sábado, 27 de abril de 2024

Egos frágeis se queimam rápido


Nas últimas semanas, a crise política e militar no Oriente Médio adquiriu proporções alarmantes. Há quem afirme que, se nada for feito através dos meios diplomáticos diretos e indiretos, teremos uma conflagração entre Irã e Israel, algo que, a depender de sua extensão e gravidade, agravará ainda mais o desmoronamento da ordem mundial do pós-guerra, mudando para sempre a geopolítica do século em que vivemos.

O acirramento do conflito histórico entre israelenses e iranianos — sem contar, é claro, a matança em Gaza — entrou não somente em nosso repertório cotidiano, mas também no nosso espírito e até na nossa própria psique. Graças aos smartphones, nunca foi tão simples ter contato imediato com cenas de horror absoluto: seres desmembrados, escombros de uma vila, famílias soterradas, crianças às portas da morte… Imagens, palavras e sons que, se vistas ou ouvidas pela primeira vez, fazem o inferno se assemelhar a um parque de diversões. Logo, é natural que milhões de usuários tomem a iniciativa de falar o que pensam sobre algo tão incessante e perturbador.

Na realidade, em tempos de conexão acessível, quase todos se sentem aptos a dar sua “análise” acerca dos temas mais polêmicos. Para esses militantes aguerridos e inflamados, não basta absorver informação: é necessário vir a público para expor o que crê ser certo e justo; pois, caso não o faça, terminará perdendo a oportunidade de tornar o mundo em que vivemos “um lugar melhor”. Para eles, o ativismo virtual é um meio de deixar sua marca e de se apresentar no palco como um protagonista da própria história, isto é, adquirir notoriedade. Eles teriam rompido a venda que cobria seus olhos e, portanto, estariam obrigados a libertar o restante da espécie humana, vítima de uma manipulação em escala planetária, como num gesto de gratidão a um deus libertador ou a uma ideologia messiânica. De certa forma, isso lhes proporciona tesão pela vida, uma preciosa chama interior, haja vista a sensação insuportável que cerca a existência medíocre e frustrante da maioria das pessoas. Creio que seria injusto negar-lhes o pouco prazer que ainda sentem por estarem vivos.

Ora, tamanho fervor missionário revela não apenas o conteúdo raso da maior parte das pessoas, mas também os preconceitos de um proselitismo sem eira nem beira, desprovido de estudo, reflexão e, principalmente, autonomia crítica, isto é, tentar pensar com a própria cabeça. Se, em épocas passadas, as baboseiras do sujeito ordinário morriam na poltrona de casa ou na mesa de um bar, agora vemos elas alçarem status de análise crítica para uma parcela cada vez maior da opinião pública. Nesse mundo em que vivemos, qualquer falcatrua circense pode apresentar-se como “ciência” ou “veracidade”.

Neste blog, eu me arrisco até onde meu tempo me permite e até onde meu saber alcança. Afinal de contas, é absolutamente normal que surja alguém com uma visão mais acurada, uma sensibilidade que ainda nos falta florescer, uma compreensão que merece destacar-se na vastidão torrencial do universo virtual — quem se dispõe a dar a cara a tapa precisa aprender a lidar com isso; egos frágeis se queimam rápido como palha seca. Pare e tente imaginar, por exemplo, as centenas de milhões de usuários comentando, incessantemente, a guerra entre Rússia e Ucrânia, o massacre em Gaza, os mísseis lançados pelo Irã contra Israel… Pense nas filmagens que circulam em diversas línguas que mal sabemos pronunciar neste lado obscuro do Atlântico.

É ingênuo crer que estamos a par de tudo que acontecesse mundo afora, porque a maior parte do que nos chega é averiguado e repassado por agências de notícias internacionais ocidentais, as quais, certamente, têm seus interesses em primeiro lugar. Na realidade, mesmo com o advento de algumas iniciativas de jornalismo independente, temos pouquíssimos correspondentes internacionais com alguma autonomia, relevância e audiência de massas. Além disso, somos brutalmente influenciados pela perspectiva estadunidense dos fatos que afetam as relações interestatais, de tal maneira que a cobertura internacional das empresas de comunicação brasileiras é irrisória e colonizada.

É bom lembrar que a nossa querida Língua Portuguesa é uma selvagem flor às margens do mundo, não só no que concerne às mídias de papel, mas também às comunicações digitais. Embora sejamos um povo profundamente viciado em redes sociais, mantendo-se conectado à internet mais tempo que os japoneses, quase tudo que produzimos ainda é solenemente ignorado pelo resto do Ocidente, enquanto que os mangas e animes fazem sucesso mundo afora. Mesmo em países onde os cidadãos comuns são refratários a qualquer conteúdo estrangeiro, como os Estados Unidos, a cultura nipônica deixa sua marca no comportamento da juventude, na culinária, no vestuário, nas artes visuais… É impressionante ver a quantidade de jovens e adultos que ainda se vestem como personagens de animes japoneses em todo mundo! Para esses rapazes e moças, pouco importa a “estranheza” de um idioma asiático, geralmente visto como exótico e complicado. Na realidade, conheço muitos que se dispuseram, por puro encantamento, aprender essa língua, mergulhando na cultura desse povo tão distante e misterioso, mesmo que isso não lhes trouxesse nenhum benefício prático. Portanto, falar que, por conta de seu imperialismo, somente a cultura estadunidense seria capaz de moldar o imaginário do sujeito contemporâneo, é, no mínimo, impreciso. Por pior que seja admiti-lo, o fato é que outras nações sabem fazê-lo sem mísseis, espionagem ou golpes de estado. Aqui, termino esta breve digressão.

De fato, a maior parte do que é lançado na internet, dos memes até a produção científica mais avançada, está em inglês, ou seja, quem não sabe ao menos ler esse idioma está automaticamente defasado em relação aos seus pares bilíngues. Para os profissionais que lidam com ciência de ponta e comunicação, esperar que se traduza tudo para o português é equivalente a um suicídio intelectual. Infelizmente, a despeito da beleza da nossa língua, ela está num universo à parte da sua parentela ocidental. Eu diria que, hoje, para o “cidadão do mundo”, aprender os rudimentos do inglês é quase tão imprescindível quanto a sua língua nativa, e isso se manterá inalterado pelas próximas décadas. Não esperem que o mandarim consiga ameaçar o protagonismo do inglês a nível global, ainda que o povo chinês consiga a proeza de se tornar a maior economia do mundo nesta década.

Esse atraso nacional — consequência direta da nossa condição periférica — está diretamente relacionado ao tema deste ensaio.

Em geral, quando se trata de algum tema espinhoso, evito escrever e tornar público os meus textos no instante em que os fatos se desenrolam. Meus desafetos podem me acusar de ter medo ou qualquer coisa do gênero, porém o fato é que nunca foi tão complexo e arriscado compreender em profundidade e comentar com segurança a respeito dos fatos que incendeiam as discussões hoje em dia. Carecemos de bons intérpretes e de fontes fidedignas; enquanto que surgem, por toda parte, pessoas sinceramente dispostas a manipular a opinião pública ao seu bel-prazer, visando o trágico triunfo de sua agenda política, em detrimento de uma ínfima coerência pessoal.

Ser cético tem sido cada vez mais necessário, especialmente, se você não se acomoda a uma manada tangida pelas forças dominantes do capital e do establishment. Fuja das formulações rasteiras, das respostas rápidas e reducionistas, pois não há quase nada em nosso mundo que possa ser explicado em um tweet. Fazer generalizações às pressas, tendo por base um achismo pretenso e vulgar, não é o mesmo que fazer ciência ou jornalismo; trata-se, na verdade, de um charlatanismo espetaculoso e sensacionalista, mais ansioso em capturar a atenção da audiência do que em fazer conteúdo de qualidade. Não se permita cair nessa armadilha. Para esses monopólios, você não passa de uma carcaça à espera de ser vampirizada.

Aliado a isso, há uma pressa patológica, no sujeito contemporâneo, em estar constantemente informado acerca de todos os temas em discussão. Violência urbana, escândalos da nossa politicagem, entretenimento imbecilizante, a rotina das celebridades… Seria muita generosidade classificar esse tipo de conteúdo como “distração” ou “divertimento”. Sua utilidade pública é comparável à risada de um defunto. Assim, levando em conta que esse comportamento assumiu uma escala planetária, só poderíamos estar envoltos numa baderna generalizada. O fenômeno das fake news é um exemplo disso.

Creio que um dos fatos mais emblemáticos seja o bombardeio ao hospital Al-Ahli, ocorrido em outubro do ano passado, na Faixa de Gaza. No momento em que as informações nos chegaram, os primeiros a serem acusados, é claro, foram as forças armadas israelenses; o invasor sempre ocupou o papel de vilão na história das guerras, a despeito de Israel ter sofrido um gravíssimo ataque terrorista poucas semanas antes. Os apoiadores da criação de um estado palestino, bem como o Hamas e a Jihad Islâmica, inflaram seus pulmões, pondo o dedo em riste na cara dos invasores sionistas. Contudo, passadas algumas horas, Israel acusou a Jihad Islâmica de ter atingido o dito hospital acidentalmente. Análises feitas por serviços de inteligência e órgãos estrangeiros concluíram que o míssil teria saído de dentro do próprio território palestino. Cada lado angariou seus partidários mais devotos, ao mesmo tempo em que os mais sensatos se puseram em alerta. Resta-nos as seguintes perguntas: quem detém a verdade? Devo confiar nas maquinações dos sionistas ou nos ardis de fanáticos e terroristas? Afinal, como alguém na minha posição saberia a verdade? Ah, é sempre confortável transferir aos outros a responsabilidade sobre o que acreditamos e defendemos.

Hoje, posso dizer com segurança que há temas que eu jamais opinarei, pois tenho ciência da minha limitação em oferecer algo mais relevante do que aquilo que fora dito por autoridades competentes. Por que eu precisaria, por exemplo, argumentar algo a respeito da condenação de Lula, se sei pouquíssimo sobre Direito? Deixo essa tarefa miserável aos juristas, especialistas com farta formação acadêmica, e tomo as minhas conclusões em particular. Isto não é só uma escolha sensata: ela é o certo a ser feito. Não tenho o menor interesse em conhecer as leis e aplicá-las de maneira justa, que o faça, então, os profissionais preparados para tanto. Negar ao especialista seu destaque, é o mesmo que cuspir em todo sistema de ensino, privilegiando o improviso e o amadorismo de quem nunca se esforçou em aprender coisa alguma. Qual o sentido em dar as costas aos intelectuais? Só uma sociedade composta por tolos e farsantes agiria dessa forma. Ouçamos, primeiramente, os que estudaram noites a fio, e não o amador arrivista. Fazendo isso, colocaremos em xeque a relevância das redes sociais para o debate público.

Por outro lado, eu não poderia negar a existência de mal-intencionados no meio acadêmico e científico. É fato que todo cesto tem suas maças podres. Ainda assim, o estrago causado pela ignorância das massas parece ser muito maior do que a de um único cientista desprovido de caráter. Dentre os seus muitos estragos, o louvor à estupidez desmotiva as crianças e jovens a buscarem o aprendizado necessário, único caminho viável para concluir sua integração à sociedade moderna. Os semianalfabetos encontrarão, caso tenham sorte, um trabalho mal remunerado, perigoso e subvalorizado, tirando dele quase nada para sobreviverem com dignidade, e não há, no horizonte próximo, nada que indique uma mudança nesse fracasso coletivo do povo brasileiro. Sim, por maiores que tenham sido os esforços de grupos organizados e de indivíduos abnegados, fracassamos, mais uma vez, em preparar nossas crianças e jovens para o novo mundo que emerge diante de nós. Portanto, não deveríamos nos surpreender que a escola seja alvo de tamanho desprezo pelo poder público e parte da nossa sociedade. Pois, como Darcy Ribeiro nos ensinou, a crise da educação no Brasil é, antes de tudo, um projeto.

Se eu pudesse resumir os últimos parágrafos em algumas linhas, eu diria que, se queremos compreender a realidade que nos rodeia, alcançando uma liberdade genuína, é preciso, antes de mais nada, sair da zona de conforto e sempre desconfiar daqueles que posam como detentores da única interpretação possível da nossa era. Os extremismos se nutrem daqueles que puseram de lado qualquer senso crítico. Não se habitue ao comodismo, pois ele lhe cobrará um preço mais adiante.

  

Daniel Viana de Sousa

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domingo, 31 de março de 2024

30 músicas que fizeram minha cabeça

         

      Algumas pessoas podem tomar como pedante o que vou dizer, entretanto, quando o assunto é música, sempre fui tomado por um pendor severo, digno de debates inflamados por sentimentos, absolutamente, inegociáveis. Afinal, todo homem é feito, em boa medida, daquilo que ouviu ao longo de sua vida. Ignorar a potência da música em nossa aventura humana, é típico de quem ainda não compreendeu muito bem como a vida funciona.

    Primeiramente, devo deixar claro o fato de não ter um gênero, grupo ou música favorita — aliás, como alguém que se dispõe a ouvir de tudo, acho essa pergunta meio esquisita. Se não somos sempre os mesmos, como haveríamos de ter algo que nos cativasse, do mesmo modo e na mesma intensidade, ao longo de uma vida inteira? Há músicas e bandas próprias da nossa infância, da nossa juventude e, por fim, da nossa maturidade. Dificilmente eu gostaria, por exemplo, de John Coltrane ou Miles Davis na minha infância, e não há nada de errado nisso.

   Suspeito que haja críticos da minha preferência por músicas e grupos estrangeiros que nacionais. O fato é que, até hoje, o som dos artistas do Reino Unido e dos EUA me impactou mais que a produção das nossas bandas. Se isso não se refletisse na minha listinha, estaria sendo falso comigo mesmo. Desde que tenho alguma lembrança da minha infância, quando meus irmãos colocavam Stairway to Heaven ou Brain Damage pra tocar, carrego no fundo da alma a vibração estimulante dos roqueiros de língua inglesa — de modo especial aqueles que tocaram nos anos 1960 e 1970. E como foi bom passar por isso!

   Por outro lado, quando se trata de analisar nossa cultura musical, jamais acreditei que fossemos dependentes ou inferiores aos demais países. Pelo contrário, o músico brasileiro é genial à sua maneira; sua contribuição para o repertório mundial é originalmente intensa, inovadora e indiscutível. Na realidade, é comum que os estrangeiros admirem mais a nossa música que os próprios nativos deste país. Ao mesmo tempo, o artista nacional é tido por muitos como um vagabundo a ser evitado, um desocupado que leva sua vida à toa. Que lamentável! Como reverter esse quadro? Não há dúvidas que nos falta levar no braço uma dose de autoestima, mas ainda há quem tema quaisquer vacinas.

    No mundo ideal, deveríamos ser cosmopolitas que ouvem de tudo, experimentam de tudo, saboreiam de tudo, no entanto, consegui-lo é dificílimo, quase uma missão irrealista que a maioria nem se dá ao trabalho de fazer. Eles se deixam levar pela maré do consumismo, da superficialidade e da indiferença, abrindo mão de uma busca pelo novo e transformador. Essa é, sem dúvidas, a horda da mediocridade, do comodismo, que sempre procurei evitar — qual a graça de se viver sem um apelo por novas descobertas? No final das contas, somos forçados a fazer uma escolha. Eu optei pelo rock e nunca me arrependerei disso.

Eis então a lista:

           

1.    Stairway to Heaven, Led Zeppelin;

2.    Voodoo Child/ Slight Return, Jimi Hendrix;

3.    Little Wing, Jimi Hendrix;

4.    What’s Going On, Marvin Gaye;

5.    Chain Gang, Sam Cooke;

6.    Stand!, Sly and the Family Stone;

7.    Like a Rolling Stone, Bod Dylan;

8.    Strawberry Fields Forever, The Beatles;

9.    Here Comes the Sun, The Beatles;

10. On Earth as it is in Heaven, Ennio Morricone;

11. Brain Damage, Pink Floyd;

12. Karma Police, Radiohead;

13. Gimme Shelter, The Rolling Stones;

14. Could you be loved, Bob Marley;

15. Arabesque nº 1, Claude Debussy;

16. Suíte para violoncelo nº 1, Johann S. Bach;

17. Concerto para violino em ré maior, op.61, Beethoven;

18. Estudo op. 25 nº 1, Aeolian Harp, Frédéric Chopin;

19. Piano Concerto nº 2, Dmitri Shostakovitch;

20. Samba da Benção, Baden Powell, M. Peixoto, Vinicius de Moraes;

21. Bem que se quis, Nelson Motta / Pinto Daniele;

22. Medo de Avião, Belchior;

23. Corcovado, Tom Jobim;

24. Ligia, João Gilberto;

25. XTAL, Aphex Twin;

26. Paisagem da Janela, Lô Borges;

27. Caçador de mim, Milton Nascimento;

28. Canção da América, Fernando Brant;

29. My Favorite Things, John Coltrane;

30. So What, Miles Davis.


 

Daniel Viana de Sousa

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quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

30 filmes que me marcaram

 

    Nesse ano, farei algumas postagens ao meu respeito, para que, assim, o leitor deste blog tenha uma noção acerca de quem anda escrevendo — há quase cinco anos — por aqui.

Aliás, mesmo com o noticiário fervendo com guerras, escândalos e epidemias, tenho evitado expressar minha opinião, pela simples razão de saber o quão pouco eu realmente sei dos destaques que povoam os portais jornalísticos. Opinar com pretensão e soberba é mais fácil que se debruçar sobre os processos em curso na atualidade. Em suma, prefiro evitar dar um passo maior que a perna.

     Uma forma didática de me fazer compreensível é criando listas, como aquelas em que apresento os livros lidos ao longo do ano. Dessa forma, apresento quais foram as minhas prioridades de estudo no decorrer dos últimos doze meses, o que, como disse em outras oportunidades, nem sempre me deixa muito satisfeito. Caso você não as tenha lido, recomendo que dê uma pesquisada no histórico disponível neste site.

Agora, apresentarei os filmes que contribuíram para que eu fosse quem sou hoje. Não nego que muitas obras-primas da sétima arte tenham ficado de fora, especialmente as do cinema brasileiro e latino-americano, que conheço tão pouco. Afinal, a despeito de ser movido por uma curiosidade insaciável, eu não me considero um cinéfilo. Em outras palavras, ver filmes não é uma prioridade no meu dia a dia, seja para estudo, seja para lazer.

     É possível que o leitor desmereça um filme ou outro desta lista, seja por razões artísticas ou pessoais. A verdade é que quase nenhum filme, peça ou livro é aclamado de forma unânime. Ao contrário, o usual é que as obras artísticas causem desavenças, rupturas e palavrões. Entretanto, eu reafirmo que esta é a minha lista, logo, ela não deve desculpas e explicações a ninguém.

 

1.    O Senhor dos Anéis, Peter Jackson;

2.    Star Wars, George Lucas;

3.    Eles se atreveram, Contraimagem;

4.    O Auto da Compadecida, Guel Arraes;

5.    Aquarius, Kleber Mendonça Filho;

6.    Coração Valente, Mel Gibson;

7.    A Paixão de Cristo, Mel Gibson;

8.    O Gladiador, Ridley Scott;

9.    Amadeus, Miloš Forman;

10. Le Grand Bleu, Luc Besson;

11. Batman: O cavaleiro das trevas, Christopher Nolan;

12. The Song Remains the Same, Clifton e Massot;

13. O Sal da Terra, W. Wenders e Juliano Salgado;

14. O Dia Que Durou 21 Anos, Camilo Galli Tavares;

15. George Harrison: Living in the Material World, Martin Scorsese;

16. Nós que aqui estamos por vós esperamos, Marcelo Masagão;

17. Casablanca, Michael Curtiz;

18. Agonia e Êxtase, Carol Reed;

19. Os Intocáveis, Brian De Palma;

20. O Buda, David Grubin;

21. Senna, Asif Kapadia;

22. O exorcista, William Friedkin;

23. A Missão, Roland Joffé;

24. O último samurai, Edward Zwick;

25. Matrix, Irmãs Wachowski;

26. Ocean Heaven, Xue Xiaolu;

27. Nausicaa, Hayao Miyazaki;

28. O castelo animado, Hayao Miyazaki;

29. A chegada, Denis Villeneuve;

30. A trama fantasma, Paul T. Anderson.

 

Daniel Viana de Sousa

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quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Livros lidos em 2023

 


         Quando mais um ano se encerra, algo nosso acaba deixado para trás; são dezenas e dezenas de alvoradas e noitadas que acabam pela estrada do rotineiro, do nosso mundinho habitual, que construímos, seja por vontade própria, seja às cegas, até chegarmos aqui e nos dispormos a dar uma olhada rápida para a estrada que se encerra. Afinal, de uma forma ou de outra, essa estrada se esgotará. Nada em nosso mundo foi feito para ser eterno, a menos que você confie na existência de Deus.

Neste texto, apresentarei alguns encontros, ansiosamente, aguardados desde o início de 2023, bem como aquelas surpresas que nos dão um sabor diferenciado para cada dia que experimentamos viver de verdade — aqueles lapsos de deslumbramento em meio à vida repetitiva e sem graça do ser humano contemporâneo. Afinal, somos todos marcados pela incógnita do evento inesperado, por aquilo que nos alcança de súbito e que mal sabemos explicar direito o seu porquê em nossas jornadas. Sem dúvidas, alguns dos melhores encontros literários que tive me pegaram de surpresa, como um espectro que ronda a margem dos canais fétidos, coberto de um negrume impenetrável e apavorante.

Em geral, quando um ano se inicia, eu não planejo os livros que tentarei ler. Ao contrário, busco, ao máximo, ser guiado pelo instinto pessoal, pela bússola da minha própria alma. Sei bem que toda essa subjetividade é, no que diz respeito à minha formação, uma escolha problemática. Pois, um ficcionista deve ler ficção até onde sua obstinação puder leva-lo, até onde as pestanas forem capazes de se manterem de pé, e, tendo em vista que o nosso tempo é limitado, passar os dias lendo dezenas de ensaios marxista-leninistas é contraproducente. Em suma, há muita Literatura à espera da nossa atenção, muitos autores e autoras de elevadíssimo calibre que nos exigem um estudo atento e demorado.

De fato, sei que li menos que o minimamente necessário. Logo, devo reconhecer que, nesse momento, encontro-me numa posição de momentânea derrota, tendo em vista que, há alguns anos, eu me apresento como artista das letras, alguém que a posteriori se confirmará como autor de inovações — reconhecidas ou não —no campo da escrita ficcional em Língua Portuguesa. Pois, para se concretizar um êxito dessa envergadura, há que se esforçar com disposição hercúlea ao longo de dezenas de anos, com a diligência de um Sísifo dos trópicos, sem temer contemplar a pedra despencar ladeira abaixo mais uma vez.

Enfim, cinquenta livros lidos por ano — tendo em vista tudo que ficará de fora — é uma meta razoável para quem se dedica profissionalmente à Literatura. Aliás, para um ficcionista, ler cinquenta livros de ficção é ótimo, mas ele também deve investigar outros materiais que enriqueçam seu estilo e cosmovisão, como biografias, teoria literária e história, o que complica sua rotina ainda mais. Somos limitados por inúmeras obrigações e defeitos, como a falta de atenção necessária para concluir a leitura de um calhamaço mastodôntico, que, curiosamente, sempre nos deixam uma saudade danada. Por fim, alguns dizem que não é a quantidade de livros lidos que realmente importa, mas a qualidade daquilo que se lê e de como se lê. Mas não entrarei nessa discussão agora.

Não duvido que a falta de sistematização na leitura tenha consequências negativas para a formação do aspirante à ficcionista. Entretanto, até hoje, eu pude ser abrangente sem me perder por completo nas brumas dessa vida solitária. E olhe que nunca foi tão fácil se desorientar no mar tempestuoso da internet, agitado dia e noite por futilidades e esquisitices, absolutamente, dispensáveis e esquecíveis. Hoje, somos todos convidados a desperdiçar nosso tempo com as mais estultas banalidades concebíveis, e nunca foi tão árduo desenvolver a atenção plena naquilo que se está a fazer. Ainda assim, ao concluir uma leitura, tenho me permitido sair um pouco pra fora da curva nas escolhas dos livros. Como disse antes, um escritor precisa abrir asas o máximo que puder.

Pois, todo escritor precisa manter viva sua curiosidade: uma espécie de voracidade pelo que ainda não lhe veio, como se, dessa novidade, brotasse o poder de abrir portas inatingíveis por outros meios, isto é, uma compreensão maior daquilo que antes era entendido por uma perspectiva estreita, típica de um principiante nos meandros literários. Com efeito, ao nos dispormos a receber a vida em sua totalidade, terminaremos atingidos por todos os lados, por todos os ângulos e particularidades visíveis e invisíveis, até acabarmos nos tornando o que somos hoje, de tal maneira que construímo-nos a partir do que lemos, ouvimos e saboreamos. A princípio, podemos duvidá-lo, mas o tempo e a vivência do cotidiano se encarregará de nos mostrar o indisfarçável peso das nossas escolhas literárias. Em certos casos, a própria escolha de não ler absolutamente nada, trará à tona, da pior maneira possível, os resultados dessa infeliz decisão.

Eis, então, a lista dos livros lidos por mim em 2023:

 

1.      Crônicas Escolhidas, Machado de Assis (Penguim-Companhia);

2.      Van Gogh - A vida, Steven Naifeh e Gregory White Smith (Companhia das Letras);

3.      As flores das flores do mal, Guilherme de Almeida e Charles Baudelaire (Editora 34);

4.      A tradução como manipulação, Cyril Aslanov (Perspectiva);

5.      A personagem de ficção, Antônio Candido, Anatol Rosenfeld, Décio de Almeida Prado, Paulo Emílio Salles Gomes (Perspectiva);

6.      O pássaro secreto, Marilia Arnaud (Editora José Olympio);

7.      Cândido, Voltaire (Antofágica);

8.      Novo mundo nos trópicos, Gilberto Freyre (2ª Edição - Universidade);

9.      Guia do estilo de vida do Boddhisatva, Shantideva (Tharpa);

10.  Tesouros do Pico do Junípero – Padmasambhava (Lúcida Letra);

11.  Formação social da mente, L. S. Vygotsky (Martins Fontes);

12.  A segunda Guerra Fria, Moniz Bandeira (Civilização brasileira);

13.  As últimas testemunhas, Svetlana Aleksiévitch (Companhia das Letras);

14.  Vozes de Chernobyl, Svetlana Aleksiévitch (Companhia das Letras);

 

 

Daniel Viana de Sousa

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sábado, 30 de dezembro de 2023

Antes de mais nada, sou um humanista


            As mais severas dúvidas acompanham a vida das mentes atordoadas e lúcidas, dos seres sublimes e triviais, das almas de inefável candura, assim com aquelas, terrivelmente, pérfidas e imorais; por mais que os homens se arvorem em convicções e teses dogmáticas, não lhes será permitido o repouso eterno no berço das certezas banais.

Pois, de tempos em tempos, somos invariavelmente expostos ao próprio fracasso, atingidos pela mais profunda frustração. Percebemos que a nossa visão alcança somente uma parte do caminho a ser percorrido, de modo que, para ir além, precisamos deixar de lado muito do que nos guiou e redescobrir um novo caminhar para a jornada que surge à nossa frente. Refazer-se por completo; recriar-se por inteiro. É isso que nos exige a existência.

Quanto maior for sua resistência perante os processos de transformação, maior será o sofrimento em dar à luz uma nova criatura. A rigidez daquele que nega as demandas de um renascimento nesta vida, acaba por se tornar a causa de um sofrimento sem-fim e a fonte de um seríssimo entrave pessoal. É duro reconhecer a urgência da mudança, porém ignora-la nos envenena, nos aprisiona e nos atormenta profundamente. Assim, é absolutamente normal que muitas lágrimas venham a escorrer pela nossa face nos dias vindouros, aceitemos isso ou não.

Porém, há algo que sobrevive às crises e passagens, aos traumas e desenganos. Nisso está aquilo que nos é mais íntimo, sincero e precioso, e que devemos buscar, a fim de realizarmos o que, de fato, somos. Sem essa realização, sentiremos que a nossa vida — tão rara e passageira — foi em vão, que fomos derrotados pela própria displicência. Para tanto, resta-nos enfrentar o medo de agir. Certamente, a insegurança nos assombrará de inúmeras formas, tal como ocorrera com todas as gerações passadas, pois ela é nossa companheira, nossa fiel acompanhante ao longo de toda a estrada. Senti-la, nos fará mais humanos e menos arrogantes.

Ora, eu sempre soube que devia me debruçar sobre o papel com caneta à mão, tornar-me um escritor de ficção, um criador de universos, um inventor de personagens. Ao mesmo tempo, assumir uma profissão que fosse meu ganha-pão, foi um percurso solitário, árduo e, às vezes, angustiante. Nunca me vi trabalhando em alguma carreira tradicional, isto é, advogado, médico, engenheiro etc., de modo que levei anos para chegar a algum lugar, mas, me ver como um artista das letras, foi constitutivo desta existência que carrego. Houve vezes em que larguei de escrever, é verdade, mas sempre dei meia-volta, pus de lado o que me atrapalhava, e voltei a dar à luz uma literatura própria. Disso, eu nunca me arrependi.

Agora, compreendo que sou um humanista não apenas pelo completo e precoce desinteresse pelas chamadas ciências exatas, mas também por uma atração íntima pela subjetividade humana, por aquilo que emerge do seu interior nas formas mais variadas de explosão feérica e de criatividade pulsante. A despeito de quaisquer dúvidas, esta certeza sobreviveu às mais intensas mudanças da minha história pessoal. Ainda que a minha compreensão do que seria a Literatura — e do que seria eu mesmo enquanto escritor — mudasse com o passar do tempo, algo se mantinha vivo em mim. É possível que fosse uma missão individualista, ou uma ambição de se destacar em meio à multidão anônima, mas, ainda assim, havia algo a mais. É graças a essa força, que ainda não sei nomear, que eu pude chegar até aqui: escrevendo e publicando textos neste oceano chamado de internet.

            Não sei a quem devo esse gosto pelas Humanidades. Ao ambiente familiar, devo muito do que sou, mas as raízes não dão conta de explicar nem parte dessa história. Tenho parentes que não compartilham das mesmas preferências, a despeito de termos tido uma infância inteira juntos, com tristezas e alegrias tão próximas. Nós podemos debater e apreciar certos artistas e suas obras, contudo, em algum momento, cada um escolherá seu caminho, posicionando-se à parte, longe dos demais. A família é a origem, mas sua influência se desvanece à medida que os anos passam. Podemos retornar a ela em certos momentos, porém os avós morrem, em seguida, os pais e os tios e, depois, os irmãos mais velhos, até que nos resta nada além de nós mesmos e as memórias que sustentamos conosco. Ao final, teremos de andar com as nossas pernas e descobrir a nossa voz, tal qual o fizemos na primeira infância, porém sem nenhuma garantia de gracejos e aplausos.

Reconheço que, falar de si mesmo, denota em mim um certo grau de soberba. Além disso, há que se registrar que ninguém anda lendo este blog, o que, às vezes, me dá algum alívio. Pois, quero que a porta ao meu mundo interior mantenha-se fechada às almas fúteis; quero que nada chegue àqueles olhares adestrados pelo apelo convencional; quero que se danem às valas do inferno os amantes das mesmices, das conversas permeadas por mediocridade; quero me livrar de tudo que carrega consigo o comodismo frívolo do olhar alheio.

Assim, tenho feito textos sem a preocupação de divulga-los, pois os vejo como ensaios de algo maior e melhor, algo que, talvez, comece a dar as caras no ano que se aproxima. No entanto, não posso assegurar nada, haja vista os fracassos em dar fim a projetos anteriores: romances abandonados; histórias inconclusas; contos atrofiados; ensaios de meia linha.

Falta-me, sobretudo, disciplina, mas sei que me aproximo, um dia após o outro, de algo novo, algo mais próximo de um ideal de beleza que ainda não sei explicar numa linguagem corriqueira, e nem me preocupo se um dia saberei explicar, pois o meu objetivo é confundir a cabeça, deixa-la desnorteada, ao invés de te vender a ideia de que sei de alguma coisa nessa terra louca que não para de rodar, rodar e rodar…

 

 

 

Daniel Viana de Sousa

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