que essa “liberdade”, normalmente, restrinja-se a consumir os produtos que fazem a roda do Capitalismo girar sobre os demais. Essa roda tem sido duramente questionada desde a Crise Financeira de 2007/2008, o que ajudou a renascer o Marxismo em meio às gerações mais jovens. Não é à toa que essa roda vem esmagando mais pesadamente os jovens; basta dizer que, nas estatísticas de desemprego, de informalidade, os Millennials ocupam as posições mais desfavoráveis ano após ano. E, ainda que o Comunismo não tenha a força de cem anos atrás, muitos capitalistas já enxergam a possibilidade de rever alguns dos seus dogmas neoliberais, tendência que se acentuou ainda mais com a crise econômica derivada da pandemia do novo coronavírus. Em suma, o famigerado “sistema” está em crise, o que, certamente, não é algo novo; contudo esse fato abre novas possibilidades para aqueles que realmente querem “sair da Matrix”.

Porém, a despeito do explosivo avanço tecnológico que temos observado nos últimos decênios, a psique do ser humano não evoluiu ao ponto de superar coletivamente seus dilemas, preconceitos e instintos mais primitivos. Nosso mindset não corresponde às aspirações que, às vezes, nos impomos uns sobre os outros. Na realidade, os meios para se controlar as massas nunca foram tão preocupantes e eficientes, como se pode perceber nas tecnologias de reconhecimento facial, de vigilância cibernética, de repressão policial, de rastreamento por satélite etc. Em nome de uma difusa noção de segurança nacional, bilhões de pessoas tornaram-se — contra a sua vontade — ratos de laboratório num experimento que nenhum indivíduo isolado tem total controle. Este, é um sistema altamente complexo, cuja plena compreensão ainda levará anos para ser alcançada. De fato, rebelar-se contra essa realidade é cada vez mais difícil. Ao contrário do que muitos advogam, a solução dos nossos problemas não virá da tecnologia, das novas revoluções industriais… Na realidade, tal como vimos em épocas passadas, a tecnologia é absolutamente capaz de agravar ainda mais o sofrimento coletivo.

Curiosamente, ao invés de fomentar a rebelião, tal conjuntura sociopolítica terminou por favorecer o comportamento de manada no ser humano. Nunca fomos tão acomodados e manipulados quanto agora. Pois, cada um renunciou ao dever da busca pela mudança, do questionamento, da procura por um mundo melhor, do embate contra os poderosos…. Não há mais revolucionários, tampouco líderes que inspirem os melhores anseios da humanidade. Sobram arrivistas de respostas rápidas, oportunistas com frases de efeito, cafajestes de apelo popular com suas simplificações mentirosas e grosseiras; todos estão à procura de espaço no noticiário, visualizações na internet etc. Ao mesmo tempo, desde que o comunismo soviético entrou em colapso, acentuou-se nas gerações mais novas um distanciamento em relação à política partidária e convencional, de modo a produzir uma verdadeira pulverização dos tradicionais movimentos de massas. Onde estão os movimentos estudantis? Onde estão os sindicatos? Onde está a força dos intelectuais e artistas? Onde estão os partidos populares? Tal vácuo foi preenchido por tecnocratas, demagogos e gângsteres da pior qualidade; todos plutocratas e antipopulares com visíveis tendências antidemocráticas. Portanto, torna-se necessário que o povo traga a política novamente ao seu dia a dia, debatendo, às claras, o nosso futuro enquanto sociedade. E, mesmo assim, este será só o primeiro passo de um processo que se estenderá por décadas à nossa frente.

Entretanto, cada vez mais, as pessoas se acomodam à própria servidão. Com efeito, a postura heroica de sair à procura de respostas para perguntas tão gritantes, não é habitual em nossa sociedade. Na realidade, isso não só é visto como algo demasiadamente excêntrico, como também é muito exigente e, ao menos em nossa cultura de entretenimento, pouco apelativo. É mais aceitável cair de cabeça num hedonismo imaturo e infrutífero, além de variados hobbies e entretenimento fútil. Parece que abandonamos o heroísmo dos míticos guerreiros que enfrentavam feras mitológicas, salvavam donzelas e superavam barreiras instransponíveis para os mortais; excetuando-se os filmes de super-heróis, os mitos antigos já não parecem inspirar em nós o mesmo que ocorrera com gregos da Antiguidade.

Sem heroísmo, orientação ou sentido para a vida, o ser humano torna-se vulnerável a todo tipo de doença mental. De fato, é de conhecimento geral que estamos passando por uma pandemia ainda pouco noticiada pela mídia: a da depressão. Indo muito além de aspectos como nacionalidade, raça, religião, gênero, idade, preferência política e condição social, a depressão aprisiona pessoas nas mais variadas circunstâncias e eventualidades. É claro que não há respostas fáceis para um problema dessa envergadura, porém não há como dissociar esta realidade do contexto socioeconômico ao qual estamos atrelados. O aumento das psicopatologias são, em parte, uma consequência da precarização da vida nas grandes metrópoles contemporâneas. À medida que assumimos o comportamento de um multitasking/workaholic, vamos nos imergindo num caminho que só poderá terminar em profunda perturbação mental, pois não somos capazes de atender demandas tão altas pelo tempo que se requer. Somos limitados, frágeis e precisamos frear o corpo e a mente de tempos em tempos para manter um certo nível de bem-estar psicossocial.

(Tal como um subproduto do Ocidente católico, consequência trágica da expansão dos impérios ibéricos, a América Latina mantém-se como mera receptora tardia de tendências eurocêntricas. Ainda que caminhemos para um século asiático, cujo protagonismo, pela primeira vez em séculos, dar-se-á no Extremo Oriente, mantemo-nos apegados à opinião dos velhos senhores, renegando, de maneira inegavelmente tola, a nossa vocação para a união continental. Deixamos de inovar, tememos imaginar novos mundos, renunciamos ao desafio de contestar os ditames repassados pelos nossos colonizadores. Aliás, após décadas de governos pretensamente democráticos e liberais, estamos, vagarosamente, nos dando conta de que não basta o direito de votar em quem quiser, é preciso uma verdadeira e profunda democratização do poder, da renda, do conhecimento, da terra, da cidade, da mídia, da tecnologia etc. Isso não se dará sem luta nas ruas, sem uma vanguarda política que assuma o protagonismo próprio de quem se vê imbuído do dever da mudança. Entretanto, em nosso horizonte imediato, tudo se resume a quem preferimos colocar na cadeira presidencial. Nada poderia ser mais tragicômico.)

            Não resta dúvidas de que grande parte das pessoas só passa a questionar a realidade após uma experiência traumática, tal como uma catástrofe, a morte de alguém querido ou um acidente violento. Caso tudo se mantenha em perfeito estado, o ser humano da nossa época segue sua vida ordinária como mais uma engrenagem da sociedade moderna, movendo-se bovinamente em direção ao matadouro. Há pessoas que chegariam a defender a estabilidade desse “sistema”, sua sobrevida vegetativa, em firme oposição aos que pregassem uma superação dessa realidade que nos oprime e fustiga, pois sua parca sobrevivência depende da permanência de tudo como está. Isso não é novidade. A história humana está repleta desses conflitos maniqueístas.

De fato, em nossa sociedade, quem descumpre a regra de caminhar junto à turba de iludidos é, de modo geral, acusado de insanidade e, por vezes, visto como ameaça ao “sistema” que nos governa — quem nunca foi acusado de esquisitão por seus pares, simplesmente, por não seguir o rebanho nos mesmos gostos e costumes? Contudo, nem sempre a realidade se apresentou dessa forma torpe. Na verdade, ainda há uma tradição, em certas regiões da Ásia, de homens que deixam tudo para trás e partem em busca duma sabedoria que escapa ao senso-comum. Ainda é comum encontrar ascetas, místicos, sábios e errantes na Índia e em outras regiões do continente asiático.

Entretanto, à medida que a Internet abre suas portas aos mais variados setores da sociedade humana, torna-se claro que o entretenimento rasteiro e barato é a verdadeira aspiração das massas digitais. A despeito de haver uma infinidade de opções de consumo — algumas genuinamente reflexivas e complexas —, tudo se resume a um conteúdo absolutamente vazio, simplista e mercadológico, feito para ser “a sensação do momento”, “o hit do verão” e nada mais que isso. Cada vez mais, tem se tornado difícil encontrar pessoas que tenham alguma familiaridade com o cânone da Literatura Brasileira, os clássicos da Música Popular Brasileira e assim por diante. E, mesmo que o ensino público tenha se universalizado no Brasil, a qualidade da Educação pública nunca foi tão baixa.

Não tenho dúvidas de que vivemos um processo de emburrecimento em massa — quase tão grave quanto o cenário retratado no filme Idiocracy (2006). Os sinais da catástrofe estão por todo lado. Para tanto, basta mencionar o negacionismo científico e o anti-intelectualismo, o movimento antivacina, o ressurgimento da extrema-direita, a proliferação de fake news e as redes sociais como único meio de socialização coletiva, a incapacidade de se lidar com a mudança climática, a incontrolável extinção de espécies, as crises financeiras, o fortalecimento do tráfico de drogas etc. Não há como ignorar o fato de que vivemos uma época de decadência estrutural da nossa sociedade.

Os budistas, por sua vez, testificam que vivemos um tempo de degenerescência, o que tornaria ainda mais desafiador alcançar um entendimento mínimo do Dharma. Atravessamos uma era de obscurecimento daquilo que os seguidores do Buda chamam de “a natureza mais profunda da realidade”, dificultando a prática diária de libertação dos condicionamentos aos quais estamos presos. Para eles, o Samsara simplesmente não tem concerto. Deve-se deixar de lado a esperança de que “tudo termine bem”. Afinal, foi a compreensão de que todos os seres estão condenados ao envelhecimento, à doença e à morte, que fez Sidarta Gautama sair em busca de uma resposta ao sofrimento inerente a tudo que nos rodeia.

Devo dizer que isso me traz um certo conforto, haja vista que me poupa de labutar por uma sociedade em que todos sejam plenamente felizes. Isso simplesmente não vai acontecer — o que não quer dizer que a luta por uma sociedade mais justa seja desnecessária, apenas não se alimenta a expectativa de que a mudança trará o antídoto para os nossos males.

Diante disso, o que deveríamos esperar? Eu não espero nada.

 

Daniel Viana

© Todos os direitos reservados

domingo, 31 de outubro de 2021

O que temos à nossa frente

 

         Esta é a primeira vez que falo sobre a pandemia que se alastra pelo mundo desde 2019.

            Naquela época, eu estava mergulhando em assuntos pessoais: concluir a graduação em Tradução e dar um novo rumo à minha vida — eu passara sete anos na UFPB, fazendo o que todo universitário faz para conseguir seu título de bacharel.

Assim como quase todas as pessoas do meu tempo, jamais pensei que uma pandemia poderia arrasar com a vida de tantas pessoas em tantos lugares num espaço tão curto de tempo, embora já me preocupasse há um bom tempo sobre a proliferação de superbactérias em decorrência do uso descuidado de antibióticos. Aliás, quero deixar registrado meu temor de que ainda vejamos problemas relacionados a superbactérias num futuro não tão distante.

            Tenho a impressão de que a fase mais sombria da pandemia ficou para trás, embora seus efeitos na Economia, na Política e na Sociedade se mantenham por mais alguns anos. Ainda estamos vivendo um dos piores momentos da nossa História enquanto nação. Aliás, tenho certeza de que a possibilidade de tudo piorar mantenha-se mais viva do que nunca. Estamos num país que sofre as consequências de problemas mal resolvidos, oportunidades desperdiçadas, vícios irresolvíveis, os quais se perpetuam à medida que os anos passam. O analfabetismo persiste, a miséria e a fome se acentuam, a falta de saneamento básico não se resolve, o encarceramento em massa de negros e pardos não se supera, a violência contra mulheres e minorias não se dirime, a poluição não se anula, a corrupção não se purga, a economia não decola, a desindustrialização não se reverte, a desigualdade social persiste indefinidamente…

Não importa qual sigla partidária assuma o comando dos cargos públicos ou qual será a nova figura política que nos governará a partir de Brasília, o Brasil sofre de uma crise sistêmica que só será superada e compreendida em sua plenitude daqui a uns bons anos pela frente.

E, a despeito de Bolsonaro e Lula serem políticos absolutamente diferentes, não alimento grandes esperanças para as Eleições de 2022, caso o PT volte ao poder — sei que isso escandaliza alguns, mas é o que sinceramente penso. É claro que boa parte da tragédia que nos aflige se deva à gestão calamitosa, sectária e criminosa de Bolsonaro e seus incompetentes ministros. Mas, isso não muda aquilo que o PT representa para o nosso país. Como já disse antes, muitos vivem de um passadismo ilusório, cujo efeito expressa-se na obsessão em ver Lula voltar à cadeira presidencial. Entretanto, vivemos numa conjuntura socioeconômica completamente díspar em relação àquela em que o PT chegou ao governo federal, de modo que as velhas estratégias, as espúrias alianças e os costumes de sempre não surtirão o efeito desejado pela cúpula petista. É preciso uma mudança verdadeiramente estrutural em toda sociedade brasileira.

Certamente, o cenário político é demasiadamente movediço, de modo que ainda é cedo para saber quem será o próximo Presidente da República — há quem diga que o atual presidente corre o risco de não estar presente nas próximas eleições, haja vista as suas patacoadas e desatinos escatológicos. O próprio Bolsonaro estava longe de ser o franco favorito no início de 2018, de tal maneira que, só às vésperas de Outubro de 2022, é que saberemos os potenciais competidores à cadeira presidencial. Resta-nos acompanhar os fatos políticos que se acumulam à medida que os dias passam.

Aquilo que tenho certeza é que dificilmente sairemos do atoleiro que temos pela frente, pois a crise econômica alimenta a crise política e vice-versa. De certa forma, é como se estivéssemos cavando a própria vala, só que sem nos darmos conta. Agarrados às nossas preferências ideológicas e ensurdecidos para aquilo que os demais tentam apontar de concreto, acusamos os oposicionistas de afundar o país, enquanto que a balbúrdia coletiva só piora o cenário nacional. De fato, é a desunião que nos condena ao fracasso enquanto nação.

Dissensos desta magnitude por vezes desembocam em guerras civis, o que não é improvável para um país fraturado como o nosso. Não nego que haja, em nossa sociedade, grupos interessados na subjugação do nosso povo, no entanto, a grande maioria deseja o mesmo: o triunfo do Brasil enquanto nação. Acalmemos, portanto, os nossos corações e ouçamos uns aos outros pacientemente, a fim de que a soma dos erros individuais não resulte numa completa convulsão social. Ainda há esperança para a nossa gente emergir do oceano de tragédias e triunfar soberanamente.

 

Daniel Viana

© Todos os direitos reservados

sábado, 11 de setembro de 2021

Um elogio à Internet

 

            Penso que a maior invenção dos últimos séculos foi a Internet. E me sinto honrado por viver nos tempos atuais, tendo acesso a dados que, em outras épocas, seriam completamente inalcançáveis às pessoas comuns. Em outros tempos, mesmo os homens e mulheres mais influentes teriam uma dificuldade tremenda em ter acesso a certos conteúdos, tais como livros, músicas, discursos etc., os quais, hoje, estão ao alcance de um clique. 

           Isso não é pouca coisa. 

      Munido de um computador, uma educação mínima e uma boa conexão, uma pessoa pode ter acesso ao que nem os grandes filósofos, os melhores estadistas e os mais renomados cientistas do passado tiveram: um universo inesgotável de informação em inúmeras línguas, perspectivas críticas etc. No futuro, os historiadores certamente definirão a nossa época como um divisor de águas, tanto para o bem quanto para o mal.

            Além disso, a visibilidade e autonomia que a Internet possibilitou, por exemplo, aos escritores iniciantes, é inteiramente inédita. No passado, a fim de se projetar a um público mais amplo, seria preciso que um artista se filiasse a um mecenas, cuja fortuna patrocinaria a sua obra — geralmente, o patrono não abriria mão de exercer um certo controle sobre o conteúdo e a estética a ser criada —, caso contrário, ele terminaria sendo uma figura à margem, preterida do cenário artístico, para sempre condenada à invisibilidade. 

           De fato, a Internet mudou tudo. 

         Agora, da mesma forma que um neófito pode cair nas graças do público a qualquer instante, um artista genial e experiente, que guardou a sua arte por toda a vida, devido à timidez ou à falta de um mecenas, pode vir ao ciberespaço e apresentá-la ao público sem quaisquer restrições. Dizem que "há muita porcaria na Internet", o que é verdade, mas também não deixa de ser perceptível a extraordinária diversidade de conteúdo, antes regulado ou refutado pelo patronato.

        Com efeito, a Internet potencializa e reverbera as aptidões dos seus usuários. Ela pode ser útil tanto a um criminoso quanto a um sujeito bem-intencionado, o que é preocupante, mas não adianta crucificar algo que não passa de um veículo, uma ferramenta. É mais eficiente (e inteligente) fiscalizar os suspeitos dentro dos limites impostos pela lei, ao invés de vigiar as pessoas aleatoriamente e ilegalmente, recolhendo dados pessoais que servirão tão somente como meio de espionagem e controle da sociedade pelo Estado e as classes dominantes. Simplesmente condenar a Internet, não serve de muita coisa, pois, a espionagem não só sempre existiu, como continuará existindo até o dia em que os cidadãos decidirem mudar o Estado em si. Essa é uma questão que envolve a luta pelo Poder, de modo que ela mereceria uma análise mais detalhada em outro texto.

         Ademais, quando se trata do mercado de trabalho, é comum ouvir críticas de que a Internet propiciou a implosão de certas profissões e lugares, como, por exemplo, os taxistas, as livrarias e as locadoras de filmes. Novamente, esta é uma crítica que não toca no ponto fundamental.

Avanços tecnológicos sempre implicaram em profundas transformações na sociedade, o que, necessariamente, inclui a Economia: o automóvel aposentou as carruagens, a luz elétrica aposentou os acendedores de lampião e, ao que tudo indica, a inteligência artificial aposentará os caminhoneiros. Nesse caso, o mais adequado não é travar o progresso tecnológico, tão necessário à Humanidade, mas gerir a sociedade de modo que os desempregados, caso não possam ser realocados para outro setor da Economia, recebam algum tipo de renda mínima — semelhante à proposta de Eduardo Suplicy —, que forneça segurança econômica às suas famílias. Para tanto, faz-se necessário uma luta política organizada, no intuito de que a classe trabalhadora e os mais pobres não fiquem ao deus-dará. Este seria, sem dúvidas, o pior cenário.

            A Internet mudou as nossas relações interpessoais? Certamente. Mas ainda é difícil definir, de modo categórico, se foi pra melhor ou pra pior. É preciso um pouco mais de tempo, dado que a minha geração foi a primeira que viveu a transição do mundo analógico para o digital ao mesmo tempo em que amadurecia — a Internet móvel foi, à época, algo inteiramente novo para todos nós —, enquanto que as gerações mais novas, especialmente aqueles que nasceram na década passada, já cresceram à sombra da Internet. Sabe-se que ela não só permite que indivíduos introvertidos encontrem seus pares, como também pode se tornar uma zona de conforto inóspita e tóxica para outros. 

         Enfim, como dissera antes, a Internet amplifica o que temos em nós mesmos. Não é por acaso que checar o histórico de navegação de uma pessoa, de certo modo, pode acabar se tornando uma viagem pela sua mente.

         A despeito das qualidades supracitadas, está se tornando cada vez mais habitual encontrar críticas tanto à Internet quanto às redes sociais — algumas delas condenam a Internet por inteiro, como se esta fosse uma espécie de porão sombrio, um lugar perigoso, onde as "crianças comportadas" não deveriam entrar. Isso vem ocorrendo especialmente após a constatação, por parte de algumas pessoas recém-chegadas ao ciberespaço, de algo que se percebia há tempos: a fortíssima presença da direita (e extrema-direita) no mundo virtual. Essa presença do conservadorismo foi ainda mais reforçada pela ausência da esquerda, que muitas vezes preferiu voltar suas atenções às mídias tradicionais.

         Pretendo fazer uma crítica às redes sociais em um momento mais oportuno, no entanto, quero deixar claro que criticar a preocupante tendência que algumas delas têm em formar bolhas comunitárias de sujeitos ressentidos, é totalmente diferente de assumir um posicionamento visceralmente contrário em relação à Internet. Haja vista que as redes sociais são meramente um fruto tardio, um desdobramento recente de algo muito maior, e não a Internet por inteiro — mesmo que alguns teimem em passar a maior parte do seu tempo exclusivamente nas redes sociais. Ainda assim, prefiro adiar o resto dessa pequena análise pra depois. Por enquanto, deixo registrado o meu apreço e gratidão por esse imenso cosmo virtual que tanto me ajudou. Muito mais poderia ser dito acerca de cada tópico mencionado, contudo, penso ter dado um quadro geral do que penso a respeito.

 

Daniel Viana

Publicado em 29 de Setembro de 2019

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