sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Um novo mundo se constrói

 

      Em agosto do ano passado, tive a oportunidade de refletir sobre o surgimento de uma nova ordem do poder global. Naquele momento, abordei diversos temas: ascensão da China, declínio dos Estados Unidos, crises e guerras mundo afora.

Ainda assim, a minha ambição em propor uma visão panorâmica e precisa do nosso mundo encontra limites na infinidade de personagens dignos de nota, na enxurrada de eventos que se acumulam a cada dia e na complexidade de questões que exigiriam uma observação mais esmiuçada, além da incontornável falta de tempo do próprio autor. Realmente, eu abro mão de qualquer pretensão em dar por encerradas as discussões que levanto nas minhas análises, a despeito dos esforços que faço nessa direção. Prefiro apontar o destino das aves que voam, ao mesmo tempo em que recolho os tremores que emergem do reino subterrâneo.

O fato é que toda análise requer um recorte, de tal maneira que o texto atual repetirá a impressão de ter sido feito às pressas, ou seja, sem o acabamento que se esperaria de um ourives frente a uma gema preciosa. Aliás, é possível que, nos dias seguintes à publicação deste texto, novos acontecimentos o tornem irremediavelmente defasado, tamanha é a celeridade dos fatos que temos presenciado.

Feitos os ajustes iniciais, passemos para a análise do cenário internacional.

            Não é preciso ser um especialista para se dar conta de que os alicerces do tabuleiro geopolítico se estremeceram nos últimos doze meses. Afinal, mesmo o público leigo, pouco familiarizado com disputas de longa data e termos herméticos, percebe que vivemos um momento de transição profunda e de tensão crescente, cujo ápice, até agora, pode ter sido o bombardeamento, por parte da Força Aérea dos EUA, às instalações nucleares do Irã.

No espaço de algumas horas, o programa nuclear iraniano, motivo de temores por parte de seus rivais ao longo de décadas, foi varrido do mapa numa operação de proporções espantosas, comprovando, mais uma vez, que os americanos não são um tigre de papel. No mundo de hoje, quantos países detêm a mesma capacidade de planejar, mobilizar, localizar e destruir seus alvos a meio mundo de distância, e fazendo-o sem nenhuma baixa militar? Quase nenhum. Isso explica por que os EUA são a maior potência militar do planeta, algo que deve se manter inalterado por muitos anos à nossa frente.

            No entanto, como todo império em declínio, os estadunidenses não poderiam se satisfazer em violar apenas a soberania iraniana, pois não é somente Teerã que tem buscado uma alternativa viável ao imperialismo ianque. Ao contrário, à medida que a China cresce e fóruns multilaterais, como o BRICS, ganham representatividade mundial, mais nações batem à porta de Xi Jinping, presidente da segunda maior economia do planeta e secretário-geral do maior partido comunista do mundo, à procura de auxílio financeiro para os dias difíceis que testemunhamos. Cada vez mais, o “dinheiro comunista” chega aos países do Sul Global na forma de investimentos em infraestrutura, ao mesmo tempo em que Beijing consome, vorazmente, as commodities extraídas dessas nações, transformando-se na locomotiva do capitalismo tardio.

Para esses estrategistas, pouco importa se os seus clientes são fanáticos do Talibã, arquirrivais indianos ou até mesmo as avançadas empresas do Vale do Silício. Na verdade, todos são bem-vindos, desde que não se metam nos assuntos internos chineses, ou atrapalhem a política externa delineada pelo Comitê Permanente do Politburo, a alta cúpula do seu centenário partido. Assim, no espaço de poucas gerações, tal estratégia produziu uma façanha sem precedentes na história da Humanidade: metrópoles surgiram do nada, trens de alta velocidade adentraram o interior, multidões de jovens se educaram em universidades, mais de setecentas milhões de pessoas deixaram a pobreza etc. A essa altura, não há mais dúvidas de que a grande vencedora da globalização foi a República Popular da China.

Tamanho êxito jamais seria aceito por Washington, que, aliás, sempre apostou que o século XXI seria um novo “Século Americano”, jamais um século “da China”, ou mesmo “da Ásia”. De fato, quem se encontra numa posição hegemônica, costuma se convencer não só que sua vocação à supremacia é um fato inquestionável, mas também que ela é a forma natural do mundo funcionar, uma espécie de modus operandi visceralmente superior a todos os demais. Decerto, todos os impérios sonharam que seu esplendor duraria para sempre, como o brilho do Sol sobre as suas cabeças, cabendo ao restante da Humanidade contentar-se com a submissão completa. Os romanos conseguiram sobreviver por mais de mil anos, até que Constantinopla foi tomada, pelos muçulmanos, em 1453; os ibéricos inauguraram o primeiro império transoceânico e transcontinental da história, até serem expulsos das suas colônias pelas mãos dos próprios colonizados; os britânicos controlaram os mares e, neles, foram invencíveis por gerações, até verem sua juventude ser dizimada no lamaçal das trincheiras europeias. Todos se entorpeceram com seus triunfos, convencendo-se que nada seria capaz de detê-los, mas a realidade dos fatos, enfim, se impôs. Agora, tais impérios não passam de uma sombra do passado, vivendo apenas nos livros e nos monumentos deixados para trás. Então, por que o poderio americano teria um destino diferente dos seus antecessores?

Ao longo das décadas de 1990 e 2000, pensava-se que a abertura chinesa resultaria, necessariamente, na instabilidade e implosão do regime comunista, o que, por sua vez, poderia levar a uma fragmentação territorial, algo semelhante ao que acabara de ocorrer à União Soviética e aos demais países do Pacto de Varsóvia. Além disso, o massacre na Praça da Paz Celestial expunha uma insatisfação latente naquela sociedade, recém-saída do longo período maoísta (1949-1976), que poderia ser melhor explorada por quintas-colunas insufladas externamente, pois, tal como os soviéticos, a China possui minorias étnicas que poderiam ser seduzidas pelo separatismo. Nessa época, havia um otimismo quase delirante de que o mundo inteiro se curvaria ao Consenso de Washington, ou experimentaria a mesma debacle do experimento soviético. Em suma, apostava-se na impossibilidade de coexistência de uma economia de mercado ultramoderna com o autoritarismo de Beijing. Porém, o tiro saiu pela culatra e, pela primeira vez, uma nação assentada no Terceiro Mundo senta-se frente a frente com os senhores da Casa Branca.

Ao mesmo tempo em que a China cresce, não há boas notícias para seus velhos antagonistas da Guerra Fria (1947-1991). Mesmo alguns dos mais fervorosos aliados dos EUA, como Japão, Coreia do Sul e Austrália, encontram-se pressionados pela nova conjuntura geoeconômica, haja vista que seu maior parceiro comercial é o dragão asiático. Mesmo a América Latina, eterna zona de influência dos ianques, lida com o fato de que não pode prescindir dos vínculos com Beijing. Sem a venda de suas matérias-primas, como o cobre, a soja e o minério de ferro, grande parte das economias latino-americanas afundariam em recessão, ou seja, tais laços econômicos se estreitaram a tal ponto que, a despeito dos desmandos de Trump, uma ruptura tornou-se, simplesmente, inviável. Em outras palavras, os comunistas usaram as regras do capitalismo para “virar a mesa”, pegando de surpresa seus antigos adversários.

Logo, os falcões compreendem que, para preservarem sua hegemonia por mais duas ou três gerações, o caos deve ser levado à periferia do globo, especialmente, quando se trata daqueles que põem em xeque sua pretensa autoridade. Afinal, fazer guerra segue sendo sua expertise. Contudo, até Donald Trump sabe que um enfrentamento militar contra os chineses resultaria numa hecatombe nuclear, de modo que a destruição será imposta aos “elos fracos”, isto é, as nações do Sul Global. De acordo com a visão de mundo dos ocupantes do Salão Oval, deve-se impor aos demais países a seguinte escolha: ser vassalo ou sofrer as consequências do caminho contrário.

            Assim, diante do sucesso do ataque às instalações iranianas, quais as chances do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, sobreviver às recentes investidas de Washington no Mar do Caribe?

Desde agosto, navios, caças F-35, submarinos e milhares de tropas foram deslocadas para as cercanias da costa venezuelana. Enquanto isso, o secretário de guerra dos EUA, Pete Hegseth, ordenou que o grupo de ataque Gerald Ford, composto pelo maior porta-aviões do mundo, partisse rumo às águas caribenhas. Ao mesmo tempo em que várias embarcações — suspeitas de levarem drogas ao território norte-americano — foram destruídas em águas internacionais, contabilizando dezenas de mortos. Para estes supostos “narcoterroristas”, não houve direito de defesa. Pelo contrário, praticaram-se execuções sumárias típicas de um western de gosto duvidoso.

Caracas reage dando fuzis à população civil e acusa os EUA de fabricarem um conflito, tendo em vista a derrubada do regime bolivariano, algo que faz todo o sentido, haja vista o fato de que a Venezuela — além de ser compradora de armamento russo, fornecedora de petróleo aos chineses e principal aliada de Cuba no continente — é uma das maiores detentoras de reservas petrolíferas. Aliás, engana-se quem pensa que essa matéria-prima perderá sua relevância estratégica no futuro próximo. Mesmo com o avanço gradual da exploração de energias renováveis, economias pujantes, como a chinesa e a estadunidense, consomem imensas quantidades de combustíveis fósseis, a despeito dos esforços em transitar para uma economia sustentável. Não é por acaso que a flutuação do preço do barril ainda faz estremecer as relações internacionais. Se o seu preço aumenta, a nação petroleira desfruta de enriquecimento, mas, se o preço do mesmo barril despenca, a explosão de uma crise torna-se quase inevitável. No caso venezuelano, a dependência da exportação do petróleo é, sem dúvidas, seu ponto mais fraco.

Ora, invasões militares em larga escala são, em geral, precedidas por grandes mobilizações de veículos e tropas, tal como vimos, em 2022, no ataque russo às terras ucranianas. Numa era de interconectividade global, não haveria como escondê-lo por muito tempo, restando ao lado enfraquecido clamar por misericórdia de todas as maneiras possíveis, como já se antecipou o próprio presidente Maduro ao repetir, em inglês: “no crazy war, please”.

A Casa Branca, por sua vez, limita-se a responder que está combatendo o narcotráfico, igualando-o ao terrorismo da Al-Qaeda, e acusa o mandatário venezuelano de chefiar o Cártel de los Soles, porém ninguém precisa recorrer a um submarino nuclear ou um grandioso porta-aviões para combater cartéis de droga. Na realidade, a chamada “guerra às drogas” é tudo menos uma guerra convencional. Armamentos, veículos, táticas e soldados que podem ser úteis num conflito interestatal, como o que temos visto na Europa Oriental, acabam sendo ineficientes em uma guerra ao que se têm chamado de narcoterrorismo. A “batalha contra as drogas” se faz, acima de tudo, no acolhimento humanizado ao dependente químico, buscando retirá-lo de sua condição via auxílio médico e psicossocial — algo que passa longe dos planos de quem ocupa hoje o Salão Oval.

Em geral, a solução policialesca tem servido, tanto nos EUA como no Brasil, para inchar presídios, militarizar forças de segurança, aterrorizar comunidades e produzir chacinas. Dessa forma, pouco importa quantas lanchas sejam bombardeadas no Caribe ou no Pacífico, o fluxo de narcóticos seguirá seu destino rumo às metrópoles estadunidenses, alimentando, tragicamente, o número cada vez maior de dependentes químicos, bem como suas nefastas implicações. Em suma, as movimentações que temos visto não visam o fim da entrada de drogas nos EUA, por mais que a Casa Branca insista nessa narrativa. Trata-se, na realidade, do que pode vir a ser a maior intervenção estadunidense na América Latina em décadas, de tal maneira que nem os brasileiros poderão manter-se indiferentes ao que se sucederá nos próximos meses.

Com efeito, do ponto de vista norte-americano, o momento não poderia ser mais propício para acabar, de uma vez por todas, com Maduro e o chavismo. Tal como ocorrera com a Síria de Bashar al-Assad, o apoio de aliados externos serviu como um bote de salva-vidas para o regime em Caracas. Graças a essa camaradagem, os ocupantes do palácio de Miraflores resistiram a duras sanções, caos econômico, tentativas de sublevação, congelamento de ativos e outras formas de ingerência. Apostou-se até em figuras insípidas, como o autointitulado presidente Juan Guaidó, porém sem nenhum sucesso prático.

De fato, tentou-se de tudo, e, mesmo assim, o regime soube se manter de pé ano após ano, algo raramente visto em nosso continente. Há quem atribua tamanha resiliência à fidelidade dos militares ao regime, à incompetência da oposição, à politização das massas, ao apreço do povo pela memória de Chávez, à repressão do governo e assim por diante. De toda maneira, o chavismo arregimentou parte das classes populares ao seu favor, enquanto o restante aderiu à oposição ou fugiu para nações minimamente estáveis. De acordo com a ONU, cerca de 7,7 milhões de venezuelanos deixaram o país desde a década passada, num dos maiores êxodos migratórios da contemporaneidade; a vasta maioria emigrou para países hispano-americanos, como Colômbia, Peru e Chile, mas uma parcela considerável também se locomoveu para os EUA e o Brasil, gerando tensões xenofóbicas cada vez mais preocupantes.

A discrepância entre o poderio bélico dos EUA e da Venezuela dispensa comentários. Basta dizer que, se Nicolás Maduro recorrer unicamente à força das tropas bolivarianas, por mais destemidas que sejam as milícias populares, seu destino, provavelmente, será similar ao de Salvador Allende: morrerá no próprio palácio de Miraflores. Outra forma de matá-lo seria recorrendo aos métodos da CIA, célebre por elaborar meios de “neutralizar” lideranças como Fidel Castro. O fato é que, mesmo possuindo armamento russo, fontes anônimas revelam, em portais de notícia, que as tropas venezuelanas estão mal equipadas e despreparadas para um confronto direto. Também lhes falta experiência de combate, um componente imprescindível em qualquer tipo de guerra. Ademais, com a Rússia ocupada em conquistar o Donbas e a China tendo de lidar com as tarifas impostas por Trump, a situação Nicolás Maduro é delicadíssima, para dizer o mínimo. Até aliados ideológicos, como o presidente da Colômbia, alertam para a necessidade de um governo de transição, pois, nas suas palavras, “um desmantelamento violento do Estado venezuelano atual trará um fortalecimento dos grupos e gangues armadas que buscarão controle territorial”.

No momento em que escrevo, a aposta de Maduro é encontrar uma forma de evitar a sua saída, ou pelo menos postergá-la. Segundo o New York Times, foi oferecida a possibilidade de uma renúncia dentro de dois a três anos, porém a Casa Branca rejeitou a proposta.

Além disso, a despeito das diferenças entre Síria e Venezuela, o exemplo do que ocorreu a Bashar al-Assad deve servir de aviso ao regime bolivariano, pois, no intervalo de apenas duas semanas, a família Assad, que governou a Síria por mais de cinquenta anos, foi expulsa pelos rebeldes que combatera desde 2011. De fato, muitos já tinham por certo que a guerra civil síria, uma das mais brutais do século XXI, estava a caminho de uma vitória completa por parte do governo em Damasco. Contudo, a mudança de prioridades geoestratégicas por parte de Moscou e Teerã — além do enfraquecimento do Hezbollah —, abriu uma oportunidade que os rebeldes souberam explorar a seu favor, gerando aquilo que, popularmente, é descrito como um “efeito dominó”. Diante do súbito avanço da oposição, os militares governistas desistiram de lutar, refugiaram-se em áreas costeiras ou se exilaram. Desse modo, o regime, simplesmente, caiu, para o espanto dos seus adversários, recebidos de braços abertos pela população eufórica em Damasco. Quem poderia imaginar que algo tão repentino e profundo pudesse ocorrer como tamanha rapidez? Mesmo os analistas mais experientes foram pegos de surpresa.

O caso sírio é um reflexo dos tempos atuais. As velhas estruturas que consolidavam o poder político em torno de si e que eram capazes de suportar grandes conflagrações, agora, colapsam em semanas. Pouco importa se falamos de uma pequenina nação budista como o Nepal, ou se é uma sociedade islâmica do Oriente Médio como a Síria. Também pouco importa, aos olhos do Ocidente, se Israel promoveu um genocídio em Gaza, ou se Donald Trump deseja ser aceito como “rei da América”, a mesma nação que elaborou o que entendemos por democracia liberal. Tal desmantelamento das macroestruturas se associa a uma interconexão das diversas crises: mudanças climáticas, extinção em massa, instabilidade econômica, fluxos migratórios, crise de legitimidade das democracias etc. Temos, cada vez mais, a sensação de que o mundo ao nosso redor desmorona numa direção que não somos capazes de prever e muito menos de controlar. Para suportar tamanho sofrimento, muitos aderem ao fundamentalismo religioso, ao uso abusivo de entorpecentes, ao isolamento ou mesmo ao suicídio.

Na esfera política, os sinais desse adoecimento coletivo se apresentam na emergência de políticos que se dizem “contrários ao sistema”, tais como Trump, Bolsonaro, Milei etc. Além disso, o acomodamento da esquerda à ordem liberal, em função do desaparecimento da União Soviética e do aparente triunfo do sistema capitalista, é indissociável do surgimento desse extremismo pretensamente anti-establishment. Enquanto que, aos olhos da extrema direita, tais nomes seriam a personificação da esperança na luta contra o “comunismo” e o “globalismo”, vejo neles sintomas de um Ocidente que se perdeu pelo caminho, esquecendo-se dos valores que defendera desde as revoluções liberais do século XVIII. Foi exatamente a partir dessas revoluções na Inglaterra (1688), EUA (1776) e França (1789), que o Ocidente testemunhou seu período áureo, sendo, inclusive, capaz de fazer dobrar os demais povos aos seus ditames. Em nome do progresso econômico, cultural e cientifico, deixou-se de lado o obscurantismo medieval, de modo que, em épocas de maior lucidez, tais figuras jamais alcançariam a posição de estadistas. Ao contrário, seriam relegados à sarjeta.

Sem dúvidas, Donald Trump é a figura mais midiática da política internacional, porém mais pelos seus desvarios do que por um suposto brilhantismo na condução da sua política externa, algo que captura, com extrema facilidade, as manchetes dos portais e o burburinho infindável das redes sociais. Sua onipresença no noticiário é fruto de um histrionismo sedento por atenção, e não de uma genialidade desmerecida pela “imprensa esquerdopata”. Basta compará-lo a presidentes como F.D. Roosevelt ou Abraham Lincoln para concluir que os EUA vivem uma seríssima crise na formação de lideranças qualificadas para a complexa tarefa de governar. Sugerir sandices, como a anexação da Groelândia ou do Canadá, é mais midiático do que se sentar à mesa e esforçar-se, ao longo de muitos meses, por costurar um acordo minimamente justo aos envolvidos. Tal como um antiquado imperador romano, Donald Trump precisa entregar alguma conquista ao seu eleitorado, caso ainda queria rasgar a velha constituição e arriscar-se na busca de um terceiro mandato.

E para que tanta pressa? Mais uma vez, a resposta está no crescimento da China.

            Em setembro, foi realizado, no centro de Beijing, um portentoso desfile militar para comemorar os oitenta anos do fim da 2ª Guerra Mundial. No evento, tido como um dos mais importantes deste ano, viu-se de tudo: veículos de combate, tropas em marcha, mísseis balísticos, drones… Ao apresentar seu mais avançado arsenal, a nação chinesa comprovou que já não é mais uma mera replicadora de tecnologias vindas de fora. Pouco a pouco, a China volta a ser o que era em épocas passadas: o reino do meio. Seja no que diz respeito à fabricação de mísseis hipersônicos ou à manufatura de drones, os chineses estão na disputa pela vanguarda tecnológica, competindo, palmo a palmo, com os americanos pela supremacia em áreas sensíveis do meio militar.           

Porém, a geopolítica não se faz só com armas sofisticadas. Qualquer pretendente a superpotência precisa trazer aliados para o seu lado, em especial os mais fortes, ricos e confiáveis. Afinal, ninguém salva o próprio pescoço se for largado na selva sozinho. Mesmo os norte-coreanos reconhecem isso ao se aproximarem de Xi e, em especial, de Vladimir Putin, haja vista a cooperação militar de Pyongyang na guerra contra os ucranianos. De fato, à medida que o cenário global mostra-se cada vez mais instável em todas as latitudes, alianças precisam ser formadas o quanto antes, de modo que é natural que se fale, cada vez mais, no princípio de uma 2ª Guerra Fria, ou mesmo de uma possível 3ª Guerra Mundial. Até agora, todos falam em pacificação, ao mesmo tempo em que afiam o gume de suas espadas.

            No desfile mencionado, como já era de se esperar, a mídia pôs em evidência a presença de Putin e Kim Jong-un, que assistiram a tudo numa posição privilegiada. O grau de cortesia da recepção de Xi Jinping demonstra a relevância desses vizinhos para os seus planos futuros quanto à expansão chinesa pela Eurásia. No entanto, a visita de Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia, foi um dos fatos mais importantes da geopolítica recente, com possíveis efeitos adversos para as potências que ainda se perguntam sobre como conter a ascensão do dragão oriental.

Modi visitou a China pela primeira vez em sete anos, por ocasião da 24ª cúpula de abertura da Organização para Cooperação de Shangai (OCS), organismo multilateral criado e capitaneado por russos e chineses, cujo objetivo é, essencialmente, remodelar as relações internacionais em favor de Moscou e Beijing. Se, no passado, os diplomatas e líderes chineses eram cautelosos em suas manobras e ambições geopolíticas, agora tudo é diferente. Com efeito, Xi Jinping foi explícito em expor — na presença de vinte lideranças euroasiáticas — a necessidade de uma Iniciativa de Governança Global (IGG), algo que não se via desde 1991, ano do colapso soviético. Nas palavras de Xi Jinping, devemos “defender a visão de uma governança global com ampla consulta e contribuição conjunta para benefício compartilhado, fortalecer a solidariedade e a coordenação e nos opor ao unilateralismo”.

Qualquer estrategista minimamente perspicaz sabe que é quase impossível conter o avanço da China sem o apoio da Índia, sua grande rival regional, possuidora de uma civilização milenar, uma economia pujante, uma população descomunal e um arsenal nuclear forte o suficiente para arrasar seus vizinhos em poucas horas. Decerto, foram registradas escaramuças entre soldados indianos e chineses em anos recentes, fruto de disputas fronteiriças ainda sem uma solução diplomática. No entanto, a ida de Narendra Modi à cúpula da OCS parece indicar a disposição, por parte de ambos os lados, de deixar de lado velhas divergências em nome de um bem comum: sobreviver aos desvarios de Donald Trump e promover uma maior integração das suas civilizações.

Por fim, numa foto emblemática, Vladimir Putin (Rússia), Xi Jinping (China) e Narendra Modi (Índia) entrelaçaram as suas mãos, simbolizando uma união do mais alto nível. Nas relações internacionais, fotos não são uma trivialidade; elas comunicam, explicitamente, algo que dispensa tratados, promessas e palavras. Por outro lado, ainda temos um longo caminho pela frente. A cartada da terceira guerra mundial ainda se esconde sob a manga dos EUA, que pode se recusar a abrir mão da sua hegemonia imperial, levando-nos todos ao matadouro de uma guerra sem vencedores.

            Se Xi Jinping souber trazer a Índia para o seu lado, superando uma profunda rivalidade histórica, o Ocidente verá as três maiores potências da Eurásia alinhadas em oposição aos seus desígnios. E não há nada que ele possa fazer a respeito. Trata-se de um novo mundo que se constrói.

 

Daniel Viana de Sousa

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quinta-feira, 31 de julho de 2025

A causa nacional

 

      Mais uma vez, somos confrontados por uma polêmica que, de tempos em tempos, volta a inflamar o debate público. Esse é um tema que nunca perde a capacidade de nos capturar, seduzindo-nos com seu apelo ao sentido mais profundo de quem somos aqui e agora, nesse espaço que compartilhamos uns com os outros. Trata-se da causa nacional, revivida pela interferência da maior potência da nossa época, os Estados Unidos da América (EUA), em relação à soberania brasileira.

Assim que se sentiram as garras do falcão sobre a nossa consciência amedrontada, vozes se enfileiraram diante do púlpito e punhos se ergueram em tom de indignação. Lembramo-nos que ainda somos comida servida à mesa de quem pode se servir da nossa amada terra — tão singela e acolhedora com os que nos visitam —, a despeito de cedermos ou não a tal condição. No momento em que escrevo, instauram-se debates ferrenhos mesmo nos sujeitos mais indiferentes ao cotidiano da política, aqueles que se habituaram a dar de ombros para os temas comezinhos de Brasília, pois, quando se mancha o orgulho da nação, sentimos que alguém próximo foi ferido em combate. Erguem-se de imediato as falanges patrióticas, os defensores da camisa canarinho, munidos com seus insuportáveis cânticos futebolísticos. Nacionalismo e soberania, enfim, voltaram à baila.

No entanto, sei bem que caminho por um terreno sinuoso. Muitos se apressarão em dizer que o nacionalismo inspirou crimes imperdoáveis; outros afirmarão que se trata de uma ideologia burguesa, feita para dividir e dominar o proletariado internacional; por fim, haverá quem reclame de que toda essa discussão é excessivamente démodée, pois estaríamos todos em um “mundo sem fronteiras”, uma única “aldeia global”. Vá com calma, camarada! Minha intenção não é aliciar militantes para uma causa ou soldados para uma guerra. Por ora, vamos nos ater aos fatos do noticiário.

O presidente estadunidense, Donald Trump, ameaça o funcionamento do Judiciário brasileiro, em especial a atuação do ministro Alexandre de Moraes, responsável por investigar os ataques golpistas do 8 de Janeiro, bem como os dois principais nomes da família Bolsonaro: Jair Bolsonaro e seu filho Eduardo. Com seu notório estilo impulsivo, Trump quer forçar o Supremo Tribunal Federal (STF) a conceder uma anistia aos seus aliados ideológicos no Brasil, tendo por base uma suposta caça às bruxas liderada pelos membros do mesmo tribunal. Há quem especule, com boas razões, que as semelhanças entre os ataques golpistas ocorridos na Praça dos Três Poderes e aqueles ocorridos, dois anos antes, na invasão ao Capitólio, deram mais razões para que o presidente norte-americano se dispusesse a socorrer Bolsonaro.

De fato, Darren Beattie, secretário da gestão Trump, declarou (24/07) que Alexandre de Moraes “é o coração pulsante do complexo de perseguição e censura contra Jair Bolsonaro”, de modo que a ofensiva trumpista segue se agravando a cada dia que passa. O Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, anunciou a revogação do visto de Alexandre de Moraes e seus familiares. Tal medida foi uma resposta à imposição do ministro para que o ex-presidente usasse tornozeleira eletrônica, algo que o próprio Bolsonaro classificou, diante das câmeras que o filmavam, como “suprema humilhação”. Além disso, foram punidos outros sete ministros do STF, bem como o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, e seus familiares. Trata-se, sem dúvidas, de algo inédito na história entre os dois países, cuja relação bicentenária é marcada por golpes e alianças, crises e afagos, desconfiança e submissão. Se, por um lado, os EUA foram um dos primeiros países a reconhecer a Independência do Brasil, por outro lado, esse mesmo país chancelou o golpe de 1964 e a ditadura que se formaria a partir dele, momento mais crítico da nossa história no século passado.

Até o momento em que escrevo esse texto — estou nos últimos dias de julho —, não há sinais de que Trump queira recuar das suas investidas contra a economia das terras de cá. Ao contrário, alguns antecipam que o republicano possa aprofundar seus ataques no que diz respeito às tarifas impostas contra os produtos brasileiros, golpeando, em especial, o agronegócio, tido como um dos pilares fundamentais da estrutura econômica brasileira e do próprio movimento bolsonarista. Assim, se nada for feito, milhares de empregos serão perdidos e empresas quebrarão, de tal maneira que a economia pode mergulhar numa espiral cataclísmica, cuja consequência a médio e longo prazo ainda é incerta. Enquanto isso, o próprio Eduardo Bolsonaro declarou que não temeria um cenário de “terra arrasada [no Brasil]”, desde que se sentisse “vingado”. Com essa afirmação abjeta, o clã Bolsonaro comprova que seu pretenso amor à pátria não se equivale ao “amor familiar”, ou seja, nada importa mais que o seu instinto de sobrevivência, mesmo que todos afundemos por isso. Poucas vezes se viu tamanho servilismo por parte de uma liderança brasileira em terras estrangeiras.

Diante disso, alguns se apressam em assumir que os ataques à nossa soberania são “uma surpresa” da gestão Trump, nada mais que outra maluquice de um presidente patético. Puro engano! Por mais ridículo que seja Donald Trump e seu movimento político, tais golpes não são um episódio isolado. Ao contrário, eles se inserem na geopolítica estadunidense de oprimir as nações latino-americanas, proibindo-nos de sermos senhores do nosso destino e fazendo daqui o seu bom e velho quintal. Nesse sentido, pouco importa se a Casa Branca é ocupada por um republicano ou democrata. Acaso nos esquecemos dos escândalos de espionagem revelados por Edward Snowden em 2013? Acaso nos esquecemos do apoio dado pelo Departamento de Justiça à Operação Lava Jato? Acaso nos esquecemos da reativação da Quarta Frota em 2008? Afinal, quantas “surpresas” terão de se repetir para que nos convençamos dos interesses irreconciliáveis entre nós e quem governa a Casa Branca? Portanto, se queremos entender o que tem ocorrido nas últimas semanas, precisamos fazer com que a palavra “imperialismo” volte ao vocabulário político das massas, e não há melhor maneira de fazê-lo senão olhando o nosso passado.

         Historicamente, a soberania brasileira foi desafiada em diversos momentos e de diversas formas. Como, por exemplo, na Questão Christie (1861-1865), em que oficiais do Império Britânico, após fazerem arruaça na capital, acabaram presos pela polícia local, o que gerou uma reação explosiva do embaixador William Dougal Christie, representante dos britânicos na Corte do Rio de Janeiro. Tamanha animosidade se iniciara com o saque, por parte de brasileiros, do navio Prince of Wales, que naufragara, acidentalmente, em abril de 1861, na zona costeira do Rio Grande do Sul. A Coroa Britânica demandou indenização pelos prejuízos da pilhagem, mas a questão mantinha-se em aberto. Veio, então, a baderna dos oficiais no bairro da Tijuca. Christie exigiu não só a prisão dos policiais cariocas, seguida pela libertação dos baderneiros, como também uma indenização, acrescida por um injustificável pedido de desculpas. Vendo que sua exigência patética não era atendida, o embaixador ordenou que cinco navios mercantes brasileiros fossem apreendidos na Baía de Guanabara pela Marinha Inglesa, além de tomar o porto carioca à força, violando abertamente a soberania do Brasil. Como é de praxe, os imperialistas aplicaram a sua odiosa “diplomacia das canhoneiras” sobre os povos da periferia. Anos antes, os britânicos haviam operado a mesma estratégia nas Guerras do Ópio, com um sucesso tão fragoroso que os chineses jamais se esqueceriam das implicações de tamanha humilhação. Entretanto, Dom Pedro II comportou-se como estadista à altura daqueles meses conturbados; ao perceber que o embaixador estrangeiro não tinha a menor deferência pelas leis e pelo nosso povo, o imperador, auxiliado pelo notável Marquês de Abrantes e João Batista Calógeras, ordenou que as relações diplomáticas entre as duas nações fossem formalmente rompidas. Acabava-se a estadia de William Christie em nossas terras.

Aqui, é importante ressaltar que os nossos governantes confrontavam, ainda que só diplomaticamente, o maior império do seu tempo, cujo poderio bélico — e solidez econômica — era muito, muito superior ao nosso. Havia razões para crer que, numa eventual escalada, os brasileiros poderiam ser forçados a pagar um preço amargo por sua altivez. Porém, ambas as partes desistiram de entrar em guerra. Novamente, o Marquês de Abrantes e João Batista Calógeras, em sintonia com D. Pedro II, cumpriram um papel decisivo nas negociações por uma disputa que não dependesse da força das armas, terreno seguro para a famigerada armada inglesa. Naquele momento, era preciso posicionar-se num terreno em que as nossas forças se equilibrassem, por mais árdua que fosse a busca por tal solução. Foi decidido que se optasse pelo caminho jurídico. O caso foi julgado pelo rei da Bélgica, Leopoldo I, que era tio da própria Rainha Vitória. O monarca belga surpreendeu a muitos, dando parecer favorável aos brasileiros. O poderoso Império Britânico teve de pedir desculpas, de modo que as relações entre os dois impérios só seriam reestabelecidas em 1865, e nunca mais um oficial estrangeiro ousou comportar-se mal em terras brasileiras. A lição foi aprendida.

Ainda hoje, a Questão Christie é lembrada como um ponto alto da diplomacia brasileira e, especialmente, da liderança de Dom Pedro II, alguém que não se amedrontou diante da possibilidade de ter de enfrentar um império que, como se dizia, não via o sol se pôr. Com essa vitória mais que simbólica, o imperador marcaria a sua época de uma maneira que, se tivesse ocorrido nos EUA, já teria inspirado filmes e séries de televisão, mas, tragicamente, insistimos em dar as costas ao passado, mesmo quando ele deveria nos encher de orgulho patriótico. Pois, a despeito das enormes discrepâncias entre os dois adversários, o Brasil conseguiu se sobressair perante um opositor colossal e afirmar-se como país soberano num século em que ainda engatinhava no concerto das nações. Certamente, o caminho mais cômodo teria sido a “cautela”, a “moderação” e o “pragmatismo”, isto é, atender às ordens do prepotente diplomata britânico, de modo a não pôr em risco as relações com a nação que, em 1822, intermediara a nossa Independência de Portugal. No entanto, os caminhos fáceis, capazes de nos seduzir à primeira vista, acabam nos conduzindo a armadilhas muito piores do que aquilo que havíamos imaginado. Enfim, o tempo provou que aquele embate era mais que justo: ele era necessário para a nossa afirmação nacional.

Diante disso, como uma nação periférica e subdesenvolvida como a nossa pode vir a ser soberana?

Logo de cara, é importante frisar que, no tabuleiro geopolítico, ser soberano não é algo simples. Um dos caminhos escolhidos — e o mais controverso de todos — é o desenvolvimento da sua própria bomba atômica. O regime norte-coreano pagou caro para adquirir seu arsenal nuclear: décadas de cerco e sanções, fome e isolamento. Agora, quem se atreve a invadir Pyongyang e derrubar Kim Jong-un? Em 1994, os ucranianos optaram, em nome de uma boa relação com o Kremlin, por abrir mão do seu arsenal nuclear, algo em torno de três mil ogivas. Que receio Vladimir Putin teve de anexar a Crimeia e, oito anos depois, de invadi-los na maior guerra da nossa geração? Ao que parece, a única linguagem que as grandes potências reconhecem é a capacidade de destruição máxima, de aniquilamento completo da espécie humana. Em um mundo ideal, trataríamos as nossas divergências numa mesa de negociações aberta e igualitária, mas, infelizmente, esta não é a realidade na qual nos encontramos. O mundo atual tem ficado cada vez mais instável e perigoso para os estados que abrem mão de qualquer capacidade de dissuasão, especialmente aqueles que se encontram sob a mira dos interesses das grandes potências. Ignorar isso pode ter um custo muito caro, tendo em vista que, sem a dissuasão nuclear, tornou-se corriqueiro para os ocidentais derrubarem ditaduras: Saddam Hussein, no Iraque; Gaddafi, na Líbia; Bashar al-Assad, na Síria. Nos últimos meses, faltou pouco para que o regime iraniano se somasse a essa lista.

É evidente que, para manter o Judiciário funcionando minimamente, não precisamos recorrer a mísseis balísticos apontados em direção a Washington. Até por que, se o fizéssemos, seríamos o alvo imediato do Pentágono, que nunca permitiria uma nuclearização da América Latina, haja vista a Crise dos Mísseis em Cuba. Por enquanto, nossa verdadeira Independência não passa de um sonho de uma noite de verão, mas isso não significa que devamos adotar vira-latismo como doutrina da política externa, que é o desejo íntimo da gangue Bolsonaro. A extrema-direita não tem nada a nos oferecer enquanto projeto de nação, pois, para sermos soberanos, teremos de sair da sombra dos ditames dos Estados Unidos, um processo violentamente interrompido pelo Golpe de 64 e que os governos progressistas não se mostraram capazes de concretizar. Temos de reaver a consciência do papel que cumprimos no cenário internacional, isto é, nação periférica e subdesenvolvida, para, em seguida, sabermos aonde queremos e precisamos chegar. Essa é a nossa incontornável sina.

Tal como sabem todas as nações verdadeiramente livres, a nossa liberdade não será dada de mão beijada. Nunca o foi e nem poderá ser. Devemos, portanto, defender com orgulho a causa nacional. Devemos ir muito além de cantar o Hino Nacional aos berros, como se estivéssemos em um estádio de futebol. Caso contrário, seremos pisoteados pelos interesses imperiais, que nunca viram com bons olhos a emancipação verdadeira do povo brasileiro. 


Daniel Viana de Sousa

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sexta-feira, 13 de junho de 2025

A Missa fúnebre de um partido político

 

         Na semana passada, a 17ª convenção nacional do PSDB aprovou sua união com o Podemos, um movimento que já era discutido nos corredores de Brasília há muitos meses. Dessa forma, os dirigentes das duas facções buscam unir forças, de modo a obter mais recursos do Fundo Partidário e um maior tempo de rádio e TV. Sua meta é clara: aumentar as chances de eleger uma bancada robusta nas eleições do ano que vem, numa aposta de triunfo do autoproclamado “centro democrático”. Fala-se, também, em uma possível federação com o MDB, cujo objetivo é exatamente o mesmo: dar musculatura a um partido cada vez mais inexpressivo aos olhos das massas populares.

Trata-se de mais um capítulo no longo processo de definhamento de um partido que, em épocas passadas, dava os ares da graça em Brasília, chegando a disputar, com o Partido dos Trabalhadores (PT), pela primazia do comando presidencial.

A essa altura, para os mais jovens, deve parecer estranha a relevância dada por mim ao velório do tucanato. Na verdade, o PSDB foi a face polida e bem-comportada da classe dominante no pós-ditadura (1964-1985). Àquela altura, isto é, na década de 1990, a descendência funesta da Arena perdera apelo popular. E não era de se espantar: frente aos militares trogloditas, Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), o charmoso sociólogo e ministro responsável pelo exitoso Plano Real, apresentava-se como um refinado intelectual paulista. FHC era, sem dúvidas, a face que a burguesia queria vender ao resto do mundo, após o conturbado mandato de Collor (1990-1992) e a transição liderada por Itamar (1992-1995).

No entanto, os dias áureos do PSDB estão relegados aos livros de História, pois, como bem disse seu presidente atual, o ex-governador Marconi Perillo, “o ideal seria seguirmos solo, mas ficamos pequenos”. Realmente, os sinais da risível pequenez tucana estão por todo lado.

A recente despedida dos governadores de Pernambuco e Rio Grande do Sul, Raquel Lyra e Eduardo Leite — dois nomes cotados para disputar o Palácio do Planalto em eleições futuras —, foi mais um duro golpe para esse partido, que, em épocas passadas, esteve à frente de mandatos em diversos estados brasileiros, como São Paulo, Minas Gerais, Ceará etc. De fato, Fernando Henrique, o maior cacique tucano, foi a única liderança do país que ganhou uma eleição presidencial no 1º turno, conseguindo repetir a mesma façanha quatro anos depois. Nem mesmo Lula conseguiu igualar esse feito. Além disso, nas quatro eleições gerais seguintes, o PSDB esteve em todas as disputas de 2º turno, conseguindo obter, em 2014, mais de 51 milhões de votos, seu melhor resultado na história da Nova República. Por fim, em 2016, os tucanos alcançaram sua vitória derradeira: 799 prefeitos e prefeitas eleitos nacionalmente.

Porém, tal como nos ensina a sabedoria popular, a vida dá voltas.

No momento em que a crise econômica estrangulou a sociedade brasileira (2015-2016), sendo, aliás, aprofundada pela instabilidade sociopolítica provocada pelas Jornadas de Junho, as bases sociais que compunham a direita se radicalizaram. À época, percebeu-se que o PT perdera o protagonismo nos movimentos de rua, ao mesmo tempo em que o governo Dilma (2011-2016) via sua popularidade derreter em questão de semanas. Contudo, o golpe mais duro veio de uma controversa operação policial que marcaria aquela década: a Lava Jato; responsável por desgastar a imagem da esquerda aos olhos das classes médias empobrecidas pela crise sistêmica que chacoalhava as estruturas do nosso frágil tecido social. Iniciava-se, assim, o período mais sombrio de Lula e seu partido, cujo pior momento seria a sua prisão em abril de 2018; houve até quem cogitasse — com boas razões — a morte política de ambos. Ainda assim, o velho operário sobreviveria aos ataques e à prisão, saindo do encarceramento para se candidatar, disputar e vencer as eleições de 2022, tornando-se presidente do Brasil pela terceira vez.

Entretanto, o PSDB não se mostraria capaz de resistir ao maremoto do discurso anticorrupção. Pelo contrário, as revelações de que Aécio teria tido, em 2017, conversas suspeitas com o empresário Joesley Batista, ajudou a enterrar de vez as ambições presidenciais do último cacique tucano. De lá pra cá, o partido e suas lideranças mergulharam num lamaçal que nem mesmo a vitória de Doria seria capaz de resgatar. Nesse meio-tempo, nomes históricos da sigla, como Tasso Jereissati, José Serra, Geraldo Alckmin, Aloysio Nunes e Antônio Anastasia, perderam protagonismo, abandonaram o ninho ou simplesmente caíram no ostracismo. Pouco a pouco, ficava mais claro que a mancha da corrupção envolvia praticamente todo o espectro político, ou seja, da esquerda à direita, do progressismo ao conservadorismo, do governo à oposição.

Porém, o golpe final chegaria de onde menos se esperava. Pois, para a ruína do tucanato, renasceu, em torno do clã Bolsonaro, uma extrema-direita que não era vista desde os tempos ditatoriais. De fato, em poucos anos, formou-se um movimento alinhado à ascensão de uma extrema-direita mundial e abertamente contrário ao espírito “cosmopolita”, “democrático” e “civilizado” de FHC, pois se estruturava no ódio à esquerda, ao trabalhador, à mulher, aos negros, à comunidade LGBTQIAPN etc. Esse movimento extremista, que nos habituamos a chamar de bolsonarismo, aniquilou definitivamente a direita tucana, contribuindo para transformar o noticiário político num ringue de golpes baixos e, ao mesmo tempo, num show de horrores. Desde então, as falas obscenas de Bolsonaro e seus seguidores viraram parte do cotidiano, seja em frente às câmeras, seja nas próprias redes sociais; aquilo que, em outras épocas, seria visto como impensável ou inaceitável, agora é banal, corriqueiro. Contudo, a despeito de sua linguagem chula e personalidade detestável, o ex-capitão segue desfrutando uma sólida popularidade nos círculos reacionários, sendo capaz de arregimentar dezenas de milhares de apoiadores a qualquer momento, um feito que nenhuma liderança brasileira é capaz de igualar, excetuando-se o próprio Lula.

Para uma “nova direita” que rasteja pelos meandros das redes sociais, das fake news, do trumpismo, o PSDB virou peça de museu, antiquado demais para as novas disputas de uma república com pés de barro. Na realidade, a conjuntura presente — inflamada por uma crise sistêmica que se agrava a despeito de quem ocupa a cadeira presidencial — demanda das classes dominantes uma direita que destile ódio aos trabalhadores, às mulheres, às minorias e às esquerdas. Para esse agrupamento fascista, não há outra solução que não seja “metralhar a petezada”, isto é, pôr toda culpa sobre os ombros dos “artistas pervertidos”, “professores esquerdistas”, “universitários vagabundos”, “feministas mal amadas”… trata-se de um lamaçal discursivo, um espetáculo de ideias vexatórias, no qual somente o esgoto da Ditadura poderia germinar algo de novo. Nesse sentido, o bolsonarismo é o sintoma mórbido de um sistema político em decomposição.

Ora, seria pretensioso buscar resumir os fatos políticos dos últimos anos em um texto de poucas páginas. Nesse esforço em forma de análise escrita, tentei delinear um esboço, um painel simplificado daquilo que vimos acontecer em tão pouco tempo, de tal maneira que muitos elementos centrais à compreensão da nossa realidade precisaram ser deixados de lado. Mesmo assim, com a simbólica saída dos principais governadores tucanos, Raquel Lyra e Eduardo Leite, podemos dizer que o PSDB está com os dois pés na vala, prestes a ser enterrado de uma vez por todas. Afinal de contas, os dois mandatários preferiram se livrar do partido ao qual pertenciam há décadas, para aderir à legenda controlada por Gilberto Kassab: o Partido Social Democrático (PSD). Fundado em 2011, o PSD é a sigla que detém o maior número de senadores e prefeitos, assim como uma das principais forças partidárias na Câmara dos Deputados.

No futuro, quando os historiadores se dispuserem a estudar a política brasileira desses tempos incertos, eles certamente terão de se ocupar em analisar a figura de Gilberto Kassab. Personalidade sorrateira e camaleônica, Kassab é o epítome do Centrão, o famigerado establishment político brasileiro; ele foi ministro de Dilma, mas não vacilou em apoiar seu impeachment, aceitando, logo em seguida, um ministério no governo Temer (2016-2019); em São Paulo, trabalhou para Dória (2019-2022), porém, agora, está ao lado de Tarcísio de Freitas, ex-ministro da gestão Bolsonaro (2019-2023). Ao longo dos anos, Gilberto Kassab foi vice-prefeito, prefeito e deputado federal por São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, de modo que não seria injusto tê-lo como um carreirista experimentado, um arrivista bem-sucedido, que conhece os corredores palacianos como poucos, pois sabe dançar conforme a música, sabe se ajustar de acordo com a oportunidade que lhe aparece. Kassab não formulou nenhuma ideia que mereça destaque, nem nos presenteou com alguma conquista de relevo; nada nele nos vêm à tona, exceto seu triunfo pessoal em um sistema carcomido pela corrupção, velhacaria e mediocridade. Ainda assim, não devemos nos espantar que ele lidere um dos maiores partidos brasileiros, um partido capaz de influenciar o resultado das eleições que se avizinham. Afinal, o PSD é a expressão mais bem-acabada do atual sistema político nacional.

Hoje, o partido capitaneado por Kassab é o farol que atrai mais e mais tucanos para fora do ninho. Na Paraíba, estado marcado pela presença do PSDB, dois dos principais nomes do clã Cunha Lima, Cássio e Pedro, transferiram-se recentemente para o PSD. Espera-se que Pedro dispute, pela segunda vez, o mandato de governador. Para tanto, o ex-deputado recebeu o cargo de presidente estadual da legenda, reunindo em torno de si diversos nomes da oposição ao governo de João Azevedo (PSB), tais como Veneziano (MDB), Ruy Carneiro (Podemos) e Efraim Filho (União Brasil). Se a sua escolha foi um tiro no pé, o futuro nos dirá.

A essa altura, a revoada dos tucanos sacramenta o fim de uma era para a direita nacional. A época em que a centro-esquerda se alternava no governo com os tucanos se esgotou definitivamente, pois, aos olhos das classes dominantes, o PSDB tornou-se bucha de canhão, um instrumento ineficiente para a conservação do seu poder sobre as massas em um contexto de crise social aguda. E, ainda que a fusão com o Podemos traga de volta alguns milhares de votos e meia dúzia de assentos no Congresso, o PSDB jamais terá de volta o protagonismo, porque a verdadeira Política não se subordina a fundo partidário, tempo de televisão ou marketing eleitoral.

A verdadeira Política transcende os monumentos de Brasília, fazendo-se presente no dia a dia, na realidade concreta de cada pessoa que luta para sobreviver em um país espoliado desde a sua origem. Ao contrário das vulgaridades e cretinices presentes no cotidiano da politicagem rebaixada, a verdadeira Política se dá na luta de classes, no embate ferrenho entre capitalistas e trabalhadores, cujos interesses continuam sendo diametralmente antagônicos. Nessa violenta disputa pelas mentes e corações, o tucanato não é nada mais que uma relíquia farsesca do passado. 

Daniel Viana de Sousa

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terça-feira, 22 de abril de 2025

Adeus, Francisco!

 

Após um pontificado de mais de uma década, o Papa Francisco faleceu nesta segunda-feira (21), exatamente no começo do tempo pascal, época de renascimento e esperança para os cristãos do mundo inteiro. Para quem crê no Evangelho, a partida do pontífice ocorreu num momento simbólico, verdadeiramente marcante para toda a cristandade.

Poucos líderes religiosos buscaram tanto o diálogo ecumênico, o entendimento entre diferentes grupos religiosos, políticos, étnicos e sociais. Possivelmente, seu ponto alto na diplomacia papal foi a costura da reaproximação, em 2015, entre Cuba e Estados Unidos, adversários ferrenhos por mais de seis décadas, algo que pegou de surpresa a maioria dos observadores da geopolítica — e que sofreu um duro revés com a vitória, em 2016, de Donald Trump —; ainda na seara sociopolítica, merece destaque a campanha em prol dos imigrantes, seus embates com extrema-direita global, a ênfase na solidariedade para com os pobres e marginalizados e a publicação da Laudato Si, um dos documentos mais importantes sobre as mudanças climáticas já feitos por um papa. Em suma, Francisco extrapolou não só os muros do Vaticano, mas também as barreiras da intolerância e do dogmatismo, transformando-se numa das figuras mais queridas e marcantes do século XXI. Entretanto, não pretendo fazer aqui uma retrospectiva de sua trajetória, algo que já circula em profusão nos portais de notícia do mundo inteiro.

É improvável que vejamos outro papa tão progressista quanto Bergoglio, que surpreendeu o mundo já na sua eleição, há doze anos, ao ser escolhido para comandar a mais influente e longeva instituição do Ocidente. À época do conclave que o elegeu, Francisco se tornaria o primeiro jesuíta e o primeiro latino-americano a comandar a Santa Sé; fatos tão surpreendentes quanto a renúncia de Bento XVI, algo que não era visto há mais de seiscentos anos, ainda na Idade Média, quando Gregório XII (1406-1415) abriu mão de conduzir a barca de S. Pedro. Às vésperas de renunciar, o papa alemão encontrava-se cercado por crises que estremeceram seu pontificado: as revelações de documentos ultrassecretos por Paolo Gabriele, seu mordomo; os escândalos financeiros do “Vatileaks” e, mais gravemente, o envolvimento de diversos clérigos em denúncias de pedofilia. Ainda assim, ao se justificar perante o público, Bento XVI afirmou que renunciava por conta de problemas relacionados à sua saúde; ele viveria mais nove anos no mosteiro Mater Ecclesiae, incrustado no interior do Vaticano, fazendo aparições ao lado de familiares, amigos e admiradores, inclusive do seu sucessor. Desse modo, a Igreja Católica atravessaria um capítulo peculiar de sua milenar história: um papa emérito convivendo, ao mesmo tempo, com outro recém empossado. Tal coexistência renderia bons frutos, como a publicação, ainda em 2013, de uma encíclica com contribuições de ambas as partes: a Lumen Fidei (Luz da Fé).

Entretanto, sempre se alimentaram boatos da existência de intrigas, decepções e manipulações, que, finalmente, vieram à tona no livro “Nada mais que a verdade”, publicado pelo arcebispo Georg Gänswein, secretário pessoal de Bento XVI. Dentre as várias acusações, Gänswein afirmou que o argentino buscou isolar o papa emérito devido a divergências teológicas e que Bento sentia-se vigiado por Bergoglio. Ao dar sua resposta, Francisco expressou, numa entrevista a Javier Martínez, a seguinte declaração: “que no dia do funeral seja publicado um livro que me deixa chateado, que conta coisas que não são verdade, é muito triste. É claro que isso não me afeta no sentido de que não me condiciona. Mas me machucou que Bento XVI tenha sido usado”. Certamente, aquilo que o público sabe, não deve chegar nem perto do que, de fato, ocorreu na relação entre os dois líderes e suas respectivas facções, forças antagônicas no seio da Igreja. Enquanto que um era enaltecido como teólogo e catedrático brilhante, o outro detinha um carisma capaz de incendiar multidões; enquanto que Ratzinger enfatizava o papel da doutrina e da tradição, Bergoglio reforçava o perdão e a caridade, o acolhimento aos mais diversos grupos sociais. Como é de praxe nas relações humanas, ambos agradaram a uns, ao mesmo tempo em que desagradaram a outros. Um destes inimigos, o arcebispo italiano Viganò, acusou Francisco de ser “herege”, “tirano” e “servo de satanás”, bem como de acobertar casos de pedofilia, o que lhe rendeu uma excomunhão logo em seguida.

Ora, desde os seus primórdios, quando os Apóstolos ainda caminhavam entre judeus e gentios, a Igreja Católica sempre foi uma instituição complexa, com conflitos acalorados e dissensões amargas que chegaram a pôr em xeque sua própria existência. Algumas destas disputas tornaram-se capítulos em livros de História, tais como o Grande Cisma (1054), a Reforma Luterana (1517) e a Reforma Anglicana (1534), movimentos religiosos que desembocariam em guerras devastadoras, sendo a pior delas a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), que arrasou a Europa como nunca se vira antes, forçando os monarcas europeus a criarem meios políticos e diplomáticos que evitassem a sua repetição. Nasceria daí a Paz de Vestefália, marco do Estado Moderno, assim como da gradativa tolerância religiosa entre católicos e protestantes. As futuras guerras europeias não teriam mais um caráter religioso. Ao contrário, com o passar dos séculos, a influência do Cristianismo na geopolítica diminuiria pouco a pouco, culminando na Revolução Francesa (1789), que lançaria as bases do Estado laico que temos hoje. O tempo das Cruzadas e da Inquisição, enfim, começara a ser deixado para trás, e a Europa iniciaria seu período mais áureo, que só se encerraria no começo do século XX, com a deflagração da Primeira Guerra Mundial.

Felizmente, vivemos uma época em que os cristãos não mais usam a religião como desculpa para cruzar a fronteira e cortar as cabeças uns dos outros. De fato, se isso ocorresse em 2025, ficaríamos horrorizados. Questionaríamos, de imediato, a própria fé de quem o fizesse, lembrando a mensagem dada pelo Cristo há dois mil anos atrás: amai-vos uns aos outros, assim como Eu vos amei (João 15:12). Decerto, mesmo na relação com outras religiões, como o Judaísmo e o Islamismo, os pontífices que sucederam o Concílio Vaticano II (1962-1965) têm optado pelo ecumenismo, e não há sinais de que isso mude do dia para a noite. Pois, ao contrário de Donald Trump, que lança ao fogo o esforço geoestratégico dos seus antecessores, os papas não são afeitos a cisões egocêntricas e desmesuradas. No Catolicismo, as rupturas são raríssimas e, do ponto de vista doutrinário, praticamente inexistentes. Prefere-se, ao invés disso, um movimento pendular, uma valsa de muitas décadas, que, na visão dos modernistas mais afoitos, é puro imobilismo. À primeira vista, a Igreja de Roma nos parece congelada no tempo, como uma relíquia de museu. No entanto, ela rumina as mudanças em seu interior, mastigando, no seu próprio ritmo, as ideias que lhe batem à porta. Para a Modernidade, tudo isso parece antiquado e estranho, porém a Igreja Católica não é uma instituição moderna; se o fosse, talvez já tivesse se partido em múltiplas dissensões, tal como ocorre, quase todos os anos, com outras denominações pentecostais.

De S. João XXIII e S. Paulo VI, responsáveis por presidir o último Concílio, até S. João Paulo II, Bento XVI e Francisco, podem-se notar linhas de continuidade, a despeito das grandes transformações sociais, econômicas, culturais e políticas, dos sessenta e sete anos que nos separam da eleição, em 1958, de S. João XXIII, o grande reformista do século passado. Essa é uma das razões que fizeram a Igreja Católica ser o que é hoje: não seguir o ritmo que o mundo lhe pede, mas o seu próprio caminhar, por mais vagaroso que nos pareça.

A questão que desafia o futuro Conclave não é mais o conflito do catolicismo com o mundo à sua volta, pois este simplesmente o ignora, trata-o com fria indiferença; há décadas que o sujeito moderno deu as costas ao Cristianismo, especialmente na Europa, que já fora seu bastião mais seguro. Hoje, o catolicismo precisa tratar suas feridas internas, conciliar-se consigo mesmo, para, em seguida, ir ao encontro do rebanho desgarrado. Pois ninguém se abriga numa casa prestes a desabar; ninguém se salva numa barca prestes a afundar. Necessitamos de reformas profundas, de uma santa ousadia, mas também de um diálogo fraterno com grupos conservadores. Excetuando-se figuras paspalhas como Viganò, há setores à direita com os quais o futuro papa precisará entender-se, caso queira aprofundar as mudanças gestadas por Bergoglio. Por enquanto, não parece haver espaço para uma guinada à direita. Ao menos essa foi a mensagem transmitida, nesta terça-feira (22), por Dom Jaime Spengler, um dos sete cardeais brasileiros que participarão do Conclave. “A maioria do colégio cardinalício foi criado pelo próprio Papa Francisco. Eu creio, ou melhor, imagino que um retrocesso nesse caminho realizado até aqui é impensável”, disse o arcebispo de Porto Alegre.

Ao mesmo tempo, há vozes que pedem um papa mais moderado, de centro-direita, que esteja em sintonia com setores preteridos nos últimos doze anos.

Dentre os 135 cardeais aptos a votar, Francisco nomeou 108, de modo que a sua influência, certamente, se fará presente na Capela Sistina. Graças a Bergoglio, o atual Colégio de Cardeais nunca teve tantos representantes da periferia global, como, por exemplo, Giorgio Marengo (Mongólia), Virgílio da Silva (Timor-Leste), John Ribat (Papua-Nova Guiné) e Dominique Mathieu (Irã), que, embora não estejam na lista dos cotados para comandar a Igreja, integrarão a leva de prelados que poderão escolher o próximo Vigário de Cristo. Para tanto, tais grupos precisarão agir em unidade, algo que é mais difícil do que parece, haja vista a pouca familiaridade e o peso de grupos de considerável influência, como os cardeais norte-americanos, conhecidos pelo seu viés conservador, dos quais o mais notório é o cardeal Burke, famoso por opor-se a Francisco ao longo de todo o seu pontificado. Se os jovens cardeais se fragmentarem, seja por inexperiência ou vaidade, os setores conservadores terão a chance que precisam para eleger um possível contestador das reformas de Francisco.

Na história da Igreja, não é incomum que haja dificuldade em achar nomes que traduzam uma consensualidade. No passado medieval, houve conclaves que chegaram a se estender por anos a fio, com repetidas votações frustradas, até que fosse feita a escolha de um perfil que agradasse um número mínimo de prelados votantes, de modo que, até aqui, ninguém sabe qual será o desfecho do Conclave que avistamos à nossa frente. No momento, temos apenas perguntas em aberto: haverá um Francisco II? a ascensão da extrema-direita global determinará a escolha do próximo papa? a Igreja, enfim, escolherá seu primeiro pontífice asiático, em resposta à ascensão da China comunista, tal como Karol Wojtyla foi uma resposta à União Soviética?

Há quem diga que o Conclave é a eleição mais obscura do mundo. Pois, a despeito dos inúmeros livros e filmes escritos a respeito, as disputas nos corredores do Vaticano sempre foram nebulosas e inacessíveis à maioria dos interessados. Mesmo os conclaves do passado ainda são envoltos por especulações e mistérios. O próprio Bergoglio não chegara a ser cotado entre os papáveis que ocupavam a manchete dos principais jornais vaticanistas, confirmando o célebre ditado italiano "chi entra papa al conclave, ne esce cardinale”, que poderia ser traduzido para “quem entra no conclave como papa, sai como cardeal”.

O que podemos nos assegurar é de que este ano — tal como ocorrera em 2005 e 2013 — será decisivo para o futuro do Catolicismo, bem como para o mundo inteiro.

 

Daniel Viana de Sousa

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segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Livros lidos em 2024

 

Com mais um ano concluído, uma nova lista de livros lidos apresenta-se aqui. Como é de praxe, você verá que nela há um pouco de tudo: literatura, história, espiritualidade, ciência política etc. E digo isso sem a pretensão de tornar-me um polímata renascentista. Sei bem que estou demasiadamente distante do patamar dos velhos mestres, cuja envergadura faria de mim uma criança bagunçando as palavras com suas manias. Nessa vida que sigo desbravando, sou nada mais que um curioso, um errante à procura dos mais variados recantos da mente humana. Como pensavam os grandes filósofos, teóricos e artistas? Só estudando pra saber.

Ainda assim, não posso afirmar que apreciei tudo que acabei lendo. Há livros que prometem mais do que, realmente, podem entregar aos seus leitores, tornando-se, assim, obras esquecíveis, destinadas à obscuridade nas prateleiras dos sebos. Muitas delas não passam de modinhas sem fôlego, impulsionadas por um marketing agressivo e, claro, um frenesi de consumidores abobados. Em parte, elas cumprem a função de azeitar o mercado editorial, que, em sua maioria, vê nos livros nada mais que um produto a ser comercializado, reflexo de uma sociedade em que nada importa mais que o lucro. Num mundo ideal, os best-sellers fariam com que as pessoas adquirissem o precioso hábito da leitura, de tal maneira que passassem a frequentar as livrarias procurando por novos títulos e autores. No entanto, a despeito do sucesso comercial dos best-sellersa maior parte da nossa gente continua apartada dos livros.

A chatice em ler certos livros deve-se a inúmeras razões: às vezes, a escrita do autor é hermética e torturante, ou o tema é enfadonho, ou foi mal traduzido e assim por diante. Contudo, avaliar a qualidade dos livros abaixo, tanto os bons quanto os ruins, não é o propósito deste texto. Ao invés de perder tempo falando acerca do trabalho alheio, fruto daquilo que não me cabe julgar, prefiro me ocupar em trilhar as veredas que tenho à minha frente. A labuta em escrever exige de mim um esforço extenuante, de modo que o tempo torna-se escasso e a escolha das prioridades algo inevitável. Aqueles que veem nisso uma forma de sacrifício, não estão equivocados. Deixemos, portanto, que os críticos façam seu trabalho.

Ler onze livros em um ano, é muito pouco. Mesmo que alguns destes títulos sejam imponentes calhamaços de mil páginas, no fundo, eu sei bem que poderia ter lido mais. Fazê-lo, contudo, requer uma disciplina que não tenho, especialmente, se o autor for maçante. Ah, como invejo os leitores vorazes! Nunca deixarei de admirar quem desfruta da capacidade de ler dezenas e mais dezenas de livros por ano. Ao contrário desses indivíduos, minha leitura é demorada, cadenciada por passos de tartaruga, o que não quer dizer que seja mais qualificada que as demais. Aliás, não foram raras as vezes em que cochilei lendo o trabalho de alguns autores; também não foram raras as vezes em que gritei aliviado por acabar um livro terrivelmente tedioso. Ainda na mesma semana, fiz questão de ir ao sebo para me livrar dele. Faz parte da vida.

Por fim, aos que padecem da mesma desgraçada desatenção que eu, só me resta dizer uma coisa: não há outra forma de se aprimorar a leitura, exceto insistindo em retornar a ela dia após dia.

Para o próximo ano, vou estabelecer a meta de vinte e cinco livros lidos.

 

1.      Memórias do subsolo, Fiódor Dostoievski (Editora 34);

2.      Tradução – Ato Desmedido, Boris Schnaiderman (Perspectiva);

3.      Sobre a natureza humana, Roger Scruton (Editora Record);

4.      Tolos, fraudes e militantes, Roger Scruton (Editora Record);

5.      A Alma do mundo, Roger Scruton (Editora Record);

6.      Socialismo traído, Roger Keeran e Thomas Kenny (LavraPalavra);

7.      Introdução à literatura fantástica, Tzvetan Todorov (Perspectiva);

8.      História do Brasil: Uma interpretação, Carlos Guilherme Mota & Adriana Lopez (Editora 34);

9.      A nuvem do não-saber, Anônimo (Editora Vozes);

10.  Reforma ou revolução?, Rosa Luxemburgo (Expressão popular);

11.  Escritos políticos, Frantz Fanon (Boitempo).

 

 

Daniel Viana de Sousa

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sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Rumo à guerra total?


            Existem muitas palavras para “guerra”, e nenhuma delas, quando vista de perto, é bonita. Talvez, sejam “heroicas” ou “trágicas” para quem for contar uma história no cinema, no teatro ou na televisão. Mas, quando se trata da vida real, uma dor inexprimível estampa a face de quem é obrigado a deixar tudo para trás, bem como quem perde parte de si, na carne ou no coração, tendo apenas a lápide fria no chão, com um nome querido que não se pode mais ver ou abraçar. Não há beleza alguma em guerrear. No entanto, de tempos em tempos, os humanos fazem guerra uns contra os outros, como se, de repente, toda memória desaparecesse e a mesma lição tivesse de ser recontada de novo. Criam-se máquinas novas, justificativas “humanitárias”, prevenções estratégicas, ideologias “libertárias”… apenas para que, ao final de outra matança, quando os ânimos se acalmarem, possamos redescobrir o significado da paz.

Mais de mil dias já se passaram desde o início da guerra na Ucrânia, o maior conflito armado da contemporaneidade, responsável por estremecer as relações internacionais do Atlântico ao Pacífico, colocando as maiores potências militares do planeta cada vez mais próximas de uma conflagração nuclear. De um lado, a Ucrânia segue sendo apoiada pela coalização dos países ocidentais, em especial aqueles pertencentes à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN); do outro lado, a Rússia mantém-se firme no seu ímpeto de subjugar o governo em Kiev, responsável por aproximar a Ucrânia do Ocidente, ou seja, fora da zona de influência histórica de Moscou.

No enfrentamento aos russos, já se tentou de tudo: sanções econômicas, congelamento de ativos, exclusão das Olímpiadas, expulsão de fóruns multilaterais, ameaças de prisão, explosão de gasodutos oceânicos… a lista se estende interminavelmente, de tal maneira que, à exceção de alguns poucos países, nenhuma outra nação sofre, ao menos na perspectiva do Ocidente, tamanho ostracismo político, econômico e moral quanto a Rússia, que segue sendo governada, há décadas, por Vladimir Putin, visto por muitos como um intragável autocrata. Na realidade, o que parece faltar aos ocidentais é a perspectiva de que o mundo real vai muito além da Champs-Élysées, em Paris, ou do que a Quinta Avenida, em Nova York.

Há anos que Putin tem apostado suas fichas no aprofundamento das relações russas com o chamado Sul Global — desde potências ascendentes, como Índia e China, até países periféricos na Ásia, África e América Latina. A causa disso reside no isolamento imposto por europeus e estadunidenses, que terminou por convencer a cúpula no Kremlin de que era preciso recorrer a iniciativas livres da interferência de Washington e seus aliados, tais como os BRICS, Organização para Cooperação de Xangai (OCX), União Econômica Eurasiática (UEE) e afins. Entretanto, nenhuma parceria comercial poderia se igualar à aliança formalizada entre o Kremlin e Beijing, principal aliada do regime moscovita em diversos setores da economia, da geopolítica e das forças armadas. Mesmo assim, se as manobras de Putin se tornarão um bote de salva-vidas para si e, principalmente, o povo russo, só o tempo poderá nos dizer.

Enquanto isso, na falta de manobras políticas exitosas, Moscou recorre ao que “tem de melhor”: mísseis hipersônicos com capacidade para cgar ogivas nucleares, um projétil que nunca fora utilizado por nenhum país detentor desse tipo de tecnologia. Se, no começo da guerra, os russos evitavam recorrer a esse tipo de armamento, agora, fazem-no diante do mundo inteiro, anunciando nas cadeias de rádio e televisão. Isso se explica, em parte, pelo simples fato de que poucos possuem força bélica para enfrenta-los nesse patamar tecnológico, e, certamente, os ucranianos não poderão fazê-lo sem o auxílio do Ocidente, haja vista que o Kremlin assombrou seus rivais ao lançar, na semana passada (21/11), um míssil nunca antes visto. Batizado como Oreshnik, o artefato — capaz de atingir alvos a uma velocidade de 3 km por segundo — destruiu uma fábrica em Dnipro, no centro da Ucrânia, atravessando mais de mil quilômetros de distância, de tal modo que, hoje, a guerra está a favor de Putin e seus aliados.

Tragicamente, a despeito dos anseios de milhões de vítimas, não é possível prever um encerramento à matança iniciada em 2014, quando o Kremlin ordenou, após a queda do presidente ucraniano Víktor Yanukóvytch, a anexação da Crimeia e o suporte a rebeldes separatistas no Donbass. Pelo contrário, os dois lados querem reverter a disputa a qualquer preço, ainda que isso custe, ano após ano, o sangue de centenas de milhares de jovens nos campos de batalha. Ondas e mais ondas de soldados são condenados ao matadouro, triturados e espezinhados até o derradeiro suspiro, de uma forma que não se vira, na Europa, desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Algumas fontes relatam dezenas de milhares de mortos de ambos os lados; ao passo que outras falam em centenas de milhares, sem que o número pare de crescer um dia sequer.

E as cidades ucranianas, especialmente as do front, reduziram-se a destroços, escombros do que já fora teatros, escolas, igrejas etc. Além disso, acusações de violação dos Direitos Humanos somam-se aos números crescentes de deserção dos dois lados. Em resposta a isso, Kiev e Moscou apelam ao surrado senso de patriotismo — tão potente em épocas passadas —, mas que tem sido incapaz de seduzir as juventudes desalentadas. Quem se orgulharia de dar a vida por Zelensky ou Putin? As massas sabem que essa não é uma guerra em nome dos interesses coletivos, porque, nessa questão, trabalhadores ucranianos e russos querem exatamente a mesma coisa: coexistência pacífica e próspera. De fato, a dimensão dos dados referentes à deserção de soldados ucranianos é espantosa. Segundo o site Euronews, “unidades inteiras [do exército ucraniano] abandonaram os seus postos, deixando as linhas defensivas vulneráveis e acelerando as perdas territoriais”. Ainda segundo a mesma matéria, mais de 100 mil combatentes ucranianos desertaram desde Fevereiro de 2022, sendo provável que o número real seja ainda maior.

Do lado russo, a Associated Press (AP) divulgou, em abril, um número também impressionante: dezenas de milhares de russos tentaram escapar da convocação feita por Putin, seja cruzando as fronteiras da Rússia com a Geórgia, localizada ao sul, e a Finlândia, na região setentrional do país, seja buscando refúgio nos Estados Unidos, Alemanha e França. À época do primeiro plano de convocação de reservistas, algo em torno de 300 mil jovens, circularam imagens de satélite em que milhares de veículos congestionavam a fronteira russa com Mongólia, Cazaquistão e Geórgia. Nos meses subsequentes ao acirramento das lutas no front, quando foi se tornando claro que a invasão não gozava da popularidade — e do êxito — que Putin planejara, noticiou-se que alguns jovens puderam fugir, enquanto que outros acabaram encarcerados ou mortos. Ora, levando em conta que o Kremlin costuma sufocar quaisquer informações danosas à imagem do regime, como, por exemplo, o número oficial de baixas desde que se iniciou a sua “operação militar especial”, espera-se que a cifra verdadeira seja mais elevada.

Ao longo dos últimos meses, um novo capítulo desse conflito veio à tona, pois ambas as partes adquiriram reforços valiosos para a manutenção do seu esforço bélico. O que poderia parecer, para os mais desinformados, uma “simples escaramuça entre eslavos”, assumiu uma nova dimensão, responsável por colocar em risco o futuro da Humanidade. De fato, a entrada desses novos atores significa mais um passo rumo a um conflito generalizado, isto é, a pavorosa Terceira Guerra Mundial. Nessa nova etapa, com a gestação paulatina de diferentes blocos no “concerto das nações”, a possibilidade de uma escalada que fuja ao controle das cúpulas que regem seus respectivos países, sejam elas de direita ou esquerda, tem se tornado cada vez maior.

Com efeito, num indisfarçável gesto de apoio à invasão russa, China, Irã e Coreia do Norte têm negociado, cada um à sua maneira, diversas formas de suporte à economia, à indústria e às manobras estratégicas delineadas por Moscou. Ao mesmo tempo, parceiros econômicos centrais, como Índia e Brasil, recusam-se a boicotar o gigante eslavo, mantendo de pé seus setores produtivos mais essenciais, como a exportação de commodities e de tecnologia bélica. Aliás, como havia apontado anteriormente, as sanções impostas pelo Ocidente não conseguiram colapsar a sociedade russa, tampouco frear a sua máquina de guerra, de modo que centenas de milhares de combatentes jazem mortos nas estepes congeladas, sem que isso resulte — até agora, pelo menos — em uma implosão do regime putinista.

Na realidade, as movimentações do tabuleiro geoestratégico ocorridas ao longo dos últimos anos, põem o mundo em uma situação que não se vira desde o fim da Guerra Fria (1947-1991). Com a recente entrada da Finlândia e da Suécia à OTAN, as fronteiras russas terão tropas do Ocidente a pouco mais de 100 quilômetros de São Petersburgo, a segunda cidade mais rica da Rússia, com importância histórica e cultural para todos os povos de origem eslava. Como resposta a essa adesão, Putin mobilizou, pela primeira vez desde o fim da URSS, forças nucleares para a Bielorrússia, que faz fronteira com Polônia, Lituânia e Letônia, países pertencentes à aliança ocidental. Ora, como é de conhecimento público, um ataque a um membro da OTAN é um ataque às demais nações que integram o tratado.

Além disso, o presidente russo tem lançado ameaças de que, caso se sinta ameaçado, poderá recorrer ao seu arsenal nuclear. Na verdade, foi declarado recentemente que, mesmo num cenário de ataque com armas convencionais perpetrado pelo Ocidente, Moscou pode, como resposta a essa agressão, optar pelo uso de armas de destruição em massa, chegando mesmo a usá-las contra os “centros de decisão”, ou seja, bases militares pertencentes à OTAN. Para tanto, basta que o Kremlin interprete o ataque como uma ameaça existencial ao Estado Russo, isto é, ao regime de Vladimir Putin. Ora, após o lançamento do primeiro míssil, será impossível antecipar os próximos passos: caminharemos rumo à catástrofe ou à mesa de negociação? Sabe-se que EUA e Rússia possuem bombas termonucleares suficientes para acabar com a vida humana em todo planeta, de modo que, caso isso se confirme, não haverá vencedores; basta apenas que acionem as suas respectivas cadeias de comando e o mundo arderá em chamas em um intervalo de pouquíssimas horas. Após o fim de tudo, case reste algum sobrevivente, este se verá diante de um inferno coberto por trevas, escombros e radiação.

Enquanto a guerra termonuclear não explode, Putin recorre às demais cartas que guarda na manga, pois, mesmo sem uma declaração formal de guerra, os norte-coreanos entraram com tudo no conflito, arregimentando, além de mísseis e munição, um exército que, segundo fontes da Bloomberg, poderia contabilizar, futuramente, 100 mil combatentes. O regime de Pyongyang possui mais de 1 milhão de militares na ativa, o que representa um dos maiores exércitos em atividade, de tal maneira que pouca falta lhe fará tais soldados nas escaramuças contra os vizinhos sul-coreanos. Segundos alguns meios de comunicação, tais batalhões detêm pouca experiência. Ainda assim, sua chegada aprofunda um agravamento do cenário geopolítico. Além da Coreia do Norte, os iranianos têm fornecido armamento, especialmente drones, os quais têm se mostrado indispensáveis aos dois lados do conflito.

Em resposta a essa escalada, Washington autorizou o uso de mísseis americanos de longo alcance ATACMS (Army Tactical Missile System) contra instalações militares no interior da Rússia, algo totalmente inédito no histórico de embates entre ocidentais e russos. O Reino Unido também se somou aos estadunidenses, autorizando o uso de mísseis Storm Shadow, que são semelhantes aos ATACMS. Até pouco tempo, as manobras de Kiev se limitavam a incursões de drones que, algumas vezes, alcançaram o centro Moscou, mas se mostraram incapazes de reverter a guerra em si. Na realidade, alguns observadores afirmaram, no decorrer dos últimos dois anos, que a disputa afundara num impasse, podendo ter seu “final” semelhante àquele entre as Coreias: uma guerra sem vencedores e congelada no tempo, mas em tensão permanente, pronta para explodir a qualquer instante. Tal cenário ainda pode se concretizar, caso nenhum dos lados consiga realizar seus objetivos estratégicos.

Sem dúvidas, não era por acaso que o presidente ucraniano, em viagem pela Europa e EUA, implorava pela licença de atacar o interior da Rússia com ATACMS — antes, os mísseis só eram disparados contra alvos nas regiões conquistadas pelo Kremlin, o que não impediu as vitórias do exército russo em carnificinas brutais, como ocorrera em Bakhmut e Avdiivka. De fato, a cúpula em Kiev apressou-se em fazer, no dia seguinte à autorização (19/11), um ataque de mísseis americanos na região de Bryansk, localizada a 110 km da fronteira ucraniana. Desse modo, mais uma linha vermelha traçada pelos russos foi violada. Antes, Putin alertara que não toleraria o uso de mísseis de longo alcance contra alvos no interior da Rússia. Alguns se perguntam seriamente: até onde irá a paciência do Kremlin?

Ora, nos primeiros anos da guerra, apostava-se que a chegada dos modernos tanques ocidentais significaria uma reviravolta em benefício dos ucranianos, o que simplesmente não aconteceu; em seguida, realizou-se, na primavera de 2023, uma contraofensiva contra as áreas tomadas pela Rússia, resultando num completo fracasso; depois, a mesma ilusão se repetiu com a compra dos caças F-16. Por fim, esperando dividir as tropas inimigas, os ucranianos invadiram, em agosto de 2024, a região fronteiriça de Kursk, algo que foi incapaz de se converter numa ameaça séria a Moscou. Por conseguinte, erguem-se vozes no Ocidente que pedem não apenas um cessar-fogo, mas também um fim definitivo à guerra.

Chegamos, então, à pergunta central desta reflexão: até onde isso irá? Caminhamos em direção à Terceira Guerra Mundial? Não há dúvidas de que a reposta para tal questão definirá alguns dos acontecimentos mais determinantes da geopolítica nos duros anos à nossa frente.

Ora, no noticiário internacional, é quase um consenso que as eleições americanas teriam um papel crucial no desenrolar da guerra entre russos e ucranianos. No entanto, mesmo com o seu desfecho já conhecido por todos, a incerteza persiste. Muitos veem o destino do mundo nas mãos do próximo ocupante da Casa Branca, o republicano Donald Trump, detentor do segundo maior arsenal nuclear do planeta. Afinal, o principal sustentáculo do regime de Zelensky, ao longo de toda guerra, foi a gestão de Joe Biden, tido por alguns como um dos piores líderes da história recente dos EUA. Não há dúvidas de que o retorno de Trump à presidência se deve, em parte, ao fracasso dos Democratas em dialogar com as classes trabalhadoras empobrecidas pela globalização e radicalizadas pela degradação da sua condição de vida no “país mais poderoso do mundo”, mas isso demandaria uma análise à parte. Em suma, Zelensky precisa do apoio dos falcões, mas, até agora, não há indícios de que o presidente eleito esteja disposto a patrocinar uma guerra iniciada na gestão do seu rival.

Contudo, o cenário geopolítico não para de ficar mais intricado. Ontem (01/12), em entrevista a um jornal brasileiro, Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin há mais de duas décadas, afirmou que a Rússia não pretende recorrer ao seu arsenal atômico, mas declarou que “a situação está mudando drasticamente”. Aliás, ele não crê que Trump possa, por conta própria, encerrar tal conflito em um telefonema. Ao contrário, o porta-voz recorreu ao polêmico termo deep state, para referir-se a uma espécie de estado subterrâneo que haveria nos centros de comando de Washington, que seria responsável pelos rumos da política externa desse país, sempre à revelia das intenções do presidente, seja ele democrata ou republicano, liberal ou conservador, imperialista ou pacifista. Peskov também afirmou não nutrir esperanças quanto às futuras relações do Kremlin com a Casa Branca, haja vista as 56 sanções que Trump utilizou contra a Rússia no seu primeiro mandato.

Por fim, no final da semana passada (30/11), Zelensky anunciou que poderia fazer concessões territoriais aos russos, desde que, em troca, recebesse proteção da OTAN, algo que, como se sabe, Moscou jamais aceitará. Putin preferiria esticar ao máximo sua “operação militar especial”, correndo o risco de perder mais capitais, soldados e estabilidade interna, do que permitir o controle da Ucrânia pela aliança militar do Ocidente. Na visão de quem mora na Praça Vermelha, Kiev não pode se separar ou afrontar os desígnios impostos por Moscou, de modo que, caso seja preciso, todas as opções podem ser consideradas, incluindo as mais pérfidas e abomináveis. Portanto, nessa carnificina entre povos irmãos, se há uma certeza, ela poderia se resumir em uma frase: triunfará quem suportar por mais tempo o sofrimento necessário para dobrar o joelho do adversário.

 

Daniel Viana de Sousa

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sábado, 5 de outubro de 2024

Por que votar em Júnior Pires

              

            Nos tempos presentes, chegamos a mais uma encruzilhada, mais um momento em que o destino coletivo de nossa cidade será modelado por nossas escolhas amanhã, seis de outubro, dia de eleição municipal. Neste domingo, cada eleitor deverá escolher qual caminho a capital da Paraíba percorrerá nos próximos quatro anos. Seguiremos com o progresso ou deixaremos de lado as inovações da gestão de Cícero Lucena (PP)? Manteremos os mesmos ocupantes da Câmara Municipal, a casa do povo pessoense, ou abriremos espaço para novos atores políticos?

          Ora, nunca antes foi tão necessária uma renovação da política legislativa. Estou convencido de que precisamos de uma repactuação que possa dar continuidade às conquistas alcançadas nos últimos quatro anos, assim como trazer a juventude organizada para a política, com uma linguagem mais próxima da sua realidade e dos seus anseios humanos. Novos tempos demandam novas ideias e novos personagens. Isso só poderá se concretizar, em primeiro lugar, com a renovação dos ocupantes da Câmara Municipal de João Pessoa.

         Dar um voto a Júnior Pires, significa apostar num futuro melhor para a capital que mais cresce no Nordeste, uma cidade que vem chamando a atenção de todo o Brasil por suas belezas naturais, dinamismo econômico, qualidade de vida, estabilidade, segurança e assim por diante. Devemos confiar que os melhores dias de Jampa estão batendo à porta, pedindo para entrar. Ainda que o cotidiano nos desafie com obstáculos, aparentemente, intransponíveis, nossa querida cidade vive, graças à gestão de Cícero e João Azevedo (PSB), uma grande transformação, tornando-se, cada vez mais, um modelo para o restante do país. Com efeito, não será surpreendente se Cícero ganhar esta eleição no 1º turno das votações.

        Acompanhando esse processo de transformações, uma nova geração de figuras públicas tem se sobressaído. Pouco a pouco, novos rostos têm vindo à tona, trazendo consigo novas mentalidades, novas maneiras de se conectar com as pessoas, independentemente de sua origem, crença ou posição social. Dentre estes jovens, destaco a atuação do advogado Júnior Pires (PSB), homem de família e trabalhador que soube fazer seu caminho na gestão do Procon-JP.

       Júnior não precisa recorrer às mentiras e outros ataques que certos candidatos, rotineiramente, fazem, tentando amealhar para si meia dúzia de votos, proferindo barbaridades em frente às câmeras. Tal tática — se fosse posta em prática na nossa cidade — só poderia nos conduzir a uma grave dissensão social, uma conflagração com seríssimas consequências para as classes mais vulneráveis, sempre vítimas das arbitrariedades perpetradas pelos amantes do poder. Basta! Política não é playground, tampouco cenário para atuação de coachs e outros arrivistas.

        Júnior Pires é, de fato, alguém que traz novos ares à política de João Pessoa. E, mesmo sendo jovem, ele não carece de experiência na máquina pública. Sua gestão à frente do Procon-JP rendeu-lhe destaque na vida política da cidade e elogios por parte dos contribuintes. Projetos sociais como o “Proncon-JP vai às aulas” marcaram a vida de muitas famílias de baixa renda, auxiliando aqueles que mais necessitam do poder público para, enfim, darem uma reviravolta em suas vidas. Afinal, a função do Estado é estar do lado de quem mais precisa. Assim, graças à competência e seriedade de Júnior — e da equipe que o cerca —, os eleitores seguramente irão elegê-lo para a Câmara Municipal de João Pessoa.

       Júnior não é um defensor da intolerância, um disseminador do medo ou do ódio. Pelo contrário, sua biografia é, desde os tempos em que militara no movimento estudantil, há mais de dez anos atrás, uma prova do seu compromisso com as pautas progressistas, bem como com os setores mais carentes da nossa sociedade. Hoje, Júnior anda de cabeça erguida tanto nos condomínios de luxo quanto nas comunidades periféricas de João Pessoa. Ninguém lhe fecha a porta na cara. Ninguém se recusa a abrir um diálogo franco e pessoal com ele, pois os pessoenses sabem de sua firmeza e retidão de caráter, de tal maneira que, vencendo nas urnas amanhã, sua caminhada estará apenas no começo, e não no fim.


Daniel Viana de Sousa

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